AHERDEIRA
MARION ZIMMER BRADLEY

A HERDEIRA

Traduo de RUTE ROSA DA SILVA

DIFEL


Difuso Editorial, S. A.

PRLOGO

Pequenos farrapos de nevoeiro rodopiavam na rua; as nuvens pareciam pousadas no cume dos Twin Peaks e a torre gigantesca da Televiso emergindo, qual Orion, do nevoeiro que lhe dava pelos joelhos, dominava as colinas de So Francisco.

Gavinhas perdidas invadiam o jardim, rodeando o pequeno relvado de ervas eriadas verdes e cinzentas. Um limoeiro, com as folhas brancas e os frutos amarelos aninhados lado a lado sobre as folhas verdes e brilhantes, erguia-se contra o muro, e os aromas doces e medicinais das flores e das ervas entravam, misturados, pela janela aberta sobre o nevoeiro.

Mesmo no interior, os farrapos de nevoeiro flutuavam de encontro s paredes forradas do estdio. A mulher, ajoelhada perto da roda de oleiro junto  lareira, ergueu os olhos para o nevoeiro ondulante e cerrou os dentes, combatendo o pnico. As ltimas semanas tinham-lhe arrasado os nervos, mas no era cobarde e no estava pronta para desistir. Adorava a casa. Adorava o jardim e o estdio forrado de painis de madeira.

Parecia-lhe estar a viver um filme de Basil Rathbone, com os candeeiros a gs brilhando no nevoeiro londrino, denso como sopa. Sherlock Holmes de p junto  lareira. O nevoeiro fazia parte da vida de So Francisco, surgindo por baixo da Golden Gate? ao fim da tarde e retirando-se novamente para o mar a meio da manh.

Concentrou-se na pea de cermica que tomava forma na roda de oleiro. Era um prato raso, com a forma de uma k-ylix grega. Vidr-la-ia de azul, pensou, com o azul Wedgwood. Ou

' Golden Gate Bridge - Ponte que liga o estreito entre o oceano Pacfico e a baa de So Francisco. (N. da T)

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ento escolheria um vidrado escuro, cobalto, com uma camada de vermelho para lhe dar uma aparncia de seda lavada. * roda girava com um som hipntico. * fogo comeou a extinguir-se. As labaredas, cada vez

mais baixas, pareciam debater-se contra o nevoeiro soltando um som sibilante. A mulher, sentada junto  roda, deixou que esta parasse e levantou-se para ir espevitar o fogo. Juntou gravetos resinosos e a madeira dos ramos secos de zimbro, que recolhera nas colinas de Berkeley, comearam a incendiar-se lentamente

e a crepitar, erguendo-se com um estrondo alegre e afastando a bruma hmida. Ela ficou de p, com as mos estendidas para o

calor agradvel. O exterior das janelas estava coberto por uma

nvoa to densa que no se conseguia avistar o jardim. Sentiu o frio que entrava pela janela aberta e foi fech-la. O nevoeiro era belo.

Quando ficava l fora, no seu devido lugar. Regressou para junto da roda, os dedos a acariciar o barro hmido. Ternamente, esculpiu a forma delicada da borda do prato. * fogo estava a extinguir-se novamente. * lenha que juntara da ltima vez no devia estar em boas condies. Porque razo teria ela aquela sensao de que o nevoeiro era uma entidade hostil, que se escondia nos cantos para a observar enquanto trabalhava?

Ela odeia-me. No me quer aqui. Mas a ideia no passava de uma idiotice. Se no tivesse cuidado ainda ficava como a irm, a ver fantasmas em cada canto e a entregar mensagens dos j desaparecidos. Ouvira os rumores e, afinal de contas, as famlias que ali tinham vivido antes dela tinham tido pouca sorte. Uma morte sbita e um suicdio. Era desse tipo de material que as assombraes eram feitas.

Mas toda a gente que conhecera a mulher que ali vivera em

paz e que morrera, sentada ao piano, com a linda idade de oitenta e quatro anos, contava a mesma histria. Ela fora a alma mais gentil e bondosa que alguma vez vivera. Se a sua presena teimava em no se afastar da casa - no que a mulher sentada junto  roda acreditasse nesse tipo de disparates - porque haveria essa presena de ser outra coisa se no benevolente, especialmente para uma alma gmea, uma artista?

Voltou a espevitar o fogo sentindo, por uma razo inexplicvel, relutncia em virar as costas s chamas tremeluzentes. Se ali existisse uma presena fantasmagrica no deveria **trianifes-

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tar-se na sala de msica onde a mulher morrera? Nem sequer se

tratara de um episdio violento, a polcia investigara cuidadosamente. Uma velhota simptica tivera um colapso e morrera em paz, sentada ao piano, rodeada pelos seus cravos antigos. Um fantasma assim, se na realidade os fantasmas existiam, no poderia produzir seno um murmrio evocando uma poca mais benigna.

L fora estava escuro. Eram quatro da tarde; hora do ch. Sem dvida que os Britnicos, num pas assombrado pelo nevoeiro, tinham inventado o ritual do ch da tarde para combater os demnios do nevoeiro que vinha do mar e que trazia consigo a escurido. Ligou as luzes do estdio, escorraando a escurido, e atravessou o jardim envolto em nevoeiro pelo caminho de tijoleira que conduzia  porta da cozinha. O gato branco estava sentado em cima do muro das traseiras a lavar o focinho. Ela tentara cativ-lo com peixe e com fgado, mas ele mantivera-se teimosamente arredio.

As luzes alegres reflectidas nos tachos de cobre e o odor caseiro das plantas guardadas nos cestos dependurados do tecto acalmaram-na enquanto punha a chaleira ao lume. No permitiria que os nervos, o nevoeiro e a sua imaginao mrbida, a expulsassem do estdio e arruinassem o melhor trabalho que fizera em semanas. O barro atingira aquele estdio hmido, de perfeita maleabilidade, e a bela forma emergente era ainda uma memria de movimento, quase um prurido na ponta dos dedos. Se no recomeasse imediatamente nunca mais recuperaria a mesma forma.

Levou a caneca fumegante para o estdio e pousou-a junto  roda de oleiro. As mos procuraram a forma inacabada e pararam bruscamente. Sob os seus dedos a **ky1ix graciosa era um monte de barro viscoso e sem forma, desagradavelmente gelatinoso, como

carne morta.

Da ltima vez que algo de semelhante acontecera acreditara, contra toda a evidncia, que o gato branco entrara no estdio e esmagara o trabalho que tinha sobre a roda. Mas a janela e as

portas estavam fechadas e como  que um gato se poderia esconder nas paredes nuas do estdio?

Depois viu, sobre a roda, o sangue misturado com o barro, quatro patas sem vida mas ainda agitadas por espasmos. Inspirou bruscamente. Como  que o animal ali fora parar e quem o mutilara? Estaria o autor daquela selvajaria ainda escondido no jardim, a sede de violncia ainda por satisfazer,  espera dela? Ajoelhou-se para examinar o corpo e quando estendeu a mo relutante este desapareceu; restava apenas o barro arruinado e

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viscoso. No existia qualquer intruso, no acontecera nada de violento. Fora o mal, a coisa que havia na casa, que lhe destrura a melhor pea que produzira naquele ano. Os olhos encheram-se-lhe de lgrimas de raiva.

O fogo estava a apagar-se novamente e, daquela vez, no teve coragem para o reacender. Fora vencida. P s-se de p entornando o ch quente que lhe queimou o tornozelo e inundou a kylix arruinada e a roda de oleiro. Gritou de dor e de frustrao.

- Pronto! Pronto! Ganhaste! Vou-me embora! Mas porqu? Porqu? - Soltando um gemido inarticulado de frustrao e

derrota correu para a rua, fechando com estrondo a porta do estdio atrs de si. Nunca mais l voltaria a entrar.

Captulo um

-  uma casa lindssima. - Leslie Barnes desviou, com dificuldade, os olhos da paisagem que se estendia diante de si. As primeiras luzes do crepsculo de Inverno tremeluziam l em

baixo e, num dia claro, toda a baa se estenderia sob os seus olhos onde agora se viam, brilhantes como jias, as luzes da Golden Gate sobressaindo do nevoeiro.

Poder desfrutar daquela paisagem talvez merecesse pequenos ajustes: poderia remodelar a salinha junto ao trio... no, no tinha tempo nem energia para esse tipo de coisa. O trabalho estava em primeiro lugar.

-  mesmo uma casa adorvel, a mais bonita que vi at agora. Mas, tal como disse ao agente imobilirio quando telefonei pela primeira vez, tenho que ter uma ou duas salas independentes onde possa receber os clientes.

- Clientes? A senhora  advogada?
- Sou psicoterapeuta.
- As salas do andar trreo...
- Lamento - repetiu Leslie. Porque razo estaria a desculpar-se? Ningum tinha nada a ver com isso. - A minha irm estuda no Conservatrio e precisamos de uma sala onde caibam um piano de cauda e uma harpa.

O agente encolheu os ombros e suspirou.
- Esta casa vai vender-se rapidamente, sabe? Tenho trs pessoas que a querem ver e nem sequer pude garantir que a reservava at segunda-feira.

- No  suficientemente grande - repetiu Leslie. Mas voltou a olhar, pesarosa, para a paisagem com a qual adoraria viver.

O agente imobilirio reparou no olhar pesaroso e insistiu:

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Oia, uma das pessoas que est a pensar comprar esta casa tem trs filhos adolescentes. A salinha que lhe mostrei  onde esto a pensar pr as raparigas e o rapaz fica a dormir no sto. Podia ficar com a salinha junto  garagem para receber os

seus clientes e podia pr o piano na sala... - Falava com o ar de um homem razovel que tenta persuadir uma mulher tonta que no sabe o que quer e, quando Leslie abanou a cabea, disse:
- Bem, minha senhora, acho que est a cometer um grande erro e eu no tenho mais nada para lhe mostrar. Aquela casa em Geary, talvez...

- No tem estacionamento. Alm disso no posso viver num stio onde nem eu nem a Emily nos atrevemos a pr o p na rua depois de escurecer.

Ele encolheu os ombros.
- Bem, se souber de alguma coisa telefono-lhe. Mas no vai encontrar nada mais espaoso do que isto, a no ser que esteja disposta a pagar meio milho de dlares.

O que ele quisera dizer mas implicitamente, s demasiado esquisita, ficou a ecoar-lhe no esprito enquanto se dirigia ao

carro e o via afastar-se no dele. Mas tinha todo o direito de ser esquisita. A casa que comprasse seria aquela onde viveria, quem sabe, para sempre. Nos prximos dez anos, no teria dinheiro para se mudar novamente. E no estava segura de que o casamento fosse coisa para ela, apesar do Joel...

Os seus pensamentos encaminharam-se numa direco j familiar. Se ele conseguisse perceber que o trabalho para ela era

to importante como a carreira de advogado era para ele, e que no significava apenas um interldio enquanto esperava pelo Marido Perfeito... Forou-se a interromper aquele tipo de raciocnio.

Estava sempre a dizer aos seus clientes para no iniciarem uma relao sria com base na ideia de que poderiam mudar a

outra pessoa. Ou aceitava o Joel como ele era, casava com ele e vivia com ele assim, ou podia deix-lo. Mas ele no mudaria ou, se mudasse, seria por razes s suas e que no teriam nada a ver

com ela.

Fosse como fosse, teria que construir o seu lar na assuno de que l viveria muitos anos. Teria que ser em So Francisco, no podia continuar a viver na East Bay com a Emily a estudar no Conservatrio. A longa viagem diria nos transportes pblicos era cara e tomava um tempo precioso, para alm da energia de que Emily necessitava para estudar.

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Talvez, pensou, enquanto virava para o aqueduto que levava  Golden Bridge, fosse mesmo demasiado esquisita. O piano poderia ficar na sala... afinal ela iria passar metade do dia, ou mesmo mais, com os clientes. A salinha do andar trreo daria, com algumas remodelaes, um escritrio razovel ou, na pior das hipteses, poderia alugar um escritrio fora de casa. No seria pior do que o apartamento atravancado - demasiado pequeno para uma pessoa s - e que rebentava pelas costuras desde que a Emily fora viver com ela tendo que acomodar o escritrio e o piano. A harpa continuava num armazm.

E como poderia ela, com o pouco dinheiro que herdara da av - que fora durante algum tempo concertista e gravara alguns discos - comprar algo melhor do que aquela jia na Russian Hill? A parte da herana de **En-ly estava reservada para o Conservatrio e, mesmo assim, era muito provvel que Leslie tivesse que a ajudar antes de ela terminar os estudos. Mas fosse qual fosse o custo, tinham que ter uma casa com espao suficiente para as duas. A Emily j comeava a rebelar-se contra a imposio, inevitvel, de no poder estudar piano at o ltimo cliente do dia ter sado.

Tinha uma boa clientela, embora no to boa como poderia ter. Continuava a fixar os seus honorrios de acordo com a capacidade financeira dos seus clientes em vez de fazer aquilo que os seus colegas insistiam para que fizesse: levar tanto quanto o mercado permitia. A terapia, diziam eles e com razo, era um servio de luxo e quanto mais altos os honorrios, melhor a reputao do terapeuta. Na realidade, que conseguira ela com o aconselhamento escolar, a actividade que tivera em Sacramento, e que fazia parte do sistema pblico ... ?

Leslie sentia que conseguia estabelecer uma relao especial com adolescentes perturbados. A rebelio da sua adolescncia fora-lhe roubada. Enquanto o mundo inteiro, ou assim lhe parecera, se rebelava por todos os meios ao seu alcance - que iam das manifestaes de rua ao fumo de erva -, ela tivera que trabalhar no duro para sobreviver, para fazer o doutoramento e, j nessa altura, travara a batalha da liberdade de Emily. A me de ambas conseguira forar Leslie a aceitar um emprego como conselheira escolar em vez de lhe permitir que abrisse o seu prprio consultrio. E agora a me estava determinada em defender que o melhor uso que Emily podia dar ao seu talento era obter um diploma que lhe permitisse ensinar msica. Imaginar Emily a ensinar, no caos que eram as escolas pblicas, era o mesmo

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que imaginar um executivo a empurrar uma carreta de carvo. Ou melhor ainda, pensou Leslie visualizando a sua irm talentosa e hipersensvel a dar aulas de msica, seria como Maria Callas a dar aulas de basquetebol num liceu.

Tinha decidido que a Emily teria a sua oportunidade, nem que isso significasse ela prpria ter de passar o resto da vida a ensinar. A herana chegara demasiado tarde para que Leslie pudesse ter tido uma adolescncia normal ou uns anos despreocupados na faculdade, mas significara a liberdade de Emily. E o escndalo que afastara Leslie do sistema pblico de ensino trouxera a liberdade para ambas. A me, pensou Leslie com amargura, ficara contente por a ver partir. Mas nunca lhe perdoaria ter levado Emily consigo.

Leslie praguejou quando uma viatura pesada com dois atrelados entrou na sua fila de trnsito. Lembrou-se dos ttulos estampados na primeira pgina do National Enquirer:

PROFESSORA COM DONS PSQUICOS LOCALIZA CORPO DE ALUNA DESAPARECIDA!

ASSASSINO DA TRANA ENCURRALADO POR MDIUM!

Fora um acaso, pensou Leslie. Toda a gente tinha, ocasionalmente, experincias desse tipo. Cerrou os dentes apertando o volante... o trnsito estava muito intenso. Tivera esperana de estar de volta antes de o trnsito da hora de ponta se acumular na Bay Bridge. Houvera, com certeza, um acidente na ponte. Concentrou-se com todas as foras no carro que avanava lentamente na sua frente, tentando no ver de novo a imagem do corpo coberto de sangue de Juanita Garcia no canal de irrigao, com o cabelo comprido entranado pelo assassino que violara e mutilara quatro raparigas novas.

No, no se recordaria daquela imagem. Agora tinha uma vida diferente num mundo diferente. Joachim Mendoza, alcunhado do assassino da trana devido ao hbito de entranar os cabelos compridos das suas vtimas, continuava no corredor da morte. Leslie no aprovava a pena capital, mas no teria levantado um dedo para lhe salvar a vida; vira o corpo de Juanita Garcia, fora ela quem conduzira a polcia at ao local onde este se encontrava.

E que interessava o facto de os jornais terem feito um carnaval do palpite, ou da viso, que levara  captura do assassino? As parangonas dos jornais locais no tinham durado mais do que um ou dois dias: Professora encontra o assassino

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da trana. E quem  que se lembrava das coisas que vinham impressas em tablides como o Enquirer?

Deixara a notoriedade em Sacramento. Quando se instalasse em So Francisco deix-la-ia para trs de uma vez por todas. Se  que alguma vez iria encontrar uma casa em So Francisco. Esta era j a quinta casa que recusara.

Conhecia-se o suficiente para se perguntar qual seria a razo que a levava a rejeitar cada casa que lhe era oferecida. A casa perfeita, disse firmemente a si prpria, no existia. De uma forma ou de outra teria que se convencer a fazer alguns compromissos. Combateu a sua prpria indeciso enquanto saa da auto-estrada e conduzia pelas ruas de Berkeley, em direco  casinha que alugara quando viera para a cidade.

Abrandou e estacionou junto  entrada. O contrato de arrendamento acabava a um de Maio; no queria ver-se presa a outro contrato de arrendamento durante mais um ano.

Mas pensaria nisso depois. Naquela tarde ia receber pela primeira vez uma nova cliente.

Mentalmente, passou a ficha em revista. Eileen Grantson. Catorze anos. Comportamento perturbado, exploses temperamentais. Costuma partir loia e negar o facto. Brigas constantes na escola. Lar desfeito. O pai tem a custdia, a me casou novamente e vive no Texas. No tem irmos. A mida provavelmente tinha razo para se sentir zangada com as circunstncias da sua vida. Seria mais fcil lidar com uma rapariga que fosse capaz de exprimir a sua ira do que com uma que afirmasse no sentir qualquer raiva. A mente humana, disse Leslie para consigo, era

uma coisa terrvel e maravilhosa, e fora essa a razo porque se

tomara terapeuta, por nunca ter perdido a capacidade de se maravilhar com as coisas que a mente era capaz de produzir.

Eileen Grantson no era uma adolescente atraente. O cabelo era escorrido e de uma cor pardacenta e os olhos, de um azul desmaiado, escondiam-se por detrs de uns culos grossos de aros de plstico. Sentou-se na cadeira como se a sua coluna vertebral fosse feita de carto de m qualidade

Durante cerca de uma hora no dissera praticamente nada. Leslie tivera que lhe arrancar duas ou trs frases atravs de um interrogatrio meticuloso. A maioria dos adolescentes estavam sempre mais do que prontos para deitar c para fora todas as

razes de queixa que tinham do mundo.

- s vezes ficas muito zangada com o teu pai, no ficas Eileen?

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Ele  doido - disse Eileen com uma ar amuado. Acho que ele parte aqueles pratos velhos todos s para poder implicar comigo e dizer que fui eu.

Leslie manteve o sorriso tranquilizador e perguntou, no tom neutro que fora ensinada a manter:

- E porque  que tu achas que ele faria uma coisa dessas?

-   Porque me odeia. Ele  o meu pai e eu amo-o. Mas ele no quer que ningum o ame. Ele no amava a minha... - Eileen soltou um soluo abafado e fungou. - O tipo com quem a minha me andava foi s uma desculpa. Se o meu pai a amasse ela no teria ido embora. - As palavras saram em catadupa, mas Eileen, como se se sentisse assustada com o que dissera, refugiou-se novamente num estado de inrcia silenciosa, cheia de autocomiserao.

Leslie ouviu-a e reflectiu no que ela dissera. Estaria  beira de descobrir um caso de incesto entre pai e filha? (Freud afirmara ser essa uma fantasia muito comum. Fora uma pena ele no ter vivido o suficiente para descobrir quo longe, muitas vezes, essas coisas estavam da fantasia, mesmo na doentia e rgida era Vitoriana em que pas austeros e Vitorianos tinham sobre as suas filhas, impotentes e traumatizadas, um poder quase de vida ou de morte.) Talvez Grantson, incapaz de reconhecer a sua prpria culpa, tivesse tido uma atitude saudvel ao pr a filha numa situao teraputica em que, mais cedo ou mais tarde, ela acabaria por contar o segredo da sua culpa libertando~os a ambos.

Mas no lhe parecia. O prprio Grantson quisera a terapia para a filha e parecia ter contra ela razes de queixa muito reais. E o relato que Eileen fazia do divrcio soava muito circunstancial.

Leslie perguntou suavemente:
- Porque  que vives com o teu pai e no com a tua me, Eileen?

- No gosto do tipo com quem a minha me se casou disse Elleen com um ar amuado -, e quem  que quer viver no Texas? Tenho os meus amigos todos aqui. No que eu tenha assim muitos amigos. Eles dizem mentiras acerca de mim o tempo todo.

Leslie sentiu qualquer coisa sobressaltar-se dentro de si.
- Que mentiras dizem eles, Eileen? O que  que eles dizem de ti?

- As mesmas mentiras que o meu pai diz. - Eileen no ergueu os olhos do cho. - Ningum gosta de mim. Dizem

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mentiras. Dizem que eu parto as coisas deles. E no fui eu que as parti. Mas se pudesse, se calhar partia, eles odeiam-me e eu odeio-os a todos, pronto! Mas tambm quem  que quer andar com um grupo de parvos como eles?! E como  que eu lhe podia partir a porcaria das cordas do violino se estava do outro lado da sala? Est bem, eu queria tocar a primeiro violino e aquele estpido do professor impingiu-me o segundo violino,  surdo que nem uma porta e est sempre a desafinar, portanto o que  que ele percebe dessas coisas? Eu de qualquer maneira queria desistir da orquestra e das lies de violino, mas o meu pai diz que eu sou demasiado nova para saber o que quero fazer da minha vida e que quando tiver idade suficiente vou querer tocar violino, mas j vou ser velha de mais para aprender, por isso obriga-me a praticar o tempo todo. Acho que ele tem medo que se eu fizer mais alguma coisa do que estudar a porcaria do violino e ir  Escola Dominical? comece a dormir com um e com outro e engravide, ou coisa do gnero!

Uma queixa comum e um problema comum. Pela primeira vez Eileen dizia algo de semelhante aos outros adolescentes que ela ajudara.

- Achas que o teu pai tem medo que tu tenhas uma vida sexual?

Ela encolheu os ombros novamente, de olhos fixos no cho, e Leslie percebeu que fizera aquela pergunta cedo de mais. Olhou de relance para o relgio de cuco que estava na parede, um relgio austraco esculpido de forma elaborada e bastante piroso. Era mais fcil para os adolescentes ouvirem o cuco do relgio pondo fim  sesso do que ouvirem-na a ela faz-lo.
O relgio soaria dentro de mais ou menos seis minutos. Conseguira tudo o que era provvel conseguir numa primeira sesso. Eliminara praticamente a hiptese de a rapariga ser vtima de incesto, o que j era alguma coisa. Provavelmente tinha em mos um caso de uma adolescente desajeitada, a passar pela fase mais difcil da adolescncia, ressentida com a famlia desfeita e achando, em parte, que a culpa era sua.

Uma adolescente sem me, nem uma substituta aceitvel da me, com um pai absorto no trabalho e com pouca energia para despender com a sua filha solitria. E Eileen era o peo naquela batalha. Talvez pudesse ajudar a mida a perceber que no era o

' Escola Dominical  o equivalente, nas Igrejas Protestantes,  Catequese na

Igreja Catlica. (N. da T)

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alvo de toda aquela hostilidade, que os problemas do pai eram os problemas do pai e no eram culpa sua, e que a fuga da me era um problema da me e no o resultado de qualquer falha de Eileen enquanto filha.

- Conta-me l o que se passou com esses pratos que o teu pai diz que tu partiste - disse calmamente, sabendo que aquela pergunta faria com que acabassem a sesso num estado de tenso que manteria a rapariga a reflectir nos seus problemas at  sesso seguinte.

- No sei nada sobre isso. S sei que estavam no cho. Ele atirou-me com um e depois disse que tinha sido eu - disse Eileen erguendo a voz pela primeira vez. - No fui eu! E tambm no foi nenhum acidente! Ele atirou~me com o prato!

- Porque  que ele faria uma coisa dessas, Eileen? Pensas que ele o atirou? Contra ti?

- Porque ele me odeia - gritou Eileen. - Ele quer que eu me meta em problemas para ter que ir viver com a minha me para o Texas! Ele odeia-me! Ele odeia-me! Ele odeia-me!

A caixa de lenos de papel, discretamente pousada na mesa por trs da cadeira de Eileen - mas como ela no chorara, Leslie no tivera que lhe chamar a ateno para esse facto -, ergueu-se subitamente da mesa e voou na direco de Leslie por cima da secretria. Espantada, Leslie baixou-se. No vira, sequer, a rapariga aproximar as mos dos lenos. E Eileen parecia ser uma rapariga calma e pouco agressiva!

- Eileen...
- Agora j sei que tambm vai dizer que fui eu - gritou Eileen erguendo-se precipitadamente da cadeira. O cinzeiro que estava em cima da secretria de Leslie ergueu-se de repente, pairou momentaneamente no ar e voou a grande velocidade na direco de Eileen. Atingiu-a por cima da sobrancelha, o canto aguado fazendo sangue, e a rapariga caiu sobre a cadeira, aos gritos, cobrindo o rosto com as mos.

- Agora tambm me est a atirar com coisas! - gritou Eileen. - Tambm est a fazer o mesmo! Olhe para o sangue! Porque  que toda a gente me odeia? Porque  que toda a gente mente acerca de mim? - Encolheu-se na cadeira, espalhando o

sangue pela cara e olhando, horrorizada, para os dedos.

No silncio o relgio de cuco soou sonoramente por cinco vezes.

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- No, eu no te acuso de o teres feito, Eileen, e no, no sei como aconteceu - Leslie tranquilizou novamente a rapariga.
- V, bebe isso e no te preocupes. Da prxima vez conversamos sobre o que aconteceu. E se acontecer mais alguma coisa podes telefonar-me... est bem? - Tirou o copo de papel da mo de Eileen. - Est ali o teu pai que te vem buscar.

Eileen ainda estava a fungar.
- Ele no vai acreditar em nada disto. Ele odeia-me. Vai culpar-me, seja como for.

- Ento no lhe contes - disse Leslie com brusquido, pondo um monte de lenos limpos na mo de Eileen. Ela piscou os olhos tocando, com dedos hesitantes, o penso que tinha no sobrolho.

- E o que  que eu digo se ele me perguntar o que aconteceu? - Agora estava a no querer ir embora, a exigir ateno, ajuda, que a tranquilizassem novamente. Leslie no a culpava, mas tambm no a podia encorajar.

- Diz-lhe a verdade, se quiseres. A escolha  tua.
- Ele no vai acreditar.
- Ento no contes. Diz-lhe que cortaste o sobrolho no canto da secretria. - Leslie comeava a interrogar-se se no teria sido isso mesmo o que acontecera. Teriam tido uma estranha alucinao colectiva? Mas tambm duvidara do momento de intuio paranormal que lhe mostrara o corpo de Juanita Garcia submerso no canal. Deu mais umas pancadinhas no ombro de Eileen e conduziu~a gentilmente para o trio. O carro do pai dela estava junto aos degraus. Eileen enfiou desajeitadamente os braos nas mangas do casaco, debateu-se com a mochila e desceu pesadamente os degraus. A porta do carro fechou-se,

Foi um alvio voltar a entrar e fechar a porta. Poderia ter acreditado que Eileen conseguira, sem que ela visse, ter agarrado na caixa dos lenos e a tivesse atirado por cima da secretria. Mas nenhuma delas tinha estado colocada por forma a poder alcanar o cinzeiro.

Sabia que no tinha atirado com o cinzeiro. E Eileen no o poderia ter alcanado sem se ter levantado da cadeira e, mesmo assim, no o poderia ter lanado contra si prpria, com toda a fora, e ter voltado para a cadeira a tempo do cinzeiro a alcanar com violncia suficiente para a fazer verter sangue.

Leslie entrou no escritrio e pegou no cinzeiro. O canto estava sujo de sangue. Pareceu-lhe senti-lo quente e vibrante na

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sua mo e teve que se forar a pous-lo calmamente. Sentira vontade de o largar e de recolher a mo, com horror.

Est outra vez a acontecer este tipo de coisas que eu achava que tinha deixado em Sacramento. Lembrou-se de algo que lera nos estudos de parapsicologia na Universidade de Duke. Um psiclogo famoso dissera " Em qualquer outra matria, um dcimo das provas ter-me-ia convencido. Nesta questo, dez vezes as provas que existem no me convenceriam, porque sei que  impossvel".

Agora era confrontada pelas provas e no sabia o que acreditar. Sentou-se  secretria e forou-se a escrever o relatrio da sesso acrescentando as suas observaes e o que vira ou o que pensei ter visto, disse para consigo sombriamente - e arquivou os papis antes de ter tempo de questionar a realidade no seu prprio esprito.

Parecia recordar-se de existir um estudo sobre fenmenos de poltergeist da autoria de um psiclogo respeitado. No dia seguinte iria  biblioteca da Universidade de Berkeley e encontr-lo-ia. Se a sua cliente sofria com poltergeist, ento era seu dever descobrir, pelo menos, o que se sabia sobre esse tipo de fenmeno. Depois daquela sesso s lhe apetecia fazer um ch e tomar um banho com um milho de bolhinhas de espuma, ficar de molho durante uma hora a ler um livro frvolo e no pensar em mais nada at  manh seguinte.

Contudo, a luz vermelha do atendedor de chamadas estava acesa e ela obrigou-se a rebobinar a cassete e a ouvir as gravaes. Podia haver uma mensagem de um novo cliente, a Emily podia ter ligado a dizer que estava atrasada, a agncia imobiliria podia ter ligado a dizer que tinha outra casa para ela ver ou a Judy Atteribury podia ter-se novamente forado a vomitar o jantar.

Mas havia apenas uma mensagem. "Aqui fala o Joel, Leslie. Estive toda a tarde fora do escritrio porque fui com o Bobby a um jogo, por isso vou ter que ficar at mais tarde, para compensar. Podias telefonar-me e amos comer qualquer coisa juntos quando eu acabasse, est bem? Amo-te. At logo."

Ela sorriu. Eram mesmo coisas do Joel. O Bobby era um

mido negro do gueto, que Joel adoptara no projecto dos "Irmos mais Velhos", e passava bastante tempo com o mido, interessando-se realmente por ele. Ela pensou o que ele diria sobre a Eileen e o seu poltergeist e desejou poder contar-lhe. Mas o que se passava numa sesso de terapia era apenas ligeiramente menos confidencial do que aquilo que era dito por trs do con-

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fessionrio. E que poderia um advogado fazer para ajudar num

caso destes? No se podia arrastar um poltergeist para o tribunal e obrig-lo a manter a paz atravs de uma sentena judicial, forando-o a desistir das suas actividades!

Ouviu o telefone tocar duas vezes e depois a voz dele, tensa e preocupada.

- Manchester, Ames, Carmody e Beckenham.
- Joel?  a Leslie.
- Les! - O tom de voz mudou, tornando-se quente e acolhedor. - Estava com a esperana de que telefonasses. Ests pronta para sair? Apanho-te dentro de dez minutos?

Ela riu-se
- Aonde  que vamos?
- Pe a roupa mais chique que tiveres e eu levo-te a danar ao Claremont. Quero festejar. O juiz encerrou o caso Hanrahan por falta de provas.

- Que bom, querido! - Ela sabia que ele trabalhara arduamente e durante muito tempo, no caso Hanrahan, que ganhara relativamente pouco com o caso e aquela era, para ele, uma verdadeira vitria. - No podemos adiar os festejos? Tive um dia terrvel e amanh vou ter outro igual. Preferia comer qualquer coisa rpida num stio calmo e deitar-me cedo. - Alm disso, pensou, a comida do Claremont era excelente mas carssima.

- Est bem, querida. Vamos quele restaurante grego de que tu gostas, aquele na College Avenue - concordou ele. Ou, se estiveres muito cansada, posso ir buscar qualquer coisa e

comemos a.

Era daquele tipo de coisa que ela gostava nele. Estava sempre preocupado com ela e pronto a mudar os seus planos nem que fosse  ltima hora.

- No, a comida grega agrada-me. E vamos celebrar a tua vitria muito em breve, prometo.

- Ento apanho-te a dentro de vinte minutos?
- Est bem. Sentindo-se muito bem-disposta, correu pelas escadas acima enquanto despia a camisa e o casaco. Vestiu urna camisa de seda cor de framboesa que lhe realava a cor escura dos olhos e passou uma escova pelo cabelo curto e encaracolado.

Se acreditasse no destino, acreditaria que sara de Sacramento para encontrar Joel. Era to diferente do Nick...

Nunca levara as suas sadas com Nick Beckenham muito a srio. Tinham sado juntos uma dzia de vezes e partilhavam o

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gosto pela cozinha italiana e pela msica revivalista das bandas dos anos quarenta, msica de um tempo em que nenhum deles era ainda nascido. Ele estava mais ou menos comprometido com uma antiga colega de turma de Leslie, que estava a acabar o mestrado em Chicago e, enquanto a Margot estivera fora, o Nick sara com a Leslie. Beijara-o na face por duas ou trs vezes, nada mais do que isso. Tinham festejado juntos a promoo dele de agente a detective. E no fora ele quem tomara a iniciativa de a interrogar acerca do desaparecimento das raparigas, embora duas delas tivessem sido alunas da escola onde Leslie trabalhava. Era mesmo provvel que ela tivesse sido a ltima a ver Juanita Garca viva; a rapariga tinha estado no gabinete dela no dia anterior aos seus pais terem comunicado o seu desaparecimento, e ningum vira Juanita depois de ela ter sado do gabinete de Psicologia.

- Excepto o assassino - dissera ela a Nick, secamente ou ser que ests a insinuar que eu sou suspeita?
- No sejas tonta, Les. - O jovem polcia soltara uma gargalhada, mas a sua expresso mantivera-se perturbada. Anda um louco por a  solta, j temos trs raparigas mortas. Todas da mesma idade. Todas tm cabelos pretos e compridos...

Fora ento que ela a vira claramente, to claramente como

a sua prpria imagem reflectida num espelho. To claramente como a imagem de si prpria debaixo de gua corrente. Ouviu o tom de histeria e horror crescer na sua voz.

- Ela est num canal... num canal de irrigao - ouviu-se dizer -, com o cabelo entranado. Ele gostou de lhe entranar o cabelo...

- Como  que sabes isso? Leslie, isso foi o que ns no dissemos a ningum, para podermos detectar os malucos que aparecem a fazer confisses falsas. Na esquadra chamamos-lhe o assassino da trana, porque ele lhes entrana o cabelo depois de as matar...

- Vi-a - murmurou Leslie -, deitada no canal. Um canal de irrigao perto de um moinho. Ela tem o casaco de cabedal preto vestido...

Nick enfiara-a no carro de patrulha preto e branco e ligara a sirena. Ela nunca chegara a ver realmente o corpo de Juanita. J o vira, por baixo da gua corrente, com nitidez suficiente. Uma rapariga de carne e osso, uma rapariga que estivera no seu gabinete no dia anterior, a Juanita Garca, com dezasseis anos e o cabelo preto que lhe dava pela cintura. Cabelo preto,

A HERDEIRA                             25

entranado num penteado complicado. Ouviu-se a dizer coisas incoerentes; vira as mos do assassino e o rosto do assassino.
O rosto de Joachim Mendoza, com a cicatriz em forma de crescente, o lbio leporino e o bigode, atravessado pela cicatriz da operao que corrigira o defeito do lbio, e as sobrancelhas hirsutas. Vira-o novamente quando o tinham apanhado e tinham encontrado no seu quarto madeixas dos cabelos das raparigas e as suas calcinhas ensanguentadas e continuava a v-lo, de tempos a tempos, nos pesadelos que tinha. O parceiro de patrulha de Nick ficara a olhar para ela fixamente, de boca aberta, enquanto ela o descrevia numa torrente de palavras. Supunha que ele nunca acreditara que ela s vira o rosto de Mendonza na imagem que se projectara no seu esprito. Nunca parara de se interrogar se ela no estaria de alguma forma implicada, se

no teria mesmo sido testemunha ocular do crime

O Nick fora simptico. Mantivera-se do seu lado e tranquilizara-a quanto  sua sanidade mental. Mas o Enquirer no parara de lhe telefonar e quisera lev-la de avio para Chicago, para que tentasse ter vises relacionadas com um crime sexual que ali ocorrera. E tinha recebido chamadas telefnicas provocatrias e telefonemas de malucos at que acabara com aquilo de uma vez por todas. E, claro, tinha havido tambm a me de Juanita Garca que lhe lanara um chorrilho de insultos durante o funeral.

"Porque  que no teve essas vises quando ela ainda estava no seu gabinete, porque  que no a avisou antes de ela sair e dar com aquele louco assassino? Queria que ela morresse

para poder ter o nome nos jornais?"

Leslie respondera-lhe com a verdade, que teria dado um

ano da sua vida para ter sabido de tudo aquilo antes de ter acontecido, para poder avisar Juanita de que sairia do seu gabinete para as mos daquele louco assassino. Teria avisado a rapariga, teria implorado a Juanita que tivesse cuidado. Mas no tivera qualquer viso daquela fatalidade enquanto Juanita estivera no seu gabinete, vira apenas a sua atitude casmurra de sempre, a de uma rapariga que andava na vadiagem, que era uma delinquente e que estava completamente pedrada de erva e de ressentimento. Que levaria a mulher, a Mrs. Garca, a pensar que Juanita teria dado ouvidos ao aviso de que poderia ser assassinada? Ela nunca dera ouvidos a nada do que os professores ou os psiclogos lhe diziam.

Apercebeu-se de que estava a olhar fixamente para o espelho, a ver o cabelo comprido de Juanita e o seu rosto inerte

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debaixo de gua, em vez da sua prpria imagem. O telefone estava a tocar e ela correu para atender na extenso que estava no trio. Por sobre o barulho da campainha ouviu o incio de um preldio de Bach; Emily j estava em casa e comeara a estudar.

- Estou? A voz era grave, empastada e estranha e ela teve dificuldade em perceber o que dizia. Mas as pessoas perturbadas tinham por vezes dificuldade em pronunciar as palavras; os seus pensamentos assustavam-nas em demasia.

- Desculpe - repetiu Leslie em tom paciente -, no consigo perceber o que diz.

- A... a... a... Alison est a?
- Lamento, deve ser engano. A voz entaramelou-se, protestou ininteligvel mente e desvaneceu-se at restar apenas o sinal do telefone. Leslie desligou. Seria uma chamada maldosa ou apenas um engano fortuito? Tinham-lhe ensinado, quando fora voluntria numa linha de emergncia para suicidas, que os enganos nas chamadas telefnicas no existiam. Eles discam o nmero com um objectivo, mesmo que escondam esse objectivo at mesmo de si prprios. No tinha a certeza de acreditar naquela teoria... certamente que as

coisas no eram tanto assim, to freudianas, certamente que por vezes os dedos escorregavam ou os olhos viam mal o nmero na lista telefnica. Ouviu passos na escada e reconheceu o andar da sua irm, Emily. Estava a pr os brincos de prolas nas orelhas quando Emily espreitou para dentro do quarto. Alta, esguia e com

dezassete anos, Emily usava o cabelo castanho arruivado preso num carrapito conservador, a sua rebelio adolescente assumia a forma de um rigor extremo em vez do desleixo mais habitual entre os jovens. Estudara bailado durante quatro anos antes de se decidir finalmente pelo piano, e isso ainda era visvel na sua postura,

com a cabea assente num pescoo fino e delicado, como se fora uma aucena, e inclinada de tal forma que dava a iluso de ela ser mais alta do que o seu modesto metro e setenta e trs.

- Quem telefonou, Les? Era a mam? Leslie abanou a cabea.
- Era engano.
- Compraste a casa? - perguntou Emily ansiosamente. Leslie fez que no com a cabea.
- No era suficientemente grande... no tinha espao para um consultrio e um piano.

A HERDEIRA                             27

Emily suspirou.
- Parecia to boa quando me falaste dela. Vais sair?
- Eu e o Joel vamos comer qualquer coisa. H hamburgers no frigorfico.

Emily fez uma careta e Leslie lembrou-se de que a irm estava outra vez a atravessar uma fase vegetariana.

- Comi uma salada no caminho para casa. Vou s comer iogurte. Veio c o afinador de pianos?

- No tive oportunidade de lhe ligar. O piano no est bom, hem? - Desceu as escadas agarrando no casaco de plo de camelo e olhou de relance para a grande sala de estar. Emily correu os dedos pelo teclado e fez uma careta.

- No ouves? - Apressou-se a disfarar a expresso de desprezo. Disse num tom cuidadosamente simptico:

- Telefona-lhe amanh... cedo, est bem Les?
- Telefona-lhe tu - respondeu Leslie com uma agressividade bem-disposta -, s tu quem no consegue suportar a som do piano. Eu tenho uma consulta logo de manh e estou a considerar seriamente telefonar para outra imobiliria, esta parece que j no tem mais nada para me mostrar.

Emily foi at ao piano, sentou-se no banco e tocou umas quantas escalas, inclinando a cabea e fazendo uma careta.

- Les, tens daqueles malucos mesmo a srio entre os teus clientes? Eu sei que no me podes dizer nada acerca dos teus clientes - disse com impacincia, imitando-a. -  que quando o telefone tocou, fiquei um bocado assustada. Hoje cedo recebi uma chamada maluca de todo. A... a pessoa nunca disse nada. Limitou-se a... - Hesitou. - Limitou-se a zumbir. E a respirar

- Respirar no tem nada de mal - disse Leslie. - Toda a gente respira vinte e quatro horas por dia.

- S que no era s respirar. Quem quer que fosse estava a fazer de propsito... bolas, tambm no  isso que eu quero dizer. No fiquei com a ideia de que fosse um daqueles telefonemas em que o tipo resfolega para o telefone. No era uma chamada pornogrfica. Nem sequer tenho a certeza de que fosse um homem. Soou-me... - Emily hesitou novamente, escolhendo as palavras. - Foi sinistro. Senti uma espcie de ameaa. Tive mesmo ms vibraes.

- Parece-me que se calhar foi a mesma pessoa - disse Leslie, pensando no tom do telefonema. Era algum com perturbaes muito mais srias do que as de qualquer um dos seus clientes. Ela era psicoterapeuta, no era psiquiatra nem mdica.

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Os seus clientes sofriam de neuroses vulgares, consequncia do stress provocado pela sociedade, ou pelos seus empregos, por problemas conjugais, ou pela incapacidade de se ajustarem s expectativas da escola ou dos pais.

E mesmo um psiquiatra pouco podia fazer no que respeitava s maleitas mais srias que afectavam a mente e o esprito humanos. Uma das suas clientes, Susan Hamilton, era a me de uma criana deficiente mental cujo pai estava ausente. Aos sete anos, a Christina no conseguia - ou no queria - falar e s agora comeava a ir  casa de banho. Havia uma srie de etiquetas que se

lhe podiam aplicar: deficiente mental, autista, com problemas de aprendizagem, emocionalmente negligenciada, atrasada. Etiquetas, mas nenhuma soluo. Os terapeutas da fala e a educao especial pouco mais podiam fazer pela Chrissy do que trein-la como a um co, torn-la de alguma forma menos ofensiva para as sensibilidades sociais. Leslie nada podia fazer pela Christina, e pela sua me podia fazer pouco mais, para alm de lhe dar a oportunidade de expressar a sua imensa raiva contra o universo cego e

cruel que depositara sobre ela aquele terrvel fardo que j destrura o seu casamento e que, provavelmente, a destruiria a ela tambm.

- No, nenhum dos meus clientes sofre perturbaes graves - disse e depois, pensando em Eileen Grantson, no se sentiu assim to certa disso. - Disseram o meu nome?

- No, no disseram o teu nome, no disseram absolutamente nada. Foi horrvel, Les, nem parecia humano. Parecia uma alma perdida a gritar no purgatrio.

Sim. Era exactamente isso o que parecia. Mas naquela noite Leslie no queria pensar em almas condenadas. No quando a

imagem do rosto de Juanita Garca continuava perante os seus

olhos, assombrando-a; no depois de ter visto o cinzeiro a voar pela sala e a testa de Eileen a sangrar. Apetecia-lhe ser calma e racional. O Homem, lembrou-se de um dos seus professores ter dito, no era um animal racional, mas um animal racionalizante.

Emily franziu o sobrolho, aproximando a cara do teclado.
- Eu devia ser violinista, assim j podia afinar eu prpria o meu instrumento. Escuta, Les, se calhar eu podia estudar afinao de pianos. Tenho um ouvido perfeito e  uma profisso muitssimo bem paga. O Conservatrio  horrivelmente caro. Se eu pudesse ganhar algum dinheiro seria tambm mais fcil para ti...

- Ns c nos arranjamos, querida. Tens que ter pacincia. Acredita em mim, que eu sei muito bem o que  estar na facul-

A HERDEIRA                           29

dade e ter cinco dlares por semana mais o dinheiro para o autocarro. No te sei dizer quantas vezes andei mais de seis quilmetros para chegar a casa e poder poupar o dinheiro do bilhete do autocarro! Era o que me permitia comprar Tampax e pasta de dentes. E, por falar em pasta de dentes e Tampax, gostava que de vez em quando comprasses essas coisas para ti em vez de passares o tempo a cravar-me! - Enquanto falava apercebeu-se do que estava a fazer. Uma pequena discusso vulgar entre irms para ajudar a desvanecer a memria do cinzeiro a voar pela sala. Ouviu passos no alpendre.

- Vem a o Joel. Janta bem, Em. Devo chegar a casa antes da meia-noite, acho eu...

- A no ser que o Prncipe Encantado te leve nos braos pela noite dentro - sugeriu Emily e Leslie abanou a cabea.

- Tenho um compromisso amanh bem cedo.
- Leva as chaves - disse Emily. - Vou ficar fora at tarde, vou tomar conta do fedelho dos Sitrimons e olha que  mesmo um fedelho.  por isso que eu acho que afinar pianos devia ser mais fcil, at para os ouvidos.

Leslie verificou se tinha as chaves dentro da mala.
- Ento certifica-te de que trancas a porta - admoestou e foi abrir a porta a Joel.

Captulo dois

A comida estava deliciosa. Uma salada estaladia com muito queijo feta, galinha desfiada temperada com canela e cardamomo, misturada com passas e envolta numa delicada massa folhada. Joel, bem-parecido e exuberante, pediu uma garrafa de bom vinho e preparou-se para lhe contar o que acontecera com o caso Hanrahan. Leslie, que estava sempre alerta e desejosa de obter novas pistas sobre o estado mental dos seus pacientes, adorava ouvir Joel falar do seu trabalho.

- Hanrahan... isso era um caso de exibicionismo, no era? - perguntou. - Armaram-lhe alguma cilada? - Os homens que se exibiam raramente cometiam crimes graves - estavam do lado oposto do espectro relativamente a Joachim Mendoza - mas eram, invariavelmente, pessoas muito perturbadas.

- Raios, no, este caso  verdadeiramente uma estupidez disse Joel enchendo a boca de galinha bem cheirosa e tentando falar ao mesmo tempo. Acabou por se rir e acabar de mastigar antes de falar de novo. Por fim disse: - Lembras-te do concerto rock do ano passado? No, ainda estavas em Sacramento nessa altura, no estavas? Bem, sabes como , o que acontece nesse tipo de espectculos. Os midos comeam na marmelada, embrulham-se uns com os outros, apalpam-se e chegam mesmo a mandar umas quecas debaixo daqueles cobertores que levam para esses stios. J viste esse tipo de coisa.

Leslie j vira. Achava tudo aquilo de uma enorme falta de gosto, mas sempre vivera com abundncia de privacidade.

- E ento?
- Ento o Hanrahan  gay. E ele e o homem com quem vive h nove anos - so scios de uma livraria em Castro estavam a olhar para aqueles midos todos e sentiram-se muito

A HERDEIRA                           31

romnticos. E deram as mos. Deram as mos, por amor de Deus, e uma velhota qualquer apresentou queixa e um polcia saloio prendeu-os por atentado ao pudor. - Agarrou no copo de vinho, bebeu e quase se engasgou de to indignado que se sentia.

- Joel, para terem sido presos, eles deviam estar a fazer mais qualquer coisa do que estar de mos dadas!

-   Isso foi o que eu pensei. Mas a velhota que apresentou queixa tirou uma fotografia, com uma Polaroid, do comportamento "repugnante" - disse Joel. - Eu vi a fotografia, Les.
O Ron estava a agarrar a mo do Joe e o Joe tinha a cabea no

ombro do Ron. Realmente pornogrfico! Les, eu no sou maricas e no tenho grande simpatia por aquele tipo de fulanos que andam no engate nos bares, para j no falar do facto de no conseguir perceber porque  que um homem h-de querer andar com outro quando h tantas mulheres estupendas no mundo...
- Pousou o garfo e sorriu-lhe com ternura. - Mas serem presos por dar as mos, com tudo aquilo que se passava  volta deles?

- Tambm no percebo. Porque razo...
- Supostamente, de acordo com a velhota e com o saloio do polcia, estavam a escandalizar os jovens que ali estavam... que estavam to ocupados a saltar para cima uns dos outros que no teriam reparado se o Presidente estivesse a fazer sexo com um burro em cima de um palanque! Seja como for, finalmente conseguimos que o caso fosse encerrado. Mas tive pena do Ron. Aquilo foi tudo parar aos jornais e os pais do Joe no sabiam que ele era homossexual.

- Bem, fico satisfeita por ele no ter sido preso, ainda por cima.

- Teria ficado preso na priso local. Atentado ao pudor  uma ofensa, no  um crime grave. O que  um crime  ter chegado a tribunal.  perfeitamente ridculo!

- Bem, no  o nico caso idiota desse tipo - disse Leslie. - Uma amiga da minha me quase foi presa por dar mama

ao beb no supermercado. O mido tinha fome e estava aos berros.  claro que isto j foi h muitos anos, mas a minha me contou-me a histria tinha eu doze anos.

- Bem, consigo pensar em stios melhores para dar de mamar a um mido - disse Joel. - Espero que quando deres de mamar aos nossos o faas em domnios mais domsticos, querida. - Leslie corou e sorriu-lhe enquanto ele metia uma

garfada de salada na boca. - Ou ento podes esconder-te no

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carro. Houve um caso no ano passado... um tipo passou de carro

pela portagem da Bay Bridge completamente nu. O juiz arquivou o caso invocando que o carro de uma pessoa  como se fosse a sua casa... o homem tinha o direito de se vestir, ou de no se vestir, ou de se vestir como quisesse, no seu prprio carro.  a lei.

- Dura lex; sed lex - citou Leslie com uma risada. E ele disse:
- Eu prefiro aquele velho ditado que diz, a lei  uma trampa.
*/*
- Mas que frase para um advogado de sucesso, querido!
- provocou-o ela.

- E quem estar em melhor posio para saber o que diz?
- argumentou ele.

- As velhotas que apresentam queixa - disse Leslie e que so muito piores do que as pessoas que tentam condenar. E estamos a fazer progressos. Pelo menos o teu amigo Harirahan no foi preso. Imagina se ele tem apanhado um juiz que sentisse a sua sexualidade ameaada por dois homens de mos dadas?

- Nem gosto de pensar nisso - disse Joel, sombriamente. Depois, fazendo um esforo, animou-se. - Seja como for, tudo tem o seu lado cmico. O Nick contou-me uma histria maluca quando falei com ele pelo telefone. Parece que recebeu uma queixa de uma dessas velhotas que dizia que um homem, no quarteiro dela, andava a correr, completamente nu, de um lado para o outro dentro do apartamento. Ento o Nick foi verificar o que se passava com o suposto selvagem...

Leslie recostou-se e ficou a ouvi-lo, lembrando-se de Nick Beckenham. Afinal de contas fora ele quem os apresentara. Quando o escndalo rebentara e Leslie se mudara para a zona da baa, ele levara-a numa camioneta alugada e chamara o Joel para ajudar a descarregar as coisas e sugeriu que Joel levasse Leslie a jantar fora. Provavelmente antecipara o desenvolvimento de uma relao fraternal como a que ele prprio mantinha com

Leslie e no aquela exaltao toda.

Talvez ela estivesse pronta para um novo homem no momento em que iniciava uma nova vida. J tinha idade suficiente para assentar, era o que a me lhe dizia; tinha vinte e sete anos, era praticamente, pelos padres da sua me, uma velha solteirona. A me teria aprovado o jovem advogado com uma carreira promissora, t-lo-ia aprovado ainda mais do que ao seu irmo polcia. Embora, sem qualquer dvida, tivesse desaprovado o facto de ele defender casos - escandalosos - como o de Ron Harirahan.

A HERDEIRA                               33

ento o homem disse "Minha senhora, ser capaz de dizer de onde me viu andar nu neste apartamento?" e  claro que a velhota cegueta no teria conseguido ver nada a no ser que tivesse o nariz encostado  janela do homem! E a ele virou o bico ao prego e apresentou queixa por ela andar a espreitar-lhe  j anela!

Leslie riu-se com vontade, mas enquanto ria viu que Joel estava a olhar para ela com um ar muito srio.

- Ests mesmo com um ar cansado, Les. Tiveste um dia difcil?

- Muito difcil. - Como ele ficaria espantado se ela lhe contasse a histria do poltergeist. Viria isso a constituir um problema na relao deles, o facto de ele lhe poder contar todas aquelas histrias do trabalho e ela no lhe poder contar nada? Um dia teriam que falar sobre isso. Quando estavam juntos divertiam-se sempre tanto que no lhes apetecia discutir esse tipo de coisa, mas seria inevitvel terem esse tipo de conversa se ele estava mesmo a pensar em casar e ter filhos.

- Mas voltei ao princpio na histria da compra da casa, Joel. A casa era demasiado pequena para l instalar um consultrio e o piano da Emily. Por isso tenho que comear tudo de novo.

- J sabes o que penso relativamente a esse assunto disse ele frontalmente. - Nunca fiz segredo disso. Se andasses  procura de uma casa para ns dois, em vez de andares  procura de casa s para ti, seria diferente.

Ela sentiu-se desanimar. Iam ter uma discusso. A culpa era dela, no devia ter mencionado a casa, no naquela noite. Mas no podiam continuar a evitar o assunto.

- Ns os dois, como tu dizes, no estamos prontos para uma casa. Ou ser que eu sou suposta aguentar-me naquela casinha arrendada at tu estares pronto para te casares?

Ele remexeu no vinho enchendo novamente o copo.
- Devias mesmo beber mais um bocadinho - disse. No quero beber isto tudo sozinho. - Uma sombra de um sorriso espalhou-se pelas rugas de expresso em torno do seu queixo.
- Queres realmente ser responsvel pela minha priso por embriaguez e conduta desordeira?

Ela observou-o, amando-o.
- Assumirei a responsabilidade pela embriaguez - retorquiu ela em tom ligeiro -, quanto  conduta desordeira ficar sobre os teus ombros, meu amor. - Ele no era to alto como Nick, que tinha mais de um metro e oitenta. Quando abraava Joel os seus corpos encaixavam perfeitamente, face contra face.

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Os nossos corpos encaixam bem de mais.  por isso que nunca conseguimos discutir coisas srias.

Ele disse, dando um gole no vinho:
- Leslie, escuta. Caso-me contigo agora, se ests a usar essa coisa da casa para me pressionar. Continuo a pensar que devamos esperar, mas se isso te fizer feliz...

Ela piscou os olhos, no percebendo o que ele estava a dizer.
- Eu no me quero casar, no para j. Ambos concordmos em esperar que a Emily acabasse o Conservatrio e tu conseguisses tornar-te scio do escritrio. Por essa altura, a minha clientela...

- Ob, a tua clientela! V l, Les, diz-me com franqueza. No  por isso que ests com isto tudo de querer comprar uma

casa? Para me obrigares a tomar uma deciso enquanto  tempo, antes de tu teres planeado a tua vida toda sozinha?

Falou num tom to razovel que ela, por momentos, perguntou-se se seria isso mesmo o que se passava. Poderiam as suas motivaes ser assim to tortuosas? Depois sentiu-se invadir pela indignao.

- No  possvel que acredites numa coisa dessas, Joel!
- Bem, eu tenho pensado nisso. Talvez tenhas razo. Talvez devssemos casar-nos, comear a construir as coisas em conjunto e no separadamente. Ns amamo-nos, ento por que no assentar e comear a construir uma vida racional, em conjunto?

O Homem no  um animal racional mas uni animal racionalizante. Ela disse calmamente, no querendo que tudo aquilo descambasse numa briga:

- No, Joel. Penso que devemos manter-nos fiis aos nossos planos originais. Tu queres estabelecer-te na tua carreira sem teres, para j, as exigncias de uma esposa e eu quero estabelecer-me na minha carreira e ver a minha irm acabar a sua formao.

- Mas continuas determinada em comprar uma casa sozinha?

- E existe alguma razo para eu no continuar determinada, Joel?

-   H - exclamou ele. - Eu no quero que arranjes uma

vida to preenchida que no precises de mim!

- Querido, no me parece que tenhas de te preocupar com isso - disse ela estendendo o brao por cima da mesa e agarrando-lhe na mo. - Mas assim como tu queres vingar na tua profisso, eu tambm quero ter sucesso na minha...
- Agora ests a falar como uma dessas mulheres que andam a queimar soutiens. A tua prpria propriedade. A tua carreira.

A HERDEIRA                            35

Tudo isto acerca daquilo que tu queres. No acerca daquilo que ns queremos ou do que eu quero. Eu, eu, eu,  tudo aquilo que te preocupa!

Ela suspendeu a respirao perante a injustia monstruosa de tudo aquilo.

- Foi isso que tu disseste que querias, no te casares por enquanto...

- Mudei de ideias.
- Mas eu no - replicou ela. - Se  isso o que tu pensas, Joel, ento pura e simplesmente no estamos a ser capazes de comunicar e o melhor  nem falarmos neste assunto. O melhor  concordarmos em discordarmos nesta questo. Eu no ando, como tu dizes com tanto desprezo, a queimar soutiens, mas se h expresso que eu abomino  essa e fico absolutamente chocada que sejas capaz de te referir nesses termos em relao a mim. Empurrou a cadeira.

- O melhor  levares-me a casa.
- No, raios! - Ele no se levantou mas baixou a voz. Estou a ficar cansado disto, Leslie. Sempre que as coisas no te correm de feio recusas-te a discutir o assunto. No podemos voltar a fugir.

- Eu no estou a tentar fugir - disse ela sabendo que havia alguma verdade no que ele dissera, ela evitava realmente aquele tipo de discusses -, s que a ti uma boa briga parece dar-te prazer. A mim no d.

- Eu sou advogado - disse ele - e no se consegue ser um bom advogado recuando de cada vez que somos confrontados com uma pequena diferena de opinio.

- E eu no gosto de ser sentada no banco dos rus de cada vez que ns temos aquilo a que chamas uma pequena diferena de opinio. - Zangada, imitou o tom de voz dele. - No  uma pequena diferena de opinio.  uma questo fundamental. No consigo fazer com que tu mudes de posio... j tentei.
O que tu queres  que eu fique aqui sentada enquanto tu me coages a mudar de ideias, uma vez que tu no vais mudar as tuas. E como eu no quero ficar aqui sentada a ser coagida...

- Amor, eu no estou a tentar coagir-te. Mas vamos olhar para a questo de forma racional. O que  que vais fazer com

uma casa tua quando nos casarmos?

- Alug-la. Vend-la. Deixar que a Emly l viva at acabar o Conservatrio. Viver l contigo at encontramos um stio melhor. Os bens imobilirios so sempre um bom investimento,

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tu prprio mo disseste! Porque razo te hs-de sentir incomodado pelo facto de eu fazer um bom investimento? - Tentou fazer humor. - A Helen Gurley Brown diz que uma pequena carteira de bons investimentos  muito sexy.

Ele no riu. Afastou o copo de vinho e ficou a olhar fixamente para o prato. Tinha umas mos compridas e bonitas, com dedos eficientes e musculados. Sensuais tambm, pensou ela, evitando as memrias capazes de a abalar e enfraquecer completamente.

- Ento muito bem - disse ele por fim. - Talvez l no fundo eu seja muito mais antiquado do que alguma vez pensei ser. Sou um liberal no que respeita aos direitos humanos e  liberdade individual, mas suponho que se procurares sob a superfcie de um rapaz do campo - e tanto eu como o Nick somos rapazes do campo - encontras um conservador. O Nick  polcia e  um duro. Para ele a lei e a ordem estabelecem-se nas ruas, onde as pessoas correm o risco de serem esfaqueadas. Eu quero fazer o mesmo da forma mais fcil, nos tribunais, defendendo o Estado de Direito. Como se dizia no passado, uma sociedade regida pelas leis e no por homens. E com tudo isso vem o sistema de valores tradicional, uma profisso tradicional e um lar e um casamento tradicionais. E suponho que uma esposa tradicional. E eu

tinha a esperana de que tu quisesses fazer parte de toda essa

estrutura. Que quisesses ser... - hesitou, procurando as palavras adequadas -, que quisesses constituir a outra metade do casamento e no um dos parceiros de uma sociedade fluida em que duas pessoas independentes vagueiam lado a lado at encontrar algum de quem gostem mais. No me importo que tu experimentes primeiro a tua profisso... qual  a frase de que vocs, mulheres independentes, gostam tanto? No me importo que tu te tentes encontrar. - Mas o desprezo seco com que ele disse aquelas palavras fez com Leslie estremecesse, enquanto ele continuava. - De qualquer forma nunca me pareceu que andasses perdida. Eu estou disposto a comprometer-me contigo para o resto da vida e  isso que espero tambm de ti, e esperava que fosses suficientemente madura para assumires esse tipo de compromisso.

Fora o discurso mais longo que alguma vez o ouvira fazer e admirava-o pela coragem de defender aquilo em que acreditava. Mas aquela no era a sua viso da vida, nem do casamento, e deveriam ter explorado aquela questo anteriormente, antes de terem chegado quele ponto.

- Fico satisfeita por teres sido suficientemente honesto

A HERDEIRA                            37

comigo para me dizeres o que queres - disse lentamente, pensando que parecia mais uma terapeuta a falar do que uma amante.
- Mas tenho que ser franca contigo. No  isso o que eu quero da vida. Quero ser uma pessoa independente, ter uma vida prpria para l do casamento. Tal como a tua carreira ser exterior ao nosso casamento, eu tambm quero que o meu trabalho tenha uma existncia prpria. Tenciono manter o meu nome, no tenciono transformar~me na Mrs. Joel Beckenham. Pensas mesmo, seriamente, que eu conseguiria viver dedicando-me unicamente a administrar o dinheiro que tu ganhasses?

- Tive esperana de que fosse o suficiente para ti. Eu preciso de uma mulher que seja um adorno para os meus negcios, uma mulher conservadora num casamento conservador...

- E eu no consigo imaginar um casamento baseado na poltica, Joel, ainda por cima essa orientao poltica  a tua disse ela. - No me digas que tambm esperas que eu vote nos conservadores?

- Tinha a esperana de que te apercebesses de que essa  a nica escolha racional - disse ele. - Eu entendo o casamento como uma unio de esforos na mesma direco e no como duas pessoas puxando cada uma para seu lado.

- Duas pessoas unidas de acordo com o que tu queres fez ela notar. - E o meu trabalho...

- No podes esperar que eu seja feliz se tu passares a vida com falhados e malucos - retorquiu ele. - Eu pensei que ficasses a perceber como o mundo est cheio de gente doente e de porcaria e de que viverias uma vida muito melhor como minha mulher. Parece-me bem que chegou a altura de reavaliar a situao. Casamos... este Vero, talvez em Agosto? E arranjamos uma casa para os dois. Podamos at construir uma. Podias continuar a trabalhar durante um ou dois anos - condescendeu ele    at a Emily ser independente...

Isso  muito generoso da tua parte - disse ela em tom hostil -, mas vou precisar de tempo para pensar em tudo isto. Comeo a pensar que cometemos, ambos, um grande erro. Eu nunca poderia ser feliz nesse tipo de casamento. - Empurrou a cadeira. - Se no me levares a casa neste momento, Joel, eu vou de txi.

Ele entregou um carto de crdito ao empregado e correu

atrs dela.

- Leslie, no te vou deixar ir embora assim. Por favor, senta-te. No podemos discutir as coisas racionalmente?

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Deixou-o convenc-la a voltar para a mesa embora sentisse a garganta apertada e lhe apetecesse chorar.

- Ests sempre a bombardear-me com essa palavra, Joel, racional. J alguma vez paraste para pensar que na vida existem coisas para alm da lgica?

- Pensei que j tinhas tido irracionalidade mais do que suficiente em Sacramento. Pensei que essa tinha sido uma das razes porque tinhas sado de l - respondeu ele e empurrou o copo de vinho na direco dela. - Bebe, Les. Ests perturbada; no vou permitir que te vs embora dessa maneira por causa de uma pequena diferena de opinio.

- Mas  mais do que isso - disse ela, bebericando relutantemente o vinho e afastando o copo, desejando que o lcool pudesse acalmar-lhe os nervos. - Ns estamos a quilmetros de distncia, Joel. Devamos ter tido esta conversa antes. Talvez a culpa de no a termos tido seja minha. Mas agora que a tivemos, temos que aceitar que o que tu queres e o que eu quero so coisas diferentes...

- Mas  a ti que eu quero - disse ele inclinando-se sobre a mesa para lhe agarrar a mo, com os olhos brilhantes  luz da vela. - J estamos juntos h tempo suficiente para saber que  isso que importa... querermo-nos um ao outro.

Ela sentiu um calor traioeiro espalhar-se dentro de si. As memrias de todos os bons momentos, do sexo, do sentimento de proximidade, do divertimento. Havia uma parte dela que ainda o queria. Depois de toda a histeria que explodira sobre si em Sacramento, de toda aquela loucura, do seu rosto estampado no National Enquirer, at aquela obsesso com a lgica, a racionalidade severa, tinham sido bem-vindas. Mas disse:

- Essa  apenas uma parte da vida, Joel. As outras coisas...
- Eu s tenho a certeza de uma coisa - disse ele -, que  esta: se o sexo  bom, tudo o resto pode ser resolvido.

Ela disse, cheia de fria e frustrao:
- Joel, tu no ouviste uma nica palavra do que eu disse! No vs que mesmo que eu me quisesse casar agora, e no quero, nunca iria resultar? Agora que sei qual  a tua concepo de casamento...

-  a concepo de todos os homens sensatos e tambm de todas as mulheres sensatas. Experimenta... que vais gostar! Casamos j e eu aposto - e estou a apostar toda a minha vida, Leslie - que quando vires o que  ser casada comigo, no

vais querer outra coisa!

A HERDEIRA                              39

Ests a apostar a tua vida - disse ela -, mas eu no estou disposta a jogar com a minha. E agora vou mesmo embora, Joel, por isso, a no ser que queiras uma cena, o melhor  deixares-me ir.

O empregado trouxe a conta e ele assinou o talo sem olhar.
- No, Les. Temos que resolver esta questo. No podemos fugir dela...

Ela disse friamente:
- Agora ests a repetir-te.
- E continuarei a faz-lo. Sou um homem teimoso e sei aquilo que quero e, mais cedo ou mais tarde, tu acabars por ceder... - Inclinou-se para lhe encher o copo com o resto do vinho.

- No quero mais, Joel. - Ela empurrou-lhe a mo agarrando o gargalo da garrafa, mas ele riu-se e deitou vinho no copo.

- J alguma vez te ocorreu que se calhar eu sei melhor o que tu queres do que tu prpria? - Os dedos dele tocaram-na sugestivamente, invocando uma recordao ntima. - Ns s nos metemos em complicaes quando falamos, Les. Vem para casa comigo e resolvemos isto da nica maneira que um homem e uma mulher resolvem realmente as coisas... na cama. -A mo dele apertou as suas, a respirao dele tocava-lhe o rosto e ela sentiu ternura e amor, apesar da exasperao que sentia. Sentia o corpo quente e como que a derreter-se.

Se eu for para casa com ele, vai conseguir convencer-me

seja do quefor Veio-lhe  memria uma imagem dos dois a fazerem amor, um arrepio percorreu-lhe o corpo quando se recordou do rosto dele sobre o seu... como poderia desistir de tudo aquilo?
O que quer que fosse que ele pedisse, no valeria a pena?

E  assim que metade dos meus clientes se metem nas situa~ es impossveis de que inefalam todos os dias, pensando com as glndulas e com as hormonas em vez de o fazerem com crebro. Comeou a puxar a mo; ele cerrou o punho com fora no seu pulso. No a ia deixar ir embora. Ele ainda estava a segurar no copo de vinho com a outra mo e Leslie viu, chocada, que o

copo de vinho se soltava dos dedos dele, se erguia e lanava todo o contedo nos olhos dele. Tossiu e engasgou-se, soltando-lhe a

mo e agarrando num guardanapo para limpar a cara do lquido cido.

- Raios! Como  que isto aconteceu? - Enxugou-se, esfregando o colarinho da camisa e a gravata ensopada. Ela ps-se

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de p com dificuldade, no conseguindo acreditar naquilo que vira.

- No era preciso atirares-me com o vinho  cara, Leslie! Meus Deus, a que ponto chegmos ns, para tu precisares de te debater para te soltares de mim?

Mas o copo estava na mo dele, no na minha. Eu no tinha as mos perto do copo, sequer Se calhar consegui tirar-lhe o

copo da mo e atir-lo  cara dele. Estava a bater os dentes e tudo o que via perante os seus olhos era um cinzeiro, fora do alcance de Eileen, voar pelos ares e feri-Ia a ponto de fazer sangue. O empregado estava ao p da mesa, solcito, dando guardanapos limpos a Joel e pedindo desculpas - de qu, Leslie no fazia ideia. Ele grunhiu e empurrou o empregado.

- Foi um acidente Joel, desculpa - disse ela ouvindo o bater dos seus prprios dentes. - No foi minha inten o. A tua gravata est estragada?

A mo dele no brao dela tinha novamente um toque possessivo enquanto se encaminhavam para o carro, mas a atmosfera romntica tinha desaparecido e ambos se aperceberam disso.

-  melhor eu levar-te a casa - disse ele. - Pobrezinha, ests com um ar exausto.  desse teu trabalho com tantos malucos e ainda por cima teres que andar  procura de casa. No, no te preocupes com a gravata, foi a minha tia quem ma deu e eu sempre a detestei. Fico satisfeito por me ver livre dela. Posso pr a camisa de molho em gua e sal, isso deve fazer sair a ndoa.

Era o tipo de pessoa que sabia aquele gnero de coisas. Era tudo parte do modo de vida antiquado que para ele tinha tanta importncia. Ela sentiu um arrepio na espinha ao lembrar-se do copo a voar-lhe da mo. Ele estava a modificar a realidade. A mo dela no estivera ao p do copo. Ela no lhe tocara, sabia que no lhe tocara. Tambm no tocara no cinzeiro.

No fora ento a Eileen. No fora a Eileen, tinha sido ela prpri a.

- Leva-me para casa, Joel. Eu... parece-me que estou a

chocar alguma.

Estou a chocar uma grave crise de poltergeist. E o que  que eufao agora? Telefono a um psiclogo? Eu sou psicloga! Deixou que ele a ajudasse a entrar no carro e a levasse a casa.

Quando o despertador tocou, s sete da manh, Leslie gemeu e escondeu a cabea debaixo dos cobertores. Ouvira o relgio dar as trs e as quatro horas e sentia os olhos a arder, como se

A HERDEIRA                             41

no tivesse dormido a noite inteira. No entanto tivera pesadelos horrveis, em que as roupas da cama deslizavam de cima dela como se fossem rpteis e se enrolavam em torno de Joel que, apesar de se debater, acabava estrangulado. A sua vontade era esconder-se debaixo dos cobertores e no vir  superfcie durante o resto do dia.

Um duche quente devolveu-lhe a sensao de alguma norma~

lidade, pelo menos exteriormente. Enfiou uma saia e uma camisola e desceu as escadas para fazer caf.

Habitualmente, por prudncia, no se permitia beber mais do que uma chvena, visto ainda no haver muitas certezas acerca dos efeitos da cafena, mas naquela manh bebeu um segundo caf e j ia a meio do terceiro quando o telefone tocou. Atendeu a extenso amarela que havia no trio e ouviu o sinal com um sentimento de frustrao e ira. Era s o que lhe faltava, o telefone avariado. Mas quando desligou e voltou a pegar no auscultador, o sinal estava normal; ligou para o servio meteorolgico s para ter a certeza de que a linha funcionava. O tempo estava hmido e previa-se mais chuva; as chuvas da Primavera estavam a durar mais do que o habitual. L fora, o tempo estava muito nublado e

havia nevoeiro. Em So Francisco devia estar ainda pior. Querena mesmo viver na cidade do mundo que mais nevoeiro tinha?

Pela forma como as coisas estavam a correr com os agentes imobilirios, era bem capaz de nunca vir a ter essa oportunidade. Procurou uma fatia de po para pr na torradeira. S encontrou um po escuro, com um ar horrivelmente slido, cujo invlucro proclamava ter sido confeccionado com nove tipos diferentes de cereais integrais e grmen de trigo. Quando ps uma fatia na torradeira o odor que se soltou era o do grmen de trigo. Emily voltara a fazer compras. Cheirando o po com desagrado perguntou a Emily que entrava nesse momento na cozinha:

- Em, no temos nenhum po verdadeiro? Os grandes olhos azuis de Emil)@ abriram-se de incredulidade.
- O que  que tem este po? E, de todos os pes existentes no mercado, aquele que tem uma melhor relao entre protenas e hidratos de carbono, alm disso no leva farinha refinada nem

acar. Absolutamente nenhum.

- Disso tenho a certeza absoluta - disse Leslie sombriamente. - Cheira exactamente a isso. - Suspirando, foi buscar a manteiga.

- Esse  um novo tipo de margarina fabricada s com

gorduras polinsaturadas - disse-lhe Eml"ly, ao mesmo tempo

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que dava uma dentada no po e obtinha a prova das palavras da irm.

- Estamos assim to falidas que no possamos comprar manteiga, Emmy?

- No, mas li uns estudos sobre as gorduras animais saturadas e achei que isto seria mais saudvel. Que  que foi? No gostas?

O po escuro integral no era mau de todo depois de a pessoa se habituar  densidade. Fosse como fosse, nada lhe saberia bem naquela manh. Emily ps a chaleira ao lume e comeou a

remexer na lata onde guardava uma dzia de tisanas diferentes. Nunca bebia nem ch nem caf e, ao ver a pele perfeita e o

cabelo brilhante de Emily, Leslie teve que admitir que, quaisquer que fossem as regras alimentares que a irm seguia, pareciam estar a dar resultado. Ps uma fatia de po integral na torradeira. A tisana cheirava ligeiramente a limo, mas tinha o aspecto de um

elixir dental ou de um refrigerante de framboesa. Leslie olhou para a tisana e estremeceu. Emily lanou-se cheia de entusiasmo

a uma embalagem de queijo fresco.

- Queres queijo, Les? Leslie no queria, mas naquela manh no lhe estava a apetecer ouvir um sermo acerca da necessidade de ter uma alimentao rica em protenas. Deixou que Emily lhe pusesse um bocado no prato. O que teria acontecido aos bons velhos tempos em que os adolescentes s comiam pizzas e hamburgers e s bebiam Colas?

- Quem  que telefonou? - perguntou Emily, com a

boca cheia de po integral torrado e Leslie sorriu. Pelo menos aquilo era previsvel.

- Ningum. Ou foi um curto-circuito qualquer do sistema ou ento foi um nmero errado e desligaram antes de eu ter atendido.

Emil y estava de p junto ao lava-loia com as mos cheias de vitaminas e levedura de cerveja.

- No estava ningum do outro lado? Se calhar era melhor mandarmos ver se o telefone est a funcionar bem - disse. Voltou a tocar um par de vezes ontem  noite e no havia ningum na linha. Pelo menos no era o tipo dos telefonemas esquisitos. Divertiste-te com o Joel, ontem  noite? - Engoliu uma mo cheia de vitaminas. Leslie teve conscincia de que deveria estar grata por a irm ser viciada em vitaminas e no em excitantes e tranquilizantes. Ou em erva, como a Juanita Garca. A Juanita tinha exactamente a idade de Emily e as raparigas conheciam-se, embora se movessem em mundos diferentes.

A HERDEIRA                            43

Eu e o Joel tivemos uma grande discusso - disse e deitou no lixo o resto do po integral torrado. Emily j estava no

trio a pegar no impermevel e a verificar os livros que tinha dentro da mochila.

- Tenho Histria da Msica s nove. O atrasado mental que nos d as aulas passa o tempo a mandar bocas sobre o perodo romntico. Como se o MahIer fosse uma doena social ou coisa

do gnero. Juro que ele acha que a msica acabou imediatamente antes de o Beethoven ter comeado a compor. Passmos trs dias, trs dias, a falar de Searlatti, de Alessandro Scarlatti, antes de chegarmos sequer ao Domenico Scariatti. E depois fez-nos ir estudar uma data de peras estpidas do Bononcini porque, segundo ele, a nica razo do Handel ser mais famoso do que o Bononcini era uma razo poltica. Parece que o rei George iii, ou algum do gnero, tinha um fraquinho pelo Handel e essa  a nica razo de o Bononcini n o ter a msica dele no Met. E diz que os compositores romnticos escreviam da forma como escreviam por sofrerem de tuberculose ou de sfilis.  verdade, Leslie?

- Quem  que sofria de qu?
- Os compositores romnticos -- os do sculo dezanove tinham todos doenas horrveis?

- Bem, nessa altura havia realmente muita tuberculose disse Leslie com uma vaga memria de pinturas do sculo xix, retratando jovens compositores consumidos pela tuberculose. Emily voltara para a cozinha e estava a encher um copo com sumo de laranja.

- Diz-me, Les, se eles eram pouco saudveis, querer isso dizer que a msica deles tinha que ser pouco saudvel? Ou mrbida?

Leslie supunha que aquilo teria um fundo de verdade, mas no conseguia perceber o que  que isso interessava. Disse:

- Suponho que dever depender da msica. Um corpo saudvel  certamente capaz de fazer coisas bastante mrbidas e pouco saudveis... Estou a pensar num rapaz que entrou num dormitno de uma faculdade e assassinou nove ou dez estudantes de enferinagem. Parece que ele era um espcime fsico de primeira qualidade, mas funcionando o seu esprito da forma como funcionava, tenho a certeza de que se ele tivesse escrito msica essa teria sido inuitissimo doentia. E isso apesar do seu corpo saudvel.

- No tenho assim tanta certeza - disse Emily. - Olha para o Charles Manson. Quero dizer, ele era suposto ser um msico e olha para ele.

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Olha tu para ele - disse Leslie. - Eu no quero saber disso para nada. No estou a discutir as tuas teorias, elas so tuas. D-me sumo de laranja, est bem?

- A teoria no  minha,  do doutor Whittingthon. Como  que um homem como ele chega a professor catedrtico de msica? - Emily inclinou-se com o jarro de sumo na mo para encher o copo que Leslie lhe estendia. Quando se virou fez com que o seu copo casse dentro do lava-loia com um enorme

estrondo de vidros partidos. Leslie gritou, agarrando com fora o copo que tinha na mo.

- Raios! - Emily pousou o jarro em cima da mesa com fora. Leslie afastou-se para uma distncia segura. Emily estava a apanhar os bocados de vidro que tinham cado para dentro do lava-loias e, como era previsvel, ficou com um dedo a escorrer sangue. Leslie teve que ir a correr buscar um penso rpido pelo menos o corte no era muito profundo - e Emily, cerrando os dentes e praguejando numa linguagem que Leslie nem sequer na idade dela usara, gritou que tinha que se ir embora ou perderia o autocarro. Leslie, apanhando os pedaos de vidro com a maior cautela - com um pano da loia a envolver-lhe as mos - ainda estava a tremer. Disse a si prpria que vira o cotovelo de Emily roar no copo, mas apesar disso continuou a tremer.

Sozinha em casa, com o bater do corao a voltar lentamente  normalidade, Leslie acabou o caf (quatro chvenas, ralhou consigo prpria), chamou o servio de atendimento e cancelou todas as consultas marcadas para aquele dia.

Se sou eu o poltergeist, que bem  que lhe posso fazer?
O pouco que sabia acerca do assunto era que os poltergeist costumavam aparecer em torno de raparigas histricas prestes a

serem menstruadas. Mas no havia ali nenhuma rapariguinha histrica, s ela prpria.

Estarei histrica? Terei eu libertado todo o meu ressentimento acumulado contra o Joel? Perguntou-se quantas mulheres teriam sido coagidas pelos seus psiquiatras a aceitar aquele tipo de acordo com os maridos ou com os amantes - mesmo nos seus primeiros anos de estudo em Psicologia os defensores da adaptao-mental tinham insistido que as mulheres - emocionalmente saudveis - no competiam com os homens e encaravam como - tarefas emocionais - primordiais femininas a

preparao para um casamento heterossexual saudvel. O movimento feminista tinha, pelo menos, acabado com esse tipo de

A HERDEIRA                              45

teorias e no entanto.... no entanto... estaria o seu subconsciente a passar a mensagem de que o que ela realmente queria era ceder, casar com Joel e abdicar do seu trabalho e da sua independncia?

Isso era um disparate. Se fosse isso o que ela realmente queria porque  que no concordava com Joel? Era mais provvel que o seu subconsciente estivesse a travar uma batalha muitssimo saudvel para impedir que Joel ganhasse. Amaldioou o

telefone quando este tocou novamente.

- Doutora Barnes? Penso que temos a casa ideal para si. Foi posta  venda esta manh.  num bairro muito calmo, a poucos quarteires do Haight e com o tamanho que a senhora queria. Pode vir v-Ia j?

Se no tivesse cancelado as consultas daquele dia no teria recebido o telefonema at ter ligado para o servio de atendimento, l para o meio-dia.

- s onze, est bem? Quando o nevoeiro levantou ficou um daqueles dias perfeitos em que So Francisco se redime dos mais de trezentos dias por ano em que est envolto em nevoeiro denso e chuva cerrada. Ao atravessar a ponte, o mar e o cu reflectiam-se no azul um do outro. Tinha dado o desconto para o caso de apanhar muito trnsito ao atravessar a ponte, mas havia pouco movimento e fez o percurso rapidamente, chegando a Haight meia hora antes do combinado.

O antigo reduto de hippies e ascetas tinha desaparecido, dando lugar, no final dos anos sessenta, aos ciganos e traficantes de droga. O bairro decara e ficara repleto de casas degradadas e, s agora, entrava num novo ciclo que algum apelidara de nobilitao. Os edifcios degradados e as velhas casas vitorianas cor de gengibre e em decadncia acelerada, estavam a ser comprados a bom preo, restaurados, pintados e comprados por gente com posses. Enquanto olhava para as casas recentemente pintadas com cores alegres - gostou especialmente de uma pintada em azul Wedgewood, com os enfeites de madeira esculpida realados em cor de marfim - pensou que teria sido uma tragdia se aquelas casas tivessem cado em runas. Fosse o que fosse que contribua para a preservao daqueles belos edifcios antigos tinha que ter, em si, algo de positivo.

Havia uma loja de materiais de pintura com pincis e telas em exposio e vrias pequenas livrarias estavam a abrir as portas, com tabuleiros de livros em saldo com letreiros que anunciavam trs livros por um dlar e outros qt@e diziam: QUALQUER LIVRO NESTA PRATELEIRA, 50 CENTIMOS.

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Leslie olhou para um dos tabuleiros para passar o tempo. Eram livros de aspecto sinistro sobre discos voadores e o Tringulo das Bermudas, outros que proclamavam desastres que acompanhariam a passagem do cometa Kahoutec. Leslie folheou o livro distraidamente. O autor identificava o cometa com uma passagem qualquer do Livro das Revelaes que anunciava o fim do mundo. Recordava-se que o cometa Kahoutec passara, sem que nada de nota se registasse, no fim dos anos setenta. No era para admirar que o livro tivesse acabado no tabuleiro dos cinquenta cntimos. Um dos professores que acompanhara o seu estgio chamava  quele tipo de coisa psicocerniica.

Ao pr o livro no lugar reparou num outro livro de bolso, em no muito bom estado: Os Incrveis Poltergeist. Piscando os

olhos, folheou o livro. Apesar da capa horrvel, o nome do autor era precedido por um ttulo muito respeitvel, conferido por uma no menos respeitvel universidade e tratava-se, ou pelo menos era o que dizia a contracapa, de um psiclogo clnico que j encontrara vrios poltergeist na sua vida profissional. Que tinha ela a perder em troca de cinquenta cntimos? Levou o livro para o interior da loja.

Era evidente que tudo aquilo podia no passar de lixo sensacionalista.

A mulher que estava por trs do balco era franziria, plida e de meia-idade, mas tinha uns olhos extraordinrios. Leslie teve a sensao desconcertante de que a mulher pressentia o desprezo que ela sentia pelo livro s por ver a forma como o segurava. A mulher aceitou as moedas que Leslie lhe estendia e disse:

- Esse no  um mau livro. Interessa-se especialmente pelo fenmeno dos poltergeist?

Subitamente, Leslie lembrou-se da sua prpria imagem estampada nas pginas centrais do Enquirer. -ASSASSINO DA TRANA APANHADO POR MDIUM! - Num local como aquele as pessoas certamente que acreditavam nesse tipo de coisa. Em cima do balco estava um livro intitulado Autodefesa Psquica. Ficou com pele de galinha ao pensar que podia ser reconhecida por causa da histria no jornal. Disse friamente:

- No sei muito deste assunto. O livro ... hirim... de confiana?

A mulher tinha um sorriso simptico.
- Neste momento no temos a monografia de Margave e

Anstey e este - apontou para o Autodefesa Psquica - j tem cinquenta anos, embora tenha sido escrito com muito bom sen-

A HERDEIRA                             47

so. Tenho o Na Senda dos Poltergeist do Nandor Fodor, se estiver interessada em desbravar o paleio de tipo psicanaltico.

Leslie conhecia o nome de Nandor Fodor, era um dos autores clssicos da Psicologia e certamente que no podia ser rotulado de sensacionalista ou de tarado.

- Levo esse - disse e meteu a mo na carteira. Enquanto a mulher foi  procura do livro, passou os olhos pelas prateleiras, sentindo-se pouco  vontade. Feitiaria: O Seu Poder no Mundo de Hoje de Margaret Murray. Viu outro livro intitulado Rituais Sazonais Ocultos e um outro com o ttulo Magia: O Ritual.
O Poder e o Objectivo. Havia ainda um livro com o ttulo Ocultisnio Sensato, o que pareceu a Leslie ser uma contradio entre os teri-nos. Na prateleira ao lado estavam as obras de Carl Ransom Rogers, cujo trabalho ela conhecia e admirava, havia outra prateleira com as obras de Abraham Maslow e clssicos como o Diferentes Experincias Religiosas de James, empilhados ao lado de Sat Fala de Jane Roberts. Havia tambm uns quantos livros sobre o desaparecimento da Atlntida e uma quantidade enorme

de exemplares de um livro de capa azul intitulado Atraindo a

Lua. Na capa, uma rapariga envolta numa longa tnica empunhava uma espada e parecia estar a desenvolver uma espcie de ritual.

A mulher voltou com um exemplar em mau estado do livro de Nandor Fodor enquanto Leslie folheava um livro intitulado Vinte Casos que Sugereni a Reencarnao, escrito por um psiclogo cuja reputao profissional ela sabia ser boa. Seria possvel que ele acreditasse naquilo tudo? Havia quem acreditasse, pois a prateleira dedicada  reencarnao estava cheia de livros. A mulher usava um pequeno crculo de prata pendurado ao pescoo no interior do qual estava inscrita um estrela de cinco pontas. Seria um pentagrama? Tinha lido qualquer coisa sobre a

existncia de cultos ligados  bruxaria e at mesmo de um ligado a Sat, em So Francisco. O pentagrama no era o smbolo dos cultos de bruxaria? Bem, Fodor era um psiclogo conceituado, no era nenhum maluquinho do oculto. Pagou o livro e saiu apressadamente. Em Sacramento no se teria atrevido a ser vista na Livraria dos Antigos Mistrios. Na montra viu um livro intitulado Aventuras de um Detective Psquico. O livro era prefaciado por algum ligado ao Departamento de Polcia de Los Angeles. Fora o que o Enquirer lhe chamara, "Detective Psquica". Recebera todo o tipo de telefonemas esquisitos, de pais de crianas desaparecidas e de mulheres de maridos desaparecidos e no houvera nada que ela pudesse fazer por essas pessoas.

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Quanto  mulher da loja, quem pensara ela que era, para falar naquele tom condescendente em "paleio psicanaltico"? Passou os olhos pelas pginas de um dos captulos do Baltmore Poltergeist, em que Fodor explicava solenemente que "Por duas vezes no ano anterior as bolas decorativas da rvore de Natal tinham explodido sem razo aparente; pensei que ele devia ter razes de queixa muito fortes contra o Natal". O psicanalista contnuava a explicar que o Natal  um smbolo do nascimento e que o trauma do parto do rapaz estava a ser purgado pelo poltergeist.

Trauma do parto! Aquele velho disparate freudiano! Continuou a ler. O poltergeist de Baltimore era, ao que parecia, um rapaz dotado e criativo, e o psicanalista tinha conseguido exorczar o poltergeist convencendo a av do rapaz a deix-lo escrever e a editar uma revista amadora, libertando assim o "gnio" criativo que se encontrava bloqueado e que tinha sido, supostamente, o que provocara o aparecimento do poltergeist.

O que no oferecia qualquer ajuda, nem para a situao de Eileen nem para a sua. Se o pai de Eileen encorajava alguma coisa era a criatividade da filha, talvez at de mais, pois o que Eileen queria era liberdade para ser uma adolescente normal. Quanto a ela prpria no era frustrada, nem na sua criatividade, nem na sua sexualidade. Tinha um trabalho de que gostava, estava a ganhar dinheiro com ele, tinha um amante e at uma irm mais nova que satisfazia os impulsos maternais que ocasionalmente pudesse sentir.

Fodor, como era evidente e provvel, teria feito um diagnstco baseado na velha gria freudiana: inveja do pnis, a necessidade feminina de submisso sexual, rejeio de um papel feminino adequado. Paleio psicanaltico era, afinal, o teri-no adequado. Deveria ela negar todas as suas necessidades conscientes, violentar o seu eu consciente e casar com Joel imediatamente, por forma a aplacar um subconsciente supostamente violento?

Nem pensar, disse para consigo, utilizando uma das frases preferidas de Emily e, atirando os dois livros para dentro da pasta, dirigiu-se para a esquina onde tinha combinado encontrar-se com o agente imobilirio.

Uma ruazinha subia em torno de um jardim em que Leslie nunca reparara e, rapidamente, ficou perdida num labirinto de ruas secundrias, veredas e becos sem sada. O agente parou o carro em frente de uma casa castanha com duas janelas salientes de cada um dos lados da porta recuada e acenou-lhe. Leslie saiu do carro e subiu pelo caminho de lajes.

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A porta, os degraus e a madeira trabalhada estavam em to bom estado que pareciam ter sido pintadas na vspera, embora a casa datasse, provavelmente, de antes do terramoto de So Francisco. L dentro, a bandeira da porta, em arco, projectava a luz nas paredes do trio pintadas com tinta cor de marfim. De cada um dos lados do trio, portas brancas e largas conduziam a um par de salas separadas por portas de vidro. Entrou nas salas da direita e visualizou imediatamente o piano de cauda e a harpa de Emily; harpa essa que continuava guardada num armazm. Para l da janela via-se uma profuso de verde. De cada um dos lados do trio havia salas idnticas, estendendo-se a todo o comprimento da casa.

- A Miss Margrave mandou pr estas salas  prova de som - disse o agente. - Pensei imediatamente de que gostaria destas salas para o seu consultrio, doutora Barnes.

Um candeeiro Tiffany de vrias cores estava pendurado no

centro da sala maior, na parte da frente da casa. Para l das portas de vidro havia uma sala mais pequena com uma grande janela virada para as traseiras. O papel de parede antiquado, s riscas brancas e douradas, era demasiado novo para ser o original da casa, mas a sua elegncia formal lembrava uma outra era. Seria talvez demasiado formal para clientes perturbados?

- Daqui tem-se uma bela vista - comentou o agente. Leslie olhou para a cidade atravs da janela. A cidade, distante, desvanecia-se no azul, estendendo-se at  Golden Gate que,

com a sua curva graciosa, alcanava o cu e o mar. Atrs de si a sala parecia um poo de silncio e paz. Certamente que esta paisagem s por si j traria paz aos espritos mais perturbados. Sentia-se em

comunho com a natureza e com a cidade, com o cu e com o mar.

Tentou no entanto parecer indiferente, no querendo que a

paisagem inflacionasse, em milhares, o preo da casa.

- Nos dias de sol vai ter luz de mais, vou ter que pr aqui uma cortina - disse. - E, seja como for, certamente que vo construir dezenas de arranha-cus l em baixo nos prximos dez anos e, a, l desaparece a paisagem. Quero ver a cozinha. Se vamos ter que usar estas salas para consultrio, e as do outro lado do trio como salas de msica, teremos de usar a cozinha para comer e at mesmo para receber os amigos.

Mas a cozinha, enorme pelos padres vitorianos, tinha espao suficiente para comer, para a mquina de lavar, para um secador e ainda para meia dzia de crianas a correr pelos cantos. Sofrera uma grande remodelao, tinha luzes fluorescentes, um fogo e um frigorfico modernos.

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A cozinha dava para um jardim de dimenses razoveis. Embora estivesse cheio de ervas e com um ar descuidado, soltava um odor muito agradvel no ar hmido. Contra o muro das traseiras havia um limoeiro, com os ramos escuros abrigando as

flores brancas e os frutos amarelos, que libertava um cheiro agradvel e dava uma boa sombra.

O jardim sente-se solitrio. Quer que eu o arranje. Leslie teve a sensao, forte, de que chegara a casa. Esta era a sua casa. Um gato branco saltou de cima do muro das traseiras e desapareceu por baixo dos arbustos de rcino.

- O preo da casa inclui o gato?
- Gato? No vi gato nenhum. Deve ser de algum dos vizinhos - disse o homem. Mas o gato parecia sentir-se perfeitamente em casa. Leslie sempre quisera ter um gato. A casa era perfeita e devia custar quatro vezes mais do que aquilo que ela podia pagar.

- E aqui  uma garagem que foi remodelada para apartamento, com entrada independente e casa de banho - disse o agente. - Podia us-la para escritrio, foi remodelada para ser

o atelier de um artista, penso eu.

Talvez a Emily gostasse de ter um apartamento independente, embora ela tivesse imaginado a sala de msica nas salas ligadas por portas de vidro. Oh, Oh, pensou, eu sabia que devia haver um defeito qualquer e aqui est ele. Apesar das trs grandes janelas que tinham sido abertas na parede das traseiras da garagem, esta era escura e deprimente, ensombrada do lado do jardim por uma hera enorme que soltava um cheiro enjoativo. Embora todas as divises da casa estivessem resplandecentes de limpeza, o agente franziu o sobrolho quando acendeu a luz da garagem. No meio da sala estava uma roda de oleiro, coberta com os restos viscosos de barro hmido e uma caneca, da qual saa um lquido descolorado, fora largada em cima do barro. Leslie estremeceu com repugnncia. A sala era escura e hmida e destituda de qualquer charme. A luz branca da lmpada fluorescente, que dava alegria e um toque moderno  cozinha, dava quela sala tanto charme como o de um armazm abandonado. A pequena lareira no contribua em nada para alegrar o ambiente, de tal forma estava cheia de cinzas e lixo.

Bah,  o stio ideal para a festa da Noite das Bruxas! Gelam-se os amigos e aterrorizam-se ao mesmo tempo! Depois Leslie aconselhou-se a si prpria a no fazer julgamentos precipitados. Com uma boa pintura e uma moblia alegre, faziam-se maravi-

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lhas. Isso e um bom corte na hera, ou l o que era aquilo, que cobria a janela que dava para o jardim. Virou as costas  sala, sentindo um arrepio e inspeccionou a casa de banho com desagrado - estava razoavelmente limpa, mas cheirava a fechado e a esgotos, como se os canos tivessem um problema qualquer e

o escoamento no se estivesse a fazer em condies.

- Ns mandamos limpar isto tudo, como  evidente desculpou-se o agente, conduzindo-a novamente para a casa e levando-a at ao primeiro andar. As escadas eram de madeira e a balaustrada era de uma madeira escura e brilhante. Havia um espelho no patamar.

Sim, esta  a minha casa. Regressei a casa. Agora vai-te embora e deixa-me sozinha, pensou, mas inspeccionou obedientemente todos os roupeiros, a casa de banho do trio do andar de cima, o pequeno quarto que daria um bom quarto de hspedes
- o agente imobilirio chamou~lhe o quarto da criada -, o espaoso quarto principal que dava para a mesma paisagem de mar e cu do escritrio no andar de baixo, e a casa de banho privativa, com azulejos delicados em tom de azul.

O agente imobilirio conduziu-a at ao outro lado do trio onde havia outro quarto espaoso cuja janela envidraada estava aberta, deixando entrar o cheiro a jasmim que se soltava do jardim. Ela inspirou com prazer e depois identificou o odor como sendo o mesmo que lhe parecera to doentio na garagem.

O agente imobilirio franziu o sobrolho.
- Como  que esta janela se abriu outra vez? Sero os malvados dos midos que trepam por aqui? - Fechou as vidraas e examinou o fecho. - Esta j no  a primeira vez que encontramos as janelas abertas!

Ela lembrou-se de fazer algumas perguntas que, enfeitiada pela casa, se esquecera de fazer.

- Como  que  a vizinhana? Tem midos problemticos? Gangs de adolescentes?

-   Oh, no. Estava a falar de midos pequenos... que gostam de trepar. Este foi o nico dano que j nos causaram... uma janela que no se mantm fechada. E capaz de estar a precisar de um novo fecho ou ento este tem que ser arranjado. Repare que todas as janelas do andar trreo tm grades, mesmo as janelas da garagem. Foram instaladas quando havia aqueles ciganos e drogados todos no Haight. Escute...  to silencioso este stio, a pessoa at se esquece de que est na cidade.

O silncio era tal que Leslie conseguia ouvir o rudo dos

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insectos e das abelhas que zumbiam no jardim bem cheiroso. Na casa arrendada onde vivia ouvia-se o barulho do trnsito, proveniente de uma rua prxima, durante vinte e quatro horas por dia. Aqui o rudo do trnsito no passava de um murmrio distante. Sentiu que tinha que comprar aquela casa nem que tivesse que gastar o seu ltimo tosto. Perguntou quanto custava, preparando-se para regatear durante toda a tarde por forma a conseguir um

preo ao seu alcance.

Ouviu o preo sem acreditar. Era mesmo um par de milhares de dlares mais barata do que aquilo que estivera disposta a

pagar pela pequena jia na Russian Hill... e esta casa era do dobro do tamanho e tinha um jardim, Evidentemente que o local no era to chique, e os preos das propriedades no Haight tinham descido nos anos em que o bairro estivera ao abandono, mas mesmo assim...

- Est cheia de trmitas e de caruncho? Vou ter que gastar mais cinquenta mil dlares para pr tudo de acordo com os regulamentos das edificaes urbanas?

- Tenho na pasta o relatrio de um arquitecto. Pode l-lo, l no escritrio. Podia mudar-se para c j amanh.

- Ento qual  o problema? - perguntou ela cheia de cepticismo.

- Para si nenhum, doutora Barnes. Querem vender a propriedade muito rapidamente... querem ver-se livres disto. A verdade  que a casa j foi vendida por trs vezes no ltimo ano e, de cada uma das vezes, a venda acabou por no se concretizar. A velhota a quem a casa pertencia morreu subitamente. Viveu aqui durante cinquenta anos, no tinha filhos, e quem herdou a

propriedade foram uns primos distantes do Nebraska ou do Dakota do Sul. Puseram a casa  venda e uma s rie de coincidncias nfelizes... Eu acho que eles esto convencidos de que a casa d azar e por isso baixaram o preo. Primeiro foi um casal idoso que comprou a casa e, no prprio dia da escritura, o velhote morreu de repente e a viva achou que no seria capaz de aqui viver sozinha. Depois foi uma famlia que a comprou, mas um ms depois... o homem hesitou. - A me dessa famlia... bem, cometeu suicdo e eles desistiram do dinheiro da entrada e da primeira prestao da hipoteca e a casa voltou para as mos dos proprietrios.

Sem saber porqu, ela pensou que a mulher cometera o suicdio no estdio hmido, uma sala assombrada se  que alguma vez sentira uma assombrao. Leslie lembrou com firmeza a si prpria que no deveria ser supersticiosa.

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- Falou em trs vezes...
- A mulher mudou de ideias. Viveu na casa durante um ms e depois fez a mesma coisa. Perdeu o pagamento inicial e, um belo dia, foi-se embora. Foi a tralha dela que viu no estdio. Por isso os proprietrios j tiveram alguns lucros inesperados e

agora querem ver-se livres da casa!

Leslie pensou seriamente no assunto. Algumas casas tinham de facto uma atmosfera que tornava difcil s pessoas sensveis l viverem. E, at  data, o lugar parecia azarado. Quereria ela ter uma casa com uma histria daquelas?

- A velhota que era dona da casa, morreu aqui?
O agente hesitou. Era evidente que no queria contar-lhe aquilo. _   Morreu - adivinhou Leslie e ele, relutantemente, acenou ligeiramente com a cabea.

- Foi assassinada na cama, ou coisa do gnero? Conte-me ou eu ponho-me a imaginar o pior.

- Oh no, nada desse gnero. Caiu do banco do piano, no andar de baixo, e ficou ali moita, com o crnio fracturado, durante um par de dias. A polcia investigou, chegou mesmo a interrogar alguns dos seus amigos. Mas acabaram por concluir que foi um acidente. Uma senhora daquela idade no deveria viver sozinha - acrescentou ele com indignao sincera.

No admirava que os proprietrios, l longe, achassem que a casa dava azar! Uma morte misteriosa e a suspeita de um homicdio, uma segunda morte, um suicdio e um desaparecimento... se calhar pensavam que tinham entre mos um segundo Pesadelo em Amityville! A ideia f-la sorrir. O prejuzo deles era o seu lucro. Compr-la-ia imediatamente, antes que eles recuperassem a razo e descobrissem o preo que uma casa daquelas poderia atingir!

- Dou-lhe o sinal hoje - disse ela. - Dependendo do relatrio do arquitecto... fico com ela. - Sabia que as afirmaes tranquilizantes de um agente imobilirio tinham tanto valor legal como as de um vendedor de carros em segunda mo, e queria ter uma garantia escrita de que a casa era slida.

Novamente no andar trreo, na sala que j baptizara de sala de msica, imaginou o piano e a harpa de Emily e pensou se a velhota que ali morrera teria o piano num dos cantos. Parecia- ~lhe que sim. Tivera que aceitar o facto de ser mdium. Mas aquilo que sentia naquele momento no era a experincia aterradora que tivera quando vira a Juanita Garca, ensanguentada e

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violentada, debaixo de gua num canal de rega. O que sentia ali era um murmrio quase inaudvel, quase musical. Uma presena benevolente. Uma velha senhora, pronta para morrer, atingida subitamente por urna trombose ou por um ataque cardaco enquanto tocava o instrumento que amava. Certamente a morte desejada por qualquer msico.

Mas mesmo assim, pensou, enquanto o agente lhe passava o recibo do sinal, que no contaria a Emily que a velha Mrs. - Como era o nome? Graves? No, Margrave, era esse o nome - cara do banco do piano e morrera na sala onde a irm colocaria o seu prprio piano.

Captulo trs

- Se  esse o preo, tem que haver qualquer coisa errada na casa - disse Emily. Mesmo depois de Leslie lhe contar a

srie de coincidncias azaradas que tinham conduzido s trs vendas abortadas, ela manteve-se cptica.

- Sabes, isso pode muito bem ser um esquema fraudulento. Essa gente do Nebraska. Se calhar vendem a casa e depois assustam as pessoas para elas se irem embora e eles ficarem com o dinheiro dos sinais e das entradas e poderem vender a casa novamente. Podem fazer muito dinheiro assim.

- Parece-me bem que falhaste a vocao, Emily. Devias escrever histrias policiais. Ganhavas um milho de dlares antes de teres vinte anos. Eu acho que ns estamos  com sorte. Riu-se e acrescentou que se aparecesse algum a tentar assust-Ias deixaria a cargo de Emily a tarefa de desmascarar os vigaristas. Depois explicou-lhe a sua teoria.

- Eles provavelmente acham que tm entre mos uma

espcie de Pesadelo em Amityville e querem livrar-se da casa

antes que a histria se espalhe.

Emily retorquiu asperamente que o incidente de Amityville fora desmascarado como um embuste e ningum, com dois dedos de testa, teria alguma vez acreditado naquela histria e

foi buscar uma embalagem de iogurte ao frigorfico. O telefone tocou e ela fez meno de ir atender, mas Leslie estava mais perto.

- Residncia da doutora Barnes.
- Estou a falar com Leslie Barnes? - perguntou uma voz desconhecida e Leslie respirou novamente, apercebendo-se de que estivera tensa,  espera de ouvir do outro lado o respirar pesado e desumano dos telefonemas annimos.

-  a prpria.

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Doutora Barnes, a senhora no me conhece, mas o sargento Beckenham da Polcia de Sacramento deu-me o seu

nome e endereo. Daqui fala o tenente Charles Passevoy do Departamento de Homicdios de Santa Brbara e temos um desaparecimento muito estranho aqui na cidade. Uma criana pequena. No se importaria de vir at aqui de avio e ver o que poderia fazer para a encontrar? Soubemos da forma como encontrou aquela rapariga, quando o Assassino da Trana andava a matar midas em Sacramento...

Leslie sentiu a garganta apertar-se de pnico. Estava a acontecer novamente. Raios partissem o Nick! Maldito fosse por dar o endereo dela, raios partissem o Enquirer que tinha tornado provvel que este tipo de coisa voltasse a acontecer uma e outra vez... Disse, com a voz embargada:

- Lamento, mas no posso. Por favor, no posso fazer nada desse tipo. No quero...

- Oia, doutora Bames - disse a voz grave e agradvel do outro lado da linha. - Eu percebo perfeitamente como se sente...

-   No pode sequer imaginar...
- Doutora, garanto-lhe que no vai haver reprteres nem

publicidade. Mas trata-se de uma menina, de sete anos, que desapareceu de um carro estacionado...

Leslie sentiu novamente a garganta apertada de horror. No queria saber. Perante os seus olhos formou-se a imagem de uma

menina com tranas e com falta de mais de um dente.  tudo imaginao, disse para consigo. O que ela estava a ver era a

imagem genrica de uma criana de sete anos. Phyffis.

a mae est aqui sentada no meu gabinete. No se

importa de falar com ela s um minuto? Estamos preparados para lhe pagar o bilhete de avio e as despesas da estada...

- No  uma questo de dinheiro - disse Lesfie. -  s que... eu no posso fazer esse tipo de coisa, tenho os meus doentes aqui, no posso ir-me embora...

Subitamente ouviu outra voz na linha, a voz de urna mulher, a chorar, quase incoerente.

- Doutora Barnes, escute-me. A minha menina. PhyIlis Anne. Ela s tinha... s tinha sete anos. Estava a comprar o bolo de anos dela quando desapareceu de dentro do meu carro, no parque de estacionamento. Entrei para ir buscar o bolo e ela desapareceu... Escute, venha at c e, se a encontrar, eu dou-lhe mil dlares... - Ouviu a mulher engolir em seco.

Leslie disse friamente:

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- No  dinheiro o que eu quero...
- Oh meu Deus, eu sei disso, no quis insult-la, juro-lhe, mas eu sei que eu prpria no poderia largar o meu trabalho assim, sem mais nem menos, pensei que isso pudesse ajud-la a decidir-se... - A mulher respirou fundo. - Ela  to pequenina... e esses loucos, esses loucos que h por a... se algum tarado sexual a encontra... - Parou subitamente como que paralisada e Leslie sentiu o horror dela vir at si pela linha telefnica. Falou rapidamente para fazer parar aquela sensao, no sabendo o que dizia at ouvir as suas prprias palavras.

- Ela no est morta. Est bem. Est com um homem. Quando ouviu o som horrorizado do outro lado da linha acrescentou: - Ela est a comer o bolo de anos neste momento. Est a chamar-lhe pap. -A outra mulher fez um som estranho, ao telefone, mas ela ouviu as palavras que agora lhe saam em catadupa.

-  o pai quem a tem. Ela est bem. Ele comprou-lhe um... um par de sapatos de cabedal vermelho...

Ouviu o suspiro de alvio da outra mulher.
- Ela implorou-me que eu lhos comprasse e eu disse que no eram prticos. Ela queria mesmo aqueles sapatos. Mas com o pai? O pai dela recusou a custdia, no a queria... nunca a raptaria...

- Bem, mas raptou - disse Leslie bruscamente. - Levou-a para outro estado. Procure-a em... - Hesitou, tentando visualizar uma imagem de deserto com areia e cactos, mas a mulher murmurou:

- Ele est a trabalhar em Phoenix... Havia uma sensao de certeza no nome da cidade, Leslie sentiu-a. Repetiu, - Phoenix.  onde ela est...

- Vou meter-me num avio esta noite - disse a mulher. Como posso agradecer-lhe?

- No diga nada a ningum - disse Leslie, sentindo a fraqueza inundar-lhe o corpo. Puxou uma cadeira com um p e

deixou-se cair sobre ela. - Prometa-me. No quero dinheiro nem quero nada, s quero que nunca conte a ningum...

No conseguia suportar a ideia de que tudo aquilo fosse recomear. No conseguia suportar a ideia da sua cara estampada nos tabIides e a ideia de ter lunticos a perseguirem-na por toda a parte. Telefonaria ao Nick e amea-lo-ia com processos em tribunal... mas o Nick era seu amigo, sabia como ela se sentia. Que podia ela fazer?

O tenente Passevoy voltou  linha. Disse calmamente:

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Vamos verificar tudo isto, doutora Barnes. Imediatamente. Posso voltar a telefonar-lhe?

Leslie respondeu, fora de si:
- No - e pousou o auscultador com estrondo. Cobriu a cara com as mos e Emily, que a estivera a observar, agarrada  embalagem de iogurte de que se esquecera completamente, murmurou:

- O que  que se passou? Viste... realmente, alguma coisa?
- Uma menina. Que tinha desaparecido. - Leslie sentiu que no suportava a ideia de que aquelas coisas atingissem Emily - Eu no queria dizer nada. A mulher... ofereceu-me dinheiro. - Enquanto pronunciava as palavras, Leslie teve a sensao de que a oferta a tinha poludo. - Mas ela estava... ela estava aterrorizada, com medo de que a menina tivesse sido violada, raptada por algum louco... no consegui aguentar, tive que a tranquilizar. Oh, meu Deus, Em e se agora eles a encontram morta ou coisa do gnero... eu vou querer morrer, como  que eu

vou saber... - A sensao de certeza, a necessidade de comunicar o que via, comeava a desvanecer-se e ela sentia-se insegura.

- Queres dizer que lhe disseste a primeira coisa que te veio  cabea para te veres livre dela? - Emily estava horrorizada e Leslie disse, distraidamente:

- No, no. Eu tinha a certeza do que estava a dizer, quando o estava a dizer, a certeza absoluta. Teria ido a tribunal e dito o mesmo sob juramento. S que agora est tudo enevoado outra vez...

Emily deu-lhe uma pancadinha ao de leve no ombro.
- Bem, se vais continuar a ter vises, ento acho que  melhor teres vises de coisas boas do que vises de coisas ms,  melhor ver qualquer coisa agradvel do que coisas horrveis. Talvez tambm tenhas tido sorte desta vez.

- Sorte! - Leslie voltou a cobrir o rosto com as mos.
- Eu fao-te um ch - ofereceu Emily. - Queres ch de valeriana?  um tranquilizante natural e  muito calmante, no te faz mal nenhum. H sculos que  usado para acalmar os nervos, Les.

- Vamos mas  esquecer este assunto, Errimie. Vou telefonar ao Nick para lhe dizer que se ele me faz outra destas pode esquecer que me conheceu.

- Queres que eu te arranje uma bebida? H uma garrafa de vinho no armrio. Ests mesmo um bocado plida, Leslie.

- No, eu estou bem.

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Estavas a falar-me da casa... Com alvio, Leslie agarrou a oportunidade para mudar        de assunto.

- Dei um bom sinal e vou poder dar de entrada mais          de metade do custo total, com o dinheiro que a av me deixou. Isso significa que vou ficar a pagar menos, mesmo com as taxas de juro altas como esto, do que estou a pagar de renda por esta casa. A casa tem uma sala grande onde podes pr o piano e podes tirar a harpa do armazm. A mulher que era a proprietria da casa tambm era msica. E a casa tem uma outra sala enorme,  prova de som, que eu posso usar para consultrio - continuou a contar enquanto preparava os vegetais para a salada. Emily agarrou numa cenoura pequena e comeou a ro-la. Leslie reparou que ela acabara de comer o iogurte. Pelo menos, apesar de toda a sua esquisitice com a comida, tinha o apetite normal de uma adolescente.

- No posso ficar com a sala  prova de som? Assim podia estudar mesmo quando tu tens clientes.

- Eu quero mesmo aquela sala para consultrio, Em. Apaixonei-me pela paisagem que se v da janela. Mas acaba por ser a mesma coisa... se o consultrio for  prova de som tu podes estudar em qualquer altura.

Emily inclinou a cabea e franziu o sobrolho.
- Porque razo uma velhota faria uma sala  prova de som?
- Talvez fosse crtica musical e gostasse de ouvir discos em alto som. Talvez fosse adepta das terapias que apelam ao primitivismo e usasse a sala para gritar em altos berros. Como  que queres que eu saiba?

- Bem, acho estranho - disse Emily sombriamente. As pessoas no costumam fazer salas  prova de som sem terem uma boa razo para isso.

Leslie riu-se enquanto tirava uma costeleta do frigorfico.
- Isso mais parece uma daquelas teorias da Nova Inglaterra segundo as quais se as pessoas correm as cortinas quando anoitece  porque esto a fazer alguma coisa de que se envergonham. Queres uma costeleta, Ern?

- Oli... no, obrigada. Fao uma tosta de queijo para mim. Como  que consegues comer bocados de um animal morto!

- Melhor morto do que vivo - disse Leslie placidamente. J tinham discutido aquele assunto anteriormente.

- A casa tem trs quartos no andar de cima. Um mais pequeno que podemos usar para quarto de hspedes e podes escolher

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um dos dois maiores. Queres ir at l para veres a casa hoje  noite? Podamos j estar de volta s dez horas.

- Gostava, mas no posso. Vou tocar com o coro no domingo e tenho que ensaiar. Porque  que no me vais buscar a seguir  aula de Histria da Msica, na sexta-feira, e vamos l nessa altura?

Leslie reviu mentalmente a agenda para sexta-feira. Tinha mais uma consulta com a Eileen Grantson e no tivera qualquer oportunidade de ler os livros sobre poltergeist. No que o livro de Fodor, com o seu paleio psicanaltico ultrapassado - paleio era mesmo o termo adequado - tivesse grande probabilidade de lhe ser til. E se ela prpria era o poltergeist, como poderia ser til a Eileen?

- Sexta-feira est bem - disse. - Mas s cinco tenho que estar de volta para receber um cliente, est bem?

Continuou a tagarelar sobre a casa enquanto a costeleta grelhava e Emily desmontava a mquina de fazer panquecas e virava as placas ao contrrio, por forma a improvisar uma

mquina de fazer tostas, preparando depois uma tosta de queijo, Engoliu um copo de leite e agarrou numa ma indo para a sala. Passados instantes Lesfie ouviu-a tocar uma srie de escalas e depois uns acordes pesados que lhe pareceram Liszt. Talvez devesse deixar Emly ficar com a sala  prova de som, afinal de contas.

Devia ir  procura dos livros sobre poltergeist, o livro de Fodor e do outro autor que, pelo menos, tinha credenciais de uma universidade respeitvel. Mas ficou sentada sem se mexer, a ouvir Emily tocar, sabendo que se sentia relutante em voltar a entrar no mundo desprovido de racionalidade que a fizera sair de Sacramento e que agora a forara a uma ruptura com Joel. Estaria o subconsciente dela a dizer-lhe., alto e bom som, que Joel no era homem para ela? Mas ia ter saudades dele.

Ouviu o telefone tocar e dirigu-se  extenso do trio, mas

ouviu o piano parar e percebeu que Emily j o atendera. Passados instantes a irm chamou-a.

 para ti, Leslie.  aquele polcia de Santa Brbara. Diz-lhe que no posso ir agora ao telefone - disse Leslic recuando lentamente para a cozinha. Emily disse ao polcia que ela no podia atender e depois escutou-o alguns momentos dizendo: - Oh, mas isso  ptimo! Les, escuta, encontraram a tal menina exactamente no stio onde tu disseste que ela estava.
- Estendeu-lhe o auscultador.

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Leslie agarrou-o. A voz do tenente Passevoy disse-lhe ao ouvido:

-   Queria que soubesse disto imediatamente, doutora Bames. Encontrmos a mida - a PhyIlis Ann Chaprnan - exactamente onde a senhora disse. Mandmos a polcia de Phoenix ir verificar o pai dela e, exactamente como a senhora tinha dito, l estava a mida a comer o bolo dos anos. O pai disse que tinha vindo c para saber se podia levar a menina a festejar o aniversrio e, quando a viu sozinha - o grande idiota - pensou que ia pregar um susto  mulher e disse, "Vamos fazer uma surpresa  mam". Disse que ia telefonar  ex-mulher pela manh. Nunca pensou que ela fosse to estpida que telefonasse  polcia. Pessoalmente acho que o tipo  um sdico, mas a mida est ptima. Falou com a me pelo telefone e o pai disse que a ia meter num avio para Santa Brbara amanh de manh. Por isso, que podemos ns fazer para alm de lhe dar um sermo sobre as regras da custdia das crianas e pedir com bons modos que no volte a repetir a gracinha?

Leslie recuperou a respirao. No se apercebera de que a

suspendera. No ouviu os agradecimentos repetidos nem os elogios do tenente Passevoy. S sabia que, passado algum tempo, estava toda encolhida na cadeira da cozinha, o telefone estava desligado e a Emily estava novamente a tocar Liszt na sala.

Estava novamente a tentar alcan-la, toda aquela loucura que a fizera sair de Sacramento. E se ela, uma mulher madura com um conhecimento perfeito das suas raivas e pontos fracos, se sentia aterrorizada, qual seria o efeito daquele tipo de coisa em

Eileen, uma adolescente de catorze anos emocionalmente perturbada?

O livro de Fodor no estava no escritrio. T-lo-ia deixado na sala? Emily continuava a arrancar acordes vibrantes do piano de cauda. Leslie escutou-a durante alguns instantes, pensando que a irm era mesmo boa. Evidentemente, que ela era tendenciosa no que respeitava  irm, mas ela tocava melhor do que a

maior parte dos pianistas que j ouvira em concertos. A rapariga tinha a cabea inclinada, como um passarinho pousado numa fonte, escutando uma frase musical que soava a gua corrente. Escutou e repetiu a frase, como se desenfiasse prolas de um colar e depois viu Leslie e olhou para ela, com ar de mrtir.

- Que foi agora?
- Deixei aqui um livro? Ou por acaso levaste-o? Nandor Fodor, Na Pista do Poltergeist...

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Emily olhou-a, sem qualquer expresso.
- E para que  que eu quereria o livro? Nem sabia que tinhas esse livro.

- Pronto, pensei que talvez o pudesse ter deixado aqui. Leslie saiu, ouvindo a mesma frase musical repetida uma e outra vez. Ser que ela me ouviu com ateno suficiente para saber o

que eu estava a dizer? Mas tinha sido um disparate perguntar-lhe. Excepto em caso de extrema necessidade para um trabalho da escola - e Emily era, na melhor das hipteses, uma estudante vulgar a no ser em msica e lnguas -, a in-n lia muito pouco, passando cada um dos seus momentos livres no estdio de bailado ou ao piano, e afirmava ser a leitura uma enorme perda de tempo. En-tily poderia ter reparado num livro se este estivesse em cima do teclado do piano. Ou, talvez, se o pisasse.

Enervada, voltou a procurar dentro da pasta. Depois apercebeu-se de que, depois do telefonema de Santa Brbara, a ltima coisa que lhe apetecia era ler sobre poltergeist.

Sentou-se no trio e ficou a ouvir Emily a estudar. O telefone voltou a tocar e ela agarrou-o rapidamente.

- Fala Leslie Barnes.
- Alison, s tu? Leslie franziu o sobrolho.
- Qual  o nmero que quer marcar? Aqui no h nenhuma Alison - disse e desligou o telefone. Este voltou a tocar imediatamente, mas desta vez no havia ningum na linha. Ela repetiu: - Estou? Estou? - Mas a sua voz no ecoava como se no houvesse ningum do outro lado. Conseguia ouvir uma respirao. Oh, meu Deus, isto outra vez no.

- Se no desligar imediatamente - disse com dureza fao queixa  Companhia dos Telefones.

- Vais-te arrepender, sua cabra! - disse uma voz empastada e entaramelada. E depois ouviu-se um clique e o sinal de linha desimpedida.

O piano parara. Evidentemente. Emily no conseguia suportar a ideia de perder um telefonema.

- Quem era, Les? Era para mim? Se fosse para ti eu ter~te-ia chamado, pensou Leslie com irritao, mas no havia necessidade de responder mal a Emily.

- Era s o nosso querido annimo do costume - disse tentando falar descontraidamente.

- Devias fazer queixa dele - disse Emily voltando para o

piano como que em transe e Leslie telefonou para a companhia

A HERDEIRA                              63

telefnica onde uma mensagem gravada lhe disse que teria que voltar a telefonar a partir das nove do dia seguinte. Quando o

telefone voltou a tocar a sua mo queria recusar-se a pegar-lhe.

- Residncia da doutora Barnes. - Ficou  espera, encolhendo-se interiormente, antecipando a voz empastada e quase desumana. Em vez disso a voz que ouviu era aguda e quase infantil.

- Doutora Barnes? Detesto... quer dizer, a senhora disse que eu lhe podia ligar para casa se alguma coisa corresse mal. Voltei a fazer o mesmo. Quero dizer, desculpe estar a incomod-la...

- No faz mal, Judy - disse ela reconhecendo a voz de uma das suas clientes adolescentes. Judy Atteribury. Anorxica, quinze anos de idade, crescera demasiado para o bailado que adorava, retaliara quase se matando  fome, perdera quase catorze quilos e no conseguia voltar a comer normalmente por mais que tentasse.

- Voltei a fazer o mesmo, doutora Barnes. Comi, a mam ralhou comigo at eu comer um bocado de galinha e salada e depois comecei a comer pur de batata e no consegui parar. Judy estava a chorar quase histericamente. - E senti-me uma vaca. Senti-me to boal, no consegui aguentar e fui  casa de banho e vomitei tudo...

Graas a Deus. Uma chamada de algum real. Um problema real. Leslie sentiu-se horrorizada pelo facto de sentir um tal prazer quando uma das suas doentes estava com um problema to grave.

- Primeiro que tudo tenta parar de chorar, Judy. No  o fim do mundo. Agora quero que me digas o que estavas a sentir quando comeste a primeira garfada de galinha. Que foi que a tua me disse ... ?

- Ela queria que eu comesse. No parava de insistir para que eu comesse. E quando eu comecei a comer pur de batata ela disse, "Ou te matas  fome ou comes de mais, j viste? Parece que no consegues fazer nada razoavelmente". E eu senti-me to grosseira. Sou uma alarve... - As palavras de Judy entaramelaram-se umas nas outras.

A me de Judy no conseguia suportar a ideia de que uma mulher como ela, perfeitamente conservada e elegante aos quarenta e cinco anos, tivesse uma filha que no fosse absolutamente perfeita. Fora ela quem sofrera o verdadeiro trauma quando Judy fora corrida da escola de bailado. Um bailarina soberba, Judy no tinha a estrutura seca e esguia de uma bailarina. No parara de

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atormentar a filha para que esta perdesse peso durante todo o

seu processo de crescimento.

Conseguiu acalmar Judy e fazer com que esta chamasse Mrs. Attenbury ao telefone para marcar uma sesso conjunta para o dia seguinte e depois passou o sero no escritrio a empacotar livros. Mas o livro de Fodor no apareceu.

Leslie levantou-se cedo na manh seguinte e voltou para o

escritrio, continuando a empacotar livros em caixas de carto e a etiquet-las, mas quando ouviu Emily descer as escadas para ir tomar o pequeno almoo o livro de Fodor continuava sem aparecer. Por essa altura j tinha quase a certeza de que ele no estava no escritrio. J procurara no carro para ficar certa de que no o deixara l. Entrou na cozinha a pensar em como arranjaria caixas para empacotar os utenslios de cozinha.

Relembrou a si prpria que nada era definitivo at ter oportunidade de ler o relatrio do arquitecto. Lera-o na diagonal no

escritrio da agncia imobiliria e parecera-lhe que tudo estava em ordem, mas queria l-lo cuidadosamente, visto ter ficado to enfeitiada pela casa. Pensou que ficaria com o corao despedaado se o negcio no se realizasse.

 bem a medida das minhas prioridades. O Joel no voltou a telefonar desde a briga que tivemos e no o posso culpar se

no voltar a ligar Afinal de contas atirei-lhe com uni copo de vinho - seja l como for que o tenha feito. E aqui estou eu a

pensar em ficar com o corao despedaado se no conseguir ficar com aquela casa. O que arruma, penso eu, a questo do Joel. E se aquilo  o que ele quer de uma mulher e de um casamento, que faa boa viagem. Mas aqueles pensamentos fizeram-na suspirar. Tinha saudades dele. E com uma vida ocupada como

a que tinha no teria grande oportunidade de conhecer outros homens.

Agora j pareo a minha me. Ela sempre me encorajou a

conhecer homens.

Emily estava de p junto  bancada a deitar colheres de leo de grmen de trigo dentro do iogurte e a beber uma chvena de um ch amarelo-claro que libertava um vapor com aroma a limo. Ergueu os olhos.

- Passa-se alguma coisa, Les?
- No, no. S espero que o relatrio do arquitecto diga que a casa  to boa como eu penso que .
- Parece que te apaixonaste.
- Era nisso mesmo que eu estava a 1)en,,ai- C(@m o Joel fora

A HERDEIRA                           65

do baralho, se calhar esta casa vai acabar por ser o grande amor

da minha vida. Uma grande paixo, mesmo.

- Bem, esse tipo de grande paixo tem um aspecto positivo
- disse Emily. - No te pode pegar sfilis nem te pode engravidar!

Piscando os olhos, Leslie ordenou a si prpria que no se sentisse chocada.

- No posso esperar para ver esse castelo de sonho continuou Emily. - Achas que podamos l ir hoje em vez de esperar por sexta-feira?

Leslie reviu mentalmente a agenda para aquele dia. A que horas acabas hoje as aulas?

- Tenho Histria da Msica s nove e uma lio com o

doutor Agrowsky. Acabo  uma e meia. Queres que eu l v ter contigo? Ou podes ir buscar-me ao Conservatrio?

- Vou buscar-te. Pe uma torrada a fazer para mim disse Leslie, mexendo na mquina de caf. Cheirou apreciativamente o odor que vinha do ch de Emily. - Isso cheira bem.
O que ?

- Ch de flor de limoeiro. Queres uma chvena?  muito calmante.

- No, agora no, obrigada. - Sentou-se na cadeira e piscou os olhos. -Vejo que encontraste o livro de que eu andava  procura.

- O qu? - Emily virou-se. Em cima do toalhete que Leslie costumava usar estava um livro de bolso sujo com manchas de gua. O ttulo berrante sobre um fundo escuro e uma fiada de luzes, semelhante  da sequncia da perseguio dos discos voadores no filme Encontros Imediatos de Spielberg, era Esses Incrveis Poltergeist. Esquecera-se, na nsia de encontrar o livro de Fodor, de que tambm comprara aquele livro.

-   Obrigada Em, mas no era deste que eu andava  procura. - No me agradeas - disse Emily. - Nunca o tinha visto. Eu nunca poria nada to sujo como isso em cima da mesa!

- Ento como  que veio aqui parar? No fui eu quem aqui o ps - disse Leslie, enojada, agarrando o livro s com dois dedos. - Ests a querer dizer-me que ele veio aqui parar sozinho?

- No estou a tentar dizer-te nada. No sei nada acerca disso - respondeu Emily - Para que quereria eu um livro sobre...

esticou o pescoo para ler o ttulo - Poltergeist?

- Emily, se isto  uma partida, raios te partam, hoje no estou com pacincia para essas coisas!

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No te atrevas a falar comigo nesse tom - explodiu Emily. - Eu tambm no acho piada nenhuma a isto.

- E podes crer que no tem piada nenhuma, Em. V l, se

puseste aqui o livro para brincar comigo...

- J te disse que no pus! Porque  que ests to perturbada?
- Porque, raios, eu sei que no pus aqui o livro e tu dizes-me que tambm no foste tu, portanto quem  que foi?

Emily pousou a embalagem do iogurte com tanta fora que esta saltou sobre a mesa e caiu no cho.

- Talvez tenha sido um dos teus poltergeist de merda! Aqui tu s a nica que acredita em todo esse lixo sobrenatural, ou no s? - Saiu furiosa da cozinha, batendo com a porta do trio e, passados instantes, Leslie ouviu a porta da casa de banho fechar-se com estrondo.

Atordoada, Lesfie apanhou a embalagem de iogurte, limpou o lquido que se entornara e sentou-se para beber caf, empurrando o livro causador de tudo aquilo para um dos lados da mesa. Pensou se estaria a perder o juzo.

A questo, no momento em que a formulou, f-la sacudir aquele estado de esprito. Era uma questo que j tinha ouvido os seus clientes formularem inmeras vezes.

Pensou na resposta que daria a um deles. Porque  que pensa que est a perder o juzo? Bem, estava uni livro em cima da mesa... Acha quefoi imaginao sua? Hesitante, estendeu o brao para tocar na capa suja e cheia de ndoas. No, o livro  real e a Emily tambm o viu.

Alucinao colectiva? No, a Emily  unia mida muito equilibrada e eu fiz terapia muitssimo sria antes de me dedicar  profisso. Penso que posso aceitar, como hiptese de trabalho, que somos relativamente ss. Mas ento qual  a resposta?

Emily voltou  cozinhaj vestida para ir para a escola. Pegou no ch com aroma de limo e bebericou-o, pouco  vontade.

- Desculpa ter gritado contigo, Les. Ests bem?
- Acho que sim. Desculpa, Em. Eu sei que tu no dizes mentiras.

- No faz mal. Se eu tivesse algum juzo, tinha mentido desta vez e dito que tinha posto a o livro. No fazia ideia de que ias ficar to perturbada.

Um medo surdo estava novamente a pulsar no esprito de Leslie. Todo aquele lixo sobrenatural. Disse:

A HERDEIRA                              67

Ento qual  a soluo? Temos duendes? Ou talvez gremlins?

- O que  que um livro em cima da mesa da cozinha tem de to perturbante? Talvez queira que tu o leias. Oli, raios, o meu iogurte entornou-se. - Emily procurou dentro do frigorfico e

comeou a comer queijo fresco tirado directamente da embalagem.

Leslie disse rigidamente:
- Os livros no podem querer coisas. E no se mexem a no ser que sejam movidos por uma fora que lhes  exterior.

- A Fora est connosco - brincou Emily com a boca cheia de queijo fresco. - Se alguma coisa  capaz de se mover sem que ningum lhe mexa, ento acho que essa coisa  um livro sobre poltergeist, no achas? Talvez uma de ns seja sonmbula. Isso  mais lgico do que pensar que uma de ns est ligada a um poltergeist sem o saber.

Deixou cair a embalagem vazia no caixote do lixo e escrevinhou queijo fresco na lista de compras que estava na porta do frigorfico.

- Olha, tenho que me despachar ou chego atrasada. - J de sada gritou: - Apanhas-me no Conservatrio  uma e meia, est bem?

Leslie serviu-se de uma segunda chvena de caf enquanto olhava para a capa horrvel do livro. Talvez uma de ns seja mesmo sonmbula. Provavelmente eu. Tinha o esprito repleto de imagens de cinzeiros a voar por cima de secretrias e de vinho tinto na cara de Joel. Emily no sabia de nada daquilo; fora um

comentrio s cegas.

O poltergeist , geralmente, o produto de emoes num estado de tenso crnica, centrado habitualmente, mas no sempre, numa rapariga prestes a ser menstruada ou, com menos frequncia, num adolescente perturbado ou numa mulher grvida. As foras sexuais que despertam, combinadas com

hostilidades familiares e ressentimentos, combinam-se e criam uma fora que se exprime por pancadas, estrondos, loia partida e objectos que se movem sem causa aparente. Muitas vezes a iluso que surge  a de uma criana mal comportada. A rapariga, que frequentemente est desejosa de manter o

seu estatuto de adulta e nega sentir quaisquer ressentimentos infantis, cria uma forte tenso entre a necessidade inconsciente de se comportar como uma criana e o desejo consciente de ser adulta.

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Os fenmenos de poltergeist so, geralmente, breves e passageiros. No entanto, se em tomo deste fenmeno se criar um enorme drama, a rapariga comear a utilizar esse drama para atrair a ateno ou um tratamento especial que no obteria de qualquer outra forma. ( esta a razo porque inicialmente tero sido observados fenmenos de poltergeist centrados em criadas ou amas histricas, cujo estatuto era baixo e cujas necessidades emocionais eram ignoradas.)

Ocasionalmente, contudo, o poltergeist pode assumir um

carcter mais srio, mudando a moblia ou outros objectos pesados de stio, fazendo com que a loia partida n o produza apenas um rudo gratificante mas provocando ferimentos ou ateando incndios. Este tipo de acontecimentos deve ser

encarado com seriedade, enquanto que os fenmenos mais ligeiros de pratos partidos e objectos que se movem podem ser tratados, com segurana, como sendo de pouco interesse, sem ser ignorados nem dramatizados, mas como um sintoma de um qualquer problema emocional oculto.

Um problema relativamente srio entre as crianas poltergeist  a da rapariga, ou rapaz, cujas necessidades emocionais so to gratificadas pela ateno que estes estranhos fenmenos suscitam, que passa da actividade poltergeist involuntria para manipulaes deliberadas, quando a primeira vaga de actividade comea a desaparecer. Atiram em segredo com loia e pequenos objectos negando ter qualquer conscincia de tais factos (e h crianas que o fazem num estado de dissociao sonambulstca) e chegam mesmo a atear incndios. Este , evidentemente, um problema para ser resolvido por um psiclogo ou especialista de sade mental e no por um parapsiclogo. Os fenmenos de poltergeist, voluntrios ou involuntrios, nunca devem ser encarados com leviandade e  evidente que as crianas nunca devero ser punidas, envergonhadas ou humilhadas, devido a este tipo de manifestao e nunca devem ser acusadas de estar a fingir, dado que, sejam os fenmenos provocados por histeria, sonambulismo ou fora fsica, nunca so controlados pela criana e

nunca so causados por marotice ou traquinice.

Existe no entanto uma outra forma de poltergeist que pode ser a expresso de foras psquicas em tenso, e que no surge centrada numa criana histrica ou desajustada, mas sim em torno de um adulto relativamente equilibrado. Quando isso ocorre  devido  existncia de uma fora psquica no

A HERDEIRA                              69

resolvida. Pode dizer-se que o Oculto veio em busca do indivduo em causa e essa questo no cabe, em termos estritos, no mbito deste livro.

Para alm dos casos estudados neste livro podem ser consultadas as obras de Carrington e Fodor, j citados, bem como a monografia de Margrave e Anstey, na edio do Outono de 1983 do Jornal dos Fenmenos Inesperados, editado pela Silkie Press, So Francisco, assim como A Histria Natural dos Poltergeist.

Impressionada, Leslie pousou o livro. Parecia que os seus instintos tinham estado certos ao tentar acalmar Eileen, no lhe permitindo fazer um drama da situao. Era interessante no ter encontrado nada na literatura psicanaltica excepto os disparates freudianos acerca do trauma do nascimento - uma teoria totalmente rejeitada actualmente - e ter encontrado, num livro de bolso sensacionalista, uma anlise sria e racional do problema, com conselhos sensatos acerca da melhor forma de o enfrentar.

Mas porque razo no encontrara nada na literatura cientfica? Talvez existisse alguma coisa. No tinha, de forma alguma, procurado em todos os livros de psicologia. Ou talvez a profisso, no seu todo, se sentisse to chocada por aquele assunto to irracional que tivesse a necessidade emocional de o ignorar mesmo quando ele se manifestava.

Releu a frase do livro, Pode dizer-se que o Oculto veio em busca do indivduo em causa. Mas aquela quest o no cabia, segundo o autor, no mbito estrito daquele livro. Bem, Leslie decidiu que se o Oculto, fosse isso l o que fosse - detestava aquele tipo de linguagem inexacta -, vinha  procura dela, que medisse bem ao que vinha.

Seja comofor, o meu subconsciente estava a dizer-me o que pensava do Joel. Leslie voltou a passar os olhos pela pgina... cujo estatuto era baixo e cujas necessidades emocionais eram ignoradas. Nunca me tinha apercebido disso, mas  evidente que o Joel tem a convico de que as mulheres tm um estatuto inferior, por isso partiu do princpio que eu desistiria do meu trabalho e me dedicaria  carreira dele. No  para admirar que eu lhe tenha atirado com um copo de vinho, tenha sido num estado de sonambulismo, de dissociao, ou seja l do que for.. A sua mente recalcitrou perante a enormidade do conceito de que,

o seu esprito s por si, sem a ajuda de qualquer fora fsica, podia ter atirado com o vinho.

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No havia nada a ganhar no facto de viver e reviver aquele episdio. Tentaria encontrar as outras referncias, nem que tivesse que regressar  pequena livraria e fazer perguntas  mulher do pentagrama. Entretanto, utilizaria os conselhos que aquele livro dava para tentar ajudar Eileen a resolver o seu poltergeist quando ela viesse novamente  consulta. E agora tinha que se preparar para falar com a Judy Atteribury e com a me dela.

Captulo quatro

Apareceram, subitamente sobre a cidade, grandes nuvens

carregadas de chuva.

No carro, ao atravessar a Bay Bridge, Leslie via os carneirinhos que encrespavam a superfcie da gua. Se as guas estavam assim ali, na baa abrigada, como estariam no mar alto? Parou em frente do Conservatrio e Emily correu para o carro, fugindo aos primeiros pingos que caam e bateu com a porta. De um

momento para o outro comeou a chover torrencialmente, um vento

forte e agreste fustigava o carro com uma violncia tal que Leslie teve que se esforar para manter o volante direito e os limpa pra-brisas no conseguiam manter o vidro limpo. Estacionou o carro junto a um dos passeios.

- Isto j passa, a chuva nunca cai com esta violncia toda durante mais do que um ou dois minutos - disse observando as pessoas a correrem em busca de um abrigo que as protegesse do dilvio.

- Ainda bem que me vieste buscar - disse Emily. Tenho o meu impermevel dentro da mochila, mas teria ficado

com a cabea encharcada. E esta noite vou ser anumadora no recital.

- Ento tens que ir a casa antes do recital?
- No, tenho o meu vestido preto e os sapatos de salto alto no cacifo do Conservatrio - disse Emily. - Tenho  que ir a uma loja. O meu nico par de meias tem uma malha. Olha, hoje de manh isto aqui estava uma confuso. Esto a pr fechaduras novas nas portas todas. Houve um maluco qualquer que entrou na sala da orquestra e despedaou um violoncelo e enfiou um p no timbale!

Chocada, Leslie suspendeu a respirao. Vandalismo no

Conservatrio? No local mais pacfico da cidade? Assustava-a

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pensar em Emily ali, exposta  loucura de um tipo qualquer com perturbaes mentais. Certamente que algu m capaz de destruir instrumentos musicais, sem qualquer objectivo para alm do prazer que isso lhe dava, teria que ser muito perturbado. A chuva estava a abrandar e ela meteu a primeira e arrancou.

- Tm alguma pista que indicie quem foi o autor?
- Nada. Absolutamente nada. - EmJly hesitou. - Suponho que no estarias disposta a ir l e tentar... bem, tentar descobrir quem foi, pois no?

Ento quer di@:er que at mesmo a Emily est disposta a que esta coisa irracional interfira na vida dela. Sentiu a garganta cerrar-se convulsivamente e Emily, vendo a expresso dela transformar-se, disse:

- Desculpa, Les. Eu... eu acho que sei o que sentes acerca disto.  s porque eu conheo a rapariga que  dona do violoncelo e s queria que tu a visses, hoje de manh.  claro que est no seguro, mas era o violoncelo do pai dela. E se eu pudesse apanhar o pulha que fez aquilo eu, eu... - gaguejou - era capaz de o esfolar vivo. Ele  provavelmente um doente, mas raios o partam, quando eu tivesse terminado estaria bem mais doente!

Leslie suspirou.
- No serviria de nada castig-lo, Em. Terias que descobrir qual a razo que o levara a fazer aquilo e, no s impedi-]o de o fazer de novo, mas fazer com que ele no quisesse repetir esse tipo de comportamento.

Emily disse, num tom brutal:
- Por mim bastava-me mand-lo para um stio onde ele no pudesse faz-lo novamente! De preferncia mat-lo!

- Essa  a forma como a maioria das pessoas sente. E  por isso que temos uma sociedade to violenta - disse Leslie. Punir os violentos nunca levar a nada, a no ser contribuir para os convencer de que o mundo em que vivem  um mundo violento, o que os torna ainda mais determinados a infligir violncia para evitarem ser as vtimas dessa violncia. Mas como poderia explicar isso a Emily?

- Mas se tu s, sei l, vidente, essa no seria a melhor forma de saberes porque  que as pessoas fazem este tipo de coisa? Emily procurou as palavras certas. - Como o homem que matou aquelas raparigas todas em Sacramento. No podias curar o Assassino da Trana, mas se descobrisses a razo porque ele fazia aquilo, talvez pudesses evitar que acontecesse o mesmo a um outro tipo qualquer, fosse l o que fosse, que levava este a matar raparigas.

A HERDEIRA                              73

Toda a gente sabe disso - disse Leslie sombriamente. S que prevenir o crime no d lucros, puni-lo  que d . Conduziu com cuidado sob a chuva que fazia com que os carros e os elctricos andassem a passo de caracol, enquanto Emily mexia nos botes do rdio saltitando entre as duas estaes de msica clssica.

Encostou o carro em frente  casa e virou para o pequeno caminho em cimento. Anteriormente vira a casa com o sol a bater nas janelas arredondadas; agora, com a chuva a bater nas vidraas e a cair das goteiras, tinha um ar desolado.

- Pelo menos ficamos a saber se o telhado deixa entrar gua - disse Emily.

- Vira essa boca para l! - O trio estava escuro e hmido. Procurou o interruptor s apalpadelas. Mas ou a lmpada estava fundida ou a electricidade fora desligada. O negcio estaria fechado dentro de poucos dias. Seria rpido, porque todos os

registos tinham sido feitos para as vendas anteriores que no

tinham resultado. Depois telefonaria para as companhias do gs e da electricidade para lhe ligarem a luz, o gs e o telefone. Precisaria de uma extenso no escritrio e uma outra para o servio de atendimento, precisava tambm de um telefone para o servio da casa. Seria de dar a Emily uma extenso para a sala dela? Virou-se para lhe perguntar se ela a queria e viu que a irm j ali no estava. Encontrou-a na sala que j baptizara de sala de msica.

- Estava a pensar que podamos pr o piano e a harpa aqui, Em, podias ficar com esta sala para ti. Queres um telefone aqui ou preferes que no te interrompam enquanto ests a estudar?

Emily fez um gesto impaciente a pedir silncio. Tinha a

cabea inclinada,  escuta e, por instantes, Leslie tambm lhe pareceu ouvir um som muito fraco, quase inaud vel, que parecia um piano - ou seria um cravo? - a tocar uni preldio de Bach.

Depois Emily virou-se, branca como um lenol e caiu por terra.

- Isto  para eu aprender a no ficar sem pequeno almoo disse Emily deitada no parapeito da janela com a cabea encostada ao vidro batido pela chuva.

- Tu tomaste o pequeno almoo. Eu vi.
- No acabei de o tomar. Devia ter parado num stio qualquer para comer um queque ou coisa assim, mas esqueci-me. E aquele parvo do Whittington nunca mais se calava com o sentido esttico do rococ, ou l o que era. Ele acha que a msica

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do romantismo  uma doena social. E por causa dele j estava atrasada para a lio de piano - e sabia que o doutor Agrowsky teria um ataque se eu entrasse pela porta da sala dele com um

atraso de noventa segundos sequer - e o velho Tio Whitty nunca mais nos deixava sair. Atro que me apetecia atirar-lhe uma coisa  cabea.

Depois de ter passado a manh a ler sobre poltergeist, Leslie no lhe apetecia falar de coisas atiradas pelos ares. Como  que te sentes agora?

- Tenho uma dor de cabea horrvel.
- Tenho aspirinas na mala e acho que a gua no foi cortada.
- Bah, aspirina! Que bem  que isso me pode fazer? Eu preciso  de comer qualquer coisa! No deves ter um chocolate ou coisa do gnero na mala, a fazer dieta como tu fazes, no ?

Repreendida, Leslie disse:
- Por acaso tenho uma embalagem de pastilhas de mentol; fico com a garganta seca quando conduzo - e meteu a mo no bolso. Emily meteu dois ou trs rebuados na boca.

- Isto tambm faz mal - disse -, comer acar. Obriga o corpo a mandar insulina para o fluxo sanguneo e, quando o efeito do acar se desvanece, a pessoa vai-se abaixo, bum! Mas deve ser melhor do que tomar aspirinas. Ser que aquele caf que vimos no Haight ter alguma coisa que se coma, uma sanduche de ovo e abacate ou coisa assim?

- Provavelmente - disse Leslie. - Se pedires delicadamente eles at so capazes de pr couves -de-bruxel as e grmen de trigo e algas marinhas na tua sanduche. - J vira algumas das mistelas a que Emily chamava sanduches orgnicas.

- Suponho que tu preferes salame, cheio de sal, de nitratos e de qumicos - ripostou Emily, toda irritada. - Tu, que tens um doutoramento, enches o teu corpo com essas porcarias todas e ainda te ris de mim por eu no fazer o mesmo!

-  Em, estava a brincar contigo! Podes comer o que tu quiseres, seja sanduches orgnicas ou chocolates! Queres ir comer agora? Ou queres ficar aqui a descansar que eu vou buscar-te a sanduche?

- Desculpa, Les - disse Emily, sentando-se no parapeito da janela. - Devia estar com falta de acar no sangue e foi por isso que fiquei to irascvel. Eu estou bem. Mas tenho que comer qualquer coisa muito em breve. Mas os rebuados devem aguentar-me durante um par de horas. - Enfiou mais uns quantos na boca.
- Vamos l ver a tua linda casa.

A HERDEIRA                             75

Ela no deveria queixar-se da preocupao que Emily tinha em manter o corpo saudvel e em aliment-lo com comida de qualidade. Vira nessa manh, na Judy Atteribury, o que a ausncia total desse tipo de preocupao podia fazer ao corpo de uma rapariga. Evidentemente que o facto de Evelyn Atteribury ter sido condicionada para acreditar que nunca se podia ser demasiado magra nem demasiado rica tambm no ajudava.

- Adoro esta sala, mas tens a certeza? Quero dizer, no  justo eu ficar com a melhor sala da casa... - disse Emily.

- Tenho uma igualzinha do outro lado do trio, s que a minha   prova de som.

- Oh, olha Les, queres que eu fique com essa? Assim j no tinhas que me ouvir a estudar o tempo todo... _   No, no, eu adoro ouvir-te - disse Leslie -, e se eu ficar com a sala  prova de som, tambm no incomodar os meus clientes... vai ser l que vou fazer o consultrio.

- Vamos l ver essa sala - disse Emily atravessando o trio e Leslie, ao ir atrs dela, ficou pensativa por lhe parecer ouvir novamente, l ao longe, uma msica de Bach. Devia ser imaginao sua, por saber que a mulher que ali vivera e morrera tambm fora msica. Podia no passar de uma coincidncia o facto de Emily ter desmaiado no local exacto onde a velhota

morrera ao piano...

Furiosa, disse para si prpria que estava a ser idiota. Era mais provvel que a velha Mrs. Margrave tivesse usado a sala  prova de som para ter o piano. Seguiu Emily at s salas interligadas em que j comeara a pensar como o seu consultrio e estdio. Emily ficou de p, junto  janela, olhando para a chuva que caa l fora.

- Est outra vez a chover com mais fora.
- Queria que visses isto  luz do Sol. Daquela janela ali, v-se toda a zona da baa e a Golden Gate... a casa fica na parte de cima da rua.

- Vai ser um bom exerccio para mim, quando vier de elctrico vou ter que subir a rua - disse Emily. - Para me manter em forma tenho que subir escadas e colinas. O meu professor diz que um pianista tem que estar em to boa forma como um atleta. Estava a pensar em retomar as lies de bailado.

Encaminhou-se para o trio e voltou a entrar na sala de msica.
- Gosto mesmo deste stio. Disseste que a senhora que aqui vivia era msica? Deve ser por isso que a casa parece to calma e cheia de paz. J alguma vez reparaste que os msicos,

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os pianistas e os maestros, quando so velhos mais parecem santos, ou anjos? Tm o ar de quem est envolto em paz. Lembro-me de ver o Menuhin a tocar na televiso e de ter pensado que ele parecia j estar no Paraso. E os retratos do Toscanini. Dizem que ele era um filho da me, que gritava e berrava com a orquestra. Mas nos retratos parece to pacfico como o So Francisco!

- Achas ento que vais ser feliz aqui?
- J adoro este stio - disse Emily olhando com orgulho e prazer para os seus domnios. - O piano fica aqui e a harpa ali. Quem me dera ter um cravo. Mas so horrivelmente caros. Mas podem comprar-se as peas e mont-los. Se calhar um dia ainda fao isso. E no quero cadeiras. S almofadas no cho.

Leslie pensou que a ideia era horrvel, mas Emily deveria fazer da sua sala de msica aquilo que quisesse; seria ela quem ali teria que viver.

- Estou a ver como vai ficar, sem moblia nenhuma, s umas almofadas enormes, o piano e a harpa. A mam disse que eu podia ficar com aquele biombo japons antigo que o pap trouxe de Tquio no fim da guerra. Podemos ir um dia destes a Sacramento para o trazer, deve caber no carro. Vamos l ver a cozinha. - Emily foi aos saltos pelo trio. - Oh,  muito sim- ptica e moderna, esta casa  to antiga que eu estava com medo que a canalizao fosse vitoriana e horrvel.

- A casa foi remodelada por uma das pessoas que a comprou e depois desistiu.

- No consigo imaginar uma pessoa a ser capaz de desistir da casa depois de aqui ter vivido. - Emily abriu a porta da cozinha ficando ao abrigo da ombreira. - Oh, Les, um jardim a srio! - Um cheiro fresco a ervas, folhas e plantas molhadas pela chuva entrou na cozinha.

Emily inspirou cheia de prazer e com os olhos fechados. Olha, h aqui alecrim e hortel, e salva... mas  um jardim de plantas aromticas, Les! Plantas frescas! O ch de hortel-pimenta  bom para quase tudo, especialmente para problemas de estmago, e tambm h aqui manjerico e tomilho...

- Are you going to Scarborough Fair, parsley, sage, rosenzary and thyme,? cantarolou Leslie e Emily entoou baixinho algumas das palavras do refro. Tinha uma voz doce e lmpida, embora no fosse uma voz educada.

1 Cano de Paul Simon: "Vais  Feira de Scarborough, salsa, salva, alecrim e tomilho" (N. da T)

A HERDEIRA                            77

Pensa s. Podes cozinhar com ervas frescas, Leslie. Podemos cultivar cebolinhos e alhos para pr no molho do espaguete e

tambm temos aqui camomla e hidraste... olha, a senhora que aqui vivia devia gostar mesmo de ervanria! Que porta  aquela ali?

- Originalmente era uma garagem. Foi remodelada para ser um apartamento independente, mas foi utilizado como estdio, segundo penso...

Emily ps a camisola por cima da cabea e correu na direco da garagem. Leslie seguiu-a com a chave da porta. A tempestade estava a abrandar e o cheiro da chuva que cara no jardim enchia

o ar com uma fragrncia doce e pungente, evocativa, perturbante. Por instantes, enquanto tentava enfiar a chave na fechadura, Leslie teve uma sensao de dj vu?. Parecia-lhe j ter estado ao p daquela porta, com a fragrncia a entrar-lhe nas narinas. De repente a doura tornou-se em fedor, forte e nauseabundo e sentiu-se cheia de uma raiva que a preencheu at sentir nsias de vomitar. Como se atreviam afazer isto  sua bela casa,  sua

casa adorvel e delicada?

- Les? Ests a sentir-te bem? Aposto que tambm no tomaste o pequeno almoo. V, d c a chave e come um par de rebuados - disse Emily, abrindo com percia a porta. Entrou enquanto Leslie metia os rebuados na boca.

- Bah! H aqui qualquer coisa morta. Ou ento os esgotos esto uma misria - disse ela fungando enjoada.

- No consigo cheirar nada a no ser o mentol - disse Leslie. A porcaria que tinha estado em cima da roda de oleiro tinha sido retirada e, quando entrou na pequena casa de banho, esta pareceu-lhe estar razoavelmente limpa, mas mesmo assim puxou o autoclismo. Emily continuava a fungar.

-   Se calhar aquele gato branco que vi l fora entrou aqui e fez porcaria... coc... sei l. A porcaria dos gatos cheira pior do que a dos porcos,  por isso que pem tanto desodorizante na areia para gatos.  horrvel. - Saiu para a chuva. - Temos que fazer qualquer coisa relativamente a isto, Les.

- Eu vi um gato quando c estive. Se calhar foi ele. No exterior, o cheiro do jasmim parecia novamente doce e fresco e no o fedor nauseabundo e enjoativo que se sentia no interior do estdio. - Anda l acima ver os quartos. Como tens a sala que d para o jardim c em baixo, podes ficar com o quarto que d para a Golden Gate, se quiseres.

' Em francs no original. (N. da T)

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No consigo ver nada a no ser chuva - disse Emily olhando em torno de si -, e o nevoeiro, que se aproxima. Podes ficar com ele, se gostas. Eu gosto da vista para o jardim e do cheiro das ervas. E assim o meu quarto fica por cima da sala de msica, por isso um dos lados da casa podia ser teu e o outro lado meu, mais ou menos. - Foi  frente da irm at  segunda casa de banho que dava para o jardim. - Respira s este cheiro! Com a janela aberta assim, os cheiros das ervas entram c dentro.

Leslie ficou a olhar, espantada e zangada, para a janela aberta.

- Ele disse que arranjava esse fecho. - Dirigiu-se  janela e fechou-a. - Se esses malvados desses rapazes andaram a trepar por aqui outra vez...

- No vejo quaisquer pegadas enlameadas - disse Emily chegando  janela -, e tinham muito que trepar. A hera no  assim muito forte e, fosse como fosse, tinham que estar a treinar para moscas humanas ou acrobatas de circo para chegarem c acima. Eu no seria capaz de trepar por aqui.

Seja comofor, pensou Leslie, um mido de dez anos  capaz de trepar o que quer que seja e o fecho parece estar em estado stificientemente bom para no se abrir sozinho.  melhor arranjar um fecho mais forte para esta janela.

- Tens a certeza de que queres este quarto? O outro tem casa de banho privativa...

- Se ns somos s duas, fico na mesma com a outra casa de banho s para mim.

Emily seguiu Leslie pelas escadas abaixo, continuando a

tagarelar sobre o que tencionava fazer com todo o espao que tinha  sua disposio. Anteriormente, ela nunca deixara Leslie perceber como se sentia apertada na dispensa reformulada que fora o que Leslie lhe pudera arranjar para fazer o quarto.

- E quando comprarmos uma televiso podemos p-la na

salinha mais pequena.

- Queres um televisor, Ern? - Leslie nunca sentira a falta desse tipo de entretenimento.

- No muito. Mas s vezes tenho a sensao de que vivo noutro mundo, ou coisa do gnero. Sabes, quando as pessoas mencionam qualquer coisa que toda a gente conhece menos eu.
- A voz de Emily soava hesitante. - Como quando andava no

liceu e os midos s queriam saber de msica rock. Era como se

eles todos vivessem num mundo e eu noutro.

Leslie ouviu-a sem lhe responder. A irm podia querer par-

A HERDEIRA                            79

tilhar um momento de vulnerabilidade, mas nunca lhe perdoaria se ela demonstrasse simpatia ou se fizesse qualquer comentrio.

- Eles pensavam que eu era uma snobe. Era muito solitria.  por isso que eu gosto tanto do Conservatrio. At mesmo do velho Wittington. Ele  maluco, mas interessa-se pelas coisas, ainda que as coisas pelas quais ele se interessa sejam um bocado estranhas. Olha, podemos ir ento comer a tal sanduche? Estou a morrer de fome. E preciso de umas meias, se conseguirmos encontrar uma loja que as venda.

Mas antes de entrarem no carro Leslie deu uma volta pelo exterior da casa. A janela do quarto do andar de cima parecia inacessvel, mesmo para uma criana irrequieta. O cano do algeroz estava demasiado afastado e parecia no ser suficientemente forte nem mesmo para suportar o gato branco que viu novamente esgueirando-se pelo jardim. Pertenceria o gato a algum vizinho ou deveria fazer-se amiga dele?

Num pequeno restaurante e padaria, Emily conseguiu a tal sanduche de ovo e abacate e mais uma srie de produtos naturais no identificveis que atacou com ar de grande satisfao e

comeu com grande apetite mas, depois, deixou-se persuadir a

comer uma fatia de tarte. Leslie apercebeu-se de que tambm tinha fome - ou seria apenas por ver Emily comer? - e pediu uma sopa de cebola que estava excelente. A acompanhar a sopa vinha uma salada de vegetais crus e Emily inclinou-se para roubar a cenoura raspada e as rodelas de cebola que enfeitavam a salada.

- Devias comer cebola, Les. Fazia-te bem.
- Isso deveria ser eu a dizer. Sou eu que sou crescida e tu  que s uma mida, ests recordada? Tenho dois clientes esta tarde. Achas que vou sujeit-los a um hlito de cebola?

- Provavelmente sobreviveriam. Toda a gente ficaria muito melhor se no se preocupasse tanto com os cheiros.

- Mas fartaste-te de te queixar com os cheiros do templo... quero dizer, do estdio, da garagem! - Emily encolheu os ombros.

- Isso era um cheiro doentio. De qualquer coisa suja. As cebolas tm um cheiro limpo e natural - disse peremptoriamente.

A Leslie no lhe apetecia entrar numa das discusses de Emily acerca de coisas naturais. Estendeu uma nota  irm e disse:

- Vai l comprar as meias. E compra-me um par para mim e, por favor, desta vez no te esqueas que eu calo o mdio e no o grande. Encontro-me contigo na loja.

so                   MARION ZIMMER BRADLEY

O cu continuava ameaador mas, pelo menos de momento, no chovia. Quando passou pela loja onde comprara os livros sobre poltergeist, recordando-se de que fora num desses livros que encontrara a nica pista til at ao momento, entrou, na esperana de encontrar a mulher do cabelo branco que parecia saber o que dizia.

Mas, daquela vez, os clientes eram na sua maioria jovens. A loja estava apinhada, como se toda a gente tivesse fugido para ali para se abrigar da chuva. Os clientes, de cabelos compridos e

roupas de algodo de cores brilhantes, pareciam os filhos das flores? antes de o movimento ter sido aniquilado pelas drogas duras e pelas perseguies. Uma mulher nova, com uma saa em batik- e cabelos pela cintura, estava a folhear um livro sobre plantas. Presa s costas tinha uma criana loira de olhos brilhantes que estava a roer uma cenoura.

- Esse livro  bom? - perguntou Leslie. - Quero comprar um livro sobre plantas para a minha irm. - Fora bvio que Emily gostara do jardim e era melhor ser encorajada a assumir a responsabilidade de tomar conta dele.

A rapariga com o beb fez que sim com a cabea.
- Sim,  muito bom. Conheo a mulher que o escreveu; ela vem aqui s vezes. Quando comecei a dar de mamar  Tirrimie ela deu-me um ch que me ajudou a ter mais leite. No, Tirrimie admoestou a criana quando esta lhe comeou a puxar o cabelo.

Come a tua cenoura como uma linda menina. Vive aqui perto?

- Acabo de comprar uma casa aqui no bairro. A poucos quarteires daqui. - Leslie pegou num dos livros que estavam empilhados em cima da mesa. - Estive aqui no outro dia, estava urna mulher  caixa - uma mulher alta, com olhos azuis, cerca de cinquenta anos...

-  a Claire Moffat - confirmou a rapariga. - S c vem s segundas e s sextas.

- Queria fazer-lhe uma pergunta acerca de um livro...
- O Frodo saber responder-lhe a quase tudo o que possa querer saber - disse a rapariga indicando o rapaz que estava por trs do balco. Este era alto e plido e tinha vestida uma camisa russa, verde e bordada a cores brilhantes e, numa das orelhas, tinha um brinco de ouro. Tinha o cabelo to comprido como o da rapariga e mantinha-o afastado do rosto com uma bande' Flower Children - Autodenomi nao dos jovens hippies dos anos sessenta.

(M da T)

A HERDEIRA                            81

lete de missangas. Frodo. Perguntou-se com que nome os pais o teriam baptizado. Provavelmente tinham-lhe chamado Melvin ou coisa pior. Depois, inesperadamente e por instantes, foi como se uma venda lhe tivesse cado dos olhos e viu-o tal como a rapariga o via, uma criatura do tipo duende, incongruente dentro de casa, uma criatura selvagem; quase conseguia ver a sombra de uma armao na sua testa. Depois a viso desapareceu e ele voltou a

ser um jovem vestido de forma extravagante. Ele acenou a rapariga.

- Ol, Rainbow'1 Como est a Timmie? Ouvi dizer que tinha estado doente.

- Foi s um problema sem importncia, nos intestinos.  capaz de ser alrgica ao requeijo. O mdico disse para lhe dar sumo de ma e gelatina e ch e para no lhe dar slidos durante um ou dois dias que ela ficava boa. Agora j est bem. Adora ch de camomila e agora j bebe sempre pela chvena, mas ao deitar toma o biber o e eu ponho l dentro ch de camomila. Ela bebe-o de uma s vez!

Emily, pensou Leslie, adoraria aquela histria. Frodo perguntou:

- Vens ao piquenique de Beltane? Vou instalar uma barraquinha e vou ler as cartas de Tarot. Olha, adivinha quem  que saiu de baixo de uma pedra no outro dia?

- Quem?
- O Simon Antsey. Esteve aqui na segunda-feira.
- O Simon? -A cara expressiva da rapariga enrugou-se numa

expresso de desagrado. - Que estava ele a fazer aqui na cidade?

- Outra operao, acho eu. Tinha a mo ligada. Ou se calhar est a dar aulas num stio qualquer.

Rainbow semicerrou os olhos, seria por Tirrimie lhe estar a

puxar outra vez os cabelos?

- O Colin deve ter ficado branco - disse num murmrio.
- No estava aqui. Foi uma sorte. Acho que ele teria partido uma cadeira na cabea do Simon ou coisa do gnero.

- Frodo, eu nunca vi o Colin perder a cabea...
- Bem, eu j. Quando o Simon se ps a dar aquele sermo sobre o conceito de magia negra e magia branca ser limitado, moralista e racista.

- Ouvi falar disso. O Colin disse que, fosse o que fosse que lhe chamasse, a magia negra era algo com que ele nada queria ter a ver. E, sabes, eu concordo com ele.
'Arco-ris. (N. da T)

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Quem no concorda? - perguntou Frodo e respondeu  sua prpria pergunta. - O Antsey no concordaria, suponho eu. Sabes a maneira como ele fala... daquela vez, uma segunda-feira, foi ter com o Colin e chamou-lhe velho beato e fraudulento...

- A Clare deve ter gostado muito disso, se estava aqui disse Rainbow.

- Oh, sem dvida. - Frodo sorriu enrugando a cara. Ela disse, "Simon, s um idiota maldto", ps a nfase no inaldito e virou-lhe as costas.

Frodo era um bom imitador. Leslie conseguia ver Claire e ouvir a sua voz. Sim, fora aquela a mulher que lhe apresentara o

livro de Fodor e fizera o comentrio arguto acerca do paleio psicanaltico. Mas Frodo j no estava a sorrir, estava srio e zangado.

- Quem me dera que o Colin aqui tivesse estado para o pr na rua. No suporto aquele tipo. A srio. D m fama a toda a gente da comunidade pag. A simples ideia de se poder comparar aquele... aquele filho da me com, oh, contigo, Rainbow, ou com a Earthlight? ou com a Claire, ou com o Colin, ou com os Carmodys, ou com a Alison Margrave...

- A Alison colaborava com ele - disse Rainbow muito sria. - O Simon deve ter qualquer coisa boa l bem no fundo.

Alson Margrave? Depois Leslie pensou que devia ter percebido mal o nome. O rapaz, Frodo, tinha-a visto ali, de p, com o livro sobre plantas na mo.

- Oh, desculpe minha senhora, no a quis fazer esperar. Ela tencionara dizer qualquer coisa acerca do facto de ter comprado uma casa que pertencera a uma Mrs. Margrave e perguntar-lhe se seria a mesma pessoa. Mas o tom de Frodo p-la firmemente no seu lugar, na gerao mais velha.

- So sete dlares e quinze cntimos. Vai querer ver mais alguma coisa, minha senhora?

- No, obrigada. - Se a mulher, a Claire, ali estivesse, era capaz de ter perguntado por livros acerca dos poltergeist. Ou os poltergeist caberiam na definio deles de magia negra? Sorriu para Rainbow em despedida que disse, educadamente, que esperava que Leslie gostasse de viver na vizinhana e que a irm gostasse do livro sobre plantas, enquanto Timmie lhe fazia um adeus com a mo do beb por cima do ombro da me. Saiu

' Luz da Terra (N. da T)

A HERDEIRA                             83

sentindo-se subitamente envelhecida, como se tivesse viajado no tempo e tivesse envelhecido, enquanto aqueles midos continuavam a viver nos anos sessenta.

Mas no, isso no era justo. Os anos sessenta eram uma recordao para ela, mas estes jovens estavam a encontrar a sua prpria verso desses tempos idealistas.

Poderia regressar quando Claire ali estivesse e investigar calmamente.

Mas talvez por essa altura eu j no tenha que me preocupar com poltergeist.

Quando deixou Emly no Conservatrio, a irm hesitou antes de sair do carro.

- Vais direita a Berkeley?
- Ainda no. Comprei uma fita mtrica e vou voltar  casa para medir as janelas - preciso de saber se os cortinados e os estores que temos servem ou se temos que comprar outros. Queres ir l ter comigo e eu dou-te boleia? Tenho que sair de l s quatro, o mais tardar... - A Eileen Grantson iria ter a casa dela s cinco. Emily abanou a cabea.

- Lembra-te que vou ser arrumadora. Provavelmente vou chegar tarde.

Leslie detestava fazer de me galinha, Emily era praticamente uma adulta, Mas reconheceu, ainda que s para si prpria, que ficaria satisfeita quando estivessem a viver deste lado da baa. Detestava que Emily fizesse, sozinha, todo aquele percurso em transportes pblicos, especialmente de noite. Regressou  casa. A chuva recomeara a cair num chuvisco sombrio e desolador. Um camio de mudanas estava estacionado na rua dela e bloqueava-lhe a entrada da sua casa... Quo rapidamente se tornara possessiva, a sua casa, a sua rua! Estacionou do outro lado da rua e dirigiu-se  casa das janelas arredondadas no

momento em que um homem vinha a descer o caminho, um homem alto, de ombros largos e com cabelo grisalho.  primeira vista Leslie pensou tratar-se do agente imobilirio e correu para o apanhar antes que ele se fosse embora. Mas o homem era um estranho; percebeu imediatamente que nunca o vira. Ter-se-ia lembrado daquele perfil, das feies aquilinas, das sobrancelhas grossas e cinzentas, da forma como o brao fazia um ngulo com

o corpo... no, afinal o homem tinha o brao ao peito. Tinha uma grande cicatriz de um dos lados do rosto que se prolongava at ao pescoo e um pala sobre um dos olhos. Que teria ele estado a fazer dentro do seu jardim? Ele viera de dentro do jardim, tinha

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a certeza. Que estaria ele a fazer ali? Foi ento que Leslie hesitou. Era um homem grande e forte e havia nele qualquer coisa de ameaador. Quando Leslie se conseguiu convencer de que o

homem era inofensivo e de que devia ter ido ler o contador, ou coisa do gnero, j ele entrara num grande carro cinzento que estava estacionado junto ao passeio. Quando ia a virar a esquina, o carro deteve-se momentaneamente para deixar passar o trnsito que vinha do lado oposto, ele virou-se e Leslie sentiu o olhar dele sobre si. Olharam um para o outro durante alguns instantes. Os seus olhares cruzaram-se durante uns quinze segundos, se

tanto, depois o carro afastou-se e Leslie respirou fundo, deu a volta  casa e entrou no jardim. Havia pegadas na relva e, ao olhar para cima, para a janela do quarto que dava para o jardim, aquele que seria o de Emily, viu que a janela estava escancarada.

Sinto-me como a Mam Ursa, pensou. Algum esteve sentado na minha cadeira. A comer as minhas papas. Olhou para a

trepadeira frgil e coberta de rosas. No havia maneira de um homem de tamanho normal conseguir trepar por aquela trepadeira, nem mesmo com a ajuda do algeroz. Nem mesmo se fosse acrobata. E o intruso tinha mais de um metro e oitenta. Enfiou a chave na porta da cozinha e correu ao andar de cima. O corao saltava-lhe no peito. A porta estava trancada, mas havia pegadas hmidas na carpete e o vestgio de um aroma... incenso? Uma erva queimada? A janela de Emily estava escancarada e ela fechou-a e voltou a tranc-la. Algum, disse a Mam Ursa, esteve a dormir na minha cama.

Nunca soube porque razo, depois de ter fechado a janela, correu para o andar de baixo, atravs doi ardim, para a garagem. Entrou, estava escuro e o fedor hmido atingiu-a como uma pancada. Depois, por um instante, enquanto pestanejava, viu o homem que acabara de ver entrar para o carro cinzento, com a pala sobre um dos olhos, e o forte perfil aquilino. Estava de p no meio da sala com as mos erguidas como que em invocao. Leslie pestanejou novamente gritando:

- Quem  voc? Como  que aqui entrou? - Antes de acabar de falarj a figura se desvanecera.

Nas traseiras do estdio, dois dos vidros das janelas estavam partidos. No como se algum tivesse entrado por ali - eram demasiado pequenos e estavam demasiado altos para isso -, mas

como se algum, num acesso de raiva, ou por pura necessidade destrutiva, tivesse enfiado neles um punho. Reviu mentalmente a figura do intruso, mas no houvera nele quaisquer sinais de san-

A HERDEIRA                              85

gue ou cortes nas mos ou no rosto, apenas a cicatriz branca de uma ferida h muito sarada.

Leslie perdera toda a vontade de tirar medidas para as cortinas. Telefonaria ao agente imobilirio e dir-lhe-ia que algum tinha a chave da casa e que vira mesmo uma pessoa a sair de l. Insistiria em que as fechaduras fossem mudadas antes de ela ir para l viver.

Fechou o estdio com seguran@a e dirigiu-se para o carro.

Captulo cinco

Eileen chegou com quase dez minutos de atraso e, quando entrou, vinha com um ar amuado, com o queixo enfiado dentro da gola da camisola de capuz. Deslizou para cima de uma cadeira e fungou.

- Ests constipada, Eileen? Fungadela.
- Acho que sim.
- Tens a uma caixa de lenos de papel. Eileen tirou uma mo cheia de lenos e assoou o nariz. Silncio. Fungadela. Leslie costumava deixar que os seus clientes, especialmente os adolescentes, escolhessem aquilo de que queriam falar, mas acabou por dizer com firmeza:

- Tens tido mais problemas com objectos partidos? Preciso de saber se ela  o poltergeist ou... se sou eu!
- Tenho - disse Eileen por fim. - Parti metade de um servio de pratos no outro dia. O meu pai... - fez com que a palavra parecesse venenosa - disse que j estava farto e

que os ia descontar na minha mesada, por isso s me deu trs dlares para a semana, trs mseros dlares, e quando eu lhe disse que com aquele dinheiro no podia comprar sequer o almoo, disse-me para levar sanduches de casa e ento eu fiz uma sanduche de carne assada e a velha da Mattison -  a porcaria da empregada que l vai a casa - gritou comigo porque pensava que ia ter os restos para o jantar. Por isso tratei-lhes da sade...
- Os olhos brilharam-lhe de malcia. - Fiz trs telefonemas de longa distncia para a minha me. E ele agarrou no telefone e gritou com a minha me e disse-lhe que ela bem podia pagar os meus telefonemas e eu queria falar outra vez com ela e ele desligou!

Ficou a olhar, com o nariz vermelho a sair-lhe da gola alta.

A HERDEIRA                            87

O pai, pensou Leslie, estava a cair que nem um patinho no jogo da filha, permitindo-lhe que manipulasse a famlia toda e distribuindo castigos quando j era demasiado tarde.

- Ficaste muito zangada com ele por causa disso?
- Fiquei. Eu tenho o direito de telefonar  minha prpria me. Ns no nos zangmos, por amor de Deus! Comi a carne assada toda e a velhadas da Matty disse que eu no dia seguinte tinha de levar manteiga de amendoim. Foi ento que o frasco da manteiga de amendoim caiu da bancada e se partiu no cho e a parvalhona da velha griorou comigo para eu limpar aquela por~ caria toda e eu disse, "E para isso que o meu pap te paga", e sa da cozinha. Ele tambm ficou furioso por causa disso e disse que se eu a enfurecesse tanto que ela se despedisse, teria que ser eu a fazer o trabalho da casa. Ele no me pode obrigar a isso, pois no? H leis, como as do trabalho infantil, no ?

- No me parece que essas se ap@iquem aos trabalhos domsticos - disse Leslie com tacto. - E capaz de no ser boa ideia forar as coisas at ao ponto em que tenhas de descobrir se se aplicam ou no. Derrubaste de propsito o frasco da manteiga de amendoim para no levares as sanduches para a escola?

Eileen parecia assustada mas continuava desafiadora.
- Ela diz que sim. Ela disse que me viu atir-lo ao cho, mas no  verdade. - Eileen olhou para Leslie com um ar assustado. - Se eu quisesse fazer uma coisa do gnero ter-lhe- ~ia dado com o frasco naquela cabea gorda dela, tais eram os

gritos que ela me dava, mas eu estava a mais de um metro do frasco. Como da outra vez. Como... - Virou-se, receosa, na cadeira para olhar para o cinzeiro. - Lembra-se?

Leslie assentiu.
- Sim, lembro~me, eu vi. Aconteceu mesmo, Eileen. A compostura de Eileen desvaneceu-se.
- Porque  que isto acontece? Aconteceu mesmo e o meu

pai no acreditou em mim. Os pratos, quero eu dizer. Se eu fosse partir qualquer coisa de propsito no ia logo partir os pratos da minha me. Quer dizer, eu adoro aqueles pratos. Ela comprou-os quando eu era pequenina. Tm uns desenhos que parecem salgueiros mas so de um rosado escuro. - Comeou a chorar. - Eu queria atirar qualquer coisa ao cho, mas no os pratos da mam. Pensei que se ela voltasse eles estariam  sua espera. - Chorava descontroladamente. - Mas eles partiram-se, no lava-loia, um aps o outro, deslizaram para o lava-loia e partiram-se...

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Parou de falar, a voz abafada pelos Soluos roucos. Agarrou noutra mo cheia de lenos e assou o nariz repetidamente, continuando a chorar.

- E agora calculo que tambm no vai acreditar em mim!
- Eu acredito em ti - disse Leslie calmamente. - Uma parte de ti queria ouvir qualquer coisa a partir-se e quebrou os

pratos da tua me. Ests muito zangada com a tua me por te ter deixado, no ests?

Eileen er&ueu a cabea e olhou para Leslie, com receio.
- Sim. As vezes penso que se ela voltasse eu... eu cuspia-lhe na cara e dizia-lhe, no preciso de ti e outras vezes...

- E a outra parte de ti estava a ser adulta e responsvel e

dizia-te para no te vingares nos pratos da tua me. S que a tua parte beb tambm estava furiosa com a tua me e ela no estava ali. Por isso, mesmo quando a tua parte adulta te estava a dizer para parares com aquilo, a tua parte beb continuou a partir coisas. Porque  que no partes as coisas do teu pai, se  com ele que ests zangada?

- Eu no fao de propsito - gritou Eileen. - Pensei que acreditava em mim!

- Eu acredito em ti - disse Leslie. - Eu no disse que atiraste com as coisas...

- No atirei! Fiquei assustada e queria que aquilo parasse e fiquei ali de p a gritar, Pra, pra, e os pratos continuavam a

esmagar-se... -A cara dela estava plida em torno do nariz vermelho.

- Eu sei que no lhes tocaste. Mas uma parte de ti queria parti-los. Como aconteceu com o cinzeiro - disse Leslie calmamente. - Eu sei que no lhe tocaste. Mas houve qualquer coisa em ti que o atirou. Mesmo quando te estavas a sentir assustada e horrorizada com o que estava a acontecer.

Eileen assentiu, a tremer.
- Sim.  como se eu recuasse e me ficasse a ver atirar com as coisas. O que  que causa isto, doutora Barnes? O que  que faz isto acontecer?

- Nem mesmo os maiores psiquiatras do mundo sabem realmente porque  que isto acontece. Mas talvez entre as duas consigamos descobrir o que  que te acontece a ti. Acontece a muitas pessoas, normalmente a raparigas mais ou menos da tua idade. Chama-se poltergeist...

- Havia um filme acerca disso. Eu vi-o - interrompeu-a Eileen, com o rosto muito plido. - E as... as outras coisas tam-

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bm acontecem? Acha que a nossa casa est construda num stio onde esto enterrados fantasmas muito antigos, ou coisa assim e eu posso ficar.. ficar encurralada? Aquilo era assustador, realmente horrvel!

Leslie abanou a cabea com firmeza.
- Quem fez esse filme escolheu o nome porque gostava da palavra poltergeist. Juntou todo o tipo de fenmenos psiquicos numa grande confuso e meteu-os a todos no filme. Um poltergeist no  nada disso. A palavra quer dizerfantasma barulhento, mas no  um fantasma, isso sabe-se,  uma coisa que a tua cabea faz... que a cabea das pessoas faz.

- E acontece mesmo? - Eileen estava novamente a chorar. Eu estava to assustada. Pensava que estava a ficar maluca ou que as pessoas diziam mentiras a meu respeito. Ou que eram os outros todos que estavam a ficar malucos e diziam que eu fazia aquelas coisas todas e eu sabia que no tinha feito nada daquilo e depois comecei a pensar se afinal tinha feito aquelas coisas e era maluca e no me lembrava. Acontece mesmo? A pessoas que no so malucas e no... no... - Parou, temerosa e olhou de lado para Leslie.

- Continua - encorajou-a Leslie.
- Que no so, quero eu dizer, pessoas que no so completamente maluquinhas, pessoas que no tm que passar o tempo no psiquiatra para ele as endireitar?

As palavras ficaram suspensas no silncio entre elas e Leslie pensou, Se isto  o que a mida pensa no  de admirar que seja to hostil! No entanto ela sabia que aquela era a frase no dita entre os pais e os psiclogos: -Aqui tem este meu filho ou esta minha filha que no se comporta da forma que eu desejo. Pegue na criana e transforme-a no tipo de filho ou de filha que eu

quero que ela seja!

No traria a Eileen qualquer vantagem, se ela se lanasse na defesa da profisso, na explicao dos seus pontos positivos e

dos pontos negativos.

- Uma das coisas que sabemos acerca dos poltergeist  que quase toda a gente que aparece ligada a esses fenmenos tem um problema qualquer na vida que no consegue resolver. Se a pessoa conseguir resolver o problema de outra maneira qualquer, o seu inconsciente - aquilo a que eu chamei a tua parte beb -faria qualquer coisa para resolver o problema. Mas normalmente a pessoa est naquilo a que se chama um beco sem sada, numa situao em que faa o que fizer ser sempre a solu-

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o errada. Como tu. Tu ests muito zangada com a tua me por ela te ter deixado a ti e ao teu pai,,@mas no os podes deixar e ir viver sozinha porque ainda s uma     mida e continuas a precisar dos teus pais. As pessoas que se encontram neste tipo de beco sem sada no conseguem resolver os seus ressentimentos de nenhuma outra forma e criam o poltergeist para que os resolva por elas.

- Est a dizer que fui eu quem fez tudo isto? Mas eu s queria que isto parasse! Eu... eu gritei-lhe que parasse... - Ficou calada, a pensar. - Mas se calhar eu queria assust-los. Tram-los.

Leslie ficou em silncio, encorajando-a. Temera ter dito coisas de mais a Efleen, ter dito tudo demasiado depressa.

- Como na orquestra. Aquelas cordas de violino. Eu estava to furiosa com aqueles midos, E com o professor. Mas no lho podia dizer seno ele expulsava-me da orquestra. E eu tenho que continuar na orquestra porque o ano vai demasiado adiantado para poder desistir de uma disciplina sem ter negativa a tudo. Senti-me satisfeita quando as cordas no paravam de rebentar e eles estavam a ver que no era eu.

E depois ficou outra vez assustada.
- Mas agora acontece quando eu no estou realmente furiosa. E no pra de acontecer! Como  que eu posso fazer isto parar?

Quem sou eu para to dizer? Se eu tivesse tido coragem para mandar o Joel dar uma volta, ou at mesmo para lhe atirar o raio do vinho  cara, provavelmente no teria tido a necessidade de recorrer s actividades de um poltergeist!

- Porque  que no recuas no momento exacto em que essas coisas estavam a acontecer e pensas no que estavas a sentir? Parece-me que estavas numa situao clssica de beco sem sada. Para qualquer lado que te virasses tinhas-te metido numa situao, ou algum  tua volta te tinha metido numa situao, em que o que quer que fizesses seria errado... - disse.

Eileen disse, a fungar:
- Percebo o que quer dizer. Fizesse eu o que fizesse algum ia ficar furioso comigo e, se ficasse ali e no fizesse nada, era eu que ia ficar furiosa porque os estava a deixar pisarem-me e no havia nada que eu pudesse fazer que estivesse certo...

- E sentias que j no eras capaz de suportar o facto de eles ficarem zangados contigo...

- Porque da ltima vez que toda a gente ficou furiosa comigo, a minha me foi-se embora. E o meu pai ficou furioso porque ficou comigo s costas e o que ele queria mesmo era que eu fosse com ela...

A HERDEIRA                             91

Leslie ficou a ouvi-Ia enquanto Eileen contava, mais uma vez, aquela histria to familiar. Intimamente, no conseguia assacar as culpas a ningum; nem  me desejosa de liberdade nem ao pai que, depois de anos a evitar emocionalmente a famlia, a esconder-se no trabalho, se vira subitamente sobrecarregado

com a responsabilidade de uma filha emocionalmente carente e muito difcil. Deveriam existir alternativas emocionais para todos eles, mas nesta sociedade comprometida com a famlia nuclear como se esta fosse a ltima das maravilhas, era inevitvel que a

me partisse e voltasse a casar, que o pai ficasse e trabalhasse e que a filha se visse apanhada entre ambos.

- Eu amo o pap. Mas ele gostava que eu estivesse no Texas, com a mam.

- Porque  que pensas isso, Eileen?
- Bem, ele grita o tempo todo. - Fez uma pausa. - Mas, seja como for, ele tem que ficar comigo, no ? Mesmo no me querendo? E  ele que paga as contas da escola e das lies de violino e de tudo o resto. E acho que isso deve ser duro para ele.

Leslie tinha que se sentir contente com aquele momento de distanciamento conseguido pela rapariga. Talvez a capacidade introspectiva de Eileen se desenvolvesse, mas tambm poderia acontecer que a rapariga voltasse a afundar-se na sua imensa autocomiserao. A rapariga tinha a conscincia de que o seu pai, quer a amasse quer no, estava pelo menos a cumprir os seus deveres relativamente a ela, enquanto que a me, que dizia am-la tinha, para todos os efeitos prticos, abandonado a filha. Talvez Eileen viesse a compreender os ressentimentos do seu pai e os seus prprios ressentimentos ou talvez no. Mas tivera um vislumbre da verdade. Eileen voltara a falar do seu medo quando as cordas do violino se tinham rebentado e do quebrar dos pratos e lanou-se numa nova tirada de autocomiserao defensiva. Leslie ouviu-a em silncio. Eileen tivera um pequeno instante de conscincia do que se passava e talvez isso fosse suficiente para um

s dia. Agora tudo o que Leslie podia fazer por ela era ouvi-Ia e era um crime viver numa sociedade onde as pessoas tinham que pagar a algum que ouvisse os seus problemas - mas pelo menos ela ouvia conscienciosamente. Quando a hora chegou ao fim fez uma pequena sugesto.

- Da prxima vez que alguma coisa desse tipo acontecer, tenta control-la. Tenta drgi-la e fazer com que as coisas aconteam como tu queres. Isso  uma coisa tua; deves ter a capacidade de lhe dizer o que fazer em vez de te deixares assustar por ela.

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Eileen limitou-se a olhar para ela sombriamente e disse:
- At tera-feira. Voltou a pensar que era um crime viver numa sociedade onde as pessoas tinham que pagar a algum que ouvisse os seus problemas quando estava com o seu nico outro cliente dessa tarde. Leonard Hay passara os ltimos quatro meses no seu consultrio, afirmando alternadamente que sentia orgulho em ser

homossexual e que se sentia culpado por abandonar a mulher com quem casara, por razes erradas, numa tentativa desesperada para provar a sua virilidade e para ter algum que gostasse dele.

Escutou as suas queixas repetitivas pensando no muito pouco que a arte teraputica podia fazer por ele. Podia, evidentemente, ouvi-lo com simpatia, mas parte do problema dele era o condicionamento social que impedia que um homem na sua situao pudesse ir ter com um antigo colega do liceu ou com um parente compreensivo, que se interessasse seriamente pelos seus problemas, sem temer ser ele prprio atingido pelo estigma da homossexualidade.

- O que estou a ouv-lo dizer  que no consegue, pura e simplesmente, tomar uma deciso - disse ela, tal como lhe dissera em todas as sesses anteriores.

-  isso, Leslie.  exactamente isso. Tudo o que eu possa fazer ser errado.

- E se no fizer nada, isso ser errado tambm - disse ela, sabendo que ele ainda no estava pronto para ouvir aquelas palavras. Se ele evitasse tomar uma deciso, pelo menos no haveria nada de que o pudessem acusar. E a incapacidade de aceitar a responsabilidade pelas suas prprias decises fora o que, antes de tudo, o levara quele consultrio. O mais que poderia fazer por ele seria ajud-lo a perceber que teria que aceitar a responsabilidade tambm pelas suas indecises.

- Que aconteceria se tomasse a deciso errada? - perguntou-lhe, no conseguindo mais do que provocar outra tirada acerca do quo horrorizado ele se sentia com a possibilidade de poder fazer qualquer coisa errada, que o que quer que fosse que fizesse seria errado e que, se no fizesse nada, pelo menos no provocava danos. Uma deciso errada poderia destruir a sua vida. Ele j estava a arruinar a vida, pensou ela e amaldioou veementemente a educao que, na infncia, o condicionara para nunca correr quaisquer riscos. Mas at que ele percebesse que estava a

criar o seu prprio caos, ela nunca lho poderia dizer.

E mesmo se ele o percebesse, parte do seu problema seria

A HERDEIRA                             93

sempre a sociedade que exigia que cada um se conformasse ao seu modelo, fortes contra fracos, homossexuais contra heterossexuais, certo contra errado. Podia ajudar os seus clientes a tomar decises, mas no podia reformar a sociedade que insistia em que eles se conformassem a esses modelos.

Quando levou Leonard  porta e a fechou atrs dele, sentiu que o seu dilema com Leonard era um smbolo do dilema em que se encontrava relativamente  profisso.

Porque  que no posso fazer nada pelas pessoas a no ser ouvi-las? Foi para a cozinha preparar o jantar, Quando se sentou  mesa a comer os ovos mexidos e o tomate s rodelas, voltou a avaliar sombriamente o beco sem sada que era a sua vida profissional.

Bem, ouvia-os com simpatia e sem os molestar, criticar ou pressionar para que tomassem decises. Mantinha-os afastados dos divs dos freudianos que os fariam explorar a represso das suas sexualidades infantis durante cinco a quinze anos sem nunca examinarem os sintomas que, originalmente, os tinham levado ao consultrio do psiclogo. O telefone tocou, mas quando atendeu, no ouviu qualquer voz. Engano? Voltou a tocar quase imediatamente. Desta vez ouvia-se o som pesado e quase desumano de uma respirao. Pousou o auscultador e, quando o telefone voltou a tocar, deixou que tocasse, sentindo relutncia em voltar a pegar-lhe. Depois de tocar doze vezes ficou silencioso.

Mas quando voltou a tocar, ao quarto para a meia-noite, ela suspirou e agarrou no auscultador. No podia recusar-se a atender o telefone durante a noite quando Emily andava na rua.

- Vais-te arrepender, sua cabra - disse a voz empastada do outro lado da linha e Leslie ficou imvel, com o auscultador na mo, a ouvir o sinal de linha desimpedida.

Que raio seria aquilo? Joel? No era uma voz muito diferente da dele, mas no conseguia acreditar que ele fizesse aquele tipo de coisa. Nem mesmo bbedo. Estava triste por ele no ter voltado a telefonar, mas se era assim que ele se sentia, era melhor descobrir agora do que mais tarde, ou mesmo depois do casamento.

Uma partida. Um jovem hostil com dio pelas mulheres. Olhou furiosa para o telefone, desafiando-o a tocar novamente e foi fazer uma ltima chvena de ch antes de ir para a cama.

O telefone tocou mais uma vez pouco depois da meia-noite e ela atendeu-o, preparando-se para ouvir mais insultos, mas

suspirou de alvio quando ouviu a voz de Emily.
- Les? O concerto acabou mais tarde, no queria que ficas-

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ses preocupada. Estou na estao do Centro Cvico e estou a dentro de meia hora.

- Est bem, querida, obrigada por teres ligado. - Deixou a chaleira no quente, um dos saquinhos de tisanas de Emily num pires, uma mo cheia de biscoitos num prato e foi para a cama. Enquanto adormecia ouviu passos nas escadas.

- Emily? Nenhuma resposta. Subitamente desperta levantou-se e correu para a porta do quarto. Certamente que no estava ningum nas escadas. Teria ouvido um som proveniente da rua sossegadag. Algum a passar l fora? Oh, raios, estarei eu a transformar-me na solteirona tpica, a procurar ladres imagi    .nrios debaixo da cama? Ouvi algum a passar na rua e imaginei que era nas

escadas. Depois reparou que um dos cestos "Leva-me para cima/Leva-me para baixo" que ela e Emily tinham para objectos que tinham que ser transportados para cima e para baixo, se tinha virado. Sapatos, livros, meias velhas, roupas e pratos ali postos para serem levados para a cozinha, trio ou lavandaria, estavam espalhados pelos primeiros cinco ou seis degraus.

Quem  que virou o cesto? Recusou a possibilidade de ter sido ela quando tinha subido as escadas - se tivesse dado um pontap num cesto cheio de pratos, livros e sapatos, teria dado por isso. Teria algum subido realmente as escadas e ter-se-ia escondido rapidamente no quarto de Emily? Verificou as escadas, a porta do roupeiro... coisas como aquela aconteciam mesmo. Mas tinha quase a certeza de ter trancado a porta antes de se ter deitado... juntou pensativamente as coisas espalhadas, levou o cesto para baixo e p-lo no trio e depois verificou a porta. Sim, tinha duas voltas, o fecho fechado por dentro. Foi s traseiras verificar a porta da cozinha. Tambm estava cuidadosamente fechada e trancada.

No entanto o cesto tinha sido virado depois de ela ter ouvido os passos. Sentindo-se inclinada a rir-se de si prpria foi, apesar de tudo, buscar o pesado rolo da massa que trouxera de casa de Sacramento e subiu silenciosamente as escadas, decidida a inspec- cionar cada uma das divises. Armada com o instrumento volumoso estava apta a defrontar qualquer intruso, a no ser que este estivesse armado e fosse rpido no gatilho. Ela prpria no queria ter uma an-ria em casa... A maioria das armas, sabia-o demasiado bem, acabavam por ser usadas, no contra ladres ou intrusos, mas contra membros da famlia, por erro ou no meio de uma briga familiar.

No estava ningum no andar de cima. Ningum no trio.

A HERDEIRA                             95

Leslie, no patamar, conseguia ouvir o som da sua prpria respirao. Levara o cesto novamente para cima e pousara-o no patamar. Abriu cuidadosamente a porta da casa de banho e espreitou l para dentro, acendendo a luz. No estava nada fora do stio a no ser a toalha que Emily utilizara nessa manh. Deveria ter sido levada para baixo para secar. Atirou-a para o cesto que estava no cimo das escadas e foi at ao minsculo quarto de Emily.

No estava nada desarrumado. Recordando-se da balbrdia que fora o seu quarto de adolescente, Leslie pensou que, pelo menos, a forma que a rebelio juvenil de Emily assumia era

muito mais fcil de suportar do que a forma oposta. Suspendeu a respirao; ouviu um barulho nas escadas... passos! Passos! Apertando o rolo da massa, gritou.

- Emily! Silncio. Tinha os ns dos dedos plidos e tensos contra o rolo da massa. Ouvia de novo o som da sua prpria respirao; era agora o nico som em toda a casa. O cesto que pousara no patamar estava virado e a toalha deslizara at meio das escadas.

Lembrou-se do copo de vinho despejado na cara espantada de Joel. Seria novamente o seu poltergeist? Devia ter sido. Apanhou o cesto e a toalha molhada.

Passos outra vez. Passos. Dentro ou fora de casa? Suspendeu a respirao ao ver girar a maaneta da porta.

- Emily? - A sua voz, vinda do patamar, soou ridiculamente assustada.

- Quem  que pensavas que era a uma hora destas? O Prncipe Encantado? - respondeu Emily fechando cuidadosamente a porta atrs de si. - Que ests a fazer de p, Leslie? Estavas  minha espera? - Parecia cansada e irritada e, mesmo antes de se virar, descalou os sapatos de salto alto e atirou-os para dentro do cesto que estava ao fundo das escadas. - Ui! Os ps estavam a dar cabo de mim. Porque  que eles exigem que as arrumadoras andem de saltos altos  que eu nunca vou perceber.  uma

discriminao contra as mulheres... os homens entrariam em greve

se os obrigassem a andar a sentar pessoas com sapatos destes!

- Bem, se calhar as mulheres deviam juntar-se - disse Leslie descendo as escadas. Emily ficou a olhar para o rolo da massa que ela tinha na mo.

- Les, o que  que se passa?
- Nada. Pensei ter ouvido passos dentro de casa, deve ter sido algum a passar na rua. - Leslie, virando-se para que

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Emily no visse a sua palidez, foi arrumar o rolo da massa na cozinha. Emily foi atrs dela.

- Isso nem parece teu, Leslie. Tens os nervos desfeitos, no tens? Devias tomar cpsulas de valeriana.  um tranquilizante natural... no te fazia mal nenhum. Eu tenho algumas.

Leslie abanou a cabea.
- No, obrigada. J estou bem.
- Oli, ptimo, a gua est quente. - Emily deitou a gua por cima do saquinho de ch e ps-se a roer um biscoito. - Bem, ento deixa-me fazer-te um ch de camomila.  muito bom e

muito calmante. - No esperou que Leslie respondesse e tirou um saquinho de ch de dentro de um frasco que estava na prateleira e deitou gua noutra caneca. Estendeu-a a Leslie. Uma fragrncia doce, semelhante  do feno, ergueu-se da caneca. Realmente, pelo cheiro, parecia calmante. Leslie deu um golo e achou a bebida surpreendentemente agradvel.

- Camomila, foi o que disseste? - Rainbow, na livraria, dissera que dava camomila ao beb. -  bom. Obrigada, Em.

- Afinal o que  que aconteceu? Leslie contou-lhe dos cestos entornados e do som de passos nas escadas.

- Deve ter sido algum que ia a passar na rua. A acstica da casa, ou coisa do gnero, deve ter provocado esse efeito.

- Mas nunca aconteceu antes - protestou Leslie. - Quase que sentia as escadas a vibrar. E os cestos virados?

Emily encolheu os ombros.
- No sei, se calhar foi um tremor de terra minsculo. Afinal de contas estamos na Califrnia. No deve ter sido suficientemente forte para fazer tremer as vidraas, mas se o cesto estava muito prximo da beira do degrau qualquer tremor, mesmo

fraco, seria o suficiente para o virar. - Lavou a chvena e p-la no escorredor de loia, bocejando. - Ests bem agora? J no te sentes nervosa?

Leslie levantou-se para ir pr a chvena no lava-loia, sentindo que agira como uma idiota. Estavam a sair da cozinha quando o

telefone tocou, retinindo imperiosamente na casa silenciosa.

- A esta hora? Meu Deus, se calhar  a mam! - Emily correu para a cozinha quase derrubando Leslie. Agarrou no auscultador.

- Estou? Estou? Raios te partam, est a algum? - Bateu com o auscultador, a cara muito plida.

- Que besta! Les, devamos ter um nmero de telefone

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confidencial! Pensei que a mam tivesse tido um ataque de corao, ou coisa do gnero. - Engoliu em seco e Leslie aproximou-se e passou-lhe uma mo pelos ombros.

- Eu no posso ter um nmero confidencial, Em. As pessoas tm que poder contactar-me. Podia fazer queixa  companhia dos telefones, mas eles tambm no podem fazer grande coisa. Ele nem sequer diz obscenidades nem faz ameaas.

E depois lembrou-se da voz fria a murmurar, Vais-te arrepender, sua cabra!

No havia necessidade de assustar ainda mais Emily. Devia ser algum com um ressentimento real ou imaginrio contra ela ou contra o mundo. Provavelmente era mais uma vtima do que um vitimador, um das muitas centenas de milhares de homens, de tal forma vitimizados pela sociedade, que ningum, no seu perfeito juzo, os poderia considerar responsveis pelos seus actos. Mas ela desejava que ele, fosse quem fosse, atirasse com os seus ressentimentos contra quem tivesse realmente culpas no cartrio.

Lembrou a si prpria que no havia provas de que a maioria dos autores de telefonemas annimos cometessem quaisquer actos mais violentos do que os prprios telefonemas. Eram pessoas medrosas, que temiam confrontaes.

E quem era ela, depois das actividades do seu poltergeist, para julgar os outros pelas agresses que cometiam inconscientemente?

- Esquece, Em. No aconteceu nada de mal. Vamos para a cama.

Iam a meio das escadas quando a campainha da porta, desconcertantemente estridente na casa silenciosa, tocou.

A esta hora pode ser qualquer coisa realmente importante. A polcia. Uni acidente...

Correu pelas escadas abaixo, espreitando pelo postigo de vidro. No estava ningum no alpendre. Emily correu atrs dela.

- Quem , Ls?
- Parece que no est aqui ningum.
- Bem, algum tocou a campainha - protestou Emily A no ser que o estpido do teu poltergeist toque a campainhas. Os poltergeist tocam campainhas?

Uma mistura de medo e raiva pareceu envolver, como se fosse uma mo gelada, o corao de Leslie. Poltergest. Estarei eu afazer isto a mim prpria,  Emily?

- Parece-me mais provvel que sejam alguns midos idio-

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tas a pregar partidas. Sem piada nenhuma. - Desligou a luz e subiu as escadas. Emily seguiu-a de perto, parecendo incaracteristicamente abalada.

- Leslie e se est mesmo algum l fora? Quer dizer, sabes como so as grandes cidades. Tocam-te  porta e escondem-se e quando a pessoa sai para ver se est l algum, saltam-lhe em cima. Ladres, violadores...

- Bem, visto que eu no abri a porta, ser-lhes-ia muito difcil roubarem-nos ou violarem-nos - disse Leslie calmamente.
- E no tenho intenes de abrir a porta a ningum a no ser que reconhea a pessoa. No te preocupes, Emily. Deve ser alguma partida...

- Como  que eu posso evitar preocupar-me? Tens a noo de como estavas branca com aquele rolo da massa enorme na

mo? E depois o telefonema annimo e a campainha da porta a tocar sem ningum l fora? Se algum nos est a fazer isto, porque ser? E quem?

Leslie abanou a cabea.
- No creio... Mas ficou a pensar. Uma campanha de terror? Ou seriam as

suas hostilidades inconscientes concentradas num poltergeist? Ser melhor consultar algum por causa disto? E quem  que eu poderia consultar? A maior parte dos terapetitas iam morrer

a rir... ou partiam do princpio que eu estava paranica e totalmente desligada da realidade.

O telefone tocou novamente. Emily rosnou uma obscenidade e atendeu. Pousou-o com um suspiro de resignao.

- Ele outra vez - disse. - Filho da me. Vou deixar o telefone fora do descanso, Leslie; temos que dormir alguma coisa.

Sabendo que era uma soluo cobarde, Leslie assentiu com a

cabea. A memria da voz fria a murmurar cabra ainda lhe fazia gelar o sangue. Mas, pelo menos, era a prova de que no estava totalmente paranica. Emily tambm ouvira o homem. No era ela que se estava a infligir tudo aquilo. Foi para o quarto ignorando o sinal do telefone e a mensagem gravada que repetia, Porfavor ponha o auscultador no descanso, bem como o silncio que se

seguiu. Pelo menos assim no seria acordada inmeras vezes durante a noite.

A sala estava escura e pairavam, no seu interior, farrapos de nevoeiro. Leslie estava deitada no escuro, sentindo o nevoeiro no rosto. Havia uma luz plida e misteriosa a iluminar a sala e ela

A HERDEIRA                            99

conseguia ver os contornos indistintos das pinturas que cobriam as paredes. Tinha a certeza de que as pinturas no estavam ali quando se tinham mudado para a casa. No passavam de garatujas obscenas e grosseiras. O esboo da silhueta de uma mulher, com as pernas afastadas e a vulva aberta num carmim obsceno; um corao atravessado por muitas espadas. Confusa, Leslie desviou os olhos. Sentia-se demasiado enjoada e sem energias para se

mexer. O nevoeiro era esverdeado, volteando lentamente e formando espirais.

Estava paralisada. O nevoeiro lambeu-lhe a garganta. No conseguia mexer-se... estava atada! Tentou debater-se, gritar, mas as cordas cortaram-lhe a pele, mordendo-lhe os pulsos e os

tornozelos e tinha uma mordaa que lhe escancarava a boca. Foi ento que uma escurido sem rosto pairou sobre ela aproximando-se cada vez mais, com um vazio onde deveriam estar as feies e

sentiu que se debatia, impotente... dor...

E depois, abruptamente, acordou. Ouviu tocar o telefone no gabinete. Era a outra linha, a do servio de atendimento: mas

estava a salvo na sua cama, no seu quarto, fora tudo um pesadelo. No gabinete o telefone tocou outra vez e ela sabia que devia correr a atend-lo, podia ser um doente em apuros ou em desespero, podia ser uma tentativa de suicdio ou at mesmo algum com um pesadelo como o seu. Leslie continuava a sentir a nusea que a percorrera quando aquela coisa tinha pairado sobre ela. Correu pelas escadas abaixo sem se preocupar em calar os chinelos ou vestir o roupo, mas o telefone ficou silencioso. s escuras marcou o nmero familiar.

- Daqui fala Leslie Barnes. Ligaram-me agora mesmo? E a voz entediada e surpreendida do outro lado da linha:
- No, doutora Barnes. No recebemos nenhumas chamadas para si.

Evidentemente que no. Aquela noite de terror chegaria alguma vez ao fim? Olhando para o relgio Leslie viu que ainda eram s quatro e meia da manh, mas era pouco provvel que conseguisse voltar a dormir. Acendeu a luz e foi, em silncio, buscar os chinelos e o roupo, escolheu uma cadeira confortvel e ficou no gabinete at de madrugada a ler o artigo cientfico mais enfadonho que conseguiu encontrar.

Captulo seis

Leslie assinou o cheque; o agente olhou para ele, guardou-o numa pasta e depois, levantando-se, apertou-lhe a mo. - Acho que tem ali um bela casa. A papelada toda no passa de uma formalidade. Falando em sentido estrito, legalmente, tem trs dias para poder mudar de opinio... as leis que regulam os bens imobilirios exigem esse prazo para qualquer venda de propriedades. Mas no existe qualquer razo que a

impea de se mudar imediatamente. No fim desta semana contacte-me, por telefone, se quiser, s para ter a certeza de que no surgiu nenhuma complicao legal e depois pode mudar-se.

Leslie assentiu. Quando mais depressa se mudasse melhor. As trs ltimas noites tinham sido horrendas, com o telefone e a campainha a tocar ininterruptamente. Finalmente, por insistncia de Emily, comunicou o que se estava a passar a um polcia educadamente cptico, que escrevera tudo e a aconselhara a tentar manter o autor dos telefonemas annimos em linha para que a chamada pudesse ser localizada. Mas como  que se consegue manter uma pessoa em linha quando no est ningum do outro lado? Um outro cptico, da companhia dos telefones, verificara cada uma das suas extenses e declarara estar tudo em ordem, dizendo que talvez a humidade da longa estao das chuvas tivesse provocado uma avaria qualquer nos retransmissores do sistema. E quanto a isso, como era evidente, no havia nada a fazer. Ela chegou mesmo a considerar a hip tese de deixar de ter telefone.

Mas isso no faria calar a campainha da porta. E o que  que diria aos meus doentes? Tentara condicionar-se por forma a

ignorar o retinir da campainha, mas sabia que atingira o ponto em que saltava de cada vez que ela tocava.

E se sou eu que estou a fal-er isto a mim prpria? E se 

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uma fora qualquer - um poltergeist? - no meti prprio esprito que est a causar todo este barulho?

Fora  biblioteca pblica de Berkeley e, quando no encontrara ali nada de interesse acerca de poltergeist ou fenmenos psquicos, fora  biblioteca universitria da Universidade de Berkeley. Ali lera conscienciosamente os livros de Nandor Fodor e de J. B. Rhine, o primeiro dos quais se limitava a fornecer desenvolvimentos daquilo a que ela j se habituara a chamar de "paleio psicanaltico". O segundo fornecia imensos dados estatsticos acerca da adivinhao com cartas marcadas com smbolos simples o que, embora fornecesse provas fascinantes e convincentes acerca da telepatia ou percepo extrasensorial, no dava qualquer ajuda na forma de abordar o poltergeist de Eileen Grantson ou o seu prprio. Emily, to perturbada como ela prpria pelo barulho incessante do telefone e da campainha, continuava a insistir que o problema devia ser uma avaria elctrica.

Apesar de tudo Leslie obrigava-se a atender o telefone, visto que pelo menos um tero das chamadas eram de um doente ou era qualquer coisa relacionada com o trabalho. Uma das vezes, Emily entrou e viu-a ao telefone. Ela desligou-o e disse fervorosamente, com um suspiro:

- Nunca pensei que alguma vez pudesse ficar to aliviada por ser algum a tentar vender-me um isolamento trmico!

Contudo, quando Eileen Grantson velo  consulta, na tarde do dia em que ela passara o cheque para pagar a casa, viu-a pela primeira a vez a sorrir, toda excitada. Andara a patinar num ringue de patinagem, com um rapaz que gozava de um estatuto razoavelmente bom e que tocava com ela na orquestra.

- Ele toca contrabaixo. No toca melhor do que eu, mas o pai dele  o treinador de basquetebol e todas as raparigas so doidas por ele. Aquelas parvas estavam todas a olhar para ns e ficaram para morrer, quando ele veio ter comigo e fomos outra vez patinar os dois - disse Eileen toda contente. Pela primeira vez, em quatro semanas de sesses, Eleen no tinha nada a dizer sobre as intruses barulhentas na sua vida causadas pelo fenmeno do poltergeist. Parecia que o seu novo amigo, a quem ela chamava Scotty, fizera mais por Eileen do que ela prpria podia fazer.

A maioria dos problemas das escolas secundrias resumem-se a questes de estatuto interpares, apesar do que possam dizer os psiclogos ou os educadores. Os midos que gozam de um

estatuto alto do-se bem, os que no tm estatuto, do~se mal,

MARION ZIMMER BRADLEY

@eslie e, no pela primeira nem pela quinquagsima vez, se teria escolhido a profisso errada. Talvez um psiclogo acedido fosse aquele que ajudava as pessoas a fazerem os romssos adequados para obterem o reconhecimento adequado dos seus pares e, dessa forma, o estatuto inerente.

E aquele tipo de pensamento no era grande ajuda, pensou, quando acabara de comprometer o pouco capital que, provavelmente, alguma vez possuiria, na compra de uma casa nova.

A parte de Emily j fora aplicada por forina a garantir os custos da sua educao dispendiosa no Conservatrio e tinham guardado algum dinheiro para lhe possibilitar uma oportunidade de ter uma

carreira como concertista, ou para facilitar o choque da readaptao se ela descobrisse que a carreira de concertista nunca se iria materializar.

E mais tarde ou mais cedo o dinheiro da mam vai acabar e vamos ter que encontrar um stio para onde ela possa ir Ou traz-la para viver aqui. At agora a penso do pap d para ela viver bem. Mas se ficar doente ou senil, estamos todas metidas numa grande alhada.

Por isso no dispunha realmente da alternativa de mudar de profisso numa fase to adiantada da sua vida. Era a armadilha contempornea para os jovens, pensou: formavam-se,  custa de muito tempo e dinheiro, para uma profisso em que entravam, de olhos brilhantes e cheios de entusiasmo e desejosos de fazer o bem num mundo em que o bem no tinha grande valor - e, aps quatro ou cinco anos, descobriam que era como tentar vazar o reservatrio do lago Shasta com um balde. Havia tanta misria no mundo e o pouco bem que e] a podia fazer estava limitado s pessoas que podiam pagar.

Talvez devesse ter casado com Joel; aquelas ideias comeavam a soar-lhe muito parecidas com aquilo que ele dizia, que ela estava a desperdiar a vida com falhados e piegas...

Mas estava a fazer algum bem, tranquilizou-se a si prpria com firmeza, enquanto sorria a Eileen.

- Sabes que daqui a duas semanas vou mudar-me para o

meu novo consultrio em So Francisco? Vais conseguir ir at l?

- Claro - disse Eileen. - O pap disse que eu podia ir no Metro e apanhar o autocarro do Haight at ao seu consultrio.

- Na verdade h trs autocarros que tm paragens a dois quarteires de distncia - disse Leslie. - Mandei imprimir uns cartes para os meus clientes. Da prxima vez dou-te um. Abriu a porta a Eileen e ficou na ombreira a olhar para ela.

A HERDEIRA                           103

Mas isto  srio. Se estou a ter dvidas acerca da tmica profisso para a qual tenho formao, o que  que vai acontecer? No posso atirar tudo fora e comear outra coisa qualquer s porque perdi a f na minha capacidade de ser bem sucedida nesta profisso.

O telefone tocou. Ela atendeu-o, desejando ardentemente que fosse uma chamada verdadeira ou, na pior das hipteses, o silncio. Qualquer coisa era melhor do que aquela respirao pesada e

sufocante ou do que as palavras murmuradas do seu molestador.

Silncio. Um silncio de arrasar os nervos. Por causa daquilo que poderia estar por trs do silncio, a sua imaginao povoava-o com os relatos horrendos que os jornais faziam de massacres. No, pensou, o silncio  apenas povoado pela minha prpria imaginao.

-  do tempo hmido - disse Emily entrando no trio. -Talvez o sistema elctrico funcione melhor em So Francisco e os telefones no passem a vida a fazer estas coisas. Les, adivinha.

- No sei; o qu?
- Dentro de trs dias vou a uma audio para tocar com a

orquestra de So Francisco. O Segundo Concerto para Piano do Rachmaninoff...

- Eu conheo esse concerto? Emily trauteou uma frase que Leslie reconheceu imediatamente. - Isso no  do Tschaikowsky?

- S se os tipos que imprimiram a pauta cometeram um erro - disse Emily -, no,  do Rachmaninoff. Tive que ouvir um sermo do Tio Whitty quando eles fizeram o anncio esta manh. Ele acha que eles deviam fazer um concerto de Mozart, suponho. Ou, melhor ainda, do Scarlatti. No quero saber. Eu gosto da msica do romantismo e, assim que sa, fui comprar a

pauta com a parte do piano. Ainda bem que gostas. Vais ouvir-me estud-la imensas vezes nos prximos dias. Trs dias, meu

Deus. Eu j a toquei, mas nunca a estudei...

Leslie perguntou, muito sria:
- A audio vai ter muitos estudantes?
- Oito ou dez, acho eu. E um dos membros do jri vai ser

o Simon Antsey, aquele pianista que era brilhante mas que perdeu trs dedos num acidente. E ouvi um boato de que ele no gosta de mulheres pianistas. Por isso a competio vai ser bastante dura. - Foi para a sala de msica.

Leslie seguiu-a e disse:
Falei hoje com a agencia imobiliria. Podemos mudar-

104                 MARION ZIMMER BRADLEY

-nos quando quisermos. J avisei o senhorio desta casa que samos

no fim deste ms, mas o que  que achas de irmos para a, prxima semana?

-Hum? - os olhos de Emily j estavam pregados na pauta e quando Leslie repetiu a pergunta ela disse vagamente:

- Bem, no mandes levar o piano at depois da audio, est bem? - e sentou-se ao teclado. Lesfie sentiu que Emily j partira para o mundo mgico onde se desligava de todos os assuntos e preocupaes.

Quem me dera conseguir desligar-me assim de tudo. Depois, Leslie recomendou a si prpria que fosse justa; Emily tinha outros problemas, talvez at piores do que os dela: audies, o mundo tremendamente competitivo dos pianistas, os jris que tinham preconceitos contra as mulheres. Ficou algum tempo encostada  ombreira da porta, ouvindo Emily tocar os primeiros acordes espaados do adagio.

Havia uma cano popular - a mam diz que  dos anos quarenta - com esta melodia. "Full Moon and Empty Arins'." Talvez seja esse o meu problema. Um namorado novo operou maravilhas em Eileen. Se calhar eu devia telefonar ao Joel. Ficou alguns instantes a ouvir a msica melanclica at o telefone voltar

a tocar.

-  para mim? - gritou Emily Leslie bateu com o auscultador.
- No - respondeu. - Era o nosso amvel vizinho poltergeist!

- Isso j no tem graa - respondeu Emily.
- Podes ter a certeza que no tem - disse Leslie, mas o som de Rachmaninoff j enchia de novo toda a casa; Emily j perdera o interesse pela chamada telefnica.

O telefone tocou mais seis vezes, dando cabo dos nervos de Leslie, at que finalmente desistiu e tirou o auscultador do descanso. Nunca havia ningum na linha e, um ltimo resqucio de sanidade, fez com que ela conclusse que sempre era melhor do que a presena ameaadora da respirao do outro lado. Pelo menos assim podia deitar as culpas para cima do tempo chuvoso ou do curto-circuito no detectado no sistema. Aplicou-se sombriamente a acabar de embalar as coisas do escritrio e, quando terminou, foi para a cozinha e comeou a embrulhar taas de vidro em papel de jornal. A campainha da porta tocou trs

' Lua Cheia e Bi-aos Vazios, (N. da T)

A HERDEIRA                            105

vezes, fazendo com que ela atravessasse o trio apressadamente e abrisse a porta, deparando-se-lhe o alpendre vazio e fustigado pela chuva.

Aps a campainha ter tocado pela quarta vez, accionada por mo invisvel, aproveitou o facto de ter uma chave de fendas na mo (tinha estado a desaparafusar a prateleira das especiarias da parede da cozinha) e desmontou, contrariada, a campainha da porta deixando um fio elctrico pendurado e escreveu com uma caneta de feltro um carto para afixar na porta:

POR FAVOR BATA. CAMPAINHA AVARIADA.

Isto deve resolver o problenia, seja ele uni curto-circuito ou tini poltergeist, pensou colando o carto na porta com fita-cola e voltando para a cozinha.

O telefone tocou novamente. Ela iria jurar que o tinha desligado. No estava ningum na linha e ela suspirou e ps o auscultador no descanso da extenso da cozinha - foi ao escritrio e desligou a extenso que ali se encontrava, para no ter que ouvir o sinal irritante na extenso da cozinha. O som dos acordes de abertura de Rachmaninoff enchia a casa enquanto Lesfie pegou na manteiga, em po escuro, chvenas, pratos e numa alface que comeou a arranjar para fazer salada. Naquela noite empacotaria os pratos e arranjaria copos e pratos de papel para usar at se instalarem na nova casa.

O telefone tocou novamente. Seria capaz de afirmar em tribunal, sob juramento, que o tirara do descanso. Deixou tocar. Mas o telefone no parava de tocar e os seus nervos acabaram por ceder e ela atendeu.

- Porque  que ine ests a fazer isto? - gritou ela para dentro do bocal.

- Devo dizer que essa  uma forma muito estranha de se atender o telefone - disse uma vozfaniiliar, rindo-se e em tom de censura. Leslie soltou um suspiro.

- Joel. Oh meu Deus, desculpa. Tenho estado a receber telefonemas annimos e o telefone tem estado a tocar de cinco em cinco minutos desde h uma hora atrs e eu estou perdida da cabea.

- Pobrezinha, parece que ests a passar um mau bocado disse Joel. O piano passara novamente  melodia melanclica do adagio. Full Moon and Ei-npty Arnis, tocava o piano enquanto

106                 MARION ZIMMER BRADLEY

Joel continuou a falar. - Tenho tido umas saudades horrveis de ti, nunca pensei poder sentir saudades assim de algum e a nossa discusso foi muito estpida, se pensarmos bem no assunto. Sers capaz de me perdoar e jantar comigo esta noite?

- Perdoar-te? Eu prpria no me portei nada bem ouviu-se dizer, as orelhas a arder com a memria do vinho tinto

a escorrer pela cara dele. - Mas jantar.. no sei Joel, j tenho o jantar pronto e a Emily est a estudar... e eu estou muito ocupada a embalar coisas.

- Ests ocupada... o qu?
- A embalar. Mudamo-nos de amanh a uma semana. Fez-se um silncio momentneo do outro lado da linha.
- Vais-te mudar? - disse ele por fim, - E ias embora sem me telefonar?

Ela disse relutantemente:
- Acho que teria acabado por te telefonar. - No tinha a certeza. Algo nela duvidara disso: perder o Joel no seria uma fori-na de comear tudo de novo na casa nova? Ele pareceu ferido.

- S achas que terias telefonado?
- Sou uma filha da me teimosa - disse ela pesarosa mas estou contente por teres telefonado. Achas que  suficiente?

- Para onde  que te vais mudar?
- Para So Francisco. Comprei uma casa no que costumava ser o Bairro de Haight-Ashbury.

- Ento compraste a casa. - Ainda havia uma sombra de reprovao na voz dele. Mas por fim disse: - Bem, com os preos a que as casas esto suponho que pode ser um ptimo investimento comprar casa agora. Acho que tinhas razo quanto a

esse ponto, no faz sentido atirarmo-nos de cabea para as coisas.

Ela sabia que aquilo era o mais semelhante a um pedido de desculpas que Joel seria capaz de fazer e, considerando as cir~

cunstncias, j era bastante surpreendente que o tivesse feito. E ele tinha razo, no fazia sentido atirarem-se de cabea para as coisas, fosse para dentro ou para fora delas, ou seja, eliminar o Joel da sua vida no meio daquele tipo de crise e sob aquele tipo de tenso, seria um disparate. Passava a vida a dizer aos seus clientes para no tomarem decises que alterassem profundamente as suas vidas quando se encontrassem sob o efeito de uma tenso muito forte.

Estou a aprender novamente a perceber o tipo de pessoa que sou. Comeo a suspeitar de que estou na profisso errada. Como  que eu vou saber se quero ou no casar-me com tini homem como o Joel?

A HERDEIRA                            107

Eu convidar-te-ia para partilhares as nossas sanduches de queijo, mas queres realmente ouvir a Emily a estudar Rachmaninoff o sero todo?

- No podemos mandar a mida ao cinema?
- Se ela ainda tivesse quinze anos, provavelmente podamos, mas ela est nervosssima por causa de uma audio que tem na segunda-feira. Vai tentar ser seleccionada para tocar com a

Orquestra Sinfnica de So Francisco.

- Ela vai conseguir; isso ou coisa melhor - disse Joel. A mida tem imenso talento. Mas admito que ficar sentado a ouvir Rachmaninoff a noite toda no  a minha ideia de uma noite bem passada. E ainda te devo uma celebrao. Sexta-feira  noite?

- Adoraria - prometeu ela fervorosamente.
- Conta-me como  a casa - perguntou ele generosamente e conversaram durante mais vinte minutos at ele reconfirmar o encontro.

- Amanh  noite. E pe-te bonita. Vou levar-te ao Claremont. Amo-te, Les.

- Amo-te - disse ela baixinho e desligou o telefone. Talvez as coisas no estivessem assim to mal. Ia sair daquela casa, com o telefone que no parava de tocar, mais a campainha que tinia sob aco de mo invisvel, os cestos que caam e os cinzeiros que voavam; teria um novo nmero de telefone para despistar o tipo que ofegava para dentro do telefone.

Ps as sanduches no grelhador e chamou Emily. A irm apareceu com os olhos pregados na pauta que trazia na mo. Foi at  mesa da cozinha e tirou salada da taa com uma s mo.

- Cuidado, Em, no queres encher isso de maionese, pois no?

Com relutncia, Emily estendeu o brao e pousou a pauta na bancada, atacando a salada. Leslie foi buscar as sanduches de queij o.

- Que belo jantar, Les. Obrigada. Devia ter-te ajudado...
- Esquece. Tens a audio. Emily disse, com a boca cheia:
- Ouvi o telefone tocar h um bocado? Era garantido que Emily ouviria o telefone mesmo imersa em Rachmaninoff.

- Tocou uma meia dzia de vezes. Deixei-o desligado durante um bocado. Mas o Joel telefonou.

- Oh. Passados instantes acrescentou:

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Pensei que isso estava tudo acabado. Voltaram a andar juntos, ento?

- Ele telefonou para pedir desculpa - disse Leslie rigidamente e depois reparou no pulso da irm. Havia pequenas ndoas negras em torno do pulso magro.

- Que foi que te aconteceu? Emily puxou nervosamente a manga escura da camisola.
- O velho Agrowsky torceu-me o pulso -, respondeu.
- Ele... - Leslie no continuou. - Esse tipo de coisa acontece com muita frequncia, no Conservatrio?

- Acho que no. Quer dizer, ele no me torceu o pulso de propsito. Disse que eu o tinha na posio errada e agarrou-mo para o pr na posio correcta - acrescentou puxando a manga da camisola por forma a cobrir as ndoas negras. - No faas drama.

Leslie sentia-se mais inclinada para a indignao, mas Emily no tinha onze anos nem necessitava de protec o. Era a ela que lhe cabia queixar-se ou no, a escolha era dela.

Emily mexeu-se desconfortavelmente sob o olhar que Leslie dirigia para o seu brao.

- Ele no aceita muitos alunos. Eu sou uma das privilegiadas,  tudo, e no vou armar confuso - acabou por dizer.

Leslie pensou que - privilgio - no seria a palavra que ela escolheria para descrever o facto de se ser aluna de um professor de piano que inclua torcedelas de pulsos nos seus mtodos pedaggicos, mas calou-se. Sabia que o Dr. Boris Agrowsky era um msico mundialmente famoso.

- Ele foi o professor do Simon Anstey - continuou Emily e diz que se eu me sair bem nesta audio me inscreve no curso avanado que o Anstey lecciona durante o Vero.

- Isso no  muito em cima da hora? Para uma coisa desta importncia, eles deveriam dar-te mais tempo para te preparares. Pelos menos algumas semanas. Talvez mesmo meses.

- Oh, eles do. A audio para a sinfonia  em Setembro. Mas uns quantos de entre ns tm que tocar para um jri de piano da faculdade, na segunda-feira, para que eles escolham quais de ns iro  audio para a sinfonia e o Agrowsky s esta manh me disse que podia ir  audio. Sdico malvado! - Levantou-se e foi at  bancada. - Posso comer outra sanduche?

- Claro. Queres que a faa?
- Eu fao, No te levantes. - Emily barrou o po integral com uma espessa camada de maionese, partiu grandes fatias de

A HERDEIRA                           109

queijo e meteu o nariz no frigorfico, inquisitivamente. Ps um monte de couves-de-bruxelas em cima do queijo e, quando Leslie fez um ar enjoado a irm disse:

- Oh, que bom, fiambre! - Ps duas fatias de fiambre em cima das couves -de-bru x elas, espalhou manteiga da parte de fora das duas fatias de po e meteu tudo no grelhador.

- Queres uma Les?
- J comi o suficiente, obrigada. - O apetite de uma adolescente, Leslie sabia-o, era um poo sem fundo, sentiu-se no entanto compelida a perguntar, enquanto a sanduche comeava a chiar dentro do grelhador:

- Mudaste de ideias quanto ao vegetarianismo?
- Bem, no. - Emily parecia embaraada. - Mas s vezes tenho uns desejos, talvez seja o meu corpo a tentar dizer-me qualquer coisa. - Ergueu a grelha, olhou com satisfao para o po tostado coberto de manteiga, tirou-o da grelha e p-lo num prato. - Escuta Les, se eu puder ter lies com o Anstey isso vai custar cerca de trezentos dlares extra.

- O dinheiro  teu, Em. Se queres mesmo, inscreve-te, eu assino. - Estava a tentar lembrar-se de onde ouvira o nome de Simon Anstey. Passados alguns minutos disse-o.

- Eh, ele desde sempre que  conhecido. Ganhou um prmio qualquer, daqueles importantssimos, quando tinha a uns dezasseis anos e j tocou em todo o Mundo. Eu tinha alguns dos discos dele quando era pequena. Tambm fez dois ou trs filmes, era muitssimo bem-parecido, com aquele tipo de charme dos anos cinquenta... e  assim, do tipo elegante. J era muito velho, devia ter a uns trinta anos, talvez mesmo trinta e cinco - acrescentou Emily mastigando fiambre e queijo, enquanto Leslie estremecia com a sua definio de senilidade.

- Seja como for, Les, apareceu tudo nos jornais... ele teve um acidente horroroso, perdeu uns quantos dedos e ficou com a cara toda cortada. Esteve imenso tempo no hospital - desde essa altura nunca mais tocou -, mas agora ensina no Mundo inteiro, lecciona cursos avanados. Acho que tambm dirige orquestras. E o Agrowsky disse que me inscreveria nas aulas dele se eu me portasse bem na segunda-feira. - Riu-se. - Ouvi dizer que o

Anstey  um terror... que faz o Agrowsky parecer o Pai Natal. Deu umas pancadinhas no pulso magoado e fez uma careta.

- Ento o Anstey  deficiente?
- Perdeu um par de dedos e  capaz de estar cego de um

olho. Mas as aulas dele esto sempre  cunha.

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Leslie estava certa de ter ouvido falar de Simon Anstey noutro contexto; uma recordao estava a querer vir  superfcie.

- O Joel vem c, Les?
- Ele queria vir, mas eu disse-lhe que tu estavas a estudar. E, seja como for, tenho que embalar as coisas para poder contactar a empresa de mudanas amanh logo de manh.

- No te esqueas de telefonar  mam e de lhe dizeres recordou-lhe Emily. - Les, se temos um quarto a mais no devamos trazer a mam para aqui? Preocupo-me tanto com ela, sozinha l em Sacramento. Se cai e parte uma anca ou qualquer coisa... Tenho imensos sentimentos de culpa; devia ter ficado em

casa e ir para a faculdade em Sacramento. Mas no consegui encontrar os professores adequados...

- Ningum, nem mesmo a mama, esperava que fizesses isso, querida - tranquilizou-a Leslie, porque era isso o que Emily precisava de ouvir. Mas mesmo quando o pai fora vivo, ela soubera que a me teria preferido que ambas se tivessem casado e ficado na cidade, como boas filhas cumpridoras dos seus deveres. A me recordara frequentemente Leslie de que no as

criara s para que elas pudessem ir-se embora. E nenhum dos seus pais alguma vez conseguira perceber porque haveria Leslie de querer uma carreira mais interessante do que a de professora e a paixo de Emily pelo palco, primeiro no bailado e depois no

piano, horrorizara-os. Tinham facultado s duas raparigas lies de piano e de bailado, mas apenas porque essas eram ocupaes respeitveis para as raparigas da sua classe social; mas que elas seguissem esse tipo de carreira profissional j no era aceitvel. Leslie, como a maioria das suas amigas, no se importara nada de abandonar as aulas de piano e de bailado quando fora para a universidade - ainda tocava piano por prazer, mas s quando Emily no estava em casa.

Emily era diferente, sempre fora diferente, mas nenhum dos pais percebera alguma vez porque  que Emily no conseguira encontrar um professor de piano adequado em Sacramento e tambm no percebiam porque razo, sendo ela capaz de tocar qualquer pauta que lhe pusessem  frente, precisava sequer de um professor. Ora, dissera a me, ela prpria poderia muito bem ensinar piano! Ambas as irms tinham ficado com cicatrizes da batalha que tinham tido de travar para que os pais deixassem Emily candidatar-se ao Conservatrio. Leslie sabia que a me ainda culpava secretamente essa batalha pelo enfarte que o pai

A HERDEIRA                           111

sofrera. Leslie sabia que no fora essa a razo do ataque cardaco do pai. Ele era o tipo clssico de pessoa orientada para o sucesso, que esgravatara e lutara no caminho para o topo. O facto de ele ter sobrevivido aos sessenta anos surpreendera-a.

- Errirme, o que tu tens que fazer agora  concentrar-te no

teu trabalho e na audio. A mam est ptima onde est e no me parece que uma legio inteira de anjos da guarda a conseguisse persuadir a mudar-se para aqui, para longe de todos os seus amigos. Ela tem a vida organizada da forma que gosta e sabe que ns organizaremos a nossa da forma como gostamos. - E se no sabe, acrescentou Leslie para si prpria, o melhor  que aprenda. Emily estava novamente a meter o nariz no frigorfico e voltou para a mesa com uma enorme laranja de casca grossa.

- Queres uma? J tomaste a tua dose diria de vitamina C e de potssio?

Leslie riu-se e aceitou uma laranja; a cozinha estava cheia do odor agridoce da laranja enquanto tiravam a pele branca. Emily puxou distraidamente a pauta de Rachmaninoff para si e

ficou a estud-la enquanto, totalmente ausente, ia enfiando gomos de laranja na boca. O esprito de Leslie estava concentrado nos

pormenores da mudana, mas parou um momento para observar a in-n. Tinha os olhos limpos de maquilhagem e um tufo de cabelo escuro a escapar-se da trana. O pescoo elegante e a cabea gra~ ciosa davam-lhe um ar de bailarina. Um dia teria uma presena maravilhosa em palco. No era para admirar que a me se tivesse sentido um patinho feio a contemplar o maravilhoso cisne que chocara. Pegou num bloco e comeou a tomar notas. O imobilirio era sempre um bom investimento, o seu valor s podia aumentar. No precisava de se levar ao limite em termos financeiros, nem teria que estender em demasia as horas de trabalho. A renda seria compensada pelas prestaes da hipoteca. Poderia mesmo, talvez, doar uma ou duas horas de trabalho nos hospitais pblicos de sade mental ou aceitar um ou dois pacientes que no pagassem e que lhe fossem enviados pelas escolas pblicas. Ou estaria apenas a apaziguar a sua conscincia, para compensar o facto de ter entrado na classe dos proprietrios?

O telefone tocou. Leslie encolheu-se e Emily disse:
- Eu atendo. - Escutou por um instante e depois disse:
- Vai-te foder, filho da puta - e bateu com o auscultador fazendo uma careta. -  a nica maneira de tratar estes tarados. Pagar-lhes na mesma moeda.

-   Respirao pesada?

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Bem, eu no consegui perceber totalmente o que ele estava a dizer, mas no me pareceu que fosse Feliz Aniversrio nem

Hare Krishna.

- Uma coisa  certa: pelo menos depois de mudari-nos de casa no vamos ter que aturar esta maada. Vou arranjar um nmero confidencial e dou-o s aos doentes.

- Achas ento que se trata de um antigo doente com um

ressentimento contra ti?

- Ou isso ou algum que escolhe um telefone ao calhas e percebeu que este s  atendido por mulheres - disse Leslie. Aquela ideia era prefervel  sensao de que no estava ningum ao telefone, que uma fora estranha e inexplicvel estava a invadir a sua vida, sada do caos cego da escurido.

Quanto  campainha da porta e ao facto de o telefone tocar mesmo quando o deixava fora do descanso, bem, uma estao de chuvas prolongada provocava efeitos estranhos nos sistemas elctricos.

A campainha da porta tocou; Emily levantou-se de um salto e correu para a entrada. Passados uns instantes regressou de cenho franzido.

- No est ali ningum. Deve ser a porcaria do curto-circuito outra vez, suponho. Bem, pelo menos no eram as Testemunhas de Jeov a tentarem converter-nos.

Foi ento que os nervos de Leslie deram de si.
- Emily, eu desliguei a campainha da porta! No pode tocar! Anda c ver - gritou e empurrou a cadeira que caiu atrs de si. Correu para o trio e apontou para os fios dependurados do boto da campainha.

- Olha! V, eu desliguei-a. O que  que nos est a acontecer? Oh, meu Deus, o que est a acontecer?

As lgrimas corriam-lhe pelo rosto. Emily, perturbada, deu-lhe uma pancadinha no ombro.

- No sejas tonta, Les. Como  que podes dizer que no podia tocar quando ambas a ouvimos? Deves ter desligado o fio errado,  tudo, e l dentro ainda deve estar ligada. - Premiu o boto da campainha.

Silncio.
- Vs? -gritou Leslie. Emily no sabia do poltergeist - o de Eileen que mandara um cinzeiro pesado pelos ares, que lhe causara um ferimento, o poder que atirara com um copo de vinho  cara de Joel e que atirara com cestos pelas escadas abaixo. Emily pressionava resolutamente o boto da campainha, repetidamente. Deu um puxo

A HERDEIRA                           113

hesitante no fio pendurado.

- Deves t-lo soltado parcialmente e no faz bom contacto. Devias chamar um electricista - ainda ficas electrocutada a mexer em fios elctricos. - Deu mais um puxo descuidado no fio. Porque  que deixas que estas coisas te compliquem tanto com

os nervos, mana?

- Tu no percebes...
- E ainda bem que no percebo - ripostou Emily furiosa. Se  perceber que te faz agir desta forma maluca! Qualquer pessoa diria que queres acreditar nessas maluqueiras sobrenaturais... mdiuns e poltergeist e a polcia a telefonar-te... Quem  que tu pensas que s? Uri Geller, ou coisa do gnero? Parece-me bem que passaste demasiado tempo com clientes com um parafuso a menos e isso comea a contagiar-te! - Puxou pelo fio da campainha at este se soltar da parede e atirou-o pelos degraus abaixo e depois foi para dentro, furiosa.

Leslie ficou sem fala. O ponto de vista de Emily era, evidentemente, o nico possvel para um adulto racional e esclarecido. Como podia ela, uma mulher educada e inteligente, com uma formao especial na utilizao das suas capacidades mentais, justificar a defesa que fizera perante a irm, uma rapariga normal e

racional, de ataques de poltergeist e fenmenos psquicos? Lentamente, voltou para dentro de casa e fechou a porta. Teria que mandar arranjar a campainha antes de se mudarem.

- Emily, desculpa. Acho que tenho deixado que tudo isto me arrase o sistema nervoso.

- Tens tido muitas preocupaes, com a mudana e a briga com o Joel - disse Emily. -Agora que te reconciliaste com ele vai tudo voltar  normalidade, vais ver.

Leslie abriu a boca, indignada, mas depois fechou-a novamente. Emily j desaparecera no interior da sala de msica e os acordes fortes do concerto de Rachmaninoff ecoavam pelo trio. Emily no percebia e, provavelmente, ainda bem.

Ela podia at ter razo. At Elleen, agora que tinha um namorado novo, deixara de mencionar o poltergeist. Fodor parecia acreditar que o que estava na base dos poltergeist era a energia sexual frustrada. Evidentemente que ele era um freudiano, e estes pensavam que a energia sexual frustrada estava na base de tudo. Mas talvez neste caso tivessem razo.

Talvez o senso comum esteja certo e aquilo de que eu preciso  de um homem.
Bem, iria encontrar-se com Joel na noite do dia seguinte.

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Leslie raspou restos de sanduches e peles de laranja para o caixote do lixo, ps os pratos no lava-loia e foi  cave buscar a embalagem da misturadora e uma caixa de carto para embalar os pratos. Enquanto esteve ocupada a empacotar os pratos esqueceu o telefone e a campainha da porta e nenhum deles voltou a tocar naquela noite.

Foi com alvio que, no dia seguinte, comeou a verificar a lista de telefonemas que tinha para fazer, foi a uma tipografia mandar imprimir os cartes com o novo endereo profissional, desenhou o mapa indicando aos clientes como chegar ao consultrio nos transportes pblicos e procurou um novo servio de atendimento de chamadas com sede em So Francisco. No fim do dia j localizara uma empresa de mudanas que viria na semana

seguinte para fazer um oramento e um especialista em transporte de pianos. O plano de Emily s seria transportado depois da audio. Mal tivera tempo para, no meio da torrente de Rachmaninoff que, durante toda a tarde, trovejara retumbantemente pela casa, tomar um duche, lavar o cabelo curto, sec-lo com o secador e enrol-lo num carrapito. Vestiu o seu melhor vestido.

Emily velo  superfcie brevemente para dizer:
- Hei, ests linda Les. Diverte-te e diz ol ao Joel por mim. - Depois mergulhou novamente no Rachmaninoff.

Joel ouviu a msica quando bateu  porta, os olhos brilhantes com a viso de Leslie no vestido vermelho e dourado.

- Ela toca to bem. Mas no te complica com os nervos

ouvir sempre a mesma coisa quando ela est a estudar?

- Eu no me importo, mas alguns dos meus clientes ficam um tanto incomodados,  por isso que ela no pode estudar quando est c gente. - Emily ficara histrica por causa disso naquela dia, com a aproximao da audi o, mas Leslie tivera que ser inflexvel. -A casa nova tem salas  prova de som onde eu vou receber os clientes e ela j vai poder estudar  vontade sempre que precisar. A antiga dona era msica, segundo me disseram.

- Era algum de que eu tenha ouvido falar?
- Duvido; penso que ela era apenas uma amadora muito empenhada. Era psicloga profissional - no achas que  uma coincidncia enorme?

- A verdade  mais estranha do que a fico, como se costuma dizer - disse Joel com falta de originalidade abrindo-lhe a porta do carro. - Recordas-te do nome?

- Margrave. Alison Margrave.

A HERDEIRA                            115

Ele ergueu os olhos e franziu a boca.
- O mundo  mesmo pequeno. Mais pequeno do que se julga. O Dick Carmody, l do escritrio, era um dos advogados dela. Ela era velha, mas muito astuta e ela e os Carmody estavam envolvidos numa seita maluca qualquer, acho eu... no sei pormenores. Uma religio esquisita qualquer. Mas no era o tipo de culto em que andam atrs do dinheiro das pessoas. Espritas, ou

coisa do gnero. Faziam sesses de espiritismo. Seja como for, houve um grande falatrio quando a velhota mudou o testamento
- ela tinha deixado tudo a um filho adoptivo, ou coisa do gnero e, de repente, deixou a casa a uns primos distantes do Omaha ou do Wyornng ou um stio desses, uma gente que ela nunca vira na vida. E depois a velha Miss Margrave - devia ter quase noventa anos - morreu de repente e houve um inqurito e interrogaram o filho adoptivo ou l o que ele era. S que ele tinha tido um acidente e estava no hospital quando tudo aconteceu, a ser operado, Uma histria horrvel, essa. Ele era msico profissional, uma pianista famoso ou coisa assim. Perdeu um olho e os dedos de uma mo, ou coisa semelhante; lembro-me de ter pensado que era uma coisa horrvel para acontecer a um msico.

- Meu Deus, as coincidncias esta noite realmente abundam - disse Leslie. - No te estars, por acaso, a referir a Simon Anstey?

- Parece-me que era esse o nome. A casa estava toda trancada quando a velhota morreu e suponho que ele devia ser uma das duas ou trs pessoas que tinha a chave. E tu compraste essa casa? - Foi ento que avistaram as luzes do Claremont e apressaram-se a entrar no enorme trio antigo, com o seu esplendor do sculo xix. O jantar estava perfeito e depois do jantar danaram, cada vez mais agarrados  medida que a noite avanava. Sem que nenhum deles tivesse perguntado e o outro respondido, a meio do sero Leslie soube que ambos partiam do princpio de que ela iria com ele para casa e de que passariam a noite juntos. Sentiu-se satisfeita por as coisas estarem a correr assim. Tivera saudades dele e no menos saudades do sexo que ambos faziam. E ele no voltara a mencionar a questo do casamento.

Mas ao acordar cedo na cama de Joel, com ele adormecido, deu por si escutando os rudos no meio da escurido e a pensar, no sem sentimentos de culpa, se no teria concordado em vir para casa com ele para fugir da sua, onde os telefones tocavam apesar de uma das extenses estar desligada e uma campainha de

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porta com os fios cortados tinia, lembrando-lhe, desafortunadamente, que se estava a passar qualquer coisa que ela no conseguia perceber nem racionalizar.

No ficaria ali deitada a pensar em tudo aquilo mais uma vez.

Aninhou-se contra Joel e roou o nariz pelo pescoo dele at o

fazer acordar. E depois no teve que pensar em mais nada.

Captulo sete

Os homens da empresa de mudanas fizeram o oramento no domingo de manh. Durante o resto do dia, enquanto cada vez mais objectos domsticos iam desaparecendo dentro de caixas e os mveis iam sendo arrumados nos locais de onde seriam transportados pelos carregadores que viriam na tera-feira, Leslie pensou que no meio daquele imenso caos um poltergeist podia fazer o seu pior que ningum daria por isso.

Empacotou o contedo das gavetas da escrivaninha e pediu a Emily que fizesse o mesmo, mas esta quase n o a ouviu.

- Tenho que estudar. Fao isso na segunda-feira quando a

audio tiver passado, est bem? Deixa-me em paz - resmungou Emily mal desviando os olhos do teclado. Voltou a tocar a mesma frase, repetindo-a uma e outra vez. Depois apercebeu-se de que Leslie continuava de p junto  porta.

- Queres alguma coisa, Les?
- Estava s a ouvir.
- Pois no oias - rosnou Emily. - No tens nada para fazer? Eu tenho. - E, perante o seu sobrolho ferozmente carregado, Leslie fugiu. Estava to absorta no calmante trabalho fsico que quase no estremeceu quando o telefone tocou e uma voz alegre, vagamente familiar, disse:

- Les?  a Margot.
- Oh, onde  que ests?
- Em Sacramento,  claro - disse Margot. - O Nick e eu decidimos telefonar-te para que fosses a primeira a saber. Vamos casar-nos em Junho - sim, j acabei o malvado do curso - e  claro que o Nick quer que o Joel seja o padrinho. E eu quero que tu sejas a minha dama de honor. No vai ser um casamento grande, ambos detestamos esse tipo de coisa, vai ser um casamento

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com pouca gente, s com os nossos melhores amigos,

- Isso  ptimo, Margot! - Estava felicssima pelos seus amigos. E era maravilhoso terem-lhe telefonado naquele dia, depois de ela ter feito as pazes com Joel. Teria sido terrvel ter que lhes dizer que ela e Joel no se falavam.

- Vais gostar de ser mulher de um polcia?
- Provavelmente vou detestar - disse Margot com franqueza. - Mas o Nick  polcia e nunca quis ser outra coisa, por isso parece-me bem que vou ter que ser mulher de um polcia e aprender a gostar disso. Como  que te ests a dar com o consultrio privado, Leslie?

-  melhor do que trabalhar numa escola pblica. - No era a altura ideal para estar a aborrecer a amiga com as suas dvidas sobre o estado da arte da terapia ou com as suas inseguranas mais recentes. Embora a Margot fosse a pessoa, pensou, com quem esse tipo de dvidas podia ser partilhado. E talvez um dia fosse capaz de o fazer. Mas no agora, no quando a sua amiga estava a pensar no casamento.

- Margot, acabei de comprar uma casa em So Francisco!
- Fantstico! Mas a cidade no  extremamente perigosa? No  mais seguro viver em East Bay?

Como poderia explicar o feitio que a casa lanara sobre si? Limitou-se a dizer, descontraidamente, que se apaixonara pela casa e que a Emily estaria mais segura sem ter que fazer o longo percurso atravs da baa.

-  verdade, ela agora est a estudar no Conservatrio, no ? Escuta, encontrei a tua me ontem, na biblioteca...

- Como  que ela te pareceu? - perguntou Leslie e conversaram durante alguns minutos acerca da famlia e de amigos mtuos antes de Margot dizer:

- Escuta, o Nick quer falar contigo - e, passados instantes, ouviu o bartono profundo da voz do seu velho amigo.

- Ol querida. A Margot j te contou as nossa ptimas notcias?

- Contou e eu acho que  maravilhoso, Nick.
- E ; nem posso esperar. Escuta, Les, o meu amigo Chuck Passevoy, de Santa Brbara, telefonou-me para me dizer que tinhas encontrado a mida Chapman. Foi to bom que a tivesses podido encontrar e que afinal, desta vez, no tivesse passado tudo de um mal entendido e no tivesse sido uma tragdia horrvel.

Leslie quase conseguira esquecer todo o episdio Chaprnan.

A HERDEIRA                             119

Agora, com fria renovada, protestou.

- Eu queria falar contigo sobre esse assunto, Nick! Como pudeste fazer-me uma coisa daquelas quando sabes como eu

odeio essas coisas?

- Les, o Chuck estava muito perturbado. Estava com medo de estar a braos com qualquer coisa parecida com o Assassino da Trana. Sempre que uma rapariguinha desaparece os polcias ficam nervosos. E a mulher tinha visto a tua fotografia no

Enquirer.. ela sabia do que tu eras capaz.

Leslie respirou fundo, tentando controlar o pnico. Disse:
- No. No sou capaz, no o volto a fazer, no posso. Por favor, Nick, no voltes a fazer isso. Nunca.

- No vou prometer~te uma coisa dessas.  um crime no usar um dom como esse. Sim, eu disse crime, Leslie.

- Nick, eu no posso discutir isto contigo. Mas no posso faz-lo, ou...

- J pensaste em todo o bem que podes fazer com essa

capacidade, Leslie?

-  No fiz bem nenhum  Juanita Garca, ou fiz?
- Talvez ningum o pudesse fazer. Talvez tivesse chegado a

hora dela. Mas imagina que ele a seguir tinha ido atrs da Emily? Ou da irm mais nova de algum? E a mida Chaprnan...

- A criana Chaprnan nunca esteve em qualquer perigo.
O pai t-la-ia trazido de volta dentro de um ou dois dias...

- Mas durante esse perodo a me estaria a passar pelas penas do Inferno! Leslie, vamos ter que conversar sobre este assunto quando c vieres para o casamento. Conta-me l da tua casa... - E aquele assunto perigoso foi esquecido por algum tempo. Mas Leslie ainda estava a tremer quando desligou o telefone. Ela no iria, no podia ir,  procura daquela irracionalidade. Estava a arruinar a sua vida e tudo o que ela queria era ver-se livre daquilo.

As palavras da introduo do livro sobre poltergeist voltaram a cruzar-lhe o esprito.

A expresso deforas psquicas em tenso e que no surgem centradas numa criana histrica ou desajustada, inas sim em torno de tini adulto relativamente equilibrado. Tinha todo o

direito de pensar em si daquela maneira. Quando isso ocorre  devido  existncia de uma fora psquica no resolvida. Pode dizer-se que o Oculto veio em busca do indivduo em causa e esta questo no cabe, em termos estritos, no mbito deste livro.

Estaria o Oculto a procur-la? Perguntou-se se Claire, com

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os seus conhecimentos de psicologia e a sua aparente capacidade de aceitar normalmente coisas to irracionais como os poltergeist, saberia responder-lhe quela questo. Ou encorajaria ela Leslie, tal como Nick fizera, a desenvolver e utilizar o seu dom para ajudar a polcia?

Nessa tarde Joel trouxe a carrinha, que era maior do que o

carro de Leslie, para transportar os primeiros pacotes de livros e

de fichas do seu escritrio, levando tambm umas quantas caixas com utenslios de cozinha. Enquanto atravessavam a baa falaram de Nick e de Margot e dos planos que eles tinham para o casamento. Quando chegaram ao p da casa, Leslie apercebeu-se de que temera a ideia de vir sozinha. A recordao do homem de p na garagem adaptada a estdio ainda a perseguia. Mas ele no estivera l quando ela o vira.

Era como a cano idiota que ouvira em criana.

A noite passada encontrei nas escadas Um homenzinho que no estava l. Hoje tambm l no estava; Como eu queria que ele sefosse embora.

Disparate; com tudo o que acontecera recentemente e mais a conversa que ouvira na livraria do oculto - era bem feita por ter ido a um stio daqueles -, o homem fora produto da sua

imaginao, sofrera uma alucinao. O homem entrara apenas no jardim, devia ter ido contar a luz ou ento era um operrio, e ela imaginara-o dentro da garagem. Fosse como fosse, tudo estava calmo e silencioso e Joel, carregado com um pacote de livros, deu um assobio apreciativo quando viu o vitral art deco e o soalho de madeira extica.

- Deves ter dado uma fortuna por esta casa, Les!
- Nem por isso. Foi bastante barata. - Contou-lhe as vendas repetidamente canceladas e at a teoria de Emily de que tudo no passava de um esquema para assustar as pessoas e faz-las fugir para vender novamente a casa. Joel riu-se tanto da teoria como ela prpria se rira na altura, por isso ela avanou com uma

teoria alternativa:

- Eu acho que eles se querem livrar da casa antes que as pessoas concluam que tm aqui uma coisa do tipo do Pesadelo ernAmityville.

- Oh, isso! - Joel no levou a conversa a srio. - Bem, com toda essa loucura tu  que ficaste a ganhar. Eu diria que vale

A HERDEIRA                            121

mais metade do que tu pagaste por ela ou mesmo o dobro, mas talvez no Nebraska as pessoas no saibam qual o valor das propriedades aqui no litoral.  um excelente investimento, s uma mulher de negcios muito mais esperta do que aquilo que eu pensava.

Ela riu-se.
- Na realidade apaixonei-me. Anda, que eu mostro-te tudo. Pousa essa caixa em cima da bancada da cozinha. - Atravessou a cozinha  frente dele, correu a tranca interior da porta e

saiu para o jardim. O sol da tarde estava fraco e plido e no cu havia nuvens - no fim do dia teriam mais chuva -, mas a mistura dos odores que se soltavam do jardim hmido era pungentemente adocicada e o limoeiro exalava uma fragrncia intoxicante.

Ouviu gua a correr na cozinha. Joel gritou:
- Les, sabias que a gua ainda est ligada?
- Excelente, isso significa que as casas de banho esto a funcionar e ser menos um problema no dia da mudana. Vem c fora ver o jardim.

- Algum empregou aqui muito trabalho e energia - disse ele saindo de casa para examinar o jardim. - E dinheiro, tambm. H aqui uma srie de plantas raras. Hibiscos e aqueles brincos-de-princesa s riscas so muito raros. E a velhota deve ter sido uma jardineira entusiasta; olha s para estas plantas todas - acrescentou ele ajoelhando-se junto aos pequenos canteiros verdes. - Consolda, camomila, salva, hortel-pimenta, dedaleira -  esta planta cor-de-rosa que est a invadir tudo e a sufocar as outras -, verbena, loblia, tomilho - todas as plantas clssicas e muitas outras que eu no conheo.

- Sim, a Emily estava muito impressionada, ela interessa-se muito por plantas.

- Aquilo ali  uma garagem? - perguntou Joel, apontando.
- Costumava ser, foi adaptada a estdio. Estava l uma roda de oleiro e mais uma tralha que devia ter sido de um artista, quando eu c vim pela primeira vez.

- Podias voltar a us-la como garagem; vai haver cada

vez menos lugares de estacionamento nas grandes cidades na prxima dcada e uma casa sem garagem vai ser um problema.

- Bem, o jardim tem um caminho pavimentado bastante comprido e, neste clima, o carro pode ficar no exterior - argumentou ela, mas ele pareceu pessimista quanto  ideia.

- A criminalidade tambm vai subir. Eu, por mim, gostar-ia de ter uma boa garagem que pudesse fechar  chave.

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Leslie encolheu os ombros.
-  uma ideia. Aquilo  bastante escuro e deprimente para ser usado como estdio. Mas foi instalada uma casa de banho e uma lareira e ia dar imenso trabalho tirar tudo outra vez. Um apartamento independente  um bom investimento, suponho. Pegou na chave e abriu a porta. Joel fungou com desagrado.

- Est aqui qualquer coisa podre. Espero que no haja aqui ratos.

Leslie respirou fundo. No soubera se iria ver novamente qualquer coisa esquisita dentro da garagem, como o homem estranho que no estivera ali.

- Foi tudo inspeccionado para ver se havia trmites e tenho a certeza de que o relatrio mencionaria qualquer vestgio de ratos. Mas suponho que um rato isolado pode ter conseguido entrar e

ter ficado encurralado.

Joel estava a inspeccionar as paredes, olhou para dentro da casa de banho e do roupeiro que havia junto  porta.

- Estas caixas de carto... foste tu que as trouxeste?
- No, no so minhas. Devem pertencer  proprietria anterior. Vou telefonar ao agente imobilirio. Se ele no quiser vir busc-las mando-as para a lixeira da cidade. Mas o que  que est dentro das caixas?

Joel ergueu a tampa de uma das caixas.
- Utenslios de arte - tintas, barro, pincis... que  isto? Paus de incenso... cheira quelas coisas que os seguidores de Hara Krishna vendem nas ruas. Cermicas velhas. No pensei que algum abandonasse este tipo de coisa hoje em dia, ao preo a que est tudo.

Leslie sentia relutncia em tocar nas caixas; estas soltavam um odor doentio que devia ser do incenso.

Ao olhar para ele ajoelhado junto s caixas, com o cabelo despenteado pelo vento, Leslie pensou que gostava mesmo dele. Curvou-se e beijou-o ao de leve na testa.

Ele olhou para ela, sorrindo.
- Que foi isso?
- Estava s a pensar no quo grata me sinto por me teres telefonado. Afinal de contas foi bom no ter mandado retirar o telefone quando andei a receber aqueles telefonemas annimos.

Ele ps-se de p e abraou-a.
- Eu estou grato a dobrar, meu amor. Mostra-me o resto da casa. Devo dizer que no fiquei nada bem impressionado pelo estdio.

A HERDEIRA                       123

Ele estava de p no meio do escritrio com as janelas arredondadas, virando a cabea de um lado para o outro, com ar apreciativo. Ela veio pr-se ao lado dele, olhando para a paisagem de cu e mar e o nevoeiro espesso, aproximando-se em grandes rolos por baixo da Golden Gate. Os pilares inferiores da ponte j estavam mergulhados at meio em nevoeiro e s se via a curva graciosa dos cabos que a suspendiam.

-  uma pena desperdiar uma sala destas com um escritrio. Daria uma sala de jantar clssica muito elegante.

No queria discutir com ele por causa do trabalho.
- E olha, do outro lado do trio h umas salas idnticas a estas, onde a Emily pode estudar o tempo todo que ela quiser. As salas so iguais, s que eu tenho esta paisagem fantstica da baa e as janelas da Emily do para o jardim. Tem imenso espao para o,piano e para a velha harpa de conceito da nossa av.

- E uma rapariga com sorte, acho eu, por ter uma irm como tu; tem mais sorte do que aquela que merece. J consideraste a hiptese de usar estas salas como sala de estar e sala de jantar e pr o piano dela l fora, no estdio? Ela teria at mais privacidade para estudar.

- Eu no lhe falia uma coisa dessas. E, seja como for, aquilo  demasiado hmido para um piano. E  horrvel e deprimente.

Ele encolheu os ombros.
- Instalavas um aquecedor. Porque  que lhe vais dar a

melhor sala? Eu acho que tu j fazes mais do que o suficiente, assegurando-lhe os estudos no Conservatrio. Estraga-Ia com mimos.

- No sou eu que pago o Conservatrio; ela tambm recebeu a herana que me permitiu comprar esta casa - disse Leslie.
- Mas tem que viver aqui porque no podia ir e vir todos os dias para Sacramento. E esta casa,  evidente, vai tomar tudo mais fcil. Passa um autocarro a dois quarteires daqui que vai mesmo

at ao Conservatrio.

Ele franziu o sobrolho e pareceu estar  escuta.
- Ouviste alguma coisa, Leslie?
- No ouvi nada - disse ela, apreciando o silncio. At mesmo o barulho do trnsito soava abenoadamente distante.

- Devo ter imaginado. Mas h aqui uma corrente de ar.. est algumajanela aberta? - Dirigiu-se  grandejanela arredondada e depois  janela mais pequena, que ficava de lado. - No, evidentemente que no. E olha, h grades de metal em todas as janelas do rs-do-cho.  uma boa ideia, com tantos assaltos e

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crime nas ruas como h hoje em dia, mesmo nos melhores bairros. -Andava de um lado para o outro com o cenho ligeiramente franzido. - H aqui uma corrente de ar. E no entanto a porta que d para o trio est fechada.

Ele estava de p no local exacto onde Emily estivera quando desmaiara da primeira vez que ali fora, pensou Leslie. Mas era ridculo. Emily no tinha tomado o pequeno almoo e desmaiou de fome. Foi para junto dele. Sim, parecia-lhe sentir o sopro de um vento frio. Mas assim que se desviou deixou de o sentir.

- Deve entrar ar por um stio qualquer - disse ele. Nenhuma destas casas antigas  totalmente estanque. Vamos ver l em cima.

A mesma corrente de ar fria pareceu atac-los quando subiam as escadas.

- Tem que estar uma janela aberta num stio qualquer disse Joel e entrou no quarto que j fora designado como pertencendo a Emily. - Ah! C est!

Leslie olhou para a janela novamente escancarada com o sobrolho franzido.

- O agente da imobiliria disse qualquer coisa acerca de haver midos que entram por aqui - disse ela -, mas eu no percebo como  que uma criana podia chegar aqui acima.

Joel ps-se a seu lado.
- Os midos conseguem chegar a todo o lado. O Bobby conta-me histrias que so de pr os cabelos em p. Mas acho que teriam que ter uma escada. Aposto que encontras marcas de uma escada l em baixo mas, com esta lama toda, depois da chuva que tem cado ultimamente, so capazes de ser difceis de encontrar. Quando estiveres a viver aqui  evidente que se ouvires qualquer coisa chamas a polcia e podes apanhar os pestinhas com a boca na botija.

Por mais que tentasse, Leslie no conseguira encontrar na

terra mole do jardim as marcas de uma escada ou mesmo pegadas estranhas.

- Talvez a casa no esteja bem equilibrada e a janela se abra sozinha - disse. - Este tipo de janelas de vidraas nem

sempre fecha com segurana.

Ou talvez, ocorreu-lhe, seja como a campainha da porta que toca depois de ter sido desligada. Zangada, esqueceu aquela ideia. Joel voltou a experimentar o fecho.

- Bem, agora j est fechada - disse ele. -  aqui que vais fazer o teu quarto?

A HERDEIRA                          125

No, a Emily gosta da vista para o jardim - disse e levou-o atravs do trio at ao seu prprio quarto, com o papel de parede antiquado e as portas trabalhadas. Mentalmente j arrumara os mveis.

-  lindo - disse ele puxando-a para a janela para olharem para a mesma paisagem de cu e mar que tinham visto do escritrio, no andar de baixo. - S tem uma coisa que no est bem.

- O que , amor? Ps-lhe o brao por cima e ficaram agarrados, de p.
- Deveria ser nossa, deveria ser a casa para onde iramos viver depois do nosso casamento.

- E haver alguma razo para que no o seja... um dia? perguntou ela, sabendo que ainda no estava certa de o querer. Mas s vezes tinha que se correr riscos. - No imediatamente. Mas um dia.

O rosto dele contraiu-se. Disse calmamente, depois de ficar algum tempo em silncio:

- No h razo nenhuma a no ser aquela que j te expliquei, eu sou... antiquado. Sinto que  responsabilidade minha providenciar o local onde viveremos depois de casados. Mas suponho que arranjaremos uma soluo. Vamos mesmo ter que a arranjar.

E ela sabia que, para Joel, aquilo era o mais prximo da capitulao a que ele alguma vez chegaria. O momento durou, prolongando-se, mais ntimo do que um beijo. Depois ele afastou-se um pouco.

- Tens uma chave de fendas l em baixo. Deixa-me dar uma vista de olhos ao fecho da janela do quarto de Emily. Vamos tentar arranj-lo pelo lado de dentro.

O telefone tocou. Leslie sobres saltou-se, chocada, antes de se lembrar de que estava na casa nova e de que no poderia ser o seu perseguidor. Os telefones eram muitas vezes deixados ligados  rede nas casas vazias... quando se tinha mudado para a casa arrendada onde ainda estava a viver, o telefone estivera ligado. Sim, a extenso estava no pequeno quarto de vestir.

Levantou o auscultador. Era creme, reparou, elegante e moderno.

- Estou?
- Alison? - perguntou uma voz desconhecida. - Alison, s tu?

Alison. Outra vez. Depois, abruptamente, percebeu qual era a ligao.

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Se procura Alison Margrave - disse bruscamente creio que ela morreu h mais de um ano. - Passado um

momento acrescentou: - Esta casa agora  minha - e ouviu a pessoa do outro lado desligar o telefone. Mas ficou de p, agarrada ao telefone, at ficar com os ns dos dedos brancos.

Recebera o primeiro telefonema a perguntar por Alison no

dia antes de ter visto esta casa. A casa de Alison Margrave. Uma vez  coincidncia. Duas vezes  um acaso. Trs vezes  um ataque do inimigo. Mas quem seria o inimigo e porqu? O Oculto que a procurava? E porqu ?

No  a casa que est assombrada. Sou eu.

Captulo oito

Sentada  mesa do pequeno almoo, revendo mentalmente a lista de coisas para fazer, Leslie ergueu os olhos quando Emily entrou. A irm j vinha vestida. Com uma camisola preta justa e uma saia tambm preta, parecia uma fotografia a preto e branco de si prpria; a cor parecia ter desaparecido totalmente do seu rosto. Dirigiu-se para a chaleira como uma sonmbula e fez uma chvena de ch. As mos mexiam-se nervosamente. O ch tinha um cheiro estranho, mesmo tratando-se de uma das tisanas de Emily.

- O que  isso, Eminie?
- Valeriana. Tenho os nervos desfeitos. - O sorriso mal lhe fez mover os lbios. Deu um golo, despejou o ch no lava-]oia, fez uma careta e lavou a chvena. - Estou demasiado enervada para conseguir beber valeriana. Posso beber do teu caf?

Leslie deitou caf numa chvena sem fazer comentrios. No era a altura indicada para fazer pouco dos tranquilizantes naturais de Emily.

- Queres que te d boleia? Cancelei todas as consultas at quarta-feira por causa da mudana.

- Eu j sou crescida, Les. No preciso que me pegues na mozinha. - Emily bebericou o caf e voltou a fazer uma careta.
- Bahh! No sei o que sabe pior, se isto ou a valeriana! - Deitou o caf fora. - Ch de limo,  o melhor.  bom e  calmante.

- Senta-te. Eu fao-te o ch. - Leslie procurou nas latas de ch e encontrou aquele que procurava. Deitou a gua quente aspirando o vapor cheiroso, e ps a chvena na frente da irm.
- Poupa as energias para a audio. Porque  que hs-de enfrentar a hora de ponta?

- Levas-me, Les? Quer dizer...

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- Claro. Tem calma. A que horas tens que l estar?
- s nove e meia para receber uma senha para a audio. Posso no tocar antes do meio-dia...

- Est bem. Eu no tenho nada para fazer esta manh.
- Com a empresa das mudanas que vem aqui amanh? Emily dirigiu-lhe um sorriso de gratido. - Eu sou a nica aluna do primeiro ano na audio. A maior parte deles so finalistas ou estudantes de mestrado. Mas o Agrowsky quer que eu toque para o jri. No tenho qualquer hiptese, com as pessoas que vo estar na audio, de conseguir tocar a Sinfonia. Mas se eu me sair bem posso ser admitida no curso avanado... - Emily estava a comer iogurte mas tinha as mos a tremer.

- Errimie, vai l acima e pe bton. E uma corzinha nas faces. A rapariga respondeu, furiosa:
- Eles vo julgar-me pela forma como eu tocar, no  por eu parecer muito gira e sexv!

- Queres que eles todos percebam como ests assustada? Tens a cara da cor de um lenol! Tens que, pelo menos, ter um

aspecto normal.

- Est bem. - Emily fez uma pausa e disse numa voz muito baixa: - No tenho nada dessas coisas.

- V no meu toucador. - Tinham o mesmo tipo de cor e pr maquilhagem faria com que a irm estivesse ocupada e se

esquecesse um pouco do seu nervosismo. Emily voltou com um aspecto mais normal. Enfiou a pauta na mochila mas, durante todo o caminho, tirou-a vrias vezes, estudando-a obsessivamente.

- Meu Deus, espero tocar em primeiro ou em segundo lugar. Ou ento em ltimo. Mas ia odiar ficar ali sentada a ouvir os outros todos. Disseram-nos para preparar a pea toda e o jri depois diz-nos para tocar uma parte qualquer. Eu consigo tocar brilhantemente e com tcnica. Mas se me sai o adagio... eu no sei tocar com romantismo e o meu legato  horrendo. Se me dizem para tocar o adagio, levanto-me e fujo...

- No foges nada. Sentas-te e tocas o melhor que souberes. Vai correr tudo bem.

- E o que  que tu percebes disso? - rosnou Emily
- No percebo nada. Mas conheo-te bem a ti, Errirme.

Oh, meu Deus, Les, pra o carro. Vou vomitar.. No posso parar o carro em cima da ponte. Se tens que vomitar abre ajanela. - Falou em tom duro. Emily abriu ajanela mas no vomitou. Recostou-se, deixando que o ar frio e o nevoeiro glido que vinha do mar inundassem o carro.

A HERDEIRA                            129

O auditrio estava frio e vazio. Ao fundo estava uma mesa com quatro cadeiras. Emily murmurou:

- O jri vai sentar-se ali. Aquele  o doutor Agrowsky. Inclinou ligeiramente a cabea para indicar um homem forte com os ombros arqueados e uma cabea lustrosa e calva em fom-ia de bala. Leslie achou-o ameaador at reparar nas rugas provocadas pelo riso que ele tinha em torno dos olhos e da boca. Cumprimentou Emily com um aceno de cabea e Leslie pensou que ele estava a ser encorajador, mas no tinha a certeza de que a irm o tivesse sequer visto. O professor mundialmente famoso foi sentar-se numa das quatro cadeiras vazias.

Os estudantes iam chegando. Leslie no se tinha apercebido de que as audies seriam abertas a todos os estudantes, mas agora que pensava nisso, tinha lgica. At mesmo um estudante deve habituar-se a tocar para qualquer um que se d ao trabalho de o ouvir.

Um homem alto apareceu da parte de trs do edifcio causando uma pequena comoo de murmrios no auditrio. Leslie deduziu que deveria ser o famoso msico que ali estava como

professor visitante e virou-se para olhar. Com uma sensao de fatalidade viu a pala sobre um dos olhos, a cicatriz do rosto, o perfil aquilino. A ltima vez que o vira fora a entrar num carro cinzento junto ao jardim de sua casa. No; a ltima vez que o vira
- ou que o imaginara - fora de p, no centro do estdio hmido - e remodelado - na sua casa. Simon Anstey fez uma

pequena pausa, como se os pensamentos dela o tivessem alcanado, e o seu nico olho, azul e brilhante, foi ao encontro do olhar dela como fizera anterion-riente, junto  casa. Leslie agarrou-se  cadeira.

Depois ele fez uma pequena vnia e continuou a descer o corredor, acabando por ocupar a ltima das cadeiras vazias na mesa do jri.

Um homem ps-se de p em frente da plateia.
- Bom dia - disse. - Os candidatos fazem o favor de vir at  mesa para tirar um nmero  sorte de dentro deste cesto.

- Deseja-me sorte - murmurou Emily e foi tirar o nmero. Voltou passados instantes, aturdida, com um pedao de papel na mo. - Nmero cinco.  praticamente o pior que me podia calhar.

- Tens que encarar isso como um desafio - respondeu-lhe Leslie tambm num murmrio.

- Nmero um. Por favor aproxime-se, diga o seu nome e dir-lhe-emos o que tocar.

130                 MARION ZIMMER BRAI)LEY

Uma mulher pesada, com trinta e tal anos   ', vestida com uma saia branca justa e uma camisola tambm branca marchou com ar decidido at ao centro do palco.

- Joan Paddington.
- Mrs. Paddington, toque-nos o adagio, por favor.
- Vaca gorda - murmurou Emily. Mas a vaca gorda tocava

como um anjo. Leslie, ouvindo-a, comeou a gostar do concerto, mas Emily estava a desfazer lenos de papel entre os dedos.

A audio continuou. Quando chamaram pelo nmero cinco, Emily humedeceu os lbios, agarrou na pauta e marchou para a

frente da sala.

- Emily Barnes. Foi o homem alto e cheio de cicatrizes, o Simon Anstey, quem disse "Ouamos ento o primeiro movimento, Miss Barnes".

Emily enrolou o leno de papel nas mos, enxugou-as sub-repticiamente na saia e sentou-se ao teclado. Leslie ouviu os oito acordes que iniciavam o concerto, comeando piano e erguendo-se at Jortissimo, tal como os ouvira centenas ou milhares de vezes nos ltimos dias, desenvolvendo-se depois na melodia de abertura.

Errly escolhera uma interpretao decididamente romntica. Rachmaninoff era um romntico - dissera. Sob os dedos competentes de Emily a msica exuberante soava pura, emoconal e sem qualquer sugesto de sentimentalismo ou pieguice.

Agrowsky, pensou Leslie, fizera maravilhas com ela. Mas, evidentemente, no estava em posio de saber quais os critrios usados pelo jri e, mesmo que soubesse, nunca conseguiria perceber se Emily estava  altura ou no. Todos os estudantes lhe pareciam igualmente profissionais, Emily no menos do que os restantes, embora fosse alguns anos mais nova do que os outros. Ela estava encantadora ao piano, esguia e com a cabea e os

ombros na habitual pose de bailarina; mas, como era evidente, isso tambm era irrelevante. Aos olhos de Leslie ela parecia muito nova e frgil.

Pelo menos no lhe pediram que tocasse o adagio. Quando ela acabou foi a voz grave de Anstey que disse:

- Obrigada, Miss Barnes. Nmero seis? Um jovem gorducho, de calas de ganga, avanou e disse

numa voz rouca:

- David Lenney - e Emily, muito plida, veio ter com
Leslie e deslizou para o seu lugar.

- Meu Deus, dei barraca - murmurou.

A HERDEIRA                            131

- Queres ir-te embora?
- Importas-te se no formos? Antes queria ficar aqui a ouvir o resto, agora que j passou estou ptima.

Havia mais trs candidatos. Quando o ltimo, um jovem hippie de barba que fazia Leslie pensar vagamente em Frodo, o da livraria, tocou novamente o primeiro andamento, o Dr. Agrowsky ergueu-se e disse:

- Muito obrigado a todos, jovens senhoras e cavalheiros. Hoje s quatro da tarde podem vir saber quais as nossas decises. - Os estudantes comearam a sair do auditrio. Leslie agarrou na mala de mo e na mochila de Emily e saram.

- Queres ir almoar a um stio qualquer?
- No vou conseguir comer, Les. Leslie encolheu os ombros.
- Ento vamos comprar as tais almofadas que tu querias e levamo-las para a casa. E, j que l vamos, podemos decidir onde  que pomos os mveis.

Tal como Leslie esperara, assim que se afastaram do Conservatrio, Emily decidiu que seria capaz de comer uma sanduche de ovo com abacate e foram compr-la, enquanto a rapariga falava sem parar dos outros candidatos.

- A Jo Paddington tambm  uma das alunas do Agrowsky. Se no fosse to gorda seria maravilhosa. Mas  to desajeitada. No vo escolher ningum assim. Pessoalmente acho que vo escolher o Dave Lenney. Ele  um dos protegidos do doutor Milhauser,  ele que toca nos ensaios da orquestra. Deus, ouviste o Anstey? Aquela voz- Baixo profundo. E aquele olho horrvel. Deve ser quele tipo de olhar que as pessoas se referem quando falam em mau olhado, no achas? Ele olha atravs das pessoas, no ?

Leslie achou que aquela conversa se devia ao estado dos nervos de Emily e no ligou.

ele quem vai leccionar o curso avanado? E ele sim. Meu Deus, j no sei se quero ser admitida se no. O homem petrifica-me. O homem do mau olhado.

Leslie estivera to concentrada na provao de Emily que esquecera as suas prprias emo es. Agora estas assaltavam-na de novo. Que significaria o facto de ter visto Anstey junto do porto da sua casa? Mais, que significaria o facto de ela ter visto a sua forma, o seu doppelgnger, dentro do estdio? Conse'Em alemo no original (N. da T)

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guia, com alguma dificuldade, acreditar que um homem que tivesse sofrido uma morte violenta pudesse libertar um espectro, uma espcie de registo visual, da sua morte, aquilo a que se chamava um fantasma. Mas um homem vivo?

Disse a si prpria que certamente sofrera uma alucinao. A histria que Joel lhe contara fornecia uma explicao para a

presena fsica de Simon Anstey na casa; ele conhecera Alison Margrave, e talvez tivesse querido ver novamente a casa em que a sua velha amiga morrera. E ele tinha, ou tivera em tempos, a chave. J contactara um serralheiro e as fechaduras seriam mudadas naquela tarde, por isso no havia qualquer hiptese de Anstey voltar a aparecer por l, descobriria que j no podia entrar.

A carrinha do serralheiro estava estacionada junto  casa

quando l chegaram e ela recebeu, com satisfao, dois conjuntos de chaves. Quando subiu as escadas descobriu que a janela do quarto de Emily estava novamente aberta, mas o serralheiro instalara uma corrente de segurana em substituio do fecho simples da porta de vidraa. Leslie fechou a janela e prendeu a corrente.

- Telefonaste para o armazm por causa da harpa? - perguntou Emly.

- Entregam-na na quarta-feira. Emmie, queres o toucador antigo no teu quarto?

- Sim, quero - disse Emily distraidamente. - Eu devia ter um armrio para guardar as pautas na sala de msica, Les. Ser que h loblia no jardim? Houve algum que me disse que tambm  tranquilizante.

- No fao ideia. Mas certifica-te bem de que plantas usas.

Leslie foi atrs dela at ao jardim para ir verificar se a fechadura do estdio funcionava bem.

- O gato branco faz parte da casa, Leslie?
- No sei. Mas j o vi aqui bastantes vezes, ele parece estar muito  vontade no jardim. - Chamou baixinho: - Gatinho, gatinho, bichano, vem c...

- Para onde  que ele foi? Leslie, podemos pr um pratinho com atum c fora?

- O gato deve pertencer a um dos vizinhos, Emmie.
- Ento no o merecem; o bicho parece estar esfomeado. Aposto que o dono foi-se embora e abandonou-o. As pessoas que fazem esse tipo de coisas deviam ser mortas! - Emily abriu a porta do estdio e franziu o nariz com o cheiro do ar bafiento.

- Aposto que o gato esteve aqui a fazer coc. Se calhar o

A HERDEIRA                            133

melhor era pr aqui uma caixa com areia para ele. Se calhar estava habituado a haver aqui uma.

Podia muito bem ser aquela, pensou Leslie, a explicao para o mau cheiro.

- Abre uma janela para arejarmos isto. - Uma demo de uma tinta de cor alegre de secagem rpida, pensou; a cadeira de baloio antiga da casa de Sacramento; poria ali a mquina de costura e o manequim de alfaiate e havia espao suficiente para uma tbua de engomar e uma mesa de corte. Cortinados alegres, de um amarelo brilhante, pensou. Fariam maravilhas daquela sala. Estava a fazer uma lista de compras quando Emily guinchou:

- Oh, meu Deus, um quarto para as quatro, no estava a

prestar ateno s horas, vais ter que me levar l, Les!

O auditrio estava fechado e os estudantes andavam por ali, s voltas,  espera que chegasse algum com uma chave. Simon Anstey, com a cabea e os ombros a sobressarem por cima da multido, caminhando para a porta a passos largos, ficou frente a

frente com Emily e olhou para ela do cimo da sua grande altura.

- Miss Barnes, ouvi-a tocar esta manh.  muito jovem, como  evidente, mas terei muito prazer em t-la no curso avanado.

Emily engoliu em seco.
- Obrigada, doutor Anstey Anstey olhou directamente para Leslie e o silncio tornou-se to bvio que Emily tartamudeou:

-  a minha irm, a doutora Barnes. Leslie ergueu a cabea e olhou directamente para o olhar fixo que ele lhe dirigia com o seu nico olho. Seria a inteno do homem ser malcriado ou seria apenas uma consequncia da deficincia visual? Foi tomada por um acesso de raiva. Fora ele quem invadira a sua propriedade e no o contrrio.

- Parece-me que j nos encontrmos, doutor Anstey.
O sorriso do seu rosto cheio de cicatrizes tinha um ar desolado.

- Sim, creio que sim.  mdica, doutora Barnes ou  colega da doutora Margrave?

- Sou colega da doutora Margrave. Embora nunca tenha tido o privilgio de a conhecer, ouvi dizer no outro dia que ela era psicloga. Essa  tambm a minha profisso.

- OV - O olhar fixo do nico olho continuava inflexvel. Leslie disse a si prpria que o homem, provavelmente, no estava a querer ser ofensivo; podia no ser capaz de controlar o olho. -

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Eu tinha a certeza de que Alison Margrave a escolhera e, vendo-a aqui, pensei que fosse talvez tambm msica profissional. Alison era a maior estudante viva do cravo, embora fosse mais conhecida pelos seus livros acerca do cravo do que pela carreira de concertista, que foi muito breve. No voltou a aparecer em palco depois de mil novecentos e cinquenta e trs; dizia que no tinha o temperamento adequado para concertista, embora eu esteja certo de que ela se enganou quanto a isso. Era muito conhecida pelas suas transcries de Bach e de Scarlatti. Eu era... - hesitou momentaneamente - seu protegido. Conheo bem a casa.

- Lamento. Sei muito pouco de msica e no toco. Emily  a artista da famlia.

- Estou certo de que a Alison se sente feliz por ter a sua jovem e talentosa irm em casa, doutora Barnes - disse ele, fazendo uma pequena vnia e dirigindo-se para o auditrio que j fora aberto.

Joel chamara-lhe o filho adoptivo de Alison Margrave; ele

caracterizara- se como seu protegido. Os estudantes estavam a

encher o auditrio e Leslie e Emily foram  procura de um lugar.
O jri conferenciou brevemente entre si e, depois, Boris Agrowsky levantou-se. Emily, a seu lado, estava tensa e plida.

- Mr. Lenney, Mrs. Paddington, Miss Hadley. Foram estes os escolhidos para competir com os candidatos de outras escolas de msica no prximo dia quinze de Agosto. Para alm disso, a Miss Barnes, o Mr. Kalergapolis - desculpe - Kalapergos? Sim... obrigado; o Mr. Kalapergos e o Mr. Stainer podem inscrever-se no curso avanado ministrado pelo doutor Anstey. Obrigado. Os candidatos podem fazer o favor de se dirigirem aqui 

frente para receberem os respectivos relatrios.

Emily foi at  frente do auditrio e regressou com um mao de papis escritos  mo. Olhava para eles, em transe, enquanto saam do auditrio.

- O Agrowsky diz que eu tenho que trabalhar mais o legato. Que grande novidade! H meses que ele me anda a dizer o mesmo. E sabes que mais? O Anstey diz que eu tenho boa intuio para a msica do Rachmaninoff, sem ser sentimental.

Ele tinha razo; Leslie sentira isso mesmo, mas Anstey estava qualificado para saber aquele tipo de coisa. Mas Emily, embora mal desviasse os olhos dos papis durante todo o percurso de regresso a East Bay, no disse mais nada e Leslie tambm no fez perguntas.

Captulo nove

Na ltima noite que passaram na casa arrendada, Leslie quase no dormiu; o telefone tocou ininterruptamente fazendo-a desligar ambas as extenses e a campainha da porta acordou-a por duas vezes. No passava muito das cinco horas quando desistiu finalmente de tentar dori-nir e desceu as escadas, para ir limpar o frigorfico e empacotar alguns objectos dispersos que teriam que ser transportados no carro.

Assim que o Sol nasceu enviou Emily, com o segundo conjunto de chaves, para ir esperar pela chegada da harpa que vinha do armazm e pela empresa especializada que trataria do transporte do piano.

Ao meio-dia j a moblia tinha sido transportada atravs da baa e empilhada na nova casa, num caos de caixas e cartes. As armaes das camas tinham sido montadas pelos homens das mudanas e Leslie conseguiu tomar o seu quarto habitvel, com

as roupas arrumadas nas gavetas e penduradas nos cabides e levou as caixas dos ficheiros do escritrio para a sala  prova de som

onde os homens tinham deixado, a monte, a secretria, as cadeiras e os candeeiros. Foi ao quarto de Emily e pendurou as roupas no roupeiro - a irm arrum-las-ia a seu gosto mais tarde, o importante era tirar as coisas do cho e Emily estava, como era previsvel, ocupada com a harpa de mais de um metro e oitenta que pertencera  av de ambas, afinando-a e substituindo umas quantas cordas que se tinham rebentado. Ouviu os homens a chegar com o piano

e correu pelas escadas abaixo quando estavam a manobrar por forma a passarem com ele pela porta e a lev -lo para a sala de msica, a colocarem as pernas no lugar e a tirarem a cobertura protectora. Emily pairava em redor dos homens como uma me ansiosa cujo filho estivesse a ser sujeito a um tratamento perigoso ou doloroso e, enquanto Leslie pagava aos homens que ti-

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nham transportado o piano, ouviu escalas a serem tocadas e regressou  sala de msica onde deu com Emily a fazer caretas e a olhar para o teclado.

- Conseguiste encontrar um afinador de pianos deste lado da Baa, Leslie?

Leslie no encontrara. Ainda no reajustara as suas prioridades de acordo com o facto de um afinador de pianos ser uma

necessidade to fundamental  vida como a drogaria ou o supermercado mais prximos.

- Por amor de Deus, Emmie, o piano foi afinado ainda no h trs semanas...

Emily disse, com uma careta muito expressiva:
- Mas foi transportado! Bem, esquece... - com um suspiro de martrio - deve haver uma lista de afinadores de pianos no Conservatrio. Suponho que pode esperar at amanh de manh.

- Se calhar devias mesmo aprender a afinar pianos comentou Leslie.

- Podes estar certa de que seria til. No gosto nada de passar um dia inteiro sem estudar.

- Que tal sobreviveu a harpa no armazm?
- Acho que est boa - disse ela deslocando-se para o p da harpa e acariciando o instrumento esculpido e dourado. Tem um som magnfico. s vezes lamento no ter escolhido a harpa como meu primeiro instrumento. Posso afin-la e cuidar dela eu prpria.

Leslie pensou na av a tocar a harpa quando ela prpria era

muito pequena. Emily sentou-se e passou os dedos pelas cordas.

- Mas no h muitas peas para solistas em harpa. A no ser que eu me quisesse especializar em msica popular irlandesa, ou coisa do gnero... - A careta que acompanhou as palavras

demonstrava que no considerava essa hiptese muito melhor do que tocar numa banda de msica rock. Comeou a tocar e Leslie disse:

- Lembro-me de a av tocar isso. O que ?
- Debussy. Danse sacre et profane? - disse Emily e

Leslie regressou  realidade.

- Adoro, mas no  essa msica que nos vai arrumar a casa. Pus o edr do com o padro de bambu na tua cama, Emmie.

Optimo - disse Emily sem a ouvir. - Quem me dera ter um cravo. H aqui espao mais do que suficiente para um cravo

' Em francs no original. (Nda T)

A HERDEIRA                            137

pequeno.  impossvel arranjar cravos antigos que no custem uma fortuna, mas hoje em dia podem comprar-se cravos em

mdulos para montar; custam cerca de dois mil dlares e eu sou boa com ferramentas. Que ser que aconteceu aos cravos dela?

- Aos cravos de quem?
- DaAlison Margrave. Disseste que esta casa era dela, no disseste? Li um artigo sobre ela no jornal de parede, no Departamento de Teclados. Ela tinha nove cravos. Onde  que ela os teria todos?

- Estou certa de que alguns deles devem ter estado aqui disse Leslie recordando-se do dia em que ouvira, naquela sala, o tinir de msica fantasmagrica. Aquele tipo de experincia psquica no a perturbava minimamente.

- Tens fome, Emmie? Nenhuma de ns comeu grande coisa ao pequeno almoo - relembrou  irm.
- Oli, a cozinha j est arrumada? -perguntou Emily distraidamente.

- No havia nada para arrumar, s foi preciso ligar o gs e

a electricidade e os homens vieram por volta das dez da manh
- disse Leslie tentando no soar impaciente. - Podemos ferver gua para o ch, mas o resto das coisas ainda esto dentro das caixas; estava a pensar mandar vir umas sanduches. Queres sanduches de qu?

- Aquele stio onde fomos no outro dia tinha umas sanduches de ovo e abacate que eram ptimas - lembrou Emily saindo avidamente do seu transe -, e tambm tinham de parmeso com beringela. Queres que eu v l busc-las? Queres de qu?

- De salada de ovo. Mas, por favor, diz-lhes para no porem couves -de-bruxelas. Eu sei que fazem muito bem, mas no as suporto!

- Eu mando pr  parte e como as tuas - ofereceu-se Emily enfiando os ps nas sandlias e saindo na direco de Haight Street.

Leslie foi para a cozinha e comeou a desempacotar pratos e a p-los nas prateleiras e a pendurar frigideiras nos suportes fixos  parede. Desembrulhou a misturadora e o grelhador para as eternas tostas de queijo de Emily. Devia ter-lhe pedido que trouxesse leite, manteiga e alface. Comeou a fazer uma lista de mercearias que pendurou no quadro magntico do frigorfico. Parou, momentaneamente, pensando que Emily regressara, mas no passava do murmrio fantasmagrico de msica que saa da sala de msica. Com aquele tipo de assombrao, disse a si prpria, podia viver facilmente. E, fosse como fosse, a msica devia vir do rdio de

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algum dos vizinhos. A cozinha era suficientemente grande para poder l pr uma mquina de lavar loia quando tivesse dinheiro para a comprar. Lembrou-se de uma das maiores brigas em Sacramento, pouco antes de ter sado de casa. Dissera  me que ela deveria comprar uma mquina de lavar loia.

- Eu tenho uma mquina de lavar loia - dissera Constance Barnes, sorrindo com ternura para a filha mais nova que tinha na

altura quinze anos. - Chama-se Emily.

A confuso no abrandara nos trs dias seguintes. E fora um disparate. A me poderia perfeitamente ter comprado uma mquina de lavar loia, podia mesmo pagar a urna empregada a

meio tempo. Mas ela tinha noes muito precisas acerca dos deveres normais para uma rapariga adolescente e sentia que era bom para o carcter de Emily ter trabalhos domsticos para fazer.

Leslie foi at ao escritrio e comeou a desempacotar os

ficheiros dos clientes e a guard-los num armrio que se fechava  chave. Uma caixa com a etiqueta SECRETRIA fora embalada com tal mincia que, em dez minutos, a secretria tinha o mesmo aspecto que tivera na casa de Berkeley. Pendurou o calendrio na parede, ps a agenda das marcaes no lugar do costume e

colocou a nova extenso telefnica no devido lugar. Era um telefone pequeno, creme e elegante, que combinava na perfeio com a beleza das paredes e das janelas. A secretria velha e

riscada parecia ligeiramente deslocada, mas acabaria por se

adaptar  casa  medida que ela prpria se fosse instalando. Um dia poderia comprar uma secretria de boa qualidade. Ficou a olhar para a paisagem que adorava, de cu e mar; o oceano estava brilhante e o cu azul, salpicado de pequenos farrapos de nuvens e a paisagem parecia dar-lhe as boas-vindas.

Leslie suspirou de puro contentamento e voltou  tarefa de desempacotar as caixas.

Uma das caixas que estava no cho do escritrio, por baixo de alguns livros, tinha l dentro escovas e roupas de Emily. No a deveriam ter posto ali. Estava claramente etiquetada QUARTO DA EMILY Lev-la-ia imediatamente para cima, para o quarto da irm.

Quando chegou ao patamar, viu que a porta do quarto da irm estava escancarada. Estava certo; ela carregara uma braada de roupas para aquele quarto e pendurara-as no roupeiro de Emily. Quando pousou a caixa no cho uma sombra cruzou o seu campo de viso e viu o gato branco trepar silenciosamente para o parapeito da j anela e saltar para o exterior.

A HERDEIRA                           139

Bem, isso resolvia um mistrio: a razo porque a vidraa da janela aparecia aberta. No era obra de crianas traquinas nem de adolescentes propensos ao vandalismo, mas sim de um gato habituado a entrar e a sair pela trepadeira e que, com o nariz, dava pancadinhas na porta at o fecho se soltar. Pelo menos com a nova corrente de segurana no teriam esse problema. Mas o melhor era fechar de novo a janela, a Emily era bem capaz de no gostar de ter um gato estranho a entrar e a sair pela janela do quarto. Ouviu o toque suave da campainha da porta - muito menos irritante do que o besouro agudo da campainha da casa de Berkeley - e correu a abrir a porta  irm que vinha carregada com um saco cheio de sanduches.

- Vamos comer para o jardim - disse Emily. Sentaram-se no muro baixo, mastigando as sanduches num silncio cheio de companheirismo. Leslie viu o gato branco esgueirando-se, silenciosamente, junto  esquina da garagem e, lembrando-se de repente, correu para dentro de casa  procura do caixote que tinha os enlatados e abriu uma lata de atum. Ps algum num pires.

- Vou dar-lhe de comer - disse a Emily. - Ele  daqui, isso  evidente; encontrei-o h bocado no teu quarto.

Emily olhou para ela com ar distrado enquanto enfiava couves -de-bruxel as na boca. Quando acabou de as mastigar e

engolir disse:

- Bem, no pode ter entrado pela janela, eu deixei-a com a corrente de segurana.

- No deixaste no, querida; a vidraa estava escancarada e eu vi o gato a sair pela janela.

Emily encolheu os ombros.
- Deves t-la aberto para arejar o quarto e esqueceste-te. Ou talvez tivessem sido os carregadores quando levaram a minha cama para cima. O quarto devia estar bastante abafado. E por falar em abafado, os carregadores puseram alguma coisa na garagem, no estdio, ou seja l o que for que vamos chamar quilo?

- Sala de costura, acho eu. Mandei-os pr l a mquina de costura e o manequim de alfaiate da mam. Mas pensei que era melhor pintarmos aquilo de novo antes de usarmos a sala disse Leslie. - No tenho consultas at quinta-feira de manh; podemos pint-la amanh. Tu ajeitas-te bem com o pincel e eu tambm.

Emily franziu o nariz. Disse:
- J pensaste em transformar aquilo novamente em gara-

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gem? Bem, seja como for, se vamos trabalhar l o melhor  dar-lhe uma boa arejadela. - Foi at  porta e abriu-a. - Bhh, aposto que o gato esteve aqui outra vez.

- Deixa a porta aberta; vamos passar o dia a entrar e a sair do jardim - e foi explorar o casinhoto em runas que estava ao fundo do jardim. O cadeado que fechava a porta abriu-se com uma das chaves que o homem da imobiliria lhe dera e, l dentro, encontrou um cortador de relva velho mas em bom estado, um ancinho, uma pequena p, uma mangueira enrolada e uma srie de ferramentas de jardinagem.

- Olha o que herdmos! - gritou Leslie e Emily veio inspeccionar a sua descoberta.

- Vou j ligar a mangueira e regar estas flores; bem precisam. Temos muita erva para arrancar e muito trabalho aqui no jardim - disse ligando a mangueira a uma torneira junto  porta do estdio.

- O melhor  fechares a porta, pelo menos parcialmente, se no vais molhar tudo l dentro - observou Leslie e Emily obedeceu-lhe e depois gritou. Leslie, abalada, correu para ver o que se passava, mas Emily estava a rir-se nervosamente.

- Pareceu-me ver algum ali dentro. Deve ter sido o manequim de alfaiate - disse ela apontando para a velha forma envolta num vestido de algodo s riscas; mas a paz de esprito de Leslie desaparecera. Recordou-se de ali ter visto a projeco de Simon Anstey, ou corpo astral, ou doppeIgnger, ou fantasma, de p, no meio da sala. Admoestou-se a si prpria para no imaginar coisas e saiu novamente. Colocara o pires com atum junto do alpendre, por baixo do beiral. O gato provavelmente era demasiado tmido para ir investigar enquanto ali estivessem. Depois viu-o, esgueirando-se por baixo dos arbustos ao fundo do jardim.

- Vem c, bichano... - chamou baixinho, mas o gato desapareceu nas sombras.

- Tens a certeza de que queres um gato vadio, Leslie? Pode ter ficado selvagem; tentar dar-lhe de comer e domestic-lo pode provar ser um desperdcio de tempo.

- Ol - chamou uma voz vinda do porto da frente. Esto a mudar-se para c?

Leslie deu a volta  casa e viu Rainbow, a rapariga da livraria, com Timmie s costas, e o rapaz de cabelos compridos a quem ela chamara Frodo. Traziam qualquer coisa verde dentro de um pote de barro. Abriu o porto para os deixar entrar.

A HERDEIRA                           141

Emily - chamou -, as nossas primeiras visitas! So vizinhos?

- O Frodo vive l em baixo no Haight - disse a Rainbow. Eu vivo ao virar da esquina, em Buena Vista. Lembrmo-nos de que tinha falado. na casa da Miss Margrave. - Ela lembr-ava-se de ter tencionado falar nisso a Rainbow, mas no se recordava de ter chegado a faz-lo. - E disse que a sua irm se interessava por plantas @e eu estava a mudar de vaso um alo e trouxe-lhe uma poda. E muito bom para pr em pequenos cortes e arranhadelas... ajuda as feridas a sarar mais depressa. - Estendeu o pote que continha uma planta polposa de aspecto estranho, parecida com um cacto mas sem espinhos e que se espalhava em todas as direces.

- Oh, muito obrigada! - disse Emily recebendo o pote com tanto deleite como se este contivesse, no a planta carnuda e

feia, mas a mais preciosa das orqudeas. - Eu queria imenso ter um alo, mas no sabia onde o encontrar.

- Esta  a Rainbow, Emily, e este  o Frodo. Eu sou a doutora Barnes. Leslie.

- Entrem e venham ver o jardirri - disse Emily conduzindo-os para as traseiras da casa. Rainbow ps Timmie no cho e

depois hesitou.

- H a alguma coisa que lhe possa fazer mal?
- No que eu saiba, embora provavelmente no queira que ela se molhe, a rega est ligada...

- No faz mal. O dia est quente e ela no tem vestida nenhuma roupa especial - respondeu Rainbow desnecessariamente; Timn-e s tinha vestidas umas calas de algodo. - Tenho mais pares de calas de fato de treino na mochila, por isso se ela se molhar posso vestir-lhe umas secas.

Emily ps o vaso com o alo nos degraus.
-  melhor deix-lo no vaso ou transplant-lo para o jardim?

-  Eu deix-lo-ia no vaso por enquanto - disse Frodo mas quando crescer podes transplant-lo. Tem  que estar ao sol.

- Ainda no tivemos tempo para fazer grande coisa nojardim - disse Emily -, mas os talhes de plantas medicinais so fantsticos! H aqui plantas que eu no reconheo, mas a Lesfie comprou-me um livro fantstico sobre plantas...

- Eu sei - disse Rainbow sorrindo -, eu estava presente quando ela o comprou.

- Gatinho! - gritou Tiramie e comeou a andar em

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direco do bicho. Lesfie, recordando-se de que os rcinos eram Pouco saudveis, seno venenosos mesmo, foi atrs dela.

- J me tinha esquecido dos rcinos - disse Rainbow apressando-se a agarrar na filha. - A Alison costumava mant-los aparados, mas eles crescem terrivelmente depressa e acho que nenhuma das pessoas que aqui viveram neste ltimo ano tinham crianas pequenas, Brinca aqui na relva, Timmie.

Tirrimie debateu-se.
- Gatinho! Quero o gatinho! Raribow protegeu os olhos com a mo da luz do Sol.
- Trn um gato? No o vi...
- H um gato branco que anda por a - disse Leslie. - Pus atum para ele aqui fora. Acho que tem andado a entrar em casa...

- A Claire disse qualquer coisa acerca de ter dado um dos gatinhos dela  Alison, h anos - comentou Frodo. - A Rainbow disse-me que a tinha encontrado na livraria. Ela e a Alison eram muito amigas. E a Claire tem uns gatos brancos lindssimos; se quiser um gatinho ela tem ninhadas com muita frequncia. Mas suponho que um dos gatos da Alison ainda possa andar por a, s voltas, embora eu pensasse que a Sociedade Protectora dos Animais o tivesse recolhido quando a Alison morreu.

- Conhecia bem a Miss Margrave? - perguntou Emly.
- No diria bem - disse Rainbow. - Ela costumava ir  loja, s vezes. Era amiga da Claire, no era minha; era muito velha. Mas ficmos todos chocados quando morreu. Parecia to forte e cheia de vida. Foi por isso que a polcia andou por a a

perguntar a toda a gente que a conhecia se faziam alguma ideia do que tinha acontecido. A senhora  a pessoa que ela escolheu para ficar com a casa?

Leslie abanou a cabea.
- Nunca conheci a Miss Margrave.
- Isso no faria qualquer diferena - disse Frodo. Se foi a escolhida. O que  que a senhora faz, doutora Barnes?  mdica?

Leslie abanou a cabea.
- Sou psicloga clnica.
- Mas isso teria agradado muito  Alison - disse Frodo ,-porque ela era psicloga e parapsicloga, tambm. As pessoas vinham de todas as partes do Mundo para a consultar. Quero dizer, el-a-erafamosa.

- Pensei que ela era msica, especialista em... era em cravos, Emily?

A HERDEIRA                            143

Era - disse Rainbow -, mas isso era quando ela era mais nova. Ob, ela ainda tocava. Um dia vim c com a Claire e tocou para mim. Tinha todo o tipo de cravos, um deles em laca negra com pinturas em dourado e entalhes de madreprola.

- Eu estava a pensar no que teria acontecido aos cravos dela - disse Emily.

A voz de Rainbow tornou-se inexpressiva e impassvel.
- Parece-me que os deixou a um amigo. A um homem que costumava ser msico. Eu na verdade no a conhecia muito bem, como j disse.

Emily suspirou.
- Estou a pensar em tentar construir um cravo - disse.
- A Alison gostaria de ter um aqui em casa, tenho a certeza disse Frodo -, e uma vez ela disse que no deixaria que ningum aqui vivesse at aparecer a pessoa certa. E vs, agora h aqui outra pianista, Rainbow! Temos que contar  Claire!

-  verdade - disse Rainbow, olhando para Leslie com satisfao -, ela deve ter estado a guardar a casa para si!

Leslie riu-se, sentindo-se pouco  vontade.
- Acho que isso  ridculo - eles eram uns jovens muito simpticos, mas aquilo era a insanidade total.

Rainbow olhou de relance para Timmie, que estava a chafurdar na lama em torno do aspersor de rega.

- A casa foi vendida a pessoas que no puderam aqui viver, por uma ou outra razo, at que a senhora apareceu. Uma msica. E uma psicloga. Sei de uma mulher que viveu aqui e no conseguiu ficar. Disse-me que a casa estava assombrada. Mas a Alison nunca faria mal a ningum; a casa  que no era adequada para ela. A mulher era uma artista e talvez tenha pensado que isso era adequado para esta casa, mas nunca conseguiu trabalhar enquanto aqui esteve e a casa acabou por correr com ela...

Os olhos de Emily estavam muito abertos e, por instantes, Leslie sentiu-se furiosa. Estes seriam bons amigos para a Emily, mas no se continuassem a contar aquelas histrias loucas acerca

da casa nova. Disse zangada:

- Soube dessa histria atravs da imobiliria. A mulher era obviamente neurtica...

- Oh, isso sem dvida - disse Rainbow com um sorriso. -A Alison teria mesmo detestado t-la aqui. Mas isso n o interessa - acrescentou rapidamente. - O importante  que as
pessoas certas esto a viver na casa agora. E tenho a certeza de que vo ter muita sorte aqui e de que vo ser muito felizes. Emily,

144                 MARION ZIMMER BRADLEY

tenho algumas podas de plantas exticas que so muito difceis de arranjar; gostavas de ter algumas?

- Adorava - disse Emily e a conversa virou-se para as plantas. Emily convidou-os para entrar e verem a sala de msica e Leslie desculpou-se, dizendo que tinha que continuar a desempacotar coisas no escritrio. Deixou a poita aberta, ouvindo-os falar de plantas, msica e comidas naturais. Saiu do escritrio e viu que Rainbow e Emily estavam a dar um banho improvisado a Timmie no lava-loias da cozinha. Mais tarde, percebeu que estavam todos a beber uma das tisanas de Emily sentados  mesa da cozinha e, mais tarde ainda, ouviu o som da harpa vindo da sala de msica. Passado algum tempo ouviu os sons familiares de Emily a estudar e, quando finalmente saiu do escritrio, eles j se tinham ido embora. Algum tempo depois Emily foi ter com ela e disse:

- Gostei deles.
- Eu tambm. -Ainda que tenham umas ideias um bocado malucas, pensou.

- Escuta, o Frodo convidou-me para ir com eles a um concerto esta noite.

- Ofi? - Pensava que ele s se interessasse por msica popular.

- Sim, vai haver um concerto ao ar livre em Stern Grove, no parque. Ele costumava tocar flauta transversal. Conhece muita gente no Conservatrio. Ele e a Rainbow vm buscar-me s sete.
- Hesitou. -A no ser que precises de mim para desempacotar as coisas, ou algo do gnero... devia ter-te perguntado, no era?

disse Emily.

Leslie abanou a cabea.
- Vai e diverte-te, querida. Eu c me arranjo. Achas que a Rainbow gostava que eu tornasse conta da Timmie?

- No, ela leva~a e a um cobertor - disse Emily. - Vamos p-la a dormir na relva. s vezes o pai da Timme fica com ela  noite, mas toca esta noite...  o segundo violino.

Ento a Emily encontrara uns novos amigos que gostavam do mesmo tipo de msica que ela. Isso seria uma ajuda. Leslie disse:

- Bem, diverte-te.
- No te importas de ficar sozinha na casa nova, a srio?
- No me importo nada. Vou aproveitar para acabar de arrumar o meu escritrio - acrescentou Leslie. - Mas primeiro podes ir comprar algumas mercearias. Eu dou-te a lista.

O Sol punha-se mais cedo deste lado da baa. O nevoeiro
i

A HERDEIRA                            145

comeou a vir do mar por baixo da Golden Gate, rolando atravs da baa e das colinas, em grandes ondas de nuvens e, em pouco tempo, o cu estava coberto de grossas nuvens e comearam a cair algumas gotas de chuva no jardim. O atum estava intacto e

Leslie viu o gato branco novamente. Chamou-o, tentando atra-lo, mas ele no se aproximou. Perguntou-se se o animal estaria doente ou ferido; viu uma mancha que lhe atravessava o peito e, por momentos, pareceu-lhe sangue. Se no o conseguisse atrair nos prximos dias notificaria a Associao Protectora dos Animais de que havia por ali um gato ferido e esfomeado para que o

recolhessem num abrigo para animais perdidos.

Emily saiu com Frodo e com Rainbow e Leslie, levando para o escritrio um jantar leve composto por biscoitos e sopa, passou o sero a arrumar o estdio e a desfrutar do silncio e da paz. Nenhuma campainha de telefone perturbou o sossego o que, depois da tenso provocada pelo poltergeist durante os ltimos dias, lhe pareceu uma bno. Foi mesmo at  sala de Emily onde passou uma meia hora tranquila a tocar o primeiro andamento, bastante simples, de Sonata ao Luar (nunca fora capaz de dominar os acordes rpidos do segundo andamento) e um minuete alegre de Bach. Quando terminou de tocar a pea de Bach, ouviu uma srie de notas quase indistintas, como se fosse o eco de um cravo, e pensou emAlison Margrave. Estaria ela mesmo satisfeita por duas mulheres que partilhavam os seus interesses estarem a viver na casa que amara? Disse para consigo que no acreditava, nem por um s instante, na histria que Rainbow contara, mas era agradvel imaginar o eco suave do cravo de Alison Margrave na sala de que ela tanto gostara.

E se eu tenho realmente dons psquicos, como o Nick insiste que tenho, talvez esteja apenas a captar um sinal das suas boas-vindas. Voltou para o escritrio e recostou-se confortavelmente na cadeira. No dia seguinte aquela calma seria invadida por clientes mas, por aquela noite, a casa era s sua. Talvez fosse realmente um dom e no uma maldio. Apagou a luz e subiu as escadas. Estava a arrumar roupas nas gavetas da cmoda e acabara de ouvir o relgio do escritrio com o seu pequeno cuco, dar as dez horas, quando Emily entrou em casa e subiu as escadas.

Leslie foi at ao patamar.
- Que tal foi o concerto?
- Foi bom. Tocaram algum Mozart e uma sinfonia de Haydn e depois fomos todos para a casa de Frodo e ele tocou flauta para ns - tocou aquele solo do Orpheus e Eurydice -

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A Dana dos Espritos Sagrados, acho eu. - Trauteou a melodia barroca e suave. - E o doutor Anstey estava l.

- Em casa do Frodo? Emily soltou uma risadinha.
- No, tonta, no concerto. Eles estavam a dizer que ele vai reger alguns dos concertos desta temporada. Aposto que aquele homem  um verdadeiro terror, com a batuta na mo! - Estremeceu. - O Anstey do Mau Olhado,  o que ele !

- Emily! - censurou-a Leslie. - O homem no tem culpa da sua deformidade!

- Acho que deve ter sido o karma dele, ou coisa do gnero. Ele ajusta-se  minha ideia de algum com mau olhado disse Emily.

Leslie fungou; um cheiro estranho pairava em torno de Emily. Perguntou asperamente:

- Emily Jane Barnes, tu estiveste afumar?
- Erva, queres tu dizer? Dei uma passa num charro disse Emily. - Calma, Les, eu j sou crescida. Sabes que eu nem gosto dessas coisas; fico demasiado aturdida para poder estudar como deve ser. Mas eles estavam a passar o charro e eu dei uma passinha e no traguei o fumo, s para ser socivel.

Aquilo era, pensou Lesfie, o mximo que poderia esperar. Era inevitvel que Emily se cruzasse com aquelas coisas na sua vida social e se ela j decidira o que  que podia aguentar - e

nada que enfraquecesse as suas capacidades musicais era aceitvel    s restava a Leslie confiar nela.

 melhor tomares um duche antes de ires para a cama... ests impregnada desse cheiro - disse franzindo o nariz.

- Oh, v l, estvamos todos ao ar livre, no parque. Talvez te cheire  aos cigarros de Frodo... sabes, aqueles cigarros indianos, feitos de ervas. Eles fuma-os por causa da asma, mas so inofensivos; cheiram a canela - respondeu virando-se para a porta do seu quarto. - No, espera, tambm estou a sentir o cheiro. Oh, meu Deus, estar alguma coisa a arder?

- No, seno os detectores de fumo davam sinal - disse Leslie, mas desceu as escadas a correr e foi  cozinha. Tudo estava calmo sem qualquer vestgio de fumo nem de cheiro. Mas no trio do andar de cima ainda conseguia sentir vagamente um cheiro a fumo e viu-o, em pequenos fiapos, a desvanecer-se no patamar.

-  incenso - disse mily. - Mas de onde vir? Seguiu o odor ao longo do trio e, juntas, procuraram no andar de cima sem qualquer resultado.

A HERDEIRA                              147

Talvez algum esteja a queimar incenso na casa ao lado alvitrou Leslie. - A tua janela est aberta; se calhar entrou

por a.

- Pensei que a tinha deixado fechada - disse Emily mas este foi um dia cansativo e j no tenho a certeza. Seja como for agora est fechada. - Foi ao quarto buscar um roupo e os chinelos. - Vou tomar um duche. Boa noite, Les. Dorme bem.

-   Boa noite, querida. - Leslie foi para o seu quarto e ouviu o chuveiro da segunda casa de banho, da que dava para o trio. Era bom no ter que partilhar a casa de banho. Antes de o chuveiro ter parado de correr j ela estava a dormir.

Leslie sentou-se na cama, confusa, sem fazer ideia do que  que a acordara. Por fora da j anela o nevoeiro era espesso e branco. Teria ouvido o telefone a tocar? Depois ouviu o grito de Emily do outro lado do trio, quase um berro. Correu descala pelo trio e encontrou a irm sentada na cama, de olhos muito abertos, a boca escancarada num grito silencioso.

- Como  que ele entrou?
- Quem, amor?
- O doutor Anstey - gaguejou Emily. - Entrou pela janela... - A janela estava aberta, deixando que o nevoeiro frio entrasse em farrapos brancos que formavam pequenos turbilhes. Leslie pegou na mo da irm.

- Sonhaste, Emmie. No est aqui ningum. Vs? Emily abanou-se e despertou completamente com um

pequeno gemido.

- Mas parecia to real - murmurou                 acordei com o som da janela a abrir-se - vs, est aberta!          e ele estava ali, de p, Les. A olhar para mim. Era ele, Les! Aquela mo dele e

aquele olho horrvel, esgazeado...

O gato branco saltou por cima do parapeito da janela como

se fizesse parte do nevoeiro e desapareceu.

- Aquilo foi o que tu ouviste - disse Leslie sensatamente o gato a entrar outra vez. - Foi at  janela e fechou-a com firmeza.

- Deve ter sido - respondeu Ernily, mas no parecia muito certa do que dizia. - S que foi to real. Ele estava de p ali junto  janela. A olhar para mim. E o olho dele estava to... bem, parecia que me estava a furar. S que est escuro - disse.
- No o poderia ter visto, s escuras, pois no? Deve ter sido

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um pesadelo - concluiu numa voz pouco segura. Com o pijama de flanela e o cabelo solto a cair-lhe sobre os ombros, parecia ter dez anos.

- Ests a deixar que ele te complique com o sistema nervoso, querida. Depois da tenso da audio e tudo isso confortdu-a Leslie e Emily agarrou-se momentaneamente a ela e depois deixou-se persuadir a deitar-se novamente, ficando a olhar para ajanela fechada e para o nevoeiro l fora, a passar em farrapos,

- J ests bem?
- Sim, claro, Les. No sei o que me deu. Desculpa ter-te acordado...

- No faz mal, querida. Dorme bem. - Voltou para o seu quarto, espantada.

A Emily no  a nica a ficar nervosa com aquele homem, disse sensatamente para consigo. Deitou-se e dormiu calmamente at de manh.

Captulo dez

Ainda havia mil e uma coisas para fazer em casa, mas Leslie, bebericando caf e mordiscando uma torrada  mesa do pequeno almoo, pensou que no conseguiria fazer nenhuma delas antes dessa tarde. Susan Hamilton, a sua primeira cliente no novo consultrio, chegaria s nove e meia e Eileen Grantson viria a meio da tarde. Emily desceu e, enquanto devorava com determinao duas torradas de po integral e meia embalagem de queijo fresco, anunciou a sua inteno de comear a tratar da garagem-estdio.

- Tenho andado to obcecada com a audio que te tenho deixado fazer tudo - disse. - Tenho sido uma cabra egosta. Assim que a loja das tintas abrir, hoje de manh, vou l comprar a tinta e comeo a dar uma demo dessa tal cor alegre. Amarelo canrio?

- Parece-me bem - concordou Leslie. - No acredito verdadeiramente em tudo o que se diz acerca das propriedades cunativas das cores, mas no pode fazer mal tornar aquilo menos horrvel. Como  que vais trazer para casa quinze ou vinte litros de tinta? Vens de txi? E vais precisar de tabuleiros e- rolos e pincis...

- O Frodo tem uma carrinha velha, vai traz-la e ajudar-me. Ele diz que hoje no comea a trabalhar na livraria antes das duas da tarde e ele gosta de pintar. Deu-me uma tabela para eu calcular a quantidade de tinta necessria, por isso tenho que ir medir as paredes. - Emily engoliu o resto da tisana com cor de elixir dental e desapareceu; passados instantes apareceu novamente, com o

rosto muito plido.

- Ls! O gato branco... Leslie ergueu-se apressadamente.

Que foi, Ern? Est no estdio, cheio de sangue...

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Deixa-me ir s buscar o estojo de primeiros socorros disse Leslie e correu atrs da irm com a caixa azul e branca com uma cruz vermelha na tampa debaixo do brao. No tinha muita experincia, mas durante a sua formao no centro de interveno em crises tivera que obter trs certificados de primeiros socorros. Deveria ser capaz de fazer alguma coisa para ajudar um animal ferido. Emily escancarou a porta e parou, com um grito.

- Desapareceu! - Ficou a olhar para a sala vazia, com a mquina de costura e a cadeira de baloio antigas arrumadas a

um canto juntamente com a velha forma de alfaiate. - Estava ali deitado. No meio da sala.

- Talvez se tenha arrastado at ao jardim... os animais feridos fazem esse tipo de coisa... s vezes.

Emily estava muito plida.
- Les, no podia! Estava coberto de sangue...
- Tu tocaste-lhe, Emmie? Tens a certeza de que estava ferido assim com tanta gravidade? Para um leigo o sangue s vezes parece muito mais grave do que na realidade  - disse Leslie e Emily abanou a cabea.

- Estava ali deitado, imvel, numa poa de sangue. Tive medo que estivesse morto; dei uma olhadela e fui chamar-te. Pensei... - a voz comeou a tremer-lhe - que soubesses o que fazer.

- No vejo sangue nenhum. Se estava assim to ferido, Em, pelo menos devia haver vestgios de sangue... - disse Leslie.

Emily ajoelhou-se no cho, no meio da sala, a tremer.
- Tem que haver sangue. Les, o animal estava coberto de sangue, estava deitado numa poa de sangue... - Mas o linleo cinzento estava limpo e no se via uma nica gota de sangue.

- Vou procur-lo no jardim, Emily. Se estava assim to ferido no pode ter ido muito longe.

- No se podia ter mexido, Les, juro. Comeo... comeo a

pensar se terei mesmo visto o bicho. Mas... mas eu no costumo imaginar este tipo de coisa. Pois no? J no sei se haveria aqui algum gato...

- Disparate - disse Leslie com mais brusquido do que aquela que sentia. - Eu tambm o vi, na noite passada no teu quarto. J o vi quatro ou cinco vezes.  um gato verdadeiro, disso no h dvidas.

- No tenho assim tanta certeza. - Emily estava to abalada que cambaleou quando se ps de p. - Havia aqui tanto sangue, Les. Ou pensei que havia... e ns vimos o gato, mas no

A HERDEIRA                           151

lhe conseguimos tocar. Nem sequer comeu o atum. Um gato verdadeiro comeria o atum.

- Emily, ests a ficar toda enervada por coisa nenhuma disse Leslie asperamente. - Se calhar no gosta de peixe. Se calhar os donos treinaram-no para no comer sem ser do seu prprio prato...

- Podes treinar um co para fazer essas coisas, mas nunca ouvi falar de um gato que no comesse tudo o que apanha sempre que lhe  possvel. - Estava  procura do bicho junto aos muros de tijolo, por baixo dos arbustos e do emaranhado das roseiras bravas. - No vejo gato nenhum. Les, acho que no era um gato verdadeiro. Acho que era um fantasma.

- Oh, por amor de Deus! - Leslie, exasperada, estava de p em cima dos degraus do alpendre ainda com a caixa dos primeiros socorros debaixo do brao. - Provavelmente arrastou-se para outro quintal, para morrer.

- No. A srio. les. A senhora que tinha esta casa Miss Graves, no ?

- Margrave...
- A Rainbow disse que ela tinha um gato branco. Mas a amiga da Miss Margrave, que trabalha na mesma livraria que o Frodo - Claire? - veio buscar o gato quando a Miss Margrave morreu e no o conseguiu encontrar. E j ouviste aquele gato emitir algum som? Les, estou a dizer-te, o gato estava deitado numa poa de sangue. Se tivesse sido apanhado por alguma coisa, um co ou coisa do gnero, ns teramos ouvido qualquer coisa.

Leslie estava a pensar nas vezes que vira o gato branco, tentando recordar-se se ele fizera qualquer barulho, por mnimo que fosse. No; um silncio sobrenatural parecia envolver o bicho. No fizera o mnimo rudo ao saltar sobre o parapeito, na noite anterior. Era evidente que o facto de os gatos serem silenciosos era proverbial, mas deveria ter feito um rudo qualquer, quando as patas tocaram na janela. Mas no provocara qualquer som. Sentiu os plos dos braos porem-se em p. Uma mulher sentira-se to assustada naquela casa que se fora embora e uma outra cometera suicdio.

A Alison no permite a ningum que viva nesta casa a no ser que goste das pessoas. Mas o seu esprito revoltou-se perante aquela ideia.

- Eu consigo acreditar - talvez - no fantasma de um ser humano, Emily. Mas no no fantasma de um gato.

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O que  que as pessoas sabem realmente destas coisas, Les? Terias acreditado ser-te possvel ver aquela mulher morta ou ento a mida a comer o bolo de anos, onde  que era, em Denver?

- Phoenix - corrigiu Leslie automaticamente, sentindo o corpo inteiramente gelado. Emily voltou a entrar no estdio e olhou em volta, franzindo o nariz.

- Bhh. E est aqui outra vez, aquele cheiro...
- E, tal como tu disseste, cheira a caca de gato - recordou-lhe Leslie - e um animal doente ou moribundo teria sujado isto tudo...

- Mas o cheiro vai e vem.  como o incenso nas escadas. E havia tanto sangue, Les. Se o animal tivesse estado mesmo aqui no poderia ter desaparecido sem deixar atrs de si nem uma nica gota de sangue.

- Gatos fantasma! Incenso fantasma! - disse Leslie desdenhosamente. - Em, devias escrever para o Enquirer.

- Lembras-te do que eu te disse, que se calhar os tipos que vendiam a casa tentavam assustar as pessoas para a venderem novamente? - perguntou Emily. - Achas que comprmos uma casa verdadeiramente assombrada?

Leslie j comeara a perguntar-se o mesmo. Vira Simon Anstey no estdio e, na noite anterior, Emily vira-o no quarto.

Mas certamente que isso fora psicolgico. Ela tem medo do homem e no  para admirar. Aquela audio foi uma coisa terrivelmente penosa para uma rapariga da idade dela.

Mas e ento eu? Depois recordou a si prpria que Simon conhecia a casa e que fora, com toda a evidncia,  ntimo da Miss Margrave, seu colega, um msico como ela. E coincidncias daquelas eram a matria prima a partir das quais os impostores ganhavam a vida.

- No vamos ficar todas enervadas e tirar concluses precipitadas, Emily Vou bater s portas das casas de ambos os lados desta e vou perguntar se viram o gato e chamo a Sociedade Protectora dos Animais para o levar, se ele estiver morto ou ferido.

- Aposto em como no o vais encontrar - disse Emily e foi-se embora na carrinha de caixa aberta, que Frodo estacionara em frente da casa, com a lata a bater por todos os lados.

Sozinha na cozinha, Leslie sobressaltou-se quando o telefone tocou e depois recordou-se de que estava na casa nova.

- Residncia da doutora Barnes. Era o servio de atendimento de chamadas.

A HERDEIRA                             153

A Mrs. Hamilton pede que lhe telefone por causa da marcao. E tenho aqui uma mensagem do Mr. Beckenham.

Por instantes Lesfie sentiu-se gelar por dentro, pensando se seria Nck a telefonar-lhe de Sacramento para a enredar em mais uma situao irracional. Depois lembrou-se de que no pudera dar o nmero de telefone a Joel porque ainda no o soubera na altura.

Telefonou a Susan Hamilton; o telefone tocou cinco vezes e a voz da mulher parecia sufocada de lgrimas.

- Vou chegar atrasada, Leslie. Tenho que arranjar quem fique com a Chrissy.

- Ela no est na escola?
- Estava, mas a professora que a estava a acompanhar telefonou e eu tive que a trazer para casa. Dizem que ela mordeu outra menina e, quando a professora tentou agarr-la, ela bateu na professora e deixou-a com um olho negro. Tem-se portado to bem ultimamente que eu estava a comear a ficar com esperanas...

Leslie esperou, mas a mulher ficou em silncio, o silncio horrvel do desespero.

- Como  que ela est agora, Susan?
- Como  que eu hei-de saber? Est calma. Limita-se a ficar ali, sentada. A parte horrvel disto tudo  que ela no me pode contar o que aconteceu. Dizem que ela mordeu outra criana sem razo, mas como  que eu sei se isso  verdade? Se calhar a outra mida estava a mago-la ou a provoc-la... Se uma criana normal se envolve numa briga na escola, eles podem descobrir porqu... mas com a Chris eu nunca sei...

A voz voltou a morrer. Por fim disse, engasgada de lgrimas:
- Sempre fui uma mulher religiosa. Mas como pode Deus fazer uma coisa destas? Que fiz eu para merecer isto? Ou, mesmo que tenha feito alguma coisa... mesmo que tenha cometido algum pecado, dormi com o Dave antes de sermos casados, porque haveria Deus de castigar a Chrissy por causa disso? E tudo o que o padre me diz  que no me cabe a mim questionar os caminhos de Deus.

No havia nada que Lesfie pudesse dizer a esse respeito e Susan Hamilton tambm no estava  espera de uma resposta. Disse, numa voz baa, que telefonaria quando soubesse que poderia ir  consulta.

- Pode vir a qualquer hora antes do meio-dia; se no conseguir vir antes dessa hora, telefone para o meu servio - disse

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Leslie e desligou, com o corao a doer-lhe pela mulher que se

debatia sob aquele monstruoso fardo. A sua formao profissional ensinara-a a manter a distncia, mas dedicara-se  terapia por desejo de fazer alguma coisa pelas Susans Hamiltons - ou pelas Christinas Hamiltons - deste Mundo. Suspirou enquanto mareava o nmero do escritrio de Joel.

- Ol amor, como vai a casa nova? - Ela pensou em qual seria a reaco dele se lhe falasse dos gatos fantasma, do incenso fantasma, dos cheiros a excremento que apareciam no estdio e da figura espectral, no de um homem morto, mas de um homem vivo.

-   Vai bem - disse ela.
- Escuta, eu esta tarde tenho que ir ao tribunal de So Francisco e gostava de aparecer por a, para ver a casa com a moblia. Est bem?

- Vem por volta das cinco e jantas connosco. Assim vais

ser o nosso primeiro convidado.

- Est bem, desde que no seja a Emily a cozinhar aceitou ele de bom humor -, eu no gosto de iogurte nem de rebentos sabe-se l de qu.

- Eu grelho um bife para ns - prometeu ela. A ideia do jantar tinha-a alegrado um pouco e foi para o escritrio.
O nevoeiro comeava a levantar e a paisagem de cu e mar parecia infinitamente pacfica. Da janela da frente viu a velha carrinha de Frodo e Emily a descarregar tintas, pincis, escadas e equipamento vrio. Correu ao encontro deles.

- Compraste isso tudo, Emily? No vamos pintar a casa toda!

- No h novidade, doutora Barnes - disse Frodo. - Eu pedi a escada emprestada ao meu pai. Quando for meio-dia j o estdio estar pintado.

- ptimo - respondeu Leslie e correu para ir atender o

telefone do consultrio. Era a Susan Hamilton.

- Arranjei quem me fique com a Chris. Se achar bem estou a dentro de meia hora.

- Sim, com certeza. Leslie foi at ao estdio. Frodo, em cima da escada, estava a cobrir o tecto e a parte de cima das paredes com pinceladas de tinta amarelo-claro. Emily estava a cobrir os caixilhos das janelas, os vidros e os interruptores e tomadas com fita adesiva. No entrou; eles estavam mergulhados numa discusso sobre as peras de Gluck e Handel.

A HERDEIRA                            155

Se houvesse ali um fantasma, conseguiria ele sobreviver s camadas de tinta e s actividades de gente nova e alegre? A prpria questo parecia ridcula  luz brilhante do Sol que comeava a dissipar o nevoeiro. Foi para dentro para esperar por Susan Hamilton.

Susan era uma mulher pequena com um ar cansado. Tinha vinte e tal anos, mas o seu cabelo claro parecia mais debotado do que loiro e as roupas tinham um ar deslexado. Entrou na casa corno uma sonmbula, mas alegrou-se imediatamente quando viu o escritrio novo.

- Mas que stio to bonito e to calmo! Invejo-a, doutora Barnes.

Leslie deixou que ela comentasse a paisagem e a decorao da sala durante alguns minutos e depois perguntou:

- Como est a Chrissy?
- No sei. - Susan abanou a cabea. - Senti-me to culpada quando a deixei com a rapariga que foi tomar conta dela depois daquela comoo toda na escola. A pobrezinha parecia to confusa. A escola j decidiu que quer que eu arranje outro stio para ela no prximo ano. Eles pura e simplesmente no esto preparados para lidar com uma criana combativa. Mas ela nunca tinha feito nada deste tipo. L no fundo existe inteligncia; se eu conseguisse alcan-la... todos os terapeutas que tm trabalhado com ela o dizem. Ela no  deficiente mental. Mas  como se fosse. Vejo os sinais de que ela est a ir no bom caminho e, de repente, acontece uma coisa destas.

- Ento quer dizer que ela tem estado a fazer progressos?
- Toda a gente o diz. Uma vez disse-me "Ol", como qualquer outra criana. Os professores dizem que, ocasionalmente, ela faz o que lhe mandam... ouve e coopera, embora no fale. E uma vez foi sozinha at ao parque e fui encontr-la no mesmo stio para onde a tinha levado um dia, a brincar sozinha nos escorregas. Leslie, o parque fica a mais de um quilmetro e

meio de distncia! Como  que ela sabia o caminho? Foi uma grande traquinice e eu estava absolutamente aterrorizada; a polcia andava  procura dela. Mas mesmo assim fez-me perceber que... existe um tipo qualquer de inteligncia na Chrssy. Se eu conseguisse alcan-la! O que  que eu estou a fazer errado?

- J discutimos o sentimento de culpa noutras ocasies, Susan. Porque  que acha que se est a sentir culpada neste momento?

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Eu sinto-me sempre culpada - explodiu Susan e agora, ainda por cima, para alm dos sentimentos de culpa que eu sinto por ter uma filha assim, voce parece pensar que eu ainda tenho que me sentir culpada por ser culpada!

- Susan, aquilo que me est a dizer  que lhe parece ser razovel sentir-se culpada e que eu estou a ignorar os seus sentimentos a esse respeito.

- Bem, eu devo ter feito qualquer coisa. Talvez no tenha cuidado bem de mim quando estava grvida. Ou talvez o mdico tivesse razo, quando disse que as crianas autistas eram-no por serem rejeitadas pelos pais... Mas eu no a rejeitei! No rejeitei!
O David rejeitou, mas s depois de ter percebido que se passava qualquer coisa de errado com ela e no antes!

- Nunca ningum conseguiu diagnosticar, com certeza, que a Chrissy  autista - recordou-lhe Leslie. - Ela  uma criana afectuosa o que no , de forma alguma, uma caracterstica dos autistas. Uma criana verdadeiramente autista ignora os pais. E disse-me que a Chrissy chorou pelo pai quando ele se foi embora. Seja como for - negligncia emocional -  apenas uma das teorias acerca do autismo, teoria essa que nunca foi provada.  evidente que nunca a negligenciou, nem mesmo quando isso teria salvo o seu casamento.

J tinham tido aquela conversa em mais do que uma ocasio, tentando ajudar Susan a desenredar-se da teia de infelicidade e culpa. O marido culpara-se primeiro a si prprio e depois culpara~ -a a ela. Tinham tentado descobrir parentes distantes com aquele tipo de sintomas; nem mesmo as opinies clnicas de que tudo aquilo era, provavelmente, uma consequncia de um acidente durante o parto, tinham ajudado.

Mas eu no posso fazer nada por nenhum deles, pensou Leslie, nem sequer posso dizer nada que ajude.

- No, a srio, Leslie... - Susan interrompeu-se a si prpria no meio da torrente de palavras. - No como terapeuta. Como ser humano. Eu sei que, profissionalmente, diz que eu tenho que me livrar dos sentimentos de culpa...

- Bem, acha que esse tipo de sentimentos  construtivo? perguntou Leslie. - Acha que se desistir da sua culpa estar a encarar a provao da Christina com demasiada leveza, que sentir que no gosta dela o suficiente?

- Em parte  isso - disse Susan lentamente. - Mas estive a pensar no que lhe disse ao telefone. Porque  que isto me aconteceu a mim? Eu sou uma pessoa religiosa. Nunca acredita-

A HERDEIRA                          157

rei que a vida  um caos e que no existe um sentido qualquer nisto tudo. Se eu acreditasse nesse tipo de caos cego acho que pegava na Chrissy ao colo e saltava com ela da Ponte Golden Gate; facilitaria a vida a uma srie de pessoas.

- Tem pensado nisso? - perguntou Leslie. Durante a sua formao fora-lhe inculcado que nunca deveria ignorar uma primeira aluso, ainda que feita de forma leve, a impulsos suicidas. A Susan tinha problemas muito srios. No sofria apenas de inadaptao neurtica, como tantos dos seus clientes, tinha um problema que j levara muitas mulheres ao suicdio antes dela e que levaria outras no futuro.

- No verdadeiramente - disse Susan por fim, lentamente. Continuo a sentir que algures, de alguma forma, tem que haver uma razo para isto. Uma razo para a Chrissy ser como  e para isto me ter acontecido a mim. Racionalmente sei que no  devido a nada que eu tenha feito e no pode ter sido nada que a Chrissy tenha feito, ela  um beb... mas hoje em dia oio os midos a falar de vidas passadas e de karma e disso tudo. Acha que eu e a Chris fizemos qualquer coisa uma  outra numa vida passada e  por isso que agora estamos assim, amarradas uma  outra? Quer dizer, s vezes penso que  a nica coisa que faz sentido.

Silncio. A paz do Sol e do cu envolveu as duas mulheres no gabinete silencioso e Leslie teve conscincia do tiquetaque do relgio de cuco pendurado na parede. Leslie sabia que, de acordo com todos os cnones da sua profisso, deveria dizer qualquer coisa que desencorajasse aquelas noes irracionais. Porque haveria de permitir que Susan, que j tinha sentimentos de culpa que chegassem para uma vida inteira, ainda carregasse o fardo de que poderiam ter existido outros problemas para l desta vida?

- No sei, Susan - disse por fim. - No me parece que seja assim to simples. No se trata de ser bom ou mau numa vida e ser-se castigado ou recompensado na vida seguinte. Isso est apenas um passo  frente da noo religiosa simplista de que pagamos pelo que fazemos indo para o Paraso ou para o Inferno. No quero parecer o seu padre e dizer-lhe que no devemos questionar os caminhos de Deus; eu acredito que devemos
9uestionar aquilo que se passa connosco. Se eu tenho alguma f e a de que existe uma ordem qualquer no Universo. J alguma vez lhe ocorreu que talvez, antes de nascermos para esta vida, escolhamos aquilo que nos vai acontecer?

- Acha que eu escolhi isto?! - gritou Susan.

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No sei - disse Leslie novamente enquanto uma parte distanciada de si se perguntava porque razo estaria a dizer aquelas coisas; mas nunca se sentira to certa de nada na sua vida. Como  que poderemos saber a forma como as coisas so encaradas da perspectiva de mais do que uma vida?  possvel que, por qualquer razo, tenha sentido a necessidade de aprender a sentir compaixo pelos deficientes; talvez tenha sentido que foi insensvel s necessidades de algum. Ou talvez a Chrissy, por qualquer razo, tenha sentido a necessidade de aprender a ser imperfeita - uma lio de humildade, talvez, ou de impotncia
- e tenha vindo para si por ser a me certa para ela. Alguns pais teriam internado um filho como a Chris assim que tivessem descoberto que havia qualquer coisa de errado com a criana...

- E mesmo quando o David me implorou que o fizesse, dizendo que era a nica forma de salvar o nosso casamento, eu no o fiz - disse Susan. - Senti que era injusto obrigar-me a escolher entre os dois e que ele deveria partilhar o fardo. Sei agora que ele no  o tipo de pessoa capaz de o fazer. A forma como ele reagiu  Christina demonstrou-mo. Se a Chrissy no fosse como , eu era capaz de ter continuado a acreditar que o David era a pessoa certa para mim. A Chris fez com que eu visse que no poderia acreditar que David pudesse pr, fosse o que fosse, antes do seu prprio conforto e das suas convenincias. Acho que sempre soube disso. - Parou, a pensar naquilo.

- Que vai fazer agora? - perguntou Leslie.
- Vou tentar encontrar outra escola para a Christina disse Susan lentamente. - Comeo a perceber que um dia sou capaz de ter que a internar. At l farei o melhor que souber, dar-lhe-ei o que puder, todo o amor que puder dar. E quando j no puder mais, se calhar vou ter que dar o passo seguinte. Se ela... tiver o meu apoio e o meu amor enquanto eu o puder dar, talvez... - parou novamente e acabou por dizer: - Se ela nasceu assim por uma razo qualquer, ento talvez o destino dela no esteja inteiramente nas minhas mos. H um limite para o que eu posso fazer por ela antes de ter que deixar que ela... - Estava a procurar as palavras, lentamente, reflectindo - descubra qual  o seu destino, mesmo que esse destino no seja ficar em casa e

ser o meu pobre beb impotente.

Leslie assentiu com a cabea, mas no vulgarizou aquele momento de introspeco fazendo quaisquer comentrios. Seria bom que a sua prpria me tivesse sido capaz de perceber aquilo mesmo; que a sua filha tinha um dom e um destino que lhe per-

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tenciam. Que Emily pertencia a si prpria e ao seu talento e no a Constance e James Barnes e que o propsito da vida dela no era agradar-lhes enquanto filha dedicada.

Mas quando o relgio de cuco deu as onze horas e Susan saiu, ainda a remoer os seus prprios pensamentos, Leslie ficou sentada no escritrio a pensar no que seria que lhe tinha dado. Nunca tivera mais do que um ligeirssimo interesse pela reencarnao enquanto filosofia. E, no entanto, fora capaz de ir buscar algures as palavras exactas para dizer a Susan naquele impasse da sua vida. De onde teriam vindo aquelas palavras?

Estava a preparar uma sanduche na cozinha quando ouviu o som de uma guitarra. Emily e Frodo, sujos de tinta, estavam sentados no muro do jardim e ele estava a cantar e a tocar guitarra. Ela teria imaginado que a reaco de Emily a uma coisa daquelas seria tapar os ouvidos com as mos e fugir a sete ps.

Talvez Emily tivesse encontrado um rapaz por quem fosse capaz de chegar a um compromisso no que dizia respeito s opinies e preconceitos que mais prezava? Conhecia Emily suficientemente bem para saber que ela no estava a condescender com Frodo simplesmente por ele ser um homem que demonstrava interesse por ela. J testemunhara a atitude inflexvel de Emily relativamente a rapazes que a tinham tentado interessar por actividades supostamente normais para uma adolescente, como a msica de discoteca e os desportos. Mas lembrava-se de Emily ter dito que Frodo tocava flauta transversal. Devia ser isso que fazia a diferena; as suas opinies mereciam portanto ser levadas em considerao, mesmo, talvez, no que dizia respeito  msica. Saiu para o alpendre.

- Querem uma sanduche?
- Oh, ptimo - disse Ernily. - Temos queijo? Anda, Frodo, vou fazer umas sanduches para comermos antes de teres que ir trabalhar.

Entrou e ps uns ovos a cozer dentro de uma panela.
- Queres ch de limo, de camomla ou de roseira brava, Frodo?

- De limo est ptimo - disse Frodo. - Ol, doutora Barnes.

- Leslie, por favor. At mesmo os clientes da minha idade me tratam pelo primeiro nome - disse Leslie sorrindo e passou-lhe o mel para ele pr no ch. Descobriu que gostava daquele hippie simptico.

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Les, encontraste o gato? Leslie j quase se esquecera do animal. Estava prestes a dizer que no tinha tido oportunidade de o procurar quando o Frodo apontou para a porta da cozinha que estava aberta.

- Referes-te ao gato branco da Miss Margrave? Est ali, a passar por baixo dos arbustos... vs?

- Mas no pode ser - disse Emily indo at  porta e

ficando em silncio. Por fim disse: - J te disse,  um gato fantasma. No tem sinais de sangue riem nada.

- Emily, h muitos gatos brancos nesta cidade... - come-@,? ou Lesle a dizer, mas Emily j estava a contar a Frodo como encontrara o gato jazendo no seu prprio sangue, naquela manh, na garagem. Ficou ironicamente surpreendida por Emily no o ter regalado com aquela histria enquanto pintavam. O relgio do fogo tocou antes de ela ter acabado a histria e Emily foi tirar os ovos da panela, fazendo-os saltar nas mos enquanto os

passava por gua fria debaixo da torneira do lava-loia. Comeou a descasc-los.

Frodo disse:
- No me surpreende. H qualquer coisa naquele estdio. A amiga de Claire disse que tudo parecia centrado naquele estdio. As velas apagavam-se. O nevoeiro entrava l dentro e ela tinha pesadelos com aquela sala. Por duas ou trs vezes a pea que ela estava a moldar, na roda de oleiro, ficou arruinada sem que ningum l tivesse entrado. Segundo ela, por mos invisveis.

- E acreditas nisso tudo, Frodo? - perguntou Leslie com curiosidade.

Frodo deu golinhos no ch e olhou para ela como se, aquilo que estava prestes a dizer, pudesse ser ofensivo.

- Por vezes acredito e outras vezes no. Mas a questo  esta, eu conheo a Betty Carrnody. Ela no  uma mulher neurtica nem histrica e isso, para mim, j  o suficiente. J lhe ocorreu, doutora Barnes... Leslie - emendou -, que em qualquer outro assunto, se algum que  mentalmente so e costuma dizer a verdade diz ter visto uma coisa, ou ter sentido qualquer coisa, ns acreditamos? Mas nesta questo, conclumos imediatamente que a pessoa est a mentir, ou est a enlouquecer, ou usa drogas, ou qualquer coisa do gnero. E se a Betty Carmody diz que uma

coisa aconteceu com ela, ento para mim  como se tivesse sido a Rainbow ou a Claire a diz-lo; acredito no que elas dizem. Acredito no que a Betty diz.

Ela nunca pensara naquilo daquele ponto de vista. Mas acon-

A HERDEIRA                            161

tecera consigo em Sacramento. Tinham pensado que ela estava a

mentir, ou que sofria de uma iluso e, algumas pessoas, continuavam a acreditar nisso mesmo depois de a Juanita Garca ter sido encontrada morta, mesmo depois de a descrio que ela fizera do assassino os ter conduzido a um suspeito que j tinham interrogado antes, de terem encontrado as roupas ensanguentadas da rapariga e madeixas do seu cabelo na posse dele. Teriam preferido acreditar que Leslie fora a sua parceira silenciosa ou sua cmplice.

H mais coisas no Cu e na Terra, Horcio... impediu-se de dizer o lugar-comum em voz alta e lembrou-se de como a resposta para o desespero de Susan lhe ocorrera quando fora mais necessria.

- Frodo, vocs na loja tm livros sobre reencarnao?
- Temos muitos. Uns bons e outros maus. Porqu? Interessa-se pela reencarnao?

- Tenho... curiosidade - disse ela.
- Temos l um livro escrito por um psicoterapeuta que tratava as pessoas descobrindo quais os problemas das suas vidas anteriores - disse. - A Miss Margrave tinha esse livro em grande conta; escreveu o prefcio da edio de bolso.

Oh! Realmente. Isso  muito interessante, pensou Leslie.
- Vou tentar ir  livraria, Se me conseguisses arranjar um

exemplar ficava-te grata.

- Claro, no tem problema. Emily perguntou:
- Queres mostarda na tua salada de ovo, Frodo? Leslie, queres salada?  muito boa - disse, e a conversa desviou-se do oculto para as generalidades. Leslie foi espreitar o estdio. J tinha uma demo de tinta de secagem rpida e Emily disse que, depois do almoo, pintaria o rodap. - Mas primeiro acho melhor estudar uma ou duas horas, Les.

- Posso passar por c depois do trabalho com o meu alade? - perguntou Frodo. - Gostava mesmo de ver como  que soa com a tua harpa, Em. _   Pensei que a Emily tinha dito que tocavas flauta... no sabia que era o alade - disse Leslie, encantada. Frodo sorriu depreciativamente.

- Oli, tambm toco flauta. E alguma coisa de piano, mas no a srio, como a Emily. E percusso e estou a estudar ctara. E violoncelo, um pouco.

Emily disse, com entusiasmo:

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Ele tocou com a Orquestra Filarmnica de Dalas, como solista de violoncelo, quando tinha onze anos.

Sim, pensou Leslie, este  o tipo de rapaz que a Emily pode levar a srio.

Pouco depois Frodo agarrou na guitarra e foi para a livraria. Emily foi para a sala de msica mas, quando Leslie estava a raspar os pratos e a met-los dentro do lava-loia, apareceu novamente.

- Escuta, Les - disse ela em tom de desafio -, acho que tenho que ir ao mdico. Ao teu ginecologista. Posso telefonar j para marcar uma consulta?

- Claro, porque no haverias de poder? - disse Leslie. Tens tido algum problema, Ern? Clicas ou coisa assim?

- No. Quero dizer, eu, hmm, podia ir  Clnica de Planeamento Familiar e pronto.

Leslie ficou satisfeita por estar de costas voltadas para a irm; no queria que ela se apercebesse da sua expresso surpreendida. A confiana de Emily era preciosa.

- No, telefona  Ellen Baring; ela  muito boa e muito sensvel. Eu prpria sempre preferi uma ginecologista mulher.

- Escuta... - Emily fez uma pausa. - Acreditas em todas essas coisas que se dizem acerca da plula?

-No, no acredito. Acho que noventa por cento disso tudo  propaganda da Igrej@ Catlica. O nico problema da plula  ser mutssimo eficaz. E claro que h pessoas que podem ser alrgicas, mas todos os efeitos secundrios que foram sentidos por mulheres que tomam a plula tambm foram sentidos por outras mulheres que estavam a tomar placebos. Se no puderes usar uma plula o mais provvel  que exista outra com que te ds bem. Pessoalmente nunca poria a hiptese de usar outra mtodo. Mas ela explica-te todas as alternativas possveis.

- Vou telefonar-lhe j, antes que me esquea - disse Emily e Leslie, ouvindo-a ao telefone no trio, pensou se teria sido a presena de Frodo que fizera Emily pensar naquilo ou se seria simplesmente uma das facetas do processo de amadurecimento. No era sem tempo; Emily tinha quase dezoito anos e no podia viver a vida toda envolta num casulo de msica.

Assim que Emily desligou o telefone este tocou e a irm chamou-a:

-  para ti, Les - e foi para a sala de msica. Leslie atendeu na extenso da cozinha. O trio e a sala de msica estavam j cheios de acordes musicais o que, inconscientemente, tranquilizou Leslie.

A HERDEIRA                             163

Emily podia estar a contemplar uma srie de possibilidades, incluindo uma incurso na sexualidade dos adultos, mas a msica continuava a ser o seu primeiro amor; conseguia sempre avaliar o estado de esprito de Emily pela vitalidade com que ela tocava.

- Estou?
- Doutora Bames... vi a sua fotografia no Enquirer, a forma como encontrou o corpo daquela rapariga. - Era uma voz feminina, bastante agitada. - Pode ajudar-me a encontrar o meu

filho? Ele desapareceu h seis meses...

- No - disse Leslie automaticamente, sem parar sequer para pensar. Desligou o telefone sentindo um n no estmago. Outra vez isto no, porfavor meu Deus, no isto. Persegui-la-ia aquilo para sempre? Encaminhou-se para o estdio ouvindo o telefone tocar atrs de si, sabendo que era uma voz feminina e desconsolada, sentindo-se encurralada e assustada por mais aquela intruso do irracional na sua vida. O telefone continuou a tocar mas ela no lhe ligou. Gritou por cima do ombro:

- No atendas, Em.  uma pessoa com quem eu no quero falar. Emily e Frodo tinham deixado a porta aberta para deixar sair o cheiro da tinta. Leslie parou  entrada; perante os seus

olhos viu sangue, horrivelmente real, em cima do linleo cinzento e bao do cho. No charco de sangue, jazia imvel o gato branco.

Leslie pestanejou e ouviu-se gritar. Enquanto olhava, a imagem desvaneceu-se como se fosse nevoeiro. Fora ento aquilo o que a Emily vira; e ela prpria teria negado a existncia do que Emily vira, no fora as palavras sensatas de Frodo.

Mas agora j no estava nada ali. Estou a agarrar-me a vestgios de sanidade, pensou, mas todos o vimos...

H centenas de gatos brancos na cidade, tenho a certeza. Provavelmente o gato foi morto aqui - violentamente - e o

espectro, a imagem psquica, permanece; era o mesmo processo que fizera com que, ao olhar para o corpo morto de Juanita Garca, tivesse visto o assassino da rapariga.

E agora no podia duvidar da prova fornecida pelos seus

olhos ou ento arriscar-se-ia ao mesmo tipo de desonestidade intelectual para a qual tinha sido alertada durante a sua formao.

Em qualquer outro assunto um dcimo da evidncia ter-me-ia convencido; nesta questo nem dez vezes a evidncia me conseguiria convencer.

Fosse como fosse, o fenmeno era transitrio; agora desaparecera. Talvez s se mostrasse uma nica vez a cada pessoa. Quanto ao gato branco que aparecia e desaparecia do jardim e

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entrava e saa do quarto de Emily, estava longe de admitir que fosse o mesmo gato. Ou que fosse um fantasma.

Emily deixara algumas amostras de tintas em cima da mquina de costura. Quando fosse  livraria para ir buscar o tal livro sobre reencarnao - e queria mesmo saber alguma coisa acerca do assunto; onde teria ido buscar aquelas coisas que dissera a Susan? - compraria um tecido adequado e faria umas almofadas e uma coberta para o velho bero. Tinha sido embalada naquele bero; uma das suas memrias do bero estava relacionada com o dia em que a recm-nascida Emily lhe fora posta nos braos.  o meu beb, dissera ela  me. N o  o teu beb,  o meu? beb. A me rira-se mas, depois do que acontecera naquela manh, ela j no estava certa de nada. Emily sempre estivera deslocada na famlia e, nem a me, nem o pai de ambas, com o seu sentido prtico, a tinham alguma vez compreendido ou se tinham alguma vez sentido  vontade com ela. S a av . E eu. Talvez a Emily precisasse de uma famlia que no fosse muito compreensiva. Uma famlia que fizesse dela uma lutadora. E ainda que eu um dia venha a terfilhos, a Emily vai ser sempre minha filha. Talvez ela tenha vindo para mim como a pobrezinha da Chrissy veio para a Susan. S que eu tive mais sorte.

Depois, num acesso de repugnancia, expulsou tudo aquilo do seu esprito. Reencarnao! Era ainda pior do que aquela idiota supersticiosa que lhe telefonara, implorando a ajuda de uma vidente, cujo nome lera num tabIide, sensacionalista, para encontrar o filho! Zangada, foi at  cozinha  procura da fita mtrica para medir o bero e poder fazer as almofadas. A maldita da mulher provavelmente tinha empurrado o filho para fora de casa ao querer que ele vivesse como se ainda tivesse dez anos. A maior parte das mes era o que fazia... bastava olhar para a sua prpria famlia! Tentar forar a En-ly a ir estudar para uma escola de professores! Tirou a medida s velhas almofadas esfarrapadas, puxando o bero para o meio da sala e comeou a tirar os cortinados do bero.

Procurou um papel e um lpis para assentar as medidas. Ia precisar de cerca de dois metros de tecido. Um padro alegre, amarelo-brilhante. Vira um tecido com margaridas estampadas. Olhou para trs; o bero estava a balouar-se sozinho? Oh, raios, agora estava a ver fantasmas em todos os cantos. Em breve comearia a v-los debaixo da cama e a ler o Enquirer!

Apesar de, se pensasse na pouca utilidade que tinha para os seus clientes, talvez fosse melhor ser astrloga ou mdium. Pelo

A HERDEIRA                           165

menos um astrlogo ou um mdium podiam dar uma iluso de esperana, em vez de devolverem a sade mental necessria para que as pessoas vivessem as suas vidas numa sociedade insana que, provavelmente, acabaria consigo prpria  bomba antes de o sculo terminar. Talvez devesse comear a dar consultas de vidncia! Era mais do que certo que, em termos profissionais, se encontrava num beco sem sada e esta j era a segunda profisso que exercia. Falhara como psicloga escolar e agora sentia-se to desencorajada com as perspectivas dos seus clientes, que lhes dava conselhos espirituais sobre a reencarnao! Num acesso de depresso atirou com o lpis. Que diferena fazia forrar o bero de novo? No poderia continuar a viver naquela casa a no ser que arranjasse mais clientes e era desonesto aceitar algum sabendo o pouco que a terapia podia fazer pelas pessoas. Talvez devesse casar-se com o Joel e desistir daquilo tudo. Seria, certamente, mais honesto. Pelo menos, como mulher do Joel, saberia o que dava e o que recebia.

Dentro do escritrio, deixando que a calma da sala  prova de som a embalasse enquanto esperava por Eileen Grantson, sentiu-se melhor. Quando o telefone voltou a tocar atendeu-o e ouviu outra vez a voz da mulher.

- Por favor, doutora Barnes, no desligue. Por favor deixe-me ir falar consigo. No posso desistir de saber do meu rapaz. Ele  o meu nico filho. S quero saber se ele est vivo ou morto. Se ele estiver morto posso deixar de me preocupar com ele e, se

ele estiver vivo, pelo menos fico com essa certeza.

Leslie estava prestes a recusar novamente. Mas o tom de desespero da voz da mulher f-la hesitar. Disse:

- Vive aqui na cidade?
- Vivo em Marine Courity.
- Muito bem. Venha c esta noite. - O Joel estaria l. Talvez conseguisse fazer com que a mulher desistisse daquela ideia. - s sete, est bem?

- Est ptimo. Oh, muito obrigada, doutora Barnes, obrigada, Deus a abenoe...

Leslie interrompeu os agradecimentos repetidos da mulher, quase bruscamente, e ficou a ver Eileen Grantson a subir o caminho. Agora, pensou, iria ser submetida a uma hora de discusso sobre poltergeist. O fantasma de um gato, mdiuns, reencamao... bem, era o que ela merecia por se ter mudado para uma

casa assombrada!

Captulo onze

Mas, para surpresa de Leslie, mais uma vez Eileen no mencionou poltergeist, loia partida ou qualquer assunto semelhante; passou a hora inteira a falar de Scotty, de uma discusso que tivera com o pai sobre as horas de chegada a casa quando saa com Scotty e daquilo que sentia sobre uma proposta que recebera da sua me para a ir visitar a ela e o padrasto no Texas. Ao v-Ia descer os degraus a correr, Leslie ficou sem saber se devia sentir-se aliviada ou frustrada. Para bem da Eileen, estava contente por o fenmeno ter acalmado e, quem sabe, desapare- cido para sempre.

Quanto a si prpria, continuava a desejar saber o que o provocara e se a causa e o objectivo do poltergeist eram os mesmos

no seu caso e no de Eileen. Na casa nova no vira quaisquer sinais da actividade de poltergeist - a no ser que a janela do quarto de Emily, que se abria com maior frequncia do que ela conseguia explicar - fosse um sintoma.  claro que, se um gato entrava por ali... mas o gato parecia ser um fantasma. Disparate, disse Leslie a si prpria, a cidade estava cheia de gatos e uma boa parte deles devia ser branca.

O poltergeist de Eileen parecia ter desaparecido quando ela arranjou um namorado. Soa-me muito a freudiano, disse Leslie a si prpria; no devo concluir entre causa e efeito sem ter provas. E quando ela reatara o caso com Joel e voltara a dori-nir com ele,

o seu prprio poltergeist - se era realmente disso que se tratara
- ficara ainda mais forte. Obviamente no era to simples assim, no podia concluir que se tratava da liberta o de energias sexuais frustradas.

Talvez devesse ir  livraria e comprar o livro da Miss Margrave. Tinha, afinal de contas, pedido a Frodo que lhe escolhesse um livro sobre reencarnao. Mas agoraj no tinha tempo.

A HERDEIRA                           167

O Joel vinha s cinco horas para comer o tal bife que ela lhe prometera e ainda tinha que sair para o ir comprar.

Reparou que no vinha qualquer som do piano na sala de msica. Teria a Emily sado? No, da janela da cozinha via a porta do estdio ainda aberta; a irm devia estar l, a pintar.

Emily, com umas calas de ganga cortadas pelo joelho e os ps descalos estava, com ar ausente, a dar pinceladas com uma tinta de cor creme no caixilho dajanela.

- Esta sala vai ficar muitssimo agradvel quando acabarmos de a arranjar, Emily - disse Leslie. A irm quase nem ergueu os olhos do que estava a fazer.

- Sim, acho que sim.
- Queres que te ajude a fazer isso? Ou posso acabar isso amanh, querida, se quiseres ir estudar. No h pressa.

- No tem importncia - disse En-ly continuando a pintar mecanicamente o mesmo bocado de parapeito. - No faz mal.

- Em, passa-se alguma coisa? Queres que te deixe sozinha?
- No, deixa estar. No  nada contigo. - Emily passou para outra parte do caixilho da janela. - Estou farta,  tudo. Estudei cinco horas por dia, todos os dias, durante os ltimos cinco anos e onde  que estou? Viste os relatrios do jri da faculdade. - (Leslie no os lera). - A primeira vez que os li achei que eram ptimos. S que um deles criticava a minha postura, demasiado curvada, dizendo que me fazia perder energia. Esse  o tipo de coisa que se diz a uma criana de nove anos, critica-se a postura, por amor de Deus! O doutor Anstey dizia que eu tinha muita intuio para Rachmaninoff... no teria nada para dizer acerca da forma como toquei, da minha tcnica? Suponho que no tinham nada de positivo para dizer, nem sequer sobre o

que eu fiz nzal. E depois aquela vaca gorda da Paddington consegue ir  audio para a Sinfonia, como se fosse melhor do que eu, devo ser mesmo pssima...

- Mas o Simon Anstey veio ter contigo e cumprimentou-te pessoalmente - disse Leslie, perguntando-se o que teria desencadeado aquele estado de esprito. - No o vi fazer isso a nenhum dos outros estudantes!

- Sim, e fez questo de dizer quo nova eu era, como se fosse uma criana prodgio ou coisa do gnero! Tenho um ar assim to novo? Acho que o que ele quis dizer foi que eu era

demasiado imatura para entrar numa competio daquelas.

- Mas foste admitida nas aulas dele - fez notar Leslie e duvido que ele admita principiantes nessas aulas...

168                 MARION ZIMMER BRADLEY

Tambm aquele anormal com mos de chumbo, o Steve Kalapergos foi admitido; aceitou os merdas dos incompetentes
- disse Emily furiosa. - Talvez ele ache que somos to maus que precisamos da porcaria do curso dele! E pra de me tentar animar! Merda, Leslie, a porcaria da minha carreira acabou mesmo antes de ter comeado! - Atirou com a trincha para o cho e desfez-se em lgrimas. Atravs dos soluos, Leslie s conseguia perceber umas quantas imprecaes no entendendo mais do que duas palavras seguidas.

- Passa-se uma vida inteira a trabalhar... no vale de nada... no presto para nada...

- Emily! Pra com isso! - Leslie agarrou no ombro da in-n e abanou-a ligeiramente. - No h razo nenhuma para teres um ataque de histeria!

- Eu no estou histrica - guinchou Emily. - Estou s a tentar, por uma vez, olhar para as coisas com realismo! A perceber o que se passa em vez de dar ouvidos s pessoas que ficam  minha volta a dizerem-me como sou boa! - Soltou-se de Leslie.
- E tu s a pior de todas, pressionando-me e convencendo-me
* dizendo-me que eu mereo uma porra de uma carreira. Que bem
* que isso te fez a ti? A mam tinha razo! Tens a merda do bicho da carreira metido em ti e queres arruinar a minha vida tambm!

Leslie respirou fundo, lembrando a si prpria que Emily no estava a dizer aquilo em virtude de ter pensado no assunto mas que estava, obviamente, completamente histrica.

- Muito bem - disse ela secamente. - Podes vender o piano sequiseres e o semestre do Conservatrio acaba dentro de poucos dias. Podes matricular-te na Escola Pblica de So Francisco, para o curso de Vero, e ter lies de dactilografia e

de processamento de texto.

Emily ficou imvel, a olhar para ela.
- O qu?
- Estava s a sugerir-te que, afinal de contas, tens outras opes. Ningum te condenou  priso perptua. A tua vida , obviamente, tua e, se fazes o favor, no te metas na minha vida pessoal, est bem?

- Que queres dizer? Por amor de Deus, que disse eu para te pr nesse estado? - perguntou Emily, com uma sinceridade tal que Leslie se sentiu confundida. Respirou fundo mais uma vez.

- Acho que ests cansada, Emily, e a reagir despropositadamente. Vem  cozinha que eu fao-te um ch. E lembraste-te de comer qualquer coisa?

A HERDEIRA                             169

Emily esfregou os olhos. Tinha a cara manchada das lgrimas.

- Sim, acho que estou muito cansada. Caiu-me tudo em

cima de repente, como tudo isto parece desesperado. Estou num beco sem sada. As minhas mos... - Estendeu-as na sua frente.
- Esto rgidas, horrveis. Passo a vida a fazer todo o tipo de erros estpidos quando estou a estudar. O Agrowsky diz que toda a gente regride de vez em quando, mas pensei que ele estava a dizer aquilo s para me animar. E ele vai passar seis semanas na

Sua durante o Vero e eu vou adquirir todo o tipo de maus hbitos.

Emily fungou enquanto tapava as latas de tinta.
- No sei o que me deu. Explodi. S que no acho que seja tudo histeria, Les. Pensas seriamente que vale a pena todo o esforo e dinheiro quando eu tenho pouqussimas hipteses de ter uma

carreira como concertista e, provavelmente, vou acabar a ensinar piano ou a tocar rgo numa porcaria de uma igreja qualquer?

- Ia ser uma igreja espectacular - disse Leslie. - Ouve-te a ti prpria a tocar um dia destes, Emmie. - E Emily hesitou, repetiu as ltimas palavras que dissera, baixinho e deu uma risadinha.

- Acho que quero mesmo um ch - disse e foi atrs de Leslie para a cozinha. - Mas no tens que ser tu a fazer o ch. J passas tempo suficiente a fazer coisas para mim. Passo a vida a explorar-te. Nem sequer lavo a loi a tantas vezes como deveria...

Leslie encolheu os ombros.
- Podes cuidar de mim quando eu for velha e caquctica disse, mantendo um tom deliberadamente jocoso.

- No, a srio, Leslie - disse Emily quando se sentou  mesa com um biscoito na mo. - O que te perguntei antes. Achas que vale realmente a pena todo este tempo e dinheiro para jogar na hiptese remota de eu ter uma carreira como pianista de concerto? Viver assim e... e nunca fazer as coisas que as outras pessoas fazem...

- Emily, como  que eu hei-de saber? No sou perita. Eu acho que tu tocas maravilhosamente bem, mas a minha opinio no vale de nada neste caso. Se queres a opinio de um especialista vai ter com o doutor Agrowsky ou com um dos outros peritos do Conservatrio.

Emily encheu os pulmes de ar e suspirou, quase a chorar. Disse:

- O Agrowsky ganha imenso dinheiro a dar-me aulas. Achas que ele vai dizer-me que me anda a roubar?

170                 MARION ZIMMER BRADLEY

Ento pergunta ao doutor Anstey. Ele nem sequer te conhece; s te ouviu tocar uma vez. E tu nem sequer gostas dele, por isso podes confiar que a opinio que ele te der ser desinteressada.

Ela fungou novamente.
- Talvez faa isso. Tens alguns lenos de papel, Les?
- Est uma caixa no meu escritrio - disse Leslie e Emily foi busc-la.

- No te esqueas de a pr no lugar quando j no precisares dela - lembrou-lhe Leslie e Emily disse, com uma risadinha envergonhada:

- Os teus doentes passam a vida a chorar? Leslie disse, meio a brincar, recordando-se de uma coisa que ouvira durante o curso:

- Quando eu era estudante, um dos meus professores disse que todas as terapias no directivas se resumiam a uma caixa de lenos de papel, estrategicamente colocada, e a uma srie de rudos compreensivos com poucos segundos de intervalo. Mas a verdade  que quando as pessoas esto a tentar explorar os seus sentimentos, bem... uma caixa de lenos de papel d jeito.

Emily assoou o nariz e assentiu.
O desapontamento sbito de Emily com a carreira que escolhera dificilmente a surpreendia. Sentira-se de forma muito semelhante, naquela manh, sentindo que estava num beco sem sada na sua vida profissional, sem esperana, que deveria ter casado com Joel... subitamente lembrou-se de onde se sentira assim.

- Emily, diz-me, comeaste a sentir-te aborrecida com a forma como estavas a tocar, paraste e foste pintar? Ou saste e

foste pintar e depois sentiste-te desalentada com a tua carreira?

Emily engoliu um biscoito com manteiga de amendoim. Disse:

-   Oh no, sentia-me optimamente enquanto estive a tocar. Senti que estava a evoluir muito bem e estava toda excitada com as aulas do Anstey, porque habitualmente os caloiros nem sequer so elegveis para aqueles cursos. Depois senti-me culpada por no ter acabado as pinturas, porque fiquei com medo que os rolos e os pincis ficassem rgidos e horrveis, por isso sa para ir acabar o trabalho. E enquanto estava ali a trabalhar tive a mais horrvel das sensaes de que me estava a enganar a mim prpria, de que estava esgotada, de que andava a desperdiar o meu tempo, de que nunca mais serviria para nada...

Leslie disse deliberadamente "j era altura de enfrentarem aquilo em conjunto".

A HERDEIRA                           171

Estive sozinha no estdio durante algum tempo esta manh. E comecei a sentir-me de uma forma muito semelhante a essa no que diz respeito  minha profisso... como se fosse uma total perda de tempo e eu j no conseguisse fazer bem a ningum e de que tinha desperdiado toda a minha vida...

Emily abriu muito os olhos. Disse:
- E o Frodo respondeu que foi por isso que a mulher que viveu aqui antes de ns - Betty qualquer coisa - tinha sido afastada da casa! Porque, segundo ela, o estdio era habitado por uma coisa que a odiava... odiava especialmente a arte dela! Por isso as minhas preocupaes com o piano... - Parou para pensar naquilo.

- Leslie! Se a casa est assombrada, achas que a Miss Margrave - ela prpria era msica -, achas que  por.. por ela ter cimes porque eu ainda posso tocar e ela j no pode?

- No consigo imaginar que seja essa a razo. - J ouvira vrias vezes o eco distante da msica de um cravo na sala de msica e no trio. E a sua sala era um santurio de paz e contentamento.
- J alguma vez sentiste esse tipo de coisa noutro stio qualquer da casa? Na sala de msica, por exemplo? - perguntou Leslie.

Emily abanou a cabea.
- Nunca! Quando estou a tocar, sinto... - sorriu envergonhada - de que ela gosta de me ter ali. Como o doutor Anstey disse. Houve uma vez que at pensei ter ouvido um cravo confessou -, como se fosse um eco fraco. Mas provavelmente foi imaginao minha.

- Tambm j ouvi - disse Leslie -, mas seja o que for, no me parece que seja a mesma coisa. Desde a primeira vez que c vim, senti que o estdio estava... - hesitou e depois pronunciou a palavra em que ambas estavam a pensar, embora nenhuma delas tivesse vontade de a pronunciar em voz alta na oitava dcada do sculo vinte -, assombrado.

- O que  que vamos fazer, Leslie? Vamos fech-lo e

no... no tentar ir l?

- Estava tudo bem quando ambas l estivemos com o

Frodo esta manh - recordou-lhe Leslie e Emily concordou.

- Sim, mesmo depois de tu teres sado eu e o Frodo ficmos bem. Se calhar s ataca as pessoas quando l esto sozinhas.

1   - Ento  fcil - disse Leslie. - Vamos arranjar a garagem- para salo de festas e arranjamos maneira de ter aquilo cheio de gente. Acho que o que quer que seja que ali est no teria grande sucesso a assombrar um grupo de pessoas que este-

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jam a rir e a divertir-se. - Deu uma pancadinha no ombro de Emily. - Tenho que ir ao mercado comprar um bife. O Joel vem c jantar; tem que vir ao tribunal nocturno, ou coisa do gnero, aqui em So Francisco.

Como era previsvel, Emily franziu o nariz. Quando Leslie regressou encontrou Emily, como j esperara, a fazer uma tosta de queijo na cozinha. Disse:

- A Rainbow convidou-me para ir com ela a uma coisa qualquer que vai haver na livraria. Vou ficar fora at tarde. Quero dizer, no caso de o Joel querer c ficar..

Leslie riu-se.
- Ele tem que ir ao tribunal  noite, eu disse-te. Mas obrigada, Emmie.

Emily, j de sada, deu-lhe um beijo rpido, meio de esguelha, numa das faces.

- Desculpa ter gritado contigo, Les. A srio.

Captulo doze

O bife estava ptimo, cozinhado da maneira que Joel lhe ensinara, com gros de pimenta preta modos e enterrados na carne. Joel aprovou a sala de msica, com a harpa e o piano e

a vista sobre o jardim, bem como o seu escritrio silencioso e elegante. Levou-o ao andar de cima para ele ver os quartos (Emily voltara a deixar a janela aberta) e, no quarto dela, ele puxou-a para cima da cama.

- Temos tempo suficiente - instigou-a ele, movendo as mos por forma a excit-la, mas Leslie afastou-se contra vontade indo at ao quarto de vestir para ajeitar o cabelo.

- Amor, lamento, mas tenho uma maluca de uma mulher que vem c s sete horas. Ouve,  a campainha. Abre-lhe a porta, est bem? - Ouviu novamente as palavras que dissera quando ia a descer as escadas; como podia ela atirar para o ar, to tranquilamente, palavras como "maluca"? Ela, uma profissional de sade mental? Mas no sentiu remorsos quanto ao epteto; as pessoas que consultavam mdiuns eram malucas e esses eram os factos. * que dizer dos mdiuns? * Mrs. ChIoe Demarest no tinha o aspecto convencional de uma louca. Tinha cerca de cinquenta anos e um ar composto e controlado, era a imagem da matrona suburbana, com o cabelo bem arranjado. Ela prpria levantou a questo quando se sentou no escritrio de Leslie.

- Deve pensar que eu sou um tanto doida para vir ter consigo desta maneira, doutora Barnes. Mas foi uma amiga minha que me contou como a senhora encontrou o corpo daquela pobre rapariga em Sacramento. - Olhou, pouco  vontade, para Leslie e para Joel que estava com os lbios franzidos e com uma expresso de cepticismo estampada no rosto.

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Leslie disse calmamente:
- Tem que perceber que eu no posso prometer ajud-la.
- Oh, eu pago-lhe na mesma, quer me possa ajudar quer no - disse a mulher rapidamente e Leslie sentiu-se assolada por uma onda de fria.

- Eu cobro aos meus doentes; a senhora no  minha doente. Se eu puder ajud-la de alguma maneira, ajud-la-ei, mas no posso aceitar nenhum pagamento. Fale-me do seu filho. Ele i  tinha sado de casa antes?

-   No. Nunca. Era to bom rapaz, nunca me queria causar

preocupaes. O David nunca faria uma coisa destas... - come-` ou ela e Leslie suspirou para dentro, sentindo-se tentada a desligar do que ela dizia. Aquele era o lamento comum de todas as mes que no faziam a mnima ideia de como os seus filhos eram realmente, continuando a pensar neles como criancinhas obedientes quando eles j tinham vinte ou trinta anos. Mas depois a Mrs. Demarest disse uma coisa que lhe despertou a ateno.

- E mesmo que ele no quisesse saber daquilo que eu pensava, ele no faria isto a Mary...  a irm. Ela  cega e sempre foram muito chegados. E deixou a cadela no canil, j h seis semanas e nem me telefonou a mim nem  Mary para a irmos buscar, e ele sabe que ns no nos importaramos de o fazer.

Aquilo f-la pensar. Se ele era o tipo de jovem que dava parte do seu tempo para fazer companhia  irm cega e se se esquecera de combinar as coisas no que dizia respeito a um animal que lhe era querido, ento provavelmente acontecera-lhe mesmo qualquer coisa.

- A polcia encontrou o carro dele. Vazio - disse ela. Tinha umas amolgadelas, mas no o suficiente para lhe ter provocado a morte. E onde est o corpo, se ele morreu?

- Trouxe uma fotografia dele. Posso v-Ia? - perguntou Leslie, com uma certeza que no sabia de onde vinha. Com uma parte remota e desconhecida do seu crebro ela soube que, o estado irracional e inexplicvel, comeava a invadi-Ia novamente e, impotente, revoltou-se com esse facto. Mas era impotente para impedir o que lhe estava a acontecer.

Pegou na fotografia e, mesmo antes de a ter virado para olhar para o rosto simptico e vulgar de David Demarest e para os seus olhos cobertos por uns culos, soube que ele tinha morrido antes de fazer vinte e sete anos. Estava morto e em paz, com o rosto intocado, os culos intactos, ainda sobre o nariz.

- Ele foi para sul - disse ela. - Era outro homem que ia

A HERDEIRA                             175

a conduzir. O homem que bateu no carro dele. Teve medo que o acusassem de atropelamento e fuga. Sul. Sul... e... sim... Oeste. Estrada nmero cinco. Ele morreu e o homem tirou-o do carro.

Ouviu a mulher gemer mas continuou, impiedosamente.

Contacte com a polcia de uma cidade... - Parou, tentando concentrar-se na viso errtica. - Poos de petrleo. E torres... - Os fragmentos enlouquecedores da sua viso estavam a tornar-se mais claros. - Ao p do mar. Poos de petrleo

no mar. - Teve uma viso rpida do rosto de PhyIlis Ane Chapinann e soube que cidade vira. - Santa Brbara. Pergunte  polcia de Santa Brbara se tm algum corpo de um jovem por identificar. - Abruptamente as imagens desapareceram do seu esprito e ela entregou o retrato do homem morto  me, sentindo-se esgotada e fria. - Lamento - disse. - Lamento muito, quem me dera ter tido melhores notcias para lhe dar. Alguma vez tiraram as impresses digitais do seu filho?

- No. Ele nunca... tiraram as marcas dos ps dele quando era beb. No hospital. Acha que isso pode servir?

Leslie no sabia. Disse:
- Telefone-lhes. Se eles tiverem l algum corpo por identificar  capaz de valer a pena ir at l para... para o identificar.
-  frente dos seus olhos viu uma imagem pequena, a cores, da mulher a abrir a gaveta de uma morgue e, com um grito de reconhecimento, desmaiar; ela iria a Santa Brbara e encontraria ali o seu filho. Sentiu-se invadida pela raiva contra o desconhecido que a polcia nunca encontraria e que, para evitar o incmodo de um inqurito e uma pena menor por homicdio involuntrio ou

conduo imprpria, no procurara obter assistncia mdica para a sua vtima e depois despejara cruelmente o corpo numa cidade desconhecida. E depois desapareceu tudo, como um sonho que se desvanece, para nunca mais voltar. (Mas voltaria. Ela sabia que voltaria. Uma e outra vez. Resignada, enterrou-se impotente na cadeira onde, antes dela, se sentara outra mulher.)

Joel estava a reunir as coisas da mulher, conduzindo-a  porta. Leslie desejou que ele no o tivesse feito, deveria ter, pelo menos, oferecido uma bebida  senhora, um caf, para lhe dar tempo de se recompor das ms notcias que tivera para lhe dar, mas sentia-se demasiado exausta e sem energia para se mexer ou protestar.

- Livrei-me dela por ti - disse Joel, regressando. - Que parte das coisas que tu lhe disseste eram verdade e que parte inventaste para te livrares dela?

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O ultraje fez aquilo que a compaixo no conseguira. Leslie endireitou-se na cadeira.

- Joel! No podes acreditar que eu fosse capaz de fazer uma coisa dessas!

- Com uma doida daquelas tudo  permitido - disse ele. Devias ter-lhe dito que levavas mil dlares. Ou cinco mil. Isso faria com que te livrasses desta gente mais depressa. No, a srio, Les, estou a falar a srio. Se deixas que se espalhe que fazes este tipo de coisa de graa, nunca mais te vo deixar em paz e, a julgar pela tua expresso, no podes fazer este tipo de coisas muito frequentemente.

As foras estavam a voltar-lhe rapidamente. Lembrava-se de se ter sentido assim, sentada no carro da Polcia, perto de um canal onde uma rapariga jazia morta.

- De qualquer maneira eu teria que lhe dizer o que tinha visto, ou ento, que no tinha visto nada. No me ia sentir bem se levasse dinheiro. Isto... surge-me, no me custa nada...

- Excepto o teu tempo e energia. Devias ver-te, Leslie. Vale tudo aquilo que possas cobrar.

Ela deu um grande suspiro.
- Se esta fosse a nica forma que eu tivesse para viver, Joel, suponho que teria que cobrar. Mas no . Joel, no quero falar mais disto.

- Por mim tudo bem - retorquiu ele furioso. - Se nunca mais ouvir falar disto ficarei feliz. Porque  que permites que este tipo de trampa acontea?

Porque no o consigo evitar Porque  assim que eu sou. Porque tem que haver uma razo para eu ser assim. No disse nenhuma daquelas coisas.

- Porque  que isto te transtorna tanto, Joel?
- Eu sou advogado - disse ele. - Vejo o tipo de coisas horrveis que acontecem quando as pessoas no usam a cabea, quando cedem  irracionalidade e se deixam controlar pelas emoes. Cobia. Superstio. Religio. Medo. E as pessoas como tu tm que apanhar os estilhaos. E como  que o podemos fazer se deixarmos este... este lixo ultrapassado assumir o controlo dos acontecimentos? Raios, Les, a lgica , para mim, uma religio. No tenho outra. No consigo viver com este tipo de coisa.

E ento eu? Eu tambm no consigo viver com isto e  a mim que isto est a acontecer E tu no s ajuda nenhuma. Limitou-se a dizer:

- Mas  verdade, Joel. No achas que eu inventei aquilo tudo, pois no?

A HERDEIRA                            177

Oh, Deus, Leslie, eu no sei o que pensar - confessou ele. J somos dois - respondeu ela e ouviu a amargura na sua prpria voz.

- H alguma coisa que se beba nesta casa?
- H uma garrafa de whisky na cozinha. - Nenhum deles era grande bebedor. Ele foi buscar a garrafa e serviu duas bebidas generosas. Bebeu a sua de um trago, mas Leslie indicou, com a cabea, que no queria a sua. Tinha uma sensao provocada no sabia por qu, de que beber poderia ser perigoso, poderia deixar o seu esprito vulnervel s foras desconhecidas do oculto que, naquele momento, pairavam perigosamente por perto.

- Bebe isso, Les.
- No posso. J estou suficientemente prxima de perder o controlo. - Ao ver o olhar zangado que lhe lanou ela implorou:

_   No achas que eu adoraria embebedar-me e esquecer esta... esta... - Interrompeu-se com um gesto impotente.

- Les, estou assustado por causa de ti - disse. - Um dos scios do meu escritrio, o Carmody, tambm anda metido nessas maluquices. Uma das razes porque vim substitu-lo na sesso nocturna do tribunal foi... - fez uma careta - porque ele ia a uma sesso esprita qualquer, ou coisa assim, numa livraria que vende livros desses aqui na cidade. Muito bem, um dos scios principais da firma no pode estar presente e eu tenho a oportunidade de aproveitar esta ocasio, o que  ptimo. Depois chego aqui e vejo o mesmo tipo de porcaria...

Ouviu as palavras de Emily ecoarem-lhe nos ouvidos: A Rainbow convidou-me para ir com ela a uma coisa qualquer que vai haver na livraria. Coincidncia? No. H uma razo para tudo isto estar a acontecer, disse a si prpria, e no quis pensar melhor no que quereria dizer com aquelas palavras. Fosse como fosse o Joel no a estava a ouvir.

- Gostava de poder ficar contigo, Les. Mas tenho que ir para o tribunal...

Duas semanas antes, pensou ela, admirada consigo prpria, ter-lhe-ia implorado que ficasse e, de alguma maneira, ele teria arranjado forma de lhe fazer a vontade. Agora j no queria saber. Porque razo j no lhe interessaria o que Joel pensava dela? Pensou: Vai ser uma pena perder o casamento do Nick, e sentiu-se chocada por Joel no lhe merecer mais do que aquele pensamento.

Eu estava certa. Mudar-me para aqui serviu para arrumar o

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meu passado e comear uma nova vida e, mais uma vez, pensou o que seria que queria dizer com aquilo.

Na manh seguinte, confrontou Emily antes de a irm ter oportunidade de lhe contar o que acontecera de motu proprio.

- Como foi a sesso? Emily sobres s altou-se, parecendo sentir-se culpada
- Como  que sabes?
- Sou vidente - disse Leslie friamente. S depois de o ter dito  que se apercebeu de que a sua afirmao no fora feita em

tom jocoso. - No, foi o Joel que me disse. Foi interessante?

Mais ou menos. @Aquela mulher de quem a Rainbow, falou, a Claire, estava l. E simptica. Disse-me que te tinha visto na livraria e que gostava que aparecesses por l um dia destes. Uma das mdiuns era a Mrs. Carmody.  a irm da mulher que costumava viver nesta casa. Tinha uma mensagem para mim, da av: sente-se satisfeita por eu ter a harpa dela e diz que eu deveria ter um cravo. S que eu j sabia disso. Mais ou menos. Emily ficou a olhar para a toalha de mesa.

- Apareceu alguma coisa realmente estranha vinda do lado de l? - Leslie percebeu que a sua voz soava brusca e irnica.

- No. No verdadeiramente. Umas quantas pessoas presentes tambm receberam mensagens. Ela pareceu-me bastante sincera. Mas, de qualquer forma, aquelas mensagens serviriam para qualquer pessoa. Um homem disse  mulher que no deveria confiar no advogado. Quer dizer, disse isso atravs da mdium.

E o Carmody  advogado e a mulher  mdium. Oh, claro. Aposto que a mdium est em condies de recomendar um bom advogado, por exemplo afirma Manchester, Ames, Carmody.. Nada de real. Nada que pudesse alguma vez ser verificado.

- No houve mensagens da irm dela para mim, a dizer que esta casa  perigosa?

Emily ficou a olhar para ela.
- No. A irm dela no morreu. Vive em So Jos. Mas foi ento que as coisas comearam a ficar realmente interessantes. A outra mdium era uma mulher estranha e gorda. Uma mulher horrvel, com o cabelo pintado de vermelho, que disse um monte de coisas sobre Sumerland. Sentmo-nos e demos as mos e foi a que comearam a acontecer coisas. Comeou a ver-se ectoplasma lamacento a flutuar por todo o lado, com um aspecto horrvel e esverdeado e a pandeireta dela comeou a levitar e eu estava ali sentada cheia de pele de galinha e depois o amigo da Claire - um velhote chamado Colin, muito simptico - acen-

A HERDEIRA                            179

deu a luz e vimos que a mdium tinha uma vara de bambu presa aos dedos dos ps que era o que fazia mexer aquelas coisas todas. Tinha um pano fininho coberto de tinta fluorescente. E toda a gente se riu dela. Tive pena da pobre da mulher, apesar de ela ser

horrvel, porque ela comeou a chorar e disse que era tudo verdade. Mas as pessoas queriam ver aquele tipo de coisa e era o dever religioso dela ajudar a convencer as pessoas de como tudo aquilo era verdade. Disse que as pessoas queriam ver sinais e fenmenos estranhos.

- Les, existem mesmo mdiuns ou so todos uma fraude? A Mrs. Carmody no me pareceu uma fraude, s um bocado pateta. E a outra mulher, a vigarista...

- No sei, Emily - disse Leslie. - H sempre algum que viu os verdadeiros mdiuns, ou que conhece algum que viu os mdiuns verdadeiros. Pode ser que, algures, existam mdiuns verdadeiros. - Passados instantes acrescentou - Talvez seja como o fantasma do gato. Mesmo quando o vimos com os nossos prprios olhos, passado algum tempo j no acreditamos no

que vimos. - Naquela manh j s tinha uma memria muito tnue - como a que fica de um sonho - daquilo que a fizera dizer a ChIoe Damarest, com toda a segurana, que fosse falar com a Polcia de Santa Brbara para saber do seu filho desaparecido. Sabia que ainda podia vir a desenvolver uma necessidade obsessiva de verificao, de prova, nem que fosse para manter a

sanidade. Poderia essa necessidade arrast-la, um dia, a fornecer o tipo de prova visvel que aquela mdium desconhecida se sentia compelida a fornecer?

Pensava que no. Sentia-se segura da sua prpria integridade. Mas viver nas margens do irracional, que efeito poderia isso ter em si?

- No houve mensagem nenhuma da Alison Margrave a

dizer quo feliz se sente por estarmos a viver na casa dela?

- No - disse Emily. - A Mrs. Carmody tentou cham-la mas ela no apareceu.

- Mulher sensata - responeu Leslie. Estava segura de que,

se a personalidade sobrevivesse  morte, os espritos teriam mais que fazer do que andar a aparecer nas sesses de espiritismo. Mas  medida que os dias foram passando, voltou a andar com a respirao suspensa. No tinham aparecido quaisquer novos

sinais de toda aquela irracional idade. De vez em quando sentia o

cheiro do incenso fantasma nas escadas; o gato branco continuava a passear-se pelo jardim. Punha comida de gato ou atum no jardim

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para ele comer e, por vezes, o atum permanecia intacto e de outras vezes de manh j tinha desaparecido. A cidade estava cheia de gatos. Teria isso alguma importncia? Emily queixava-se de que a janela do seu quarto aparecia aberta sem que tivesse sido ela a abri-Ia; mas Emily, absorta nas aulas de Simon Anstey, mal se apercebia do que estava a acontecer no Mundo. Ou seria que se aperceberia? Uma noite disse a Leslie, descontraidamente, que iria passar a noite com amigos. Leslie suspeitou que o amigo fosse Frodo, mas no fez perguntas. Emily j era crescida e tinha direito  sua privacidade. Viu uma embalagem de plulas contraceptivas no armrio do quarto de Emily, mas no era for-,. oso que isso tivesse qualquer significado.

E depois, perto do fim de Junho, abriu a porta ao ouvir o toque da campainha e viu Simon Anstey na sua frente.

- Doutora Barnes? Ela pestanejou e cumprimentou-o. O rosto cheio de cicatrizes sorria de forma amigvel, o  nico olho observando-a atentamente; na mo esquerda tinha calada uma luva preta.

- A sua irm frequenta as minhas aulas - disse ele

e eu gostaria de falar consigo.

Ela convidou-o a entrar.
- Quer que chame a Emily? - O som de um preldio de Bach enchia o trio e ele sorriu.

- Ainda no, por favor. Costumava conhecer bem esta casa; confesso que sinto curiosidade em ver o que fez com ela. E... - O vestgio de um sorriso bailou-lhe nos lbios finos e algo austeros. - Sei que mandou trocar todas as fechaduras. Confesso que fiquei com a minha chave e que a usei em uma ou duas ocasies, antes de a casa voltar a ser novamente habitada. Senti que no estava a prejudicar ningum.

Percebeu que ele estava a tentar cativ-la e disse:
- Vou deixar que seja a Emily a mostrar-lhe a sala de msica, quando acabar de estudar. Mas pode vir ver a cozinha e o escritrio. As salas  prova de som tm sido muito teis para os meus doentes. - Conduziu-o at ao escritrio e ele fez um gesto de aprovao com a cabea.

- Deu  sala um ar de grande tranquilidade - comentou. Disse que no era mdica? No tem o equipamento habitual de um consultrio mdico...

Ela abanou a cabea.
- Sou psicloga clnica.
- No  freudiana, espero? A Alison desprezava os freu-

A HERDEIRA                            181

dianos. Ela chegou mesmo a conhecer o doutor Freud e alguns dos seus discpulos e no ficou nada impressionada. - O sorriso dele era jocoso.

Leslie sorriu-lhe.
- No. No sou freudiana. Nem nada que se assemelhe. Emily atravessou o trio.
- Les, ouvi a campainha da porta... - interrompeu-se surpreendida e chocada. - Doutor Anstey!

Ele fez uma vnia, educado e sorridente.
- A sua irm mostrou-me simpaticamente o consultrio dela; estava a recordar-me de como era no tempo de Alison. Ela tinha aqui o mais belo dos seus cravos; uma pea de museu, uma

pea veneziana em laca e ouro do sculo dezasseis. Agora est no

Museu Metropolitano. A Alison deixou as outras peas de museu ao Srnithsonian e  Escola de Msica Julliard, que foi onde estudou. Os outros, aqueles em que ela tocava, estavam do outro lado do trio, com o piano. Ser que posso ver a sala de msica?

Emily cruzou o olhar com o da irm. Ela soubera que aquela era a sala de msica. Levou Simon at ao outro lado do trio.

- Tem um Knabe; a Alison tinha um Bechstein - disse ele. - Mas o Kriabe  um ptimo instrumento. E a harpa, evidentemente,  praticamente uma pea de museu. Tambm toca harpa?

- Um pouco.
- Uma vez, na aula, disse que se interessava pelo cravo, Miss Barnes... Emily. A Alison deixou-me seis dos cravos que tinha. Gostaria de lhe emprestar o mais pequeno, para ver se gosta realmente do instrumento. No posso tocar os seis cravos ao mesmo tempo e o cravo no , na verdade, o meu instrumento. E  um crime deixar os seis cravos armazenados, sem que ningum os toque. - Leslie reparou que a luva preta que lhe cobri a a mo esquerda estremecera e pensou se a deficincia dele seria verdadeiramente irremedivel. Que tragdia para um msico! Ofereci um dos cravos a um amigo, mas acho que ele  supersticioso... se calhar pensou que a m sorte que atingiu a minha car~ reira era capaz de ser contagiosa,

- Doutor Anstey... - Leslie percebeu que Emily perdera a fala, tal era a felicidade que a oferta provocara, mas que ainda hesitava. - Se alguma coisa acontecesse...  uma grande responsabilidade...

- Esto no seguro; pago urna fortuna pelo seguro, estejam eles onde estiverem - afirmou Anstey quase com indiferena.

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- Estaro cobertos aqui, em caso de incndio, ou Deus no permita, roubo ou vandalismo. Sei que cuidar deles como dos seus prprios instrumentos e isso  tudo o que eu posso desejar. Se os instrumentos no esto seguros na sala da orquestra do Conservatrio, com a porta trancada, duvido que um arcanjo os conseguisse manter seguros. Por isso, a no ser que no o queira experimentar..

- Oh, doutor Anstey, eu nem sei o que dizer.. estou completamente maravilhada... - Emily estava quase incoerente.

- Ento diga que o posso mandar entregar no fim da semana disse ele. - Vamos encarar isto como um emprstimo a longo prazo. Quando eu voltar a ir para o estrangeiro ficarei contente por saber que deixo o cravo em mos carinhosas. E gostava de@ ouvi-Ia toc-lo, um dia destes, se no se importar. Passei muitas das horas mais felizes da minha vida nesta sala; a minha me era uma velha amiga da Alison e esta apresentou-me aos cravos mesmo antes de eu ter comeado com o piano. Acho que ela nunca ultrapassou o seu desapontamento por o cravo no me atrair tanto

como o piano. - Sentou-se diante do teclado. - Posso, Emily?

- Oh, faa o favor.. s que no sabia...
- Que eu ainda podia tocar?
- Ouvi... - Emily parou, sabendo que o que quer que dissesse revelaria falta de tacto. Ele sorriu-lhe.

- Eu no toco... no toco para o pblico de um concerto, embora provavelmente um pblico pouco educado no desse pela diferena. Mas eu sei; tenho que... no sei como dizer isto... o Sterling Moss, o piloto de automveis disse, no livro que escreveu que, depois de ter sofrido um acidente que lhe atingiu a

cabea, continuava a poder conduzir, mas que tinha que pensar no que fazia; j no era um reflexo, uma unio perfeita entre ele e o carro. No quero que os crticos sejam simpticos comigo, no quero a condescendncia nem a piedade deles. J sou um

homem rico - os dois filmes em que entrei trataram dessa questo -, por isso posso fazer aquilo que quero. Ainda no perdi a esperana de um dia, com sorte, determinao e talvez com a ajuda da cincia mdica - ou algo mais - voltar. - Leslie viu uma raiva e determinao ferozes endurecerem-lhe os lbios. Sente-se aqui, Emily; dar-me-ia um grande prazer tocar para si.

Sentou-se ao lado dele no banco do piano. Lentamente, ele descalou a luva. Os dedos eram mais brancos do que os da outra mo e tinha as costas da mo cruzadas por linhas brancas e cicatrizes.

- Um milagre da medicina - disse ele com indiferena.

A HERDEIRA                          183

Um dos dedos tinha mesmo sido decepado pela primeira falange; felizmente no se perdeu.

Estava a mostrar a sua vulnerabilidade perante elas, pensou Leslie, e perguntou-se o que o levaria a proceder assim. Comeou a tocar; os oito acordes, comeando com o piano acariciante e indo, num crescendo inexorvel, at ao fortissimo do concerto de Rachmaninoff que Emily estudara com tanto afinco. Leslie sentiu que nunca ouvira aquela msica. Quando ele acabou de tocar o

primeiro andamento as lgrimas corriam pelo rosto de Emily.

Ele ficou sentado imvel em frente ao teclado, os dedos movendo-se lentamente para voltar a calar a luva. Parou abruptamente e curvou-se ligeiramente para a frente, cobrindo os olhos com a mo saudvel. Leslie podia ver os maxilares cerrados e o estremecimento dos dedos. Ouviu-o respirar fundo e

soube que ele estava em agonia.

- Doutor Anstey?
- s vezes sinto dores neste olho - confessou ele, respirando novamente.

- Espero que no se tenha fatigado... -- disse Emily e ele ps-lhe uma mo no ombro, a sorrir.

- No, filha. Foi um prazer. Posso ver o jardim?

Emily convidou-o para ficar para o jantar e ficou deliciada quando ele confessou ser vegetariano. Leslie tinha que receber um doente e deixou-o com Emily. Fora da presena fascinante de Simon Anstey - e tambm ela cara totalmente sob o efeito do seu feitio - teve conscincia de que, por uma razo qualquer, decidira conquist-las. Disse a si prpria para no ser pouco generosa. Sabia perfeitamente que um concertista tinha uma vida solitria e uma aluna socivel, mesmo que tivesse um tero da idade dele (visto que Simon, como ele a encorajara a trat-lo, devia ter cinquenta e muitos anos), no seria uma m amiga, especialmente se vivesse numa casa onde ele j fora acarinhado como um filho.

Emily levou-o at  cozinha. Ele perguntou:
- Posso ajudar?
- Pode descascar os pepinos - disse Emily, preparando-se para cortar os tomates s rodelas. - Eu fao a salada.

- Eu costumo deixar a casca - disse-lhe ele, sorrindo. Tirou o casaco de bom corte e pendurou-o nas costas de uma cadeira arregaando as mangas. - Mas tento cort-los em rodelas finssimas; serve assim?

184                 MARION ZIMMER BRADLEY

A campainha da porta interrompeu-os; Leslie foi abrir a porta a Leonard Hay.

- Estou atrasado? Tive que estacionar a uns quarteires daqui... estava um carro  frente da sua casa...

- A minha irm tem uma visita - disse ela. - V para o escritrio, Leonard, vou j ter consigo. Na verdade chegou oito minutos adiantado. - Conduziu-o ao escritrio.

- A sua irm tem uns amigos muito ricaos - disse ele com ar amuado. - Um Mercedes?

-  de um dos professores do Conservatrio - confirmou ela. - Sente-se e ponha-se  vontade. Tem a revistas em cima da mesa.

Voltou para a cozinha; o Leonard chegava frequentemente uns minutos antes da hora ou tentava ficar alguns minutos depois da consulta, exigindo subtilmente mais ateno e ela tentava deixar claro que no seria manipulada daquela forma.

Simon, em mangas de camisa, estava encostado  bancada da cozinha a arranjar as rodelas finas de pepino em torno de rabanetes cortados em forma de flor.

- Um dia destes - disse ele -, tenho de vos fazer um dos meus souffls de queijo.

- Eu nunca consigo faz-los - confessou Emily, rindo-se. - Caiem... ficam completamente chatos! Mas fao uns bons quiche. Ou tambm leu aquele livro pateta que diz que os verdadeiros homens no comem quiche?

Simon riu-se.
- Pelo contrrio - disse. - Gosto imenso de quiche quando so bem feitos. E se algum duvidar das minhas credenciais no que respeita  virilidade, estou seguro de poder arranjar algum que mas confirme, mas nunca senti essa necessidade.

No jardim, o gato branco esgueirou-se silenciosamente junto  parede por baixo dos arbustos.

- Simon - perguntou ela. - A Miss Margrave tinha um gato branco?

Ele seguiu o olhar dela e ela viu que os tendes do pescoo dele, por cima do colarinho, ficaram tensos como cordas de ao, mas a sua voz soou casual.

- Teve sempre gatos brancos; nos ltimos anos da sua vida teve o ltimo de vrios.

Ele tambm viu o gato, pensou Leslie. E estava perfeitamente consciente de que no era um vulgar gato vivo. Teria sido normal que ele dissesse: O qu, aquele gato ali no jardim? Ou

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ento: Sim, ali vai ele ou Sim, teve, mas no era aquele. Mas poderiam as regras normais aplicar-se a um homem como Simon? Estava a tirar rodelas de pepino de uma tigela com a mo enluvada; subitamente a tigela escorregou e tombou de lado e Simon explodiu.

- Coisa suja, maldita! - gritou e o recipiente de metal voou da bancada espalhando rodelas de pepino pelos ares e indo pousar do outro lado da cozinha. Simon foi, pensava ela, apanhar a malga do cho, mas ele deu-lhe um pontap cheio de selvajaria; a malga fez barulho e Emily ergueu os olhos com um grito. O rosto de Simon estava transtornado pela raiva, mas

abruptamente esta desapareceu. Ouviu-o respirar fundo quando se curvou para apanhar o recipiente. A voz dele estava novamente neutra e impassvel.

- Desculpem - disse ele. - Eu       ... praguejei por causa da minha falta de jeito. H alturas em que  ... perco a fora na mo. Quando estou a tocar isso no acontece, pelo menos no costuma acontecer. - Ficou de p a flectir os dedos enluvados, com o rosto plido.

- Dei cabo da tua salada, Emily? Ela abanou a cabea.
- No, no, passe s o pepino por gua fria. Eu prpria esfreguei o cho da cozinha esta manh, est limpo. - Simon foi lavar os vegetais e Leslie pensou se teria imaginado aquele momento de fria aterrorizante.

- Vejo-os daqui a um bocado, quando acabar a consulta do Leonard; guardem-me alguma salada - pediu e foi para o escritrio. Ouviu enormes gargalhadas na cozinha e no conseguiu deixar de pensar que Simon se sentia to  vontade naquela casa como ela prpria; talvez at mais.

Simon telefonou trs dias mais tarde dizendo que j tratara de tudo para irem entregar o cravo e perguntando se podia l ir para supervisionar a instalao. Vigiou o transporte e o desempacotamento, inspeccionou meticulosamente o instrumento quando o puseram no lugar e depois tirou o casaco e pos-se a afin-lo. No tirou a luva preta, mas mexeu pinos e pequenos martelos quase com tanta destreza como se o fizesse de mos nuas.

- Isto vai ser bastante demorado - disse. - No se sinta obrigada a fazer-me companhia.

- Eu deixo-o sozinho se preferir - respondeu Leslie mas importa-se que eu fique a ver?

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De maneira nenhuma, a no ser que comece a falar de coisas absolutamente irrelevantes - opinou ele com franqueza.

Sentou-se no banco da harpa e ficou a observ-lo em silncio. A mo saudvel era bela, forte, com umas belssimas articulaes * muito musculada. Leslie crescera a acreditar no mito segundo * qual as mos com dedos compridos e finos eram "mos de pianista", mas sabia que isso no correspondia  realidade; as mos de um pianista eram to musculadas com as de um atleta. Passado algum tempo descalou a luva e atirou-a impacientemente para o lado. Ergueu a cabea, viu que ela o observava e disse, bruscamente:

- A luva tem uma tala; estorva-me quando estou a fazer trabalhos que requerem preciso. - Sem a luva, a mo esquerda fechava-se, com o dedo mnimo e o anelar encaracolando-se contra a palma da mo. Mas ela reparou que, se ele quisesse, conseguia manter os dedos estendidos. A luva era ento um complemento teraputico. Sem ela, no entanto, a afinao andou mais depressa e, passada aproximadamente uma hora, Simon deu-se por satisfeito e fechou o instrumento.

- Esse cravo  muito antigo? - perguntou ela. Ele abanou a cabea. O cravo tinha cerca de metade do tamanho do piano, com dois teclados assimtricos, um por cima do outro. O corpo do instrumento era feito de uma madeira macia e brilhante, muito polida.

- Este foi construdo nos primeiros anos deste sculo disse ele -, na ustria, segundo penso. No  muito valioso, para um cravo. Mas tem um som muito agradvel. - Puxou o banco do piano para junto do cravo, sentou-se e comeou a tocar um minuete de Mozart.

- Parece-me que a Emily vem a - disse Leslie e ele parou e foi para junto da janela. Foi ento que Leslie viu a crispao que j testemunhara numa outra ocasio tomar conta do rosto dele; seria raiva ou uma dor insuportvel? Ele estava a observar Emily a sair da carrinha velha de Frodo e a despedir-se do rapaz

com um abrao descontrado. Mas quando Emily correu pelos degraus acima ela pensou que fora imaginao sua.

- Leslie? - chamou Emily, mas foi Simon quem respondeu.
- Estamos aqui, Emily; tenho uma surpresa para ti. Entrou pela porta e o rosto dela iluminou-se, como se o Sol tivesse nascido por trs dos seus olhos. Suspendeu a respirao, extasiada.

- Oh... oh, doutor Anstey... oh, Simon!

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Ele parece contente por estar aqui - disse Simon gravemente. - Espero que gostes de o tocar. E estou certo de que a

Alison ficaria satisfeita por ver este cravo no seu antigo lugar, onde eu tomei a liberdade de o colocar.

- Oh... - Emily estava sem la; limitou-se a ficar ali de p, com uma expresso de xtase.

- Queres experiment-lo? Ela respirou fundo, indo para junto do instrumento e depois olhou para os dedos sujos de terra.

- Deixem-me ir lavar as mos num instante; estive com o Frodo a trabalhar no jardim dele. - Correu para a cozinha e Leslie ouviu a gua a correr.

Simon disse baixinho:
- Valeu a pena, para ver a expresso dela.  uma rapariga adorvel. Ilumina-se por dentro.  isso, e no a capacidade tcnica, que distingue o verdadeiro artista.

Emily voltou, com as mos imaculadamente limpas, num

contraste curioso com as calas de ganga enxovalhadas e a camisola amarrotada. Leslie pensou, distraidamente, que nunca vira antes a Emily com um aspecto desarranjado. Estaria o Frodo a ensin-la a ser mais descontrada, menos rigorosa? Ela olhou para o cravo e soltou um suspiro de felicidade pura.

Depois sentou-se em frente ao teclado e disse alegremente:
- Eu sabia que devia haver uma razo qualquer para ter que aturar as aulas do Tio Whitty! Se no tivesse ido s aulas dele no saberia nenhuma pea do Rameau ou do Scarlatti!

Simon estremeceu de riso.
- Oh, meu Deus, ento os jovens ainda lhe chamam isso? Acho que fui eu quem inventou essa alcunha para o doutor Whittington - pobre homem, tem o melhor corao do mundo, mas deixa-se levar pelos seus entusiasmos.

- Ai se deixa! - concordou Emily.
- Conheces o Rappel de Oiseaux'do Rameau, Emily?
- Cresci a ouvir o seu disco dessa pea.'Estudei-a quando ainda estava em Sacramento.

- Mas o tom  muito diferente do piano - avisou-a ele.
- No deves tratar o cravo como se fosse um piano. O toque  totalmente diferente.

Ela assentiu, muito sria, e comeou a tocar. Leslie ficou imvel, enfeitiada pela delicadeza da msica; era uma nova

1 Em francs no original. (N. da T)

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Emily que ela ouvia, como se o instrumento emprestasse a sua musicalidade ao dom natural dela. O toque ainda era exploratrio, cauteloso, como se ela e o cravo se estivessem a medir mutuamente. Mas o instrumento adequava-se  preciso meticulosa das mos de Emily, combinando a perfeio delicada do bailado que ela amara e a msica do sculo dezoito, o mais hbil e preciso dos sculos em termos musicais.

Quando parou, olhando para ele com insegurana, ele disse:
- Emily, acho que tens um dom natural para o cravo. Diz-me, o que  que pensas fazer este Vero enquanto o Agrowsky estiver na Sua?

Emily suspirou.
- No sei o que fazer. Eu sei que ele merece uma pausa, umas fri,as. Mas detesto perder terreno desta maneira.

- E evidente que no podes interromper os teus estudos
- disse Simon decididamente. - Enquanto o Agrowsky estiver no estrangeiro eu dou-te lies. Quando ele regressar... bem, veremos.

Olhou para ele, espantada e deliciada. Ele deu-lhe uma palmadinha na face.

- Toca mais Bach. Toca Bach o mais que puderes; ensinar-te- mais sobre o cravo do que eu alguma vez te poderei ensinar.

Emily foi at ao piano e trouxe um livro com sonatas de Bach. Sentou-se imediatamente e comeou a tocar. Simon escutou durante algum tempo e depois ps a mo no ombro de Leslie.

- Acho que somos suprfluos - murmurou -, e eu nunca interfiro num romance apaixonado. Acho que a rapariga se apaixonou. Vamos? - Conduziu-a para o trio.

- Suspeito que ningum a vai ver durante quatro ou cinco horas - disse ele com um sorriso divertido. - Quer ir jantar comigo, Leslie? Tenho um ensaio com a orquestra esta noite; gostava de vir assistir ao ensaio? Ou... - hesitou. - No sei; tenho estado a partir do princpio que partilha com a sua irm o amor pela msica...

- Como  que me pode fazer essa pergunta, Simon? Adorava. Mas... - hesitou - a Emily gostaria tanto de ir..

Ele riu-se, com a mo quente ainda apoiada no ombro dela.
- A Emily  uma criana adorvel. Mas h alturas em que sinto necessidade de uma companhia mais adulta. Quer dar-me essa honra, Leslie?

Era a primeira vez que ele pronunciava o nome dela. Sorriu-lhe.

A HERDEIRA                           189

Deixe ento que v mudar-me num instante para uma

roupa mais adequada...

- Est perfeitamente assim - disse ele -, mas eu sei que as mulheres gostam de aproveitar as oportunidades para se porem todas bonitas. V pr-se bela, se acha necessrio, que eu escrevo

um bilhete  Emily.

Leslie apercebeu-se, enquanto se vestia, de que comeara a pensar se o interesse dele em Emily no seria, afinal, um interesse pessoal. No seria a primeira vez que um homem famoso e maduro, bem parecido e viril, transportando consigo o brilho da ribalta, cativava uma rapariga muito jovem. Tanto Stokowsky como Balanchine tinham tido essa reputao, no s de cortejarem como de - repetidamente - se casarem com

rapariguinhas. Com aquele convite ele acabara tambm com essa suspeita.

Quando desceu ele estava com o telefone na mo; j vestira

o casaco e calara a luva preta.

- Tomei a liberdade de usar o seu telefone para fazer uma

reserva. A Emily nem sequer ergueu os olhos quando eu me

esgueirei para ir buscar o casaco e a luva; est a tocar Bach como se tivesse sido ela a invent-lo. - Incitou-a a dirigir-se  porta.

- A nossa reserva  para as seis.  cedo para jantar, mas

tenho que estar na pera s sete e meia. Espero que goste do Mark Hopkins.

- Nunca l fui - confessou ela. A nica coisa que sabia desse restaurante era que era fabulosamente caro.

- Ento vai ser um prazer apresent-la ao Top of the Mark; um dos locais mais belos desta bela cidade. - Ofereceu-lhe o brao.

O carro cinzento era um Mercedes. Leslie sentiu-se uma princesa quando ele a ajudou a entrar no carro. Pensou: Ento ele deve ser mesmo fantasticamente rico e lembrou-se de que ele mencionara a participao em filmes. No entanto no era um homem confinado a esse mundo; ela j o vira em mangas de camisa a cortar pepinos na bancada da cozinha e de joelhos no

cho a afinar um cravo. Era um homem que conhecia o mundo em que vivia e que sabia como trabalhar no duro, com as prprias mos. E aquilo f-la pensar na luva que lhe cobria a mo. Olhou para ela de relance, sabendo agora o que ocultava. E, mais tarde nessa noite, quando riam juntos a olhar para as luzes da cidade, da sala alta do Top of the Mark, viu-o apertar qualquer coisa que tinha no bolso do casaco. Percebeu que ele pensava que ela no

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tinha reparado. Seria novamente uma terapia para a mo aleijada? Apercebeu-se da sua determinao feroz e admirou-o por isso.

Tiveram que se apressar um pouco para chegar a horas ao ensaio; ele disse que no podia fazer esperar a orquestra. Arranjou-lhe um lugar e depois ela percebeu que ele se esquecera da sua presena.

Ficou a ver Simon fazendo a msica aparecer dos instrumentos amontoados na sua frente apenas com a batuta, interrompendo-os uma e outra vez com a sua voz de ao:

- Muito obrigado; isso est tudo mal. Poderei pedir mais definio aos violinos, se fizerem o favor? O som est empapado. Mr. Andrews, recomece a partir do solo da viola... - `medida que a noite ia avanando, a voz dele foi endurecendo, mas a sua cortesia meticulosa nunca vacilou, ela sentiu que aquela cortesia devia ser mais difcil de suportar do que os insultos mais horrendos. O que  que a Emily lhe chamara... um perfeito terror? Era mais do que isso!

Mas se exigia muito dos seus msicos, exigia ainda mais de si prprio. Quando finalmente lhes agradeceu e os mandou embora, ela viu que o suor lhe empapara o casaco e que o cabelo estava encharcado. Enquanto iam saindo e um ou dois dos msicos parava para trocar algumas palavras com ele - agora estava todo cheio de amabilidade, sorrindo e apertando mos -,

ergueu os olhos e viu Leslie. O olhar dele dizia claramente: "Samos daqui dentro em pouco." E, absurdamente, ela sentiu o

pulso acelerar.

Por fim ele veio ter com ela, sorrindo, e soltando um grande suspiro.

- Deve estar terrivelmente cansado, Simon!
- No, estou... excitado; esfuziante - disse ele. - Levo imenso tempo a acalmar-me depois deste tipo de coisas. - Passou os dedos pelo cabelo hmido. - Podemos ir beber um copo a um stio qualquer, se quiser; mas como pode ver... eu devia ir a casa e tomar um duche! - Riu-se. - Quer vir comigo e esperar que eu tome banho? Dou-lhe um copo de um Liebfraumilch muito bom e pode ir bebericando enquanto eu me lavo do ensaio! E depois... quem sabe? - Encontrou os olhos dela e Leslie percebeu, imediatamente, aquilo que ele lhe estava a perguntar. Depois ele acrescentou gravemente: - Ou, se preferir, podemos beber um caf irlands num stio qualquer e eu levo-a a casa com um casto beijo de boas-noites.

Ela percebeu que estava a ser transportada pelo mesmo tipo

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de excitao em que ele estava envolto e no se importou com isso. Riu-se e disse:

-  Vou consigo.
O olho dele iluminou-se e ps-lhe uma mo ansiosa e exigente no brao, enquanto a conduzia rapidamente para o carro. Comeara a chuviscar; sem ligar aos protestos dela, tirou o casaco e ps-lho por cima da cabea enquanto atravessavam a correr a

Avenida Van Ness em direco ao parque de estacionamento.

Mas quando se curvou para abrir a porta do carro do lado dela parou subitamente e ficou dobrado em dois; ela viu a cara dele estremecer e mais uma vez os tendes do seu pescoo ficarem salientes como cordas. Podia ver o suor frio que lhe banhava a testa.

- Simon... - disse ela baixinho.
- Est tudo bem. No ligue. Eu daqui a pouco j estou bem - confessou ele por entre os dentes cerrados e depois, com

aquela forma que tinha de mostrar a sua vul nerabi 1 idade, a mo enluvada de negro atirou-lhe as chaves do carro.

- No se importa de conduzir, Leslie? - Ela ouviu-o respirar fundo. Agarrou nas chaves e destrancou o carro, sentando-se atrs do volante.

- Indique-me o caminho.

Ele tinha um apartamento de cinco divises num edifcio alto nos Twin Peaks. O espasmo tinha desaparecido muito antes de terem chegado e ele recuperara a boa disposio. Atirou as

chaves ao empregado da garagem, o do turno da noite, para que arrumasse o carro e conduziu-a cerimoniosamente ao elevador que ps a funcionar, no com uma chave, mas com um pequeno carto informtico.

A sala principal do apartamento estava decorada em tons de preto e branco, com uma elegncia austera. Um piano de cauda enorme e um cravo um pouco maior do que aquele que emprestara a Emily e uma mesa de apoio, em vidro. Atravs de um arco vislumbrou uma cozinha moderna, com brilhantes superfcies cromadas e de ao inoxidvel e vidro. Ele trouxe-lhe o vinho num copo de cristal sueco.

- Vou tomar duche. J venho ter consigo. - Mas demorou-se uns instantes e depois curvou-se, erguendo-lhe o rosto e cobrindo-lhe a boca com a sua. O beijo pareceu-lhe quente e

febril; passados instantes afastou-se.
- Agora no. Mais tarde.

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Leslie bebericou o vinho, que era to macio e suave que ela percebeu que no era suficientemente entendida para o qualificar. S sabia que nunca tinha provado nada igual.

Ouviu a gua a correr e percebeu que ele deixara as portas que havia entre eles abertas para que ela,ouvisse a gua e imaginasse o corpo nu dele, rijo, seco e viril, sob a gua quente e o

vapor. Apercebeu-se da inteno dele com o mesmo tipo de certeza que sentira quando descobrira o paradeiro do filho defunto de ChIoe Demarest. Permitiu-se apreciar totalmente aquela viso. Porque no? Era uma mulher adulta, que estava ali por escolha prpria e devido a um desejo muito consciente.

Foi at janela, olhando para as luzes da cidade que se estendiam catorze andares mais abaixo. O contraste com a sua casa era total; a sua casa transmitia toda a graciosidade do passado, este apartamento reflectia a vanguarda, o futuro. Entre ambos os locais a harmonia era perfeita.

Numa estante slida, de uma madeira clara, alinhavam-se livros volumosos; aproximou-se para os examinar. O Grande Livro da Arte Mgica. Um volume com o ttulo Magia e Vontade. Ela ergueu as sobrancelhas. Seria mais uma das estranhas coincidncias que pareciam rode-la? Em que  que ela se estaria a meter? Agarrado s capas dos livros havia um odor fraco, amargo e quase familiar; passados instantes reconheceu ser aquele o

odor do incenso fantasma que ela j sentira nas escadas de sua casa. A aspereza pungente do cheiro irritou-lhe o nariz. Havia tambm um livro com letras latinas escritas de uma forma to excntrica que ela no as conseguiu decifrar. Mas, apesar de tudo, havia naquele livro qualquer coisa de familiar: uma estranha estrela com o entrelaado a formar cinco pontas, idntica quela que Claire tinha usado, na livraria, pendurada numa corrente em volta do pescoo.

A gua do duche parara de correr. Simon, nu da cintura para cima, entrou na sala e, aproximando-se, pegou no copo que ela deixara em cima da mesa. Deu um golo no vinho e depois beijou-a; a boca dele sabia ao mesmo frutado do vinho.

- Vi-te a olhar para os meus livros - disse ele parando de a beijar -, e agora vais pensar que eu me dedico  magia negra?

- No fao ideia do que isso possa significar, Simon. Ele sorriu ferozmente e disse:
- A magia  como a msica:  a arte da vontade treinada.  como o facto de tu seres uma psicloga formada;  um outro nome para a mesma coisa, Leslie. Aprendi h muito tempo a arte

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de me envolver, de estruturar a minha vida por forma a que tudo  minha volta apoie a vontade treinada. Reparaste que, ao jantar, eu no tomei um aperitivo.

Era verdade; ele no bebera nada, embora a tivesse encoraJado a beber um se lhe apetecesse. _  Nunca bebo bebidas fortes. O vinho  diferente;  a

mais refinada essncia dos frutos da terra e a sua aura purifica e sensibiliza.  tambm por essa razo que sou vegetariano; no  devido a nenhum amor sentimental pelos animais, nem por nenhum sentido tico exagerado, mas porque a carne vermelha embota os sentidos e, como msico, tenho que me manter receptivo s pequenas vibraes do Universo. E, neste momento... moveu deliberadamente a mo enluvada - tenho uma utilidade para a minha vontade. No existem limites para aquilo que uma vontade treinada pode conseguir. At mesmo os behavioristas, to mundanos, comearam a provar isso a si prprios com a ajuda idiota das mquinas de biofeedback? e coisas do gnero. A medicina j fez por mim tudo o que poderia fazer - acrescentou. O resto conseguirei obter com o meu esprito... e a minha vontade.

- Amri - disse ela baixinho. Quase no conseguia imaginar o significado que devia ter tido para Simon ver a sua carreira como concertista desfeita daquela forma violenta. Sabia de casos em que a vontade de viver fizera a diferena entre a vida e a morte. Quem era ela para dizer que a vontade no poderia conseguir um milagre semelhante, devolvendo uma mo s suas funes?

- Mas por agora tenho outro tipo de coisa na ideia - afirmou Simon, baixinho, curvando-se para beijar a nuca dela e passando o brao em torno da sua cintura. - Se for da tua vontade como  da minha...

Ela assentiu. Ele murmurou:
- Traz o vinho. Vamos beb-lo juntos. Depois. - E conduziu-a para o quarto. A decorao do quarto era to austera como a da sala, com uma nica diferena: num canto,junto janela, estava uma mesa preparada como se fosse um altar, com uma nica luz, brilhando vermelha num castial.

- Queres tomar duche primeiro? Est um roupo pendurado na porta que podes usar - disse ele abraando-a, dando-lhe um

1 Tcnica utilizada para ensinar o controlo de funes autnomas, tais como os batimentos cardacos ou a respirao. (N. da T)

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beijo longo e depois lbertando-a. - No h pressa. O sexo nunca

deve ser encarado levianamente, Leslie. O acto de unio de um homem e de uma mulher, no importa quo descuidado, casual ou at mesmo comercial, cria um... como  que hei-de dizer isto? Vivendo na casa de Alison sei que me compreendes a um

certo nvel, mesmo que no percebas conscientemente aquilo que quero dizer - cria-se um turbilho fsico, um lao especial. Algumas pessoas riem-se disso, razo pela qual eu escolho as mulheres com o mesmo cuidado com que um violinista escolhe o seu instrumento. Vais rir-te de mim, Leslie? Se tudo isto te parecer absurdo - e o olho dele brilhou ferozmente -, ento podemos beber mais um copo de vinho e eu levo-te a casa.

Ela sentiu que ele traduzira em palavras algo que h muito tempo lhe pairava no esprito. Houve uma outra ideia que lhe ocorreu repentinamente, mas que ela no lhe comunicou; isto era

aquilo de que ela necessitava para quebrar o lao indesejado com Joel: criar um lao com outro homem...

Foi para o duche. Por um instante, quando ele disse que havia um roupo que ela podia usar, pensou: Seria ele um

daqueles homens libidinosos que recebiam mulheres tofrequentemente que tinham todo o tipo de coisas que podiam ser teis s mulheres que aparecessem? Mas o roupo era, evidentemente, um dos dele, um quimono japons com um padro masculino, demasiado grande para qualquer mulher, dobrado em cima de um banco junto ao chuveiro. Deu por si com pensamentos curiosos a percorrem-lhe o esprito enquanto a gua quente lhe corria pelo corpo, era como se estivesse a lavar o toque e a memria de Joel do seu corpo e do seu esprito, como se estivesse a cumprir um ritual de preparao para ele. Mas, no ltimo momento, no quis submeter-se a esse sinal de posse: o roupo de Simon. Enrolou-se numa das toalhas espessas e enormes que a cobria dos ombros at aos joelhos.

Simon estava  espera dela, nu, com as costas voltadas para a porta; estava acocorado em frente do altar mas ps-se de p quando ela entrou. Reconheceu o odor que pairava no quarto; um odor limpo e amargo, seco, no exactamente o que ela consideraria um cheiro sensual. Ele virou-se para ela e estendeu-lhe os braos.

Ela era imensamente forte. Ergueu-a em peso e estendeu-a na cama, afastando a toalha e debruando-se sobre ela. Desenhou um smbolo, com a mo direita, na sua barriga e parecia que uma luz elctrica e azul desenhava os contornos dos seus movimen-

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tos; ela quase que podia sentir a electricidade crepitar entre os dois quando ele aproximou a boca para lhe beijar os seios e a barriga e lhe passou a lngua pela extremidade da pbis. Depois, soltando uma risada rouca, ele sentou-se em cima dela puxando-a para si com toda a fora. Imagens confusas de um Deus erecto turbilhonaram no esprito dela enquanto se erguia arrebatadamente ao seu encontro e, mais uma vez, foi como se explodissem relmpagos em torno deles quando ele a penetrou.

No altar, por trs deles, a chama vermelha da vela ergueu-se no ar a mais de um metro de altura e, silenciosamente, regressou  dimenso normal. Mas nenhum deles deu por isso.

Captulo treze

O chuveiro estava a correr na casa de banho de Emily quando Leslie subiu as escadas, devagarinho. O cheiro do incenso fantasma pairava novamente nas escadas - ou seria o cheiro do incenso de Simon que lhe ficara agarrado ao cabelo? Quando estava a abrir a porta do quarto, Emily apareceu no patamar.

- Leslie, encontrei uma coisa engraadssima no meu

quarto e na minha casa de banho tambm. Anda ver.

S havia uma janela pequena na casa de banho, que ficava bastante alta. Emily apontou, em silncio. Por baixo do parapeito, profundamente gravada na madeira com um instrumento pontiagudo, como por exemplo um prego, estava o smbolo do pentagrama:

Vira aquele smbolo no altar de Simon e tambm num dos livros dele. E a Claire da livraria usara aquele smbolo pendurado ao pescoo. Emily levou-a at ao quarto. Por baixo da clarabia, ao fundo do quarto, estava outro daqueles smbolos; mas por baixo da janela de vidraa, que estava aberta, fora feita uma tentativa de apagar outro smbolo igual.

No trio do andar de cima, por baixo da janelinha que havia na parede, o mesmo smbolo estava desenhado, a lpis de cor, no papel de parede e, no terceiro quarto, que elas tinham destinado para quarto de hspedes, tambm havia um dos smbolos. Em qualquer uma das divises tinha havido a tentativa de tornar as mar-

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cas quase invisveis e tinham sido inscritas em locais onde dificilmente seriam descobertas. Tomadas de verdadeira curiosidade, procuraram por toda a casa. Em cada uma das portas que conduzia ao exterior, mesmo sobre a escada que dava acesso ao sto (dobrada na reentrncia onde ficava guardada) estava desenhada aquela marca; e o mesmo acontecia por baixo do parapeito de cada janela. Uma vez encontrada a primeira, as outras eram fceis de encontrar.

- Mas quem as ter desenhado e porqu? - perguntou Emily quando finalmente se sentou para tomar o pequeno almoo, composto por iogurte misturado com grmen de trigo; Leslie olhou para aquela mistela e estremeceu. Poderia ter ficado a tomar o pequeno almoo com Simon, mas tinha que dar uma

consulta naquela manh a um novo cliente que telefonara para marcar uma entrevista. Leslie no sabia qual era o seu problema. Estava certa de que os pequenos almoos de Simon deviam ser

qualquer coisa de luxuosos, para alm do que era imaginvel. Pensou que facilmente poderia ficar estragada com o tipo de vida que Simon podia proporcionar s pessoas a quem se associava. Por outro lado, deveria ser capaz de manter a perspectiva e no se deixar arrebatar pela generosidade e prodigalidade; ele podia fazer presente de um cravo que s Deus saberia quanto valia e

dizer que era um emprstimo a longo prazo, sentindo o mesmo

tipo de privao que ela sentiria se emprestasse uma toalha a um

dos seus clientes. Ps o caf a fazer e sentou-se  mesa da cozinha, sorrindo para si prpria.

- Ele  bom? - perguntou Emily.
- O qu?
- O Simon. E bom na cama? - Quando Leslie lhe dirigiu um olhar chocado ela disse: - Bem, saste com ele e chegaste a

casa s sete e meia da manh e no me parece que tenhas passado a noite no Monte Tam  procura de OVNIS. Portanto o que  que tu achas que eu penso?

Leslie disse, chocada:
- Eu no te fiz qualquer pergunta acerca do Frodo, ou fiz? Emily desviou os olhos da irm.
- Oh, o Frodo  um querido. Mas acho que ainda no me

decidi,  tudo.

- No h pressa - disse Leslie.        uma boa ideia esperar at se ter a certeza. No te deixares levar precipitadamente a

tomar uma deciso.

- O Frodo no  o tipo de pessoa que pressione ningum a

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tomar decises precipitadas - disse Emily com um sorriso meigo.
- Eu gosto imenso dele, Leslie. Mas quero ter a certeza de me querer envolver assim tanto com algum. Que idade  que tu tinhas, Les? Como  que soubeste que era a pessoa certa?

Leslie suspirou.
- Dezasseis anos e meio - disse -, e j na altura eu sabia que no era a pessoa certa. Foi s uma coisa que eu achei que tinha que fazer. Um acto de... bem, de rebelio, suponho. Estava farta de ouvir toda a gente a fazer daquilo um bicho de sete cabeas. Queria acabar com aquilo.

- Ento acabaste por ficar satisfeita por - como  que disseste - ter acabado com aquilo?

Leslie abanou a cabea.
- No - disse. - Ainda hoje no estou satisfeita. Acho que deveria ter tido mais significado do que isso. Desde ento tenho sido esquisitssima nas minhas escolhas. E, se no te importas, acho que j chega de discusso da minha vida amorosa.

Emily passou com um dedo impaciente por cima do pentagrama desenhado por baixo da janela que ficava mesmo por cima da mesa onde estavam sentadas. Disse outra vez:

- Quem ser que ps estas coisas aqui? E para qu? Achas que pergunte ao Frodo o que  que significam?

Leslie disse, olhando fixamente para o smbolo:
- Se calhar j a esto desde que a Alison Margrave aqui viveu. Ou ento desde a altura daquela senhora maluca que achava que a casa estava assombrada. Carmody? Eles esto metidos nessas coisas do Oculto. E a Alison Margrave escreveu um livro sobre poltergeist. Devia ir  livraria busc-lo e tambm o livro que o Frodo disse que me arranjava.

- Ele vai l estar esta tarde - confirmou Emily. Olhou para o relgio e deu um grito.

- Ai! Vou chegar atrasada! Pensa s, depois de hoje nunca mais vou ter que ouvir o Tio Whitty a discursar acerca do barroco como se essa fosse a nica msica inventada por Deus e tudo o resto tivesse sido obra do Diabo! - Um minuto depois a porta bateu.

O telefone tocou. Era o servio de atendimento de chamadas.
- Doutora Barnes, por favor telefone ao pai da Eileen Grantson. Ele telefonou s oito e vinte e dois desta manh.

Leslie foi ao escritrio e procurou o nmero de East Bay. Passado algum tempo a voz de Donald Grantson ouviu-se do outro lado da linha.

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Aqui Leslie Bames - disse Leslie. - Aconteceu alguma coisa? A Eileen est doente?

- Eu no lhe chamaria isso - respondeu o homem num tom aflito. - As coisas andaram bastante calmas por aqui durante um par de semanas, desde que a Eileen comeou a tratar-se consigo, doutora Bames. Mas subitamente parece que o inferno se instalou nesta casa. E eu pensei que devia telefonar-lhe para ver

se me sabia dizer que raio  que se passa!

- Mr. Grantson, pensei que lhe tinha dito, quando a Eileen comeou a tratar-se comigo, que no poderia discutir os progressos da terapia dela consigo. As sesses dela so confidenciais. Se quiser marcar uma sesso conjunta, para poderem falar os dois na minha presena, para tentarem comunicar..

- Quero que a comunicao se dane - gritou o homem.
- Eu quero evitar que a rapariga parta a casa toda! No h um prato inteiro nesta casa. Tive que sair para ir comprar copos de papel! Deu um pontap no ecr da televiso que lhe abriu um buraco e negou que o fizera!

- Ela aleijou-se? - perguntou Leslie rapidamente. No acreditava, pura e simplesmente, que Eileen pudesse ter dado um pontap na televiso sem ter acabado no hospital.

- Raios, no, ficou imvel no meio dos vidros que voavam por todo o lado e disse que no tivera nada a ver com aquilo.
- Donald Grantson estava quase aos gritos. - Piorou desde que comeou a tratar-se consigo e eu quero saber o que tenciona fazer a esse respeito!

Oh, meu Deus, pensou Leslie. Recordava-se vagamente, das poucas leituras que fizera sobre o assunto, que o poltergeist por vezes recomeava, com uma violncia ainda maior, depois de uma pausa. Fora uma idiota, ou ento estivera to preocupada com

* seu prprio poltergeist, que quando o de Eileen acalmara, tivera
* comportamento tpico das avestruzes, escondera a cabea na areia.

- Mr. Grantson, escute - disse ela calmamente -, tenho razes para acreditar que a sua filha est a sofrer, provavelmente, um fenmeno depoltergeist...

- Deus Todo-poderoso - disse ele com repugnncia. Eu vi esse filme na sesso da noite! Se est a tentar convencer-me.

- No, no - replicou ela rapidamente, amaldioando veementemente Steven Spielberg e todos os outros realizadores de filmes de terror. Depois ouviu-o dizer:

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Escute, ns nem sequer somos catlicos, mas conheo um padre, acha que isso poderia ajudar...

-   No, nada disso. Mr. Grantson, no faa nada por enquanto. Mande a Eileen ter comigo s... - consultou rapidamente a agenda - quatro da tarde de hoje, depois da escola. Pode vir com ela se quiser, mas desta vez eu acho que preferia falar com ela a ss. E por favor no entre em pnico. Estes fenmenos no so to raros como poder pensar e so quase sempre efrneros; em geral desaparecem por si prprios. - A no ser que ela comece a atearfogos. Mas isso  muito pouco comum. Leslie rezou para que no chegassem a esse ponto.

- Isso  fcil de dizer - respondeu Grantson em tom magoado e Leslie no o podia censurar por isso. - Mas eu estou aqui no meio destes vidros partidos todos que vou ter que lim@,? par, e a empregada despediu-se, e agora o que  que eu vou fazer? Disse  Eileen que ia ter que fazer os trabalhos da casa durante algum tempo e que teria que limpar as porcarias que fazia! Eu nunca lhe bati, mas raios, apetece-me pr-lhe o rabo roxo de pancada!

- Isso seria muito insensato - disse Leslie no tom mais severo que conseguiu. - Compreendo como deve estar zangado, Mr. Grantson mas, acredite-me, usar violncia fsica com a Eileen no  a soluo. Ela no est a fazer isto de propsito. Se pudesse arranjar outra empregada, uma que no seja to hostil em relao  Eileen, que no a faa sentir-se ameaada... a sua empregada, segundo percebi, no foi simptica com a Eileen e a rapariga...

- No  para isso que eu pago s empregadas - protestou Grantson. - Pago-lhes para limparem a casa e para cozinharem!

- Bem, o facto de a Eileen se sentir infeliz em casa deve-se, em parte,  relao hostil que tinha com a empregada - disse Leslie. - Vou falar com a Eileen e vou tentar marcar uma sesso com vocs os dois para que possam discutir os vossos problemas.

- Eu no quero discutir os problemas dela - ripostou o homem muito zangado, imitando o tom de Leslie. - Quero que ela pare de fazer esta casa parecer o inferno na terra e quero que a senhora a endireite.  para isso que eu lhe pago a si.

-   Penso que  melhor termos uma reunio para discutir os objectivos da terapia dela - disse Leslie friamente. - Se esta  a sua atitude erri relao a Eileen, talvez seja melhor considerar a hiptese de a mandar para um bom colgio interno; no sair muito mais caro do que uma terapia longa.

A HERDEIRA                           201

Fez-se um silncio chocado do outro lado da linha. Depois Grantson disse lentamente:

- Hei, escute, doutora Barnes, percebeu-me mal. Eu no me quero ver livre da mida. Pensa que isto tudo se deve ao facto de a empregada ser m para ela e ela achar que a culpa  minha? No  muito fcil viver comigo e desde que a Ruthie me deixou sei que me tenho comportado como um animal ferido, vou para o

trabalho, venho para casa, grito com a mida, como e durmo.  certo que a Ruthie no era grande coisa como me, mas acho que a Eileen tem saudades dela. E quando o vidro comea a voar por todos os lados e ela fica ali e mente... A Ruthie era horrivelmente mentirosa e eu no aguento que a Eileen minta e me engane...

- S que ela no est a mentir - disse Leslie. - E isso o que o senhor no compreende. Ela, conscientemente, no tem nada a ver com as coisas partidas.

- De certeza? Meu Deus, isso  assustador - respondeu Donald Grantson e, mais uma vez, Leslie tentou tranquiliz-lo. Quem me dera que algum me tranquilizasse a mim. Parece-me que me estou a meter numa coisa muito para alm das minhas capacidades! Concordou em receber Eileen e marear uma reunio com os dois para mais tarde e desligou.

Mal tinha desligado o telefone, este voltou a tocar.
- Fala Leslie Barnes.
- s demasiado popular, minha querida - disse a voz rouca de Simon ao seu ouvido. - Tenho estado a tentar telefonar mas estava sempre interrompido. Por isso fiquei aqui sentado a

apertar a minha bola teraputica entre os dedos e a desejar que eles te estivessem a acariciar...

Ela sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha mas controlou-se; afinal de contas tinha que trabalhar.

- Um doente metido em sarilhos, Simon.
- Ah, acordei e tinhas desaparecido - disse ele com um suspiro - e perguntei-me se tudo no teria passado de um sonho lindo! Queres provar comigo, esta noite, que no foi sonho nenhum? Acho que a Emily tem a ltima aula do semestre com o Agrowsky hoje, antes de ele ir de frias. Deixas-me raptar-te esta tarde?

- Tenho um cliente - objectou ela e suspirou.
- Mas que infelicidade eu ser um tal modelo de perfeio! Seno podia arranjar maneira de fazer terapia contigo... minha cara doutora Barnes. Estou a sofrer uma solido e dor insuport-

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veis, porque a mulher mais bela e mais fascinante de So Francisco... - a voz dele soava apenas ligeiramente jocosa e

transmitia a sinceridade suficiente para a fazer arrepiar-se prefere a companhia dos seus doentes.

- Simon - disse ela com meiguice -, serias capaz de enviar um recado  orquestra a dizer que tinhas decidido no ensaiar mais antes do concerto e que eles estavam por sua conta e risco?

Ele deu uma gargalha, arrependido.
- Bem observado, querida; infelizmente cresci num meio onde se partia do princpio que as mulheres no tinham outra ocupao seno dar prazer aos homens das suas vidas. Talvez, afinal de contas, nos tenhamos visto livres desses tempos. Bem, ento espero que tu e a Emily sejam minhas convidadas no con-? certo e depois, bem, veremos...

Eram as palavras que j antes ele tinha pronunciado e fizeram com que ela sentisse um estremecimento de antecipao por todo o corpo.

Mas depois de desligar o telefone foi para o escritrio e pensou em tudo aquilo durante algum tempo. No tivera qualquer inteno de deixar que isto acontecesse. Num momento de capricho e, dominada pelo esplendor de Simon, deixara-se levar, mas nunca fora sua inteno envolver-se emocionalmente daquela forma. Seria aquilo o que realmente queria, uma relao amorosa sria e no um caso inconsequente para lhe levantar o ego e atenuar a solido depois de ter decidido que o Joel no era homem para ela? Estaria a cometer o mesmo erro impulsivo que cometera aos dezasseis anos, lanando-se de cabea numa

confuso sexual, mal avaliada, sob o efeito de uma presso que no tinha nada a ver com sexo ou afecto?

Talvez, pensou com ironia, esteja enfeitiada. Estaria muito de acordo com tudo o que me tem acontecido desde que me

mudei para esta casa. Pergunto-me o que pensaria a Alison Margrave se soubesse como a minha vida e a vida de Emily se enredaram na do seu protegido?

Na parede,  sua frente, estava pendurado um dos seus tesouros: um prato Wedgwood que pertencera  sua av. Amelia Barnes oferecera a harpa a Emily e o prato Wedgwood a Leslie. Ela sempre tivera grande estima pelo prato, no devido ao seu grande valor, mas porque na infncia gostara muito das pequenas ninfas danantes que ornamentavam a borda do prato contra o fundo azul brilhante. Pendurara-o ali, em lugar de honra, na

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parede do escritrio. Naquele momento, enquanto olhava, o prato estremeceu no suporte e, perante o olhar horrorizado de Leslie, ergueu-se do suporte e planou pela sala. Leslie mergulhou para o apanhar, mas o prato caiu no cho e ali ficou, miraculosamente intacto. Quando Leslie lhe pegou, pareceu-lhe quente e cheio de electricidade. Tinha as mos a tremer de tal forma que quase o deixou cair novamente.

Quando percebeu que no podia confiar nas suas prprias mos, pousou o prato em cima da secretria. Era capaz de ter havido, pensou ela, um pequeno tremor de terra. No; era aquele o tipo de desonestidade intelectual que ela detestava nas outras pessoas. Tal como Eileen Grantson, estava a passar por um novo acesso de actividade do poltergeist, actividade essa que ela pensava ter desaparecido. Porqu?

Dados insuficientes. E nem sequer podia investigar; a cliente estaria  sua porta dentro de poucos minutos. Nem sequer teria tempo de tomar um caf para se acalmar.

Depois de ter passado a manh com os doentes foi  livraria. Sentira-se tentada a esperar por um novo telefonema de Simon. No sabia porqu tinha a forte sensao de que, se ela prpria estava mais envolvida do que fora sua inteno, o mesmo se passava com ele. Antes de ver Simon novamente teria que pensar seriamente sobre si prpria e nas suas motivaes.

No momento em que chegou  porta o seu esprito disciplinado quase se rebelou contra o facto de ir procurar ajuda numa livraria especializada nas cincias do oculto. No entanto fora ali que ela encontrara o nico estudo srio sobre poltergeist. E Emily dissera-lhe que eles tinham desmascarado uma mdium falsa; pelo menos tambm eles prezavam a honestidade. Se, nas palavras do livro sobre poltergeist, o Oculto vinha em busca dela, queria saber alguma coisa sobre o assunto da boca das maiores autoridades que conseguisse encontrar.

Esperara encontrar ali Frodo. Mas no lugar dele estava, a arrumar livros numa prateleira alta, a mulher que vira da primeira vez que ali estivera. E, por trs do balco, estava um homem grisalho de aspecto forte, a ler, que no ergueu imediatamente os olhos do livro que tinha na mo.

Depois olhou para ela, rindo em tom de desculpa.
- Desculpe - disse. - Posso ajud-la? s vezes perco-me. Tenho o hbito de ler todos os livros antes de os vender.

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Devia ter, segundo os clculos dela, a uns sessenta anos, mas transmitia uma impresso de altura e fora e os seus olhos escuros transmitiam tranquilidade. Ela teve a sensao de que, embora levasse tudo e todos a srio, era tambm capaz de se rir de tudo e de todos inclusive de si prprio.

Leslie citou com gravidade "Pergunto-me muitas vezes o que os vinicultores comprarri/Aquilo que vendem  duas vezes

mais precioso". Isso tambm se aplica aos livreiros, acho eu. Estive aqui no outro dia e a Claire? - foi a Rainbow quem me disse o nome dela - disse que me arranjava uns livros sobre poltergeist...

O velhote ergueu os olhos e chamou:
- Claire? Creio que deve ser esta a senhora de quem me falaste. - Sorriu-lhe e disse:

Doutora Barnes, no ? Ouvi dizer que se mudou para       ,a

casa que j foi de uma nossa amiga muito querida, a Alison Margrave.

Mais um grande amigo da Alison. Em que  que eu me estou * meter? Claire apareceu do fundo da loja e cumprimentou Leslie com

* cabea, cheia de simpatia. Devia ter, pensou Leslie, uns cinquenta e tal anos; vestida descontraidamente, com o cabelo a ficar branco, tinha mais ou menos a idade da me de Leslie.

- O livro que me indicou sobre poltergeist foi a nica coisa sensata que j li sobre o assunto. Vim c ver se teria mais alguma coisa - disse Leslie.

- Vamos comear com a monografia de Margrave e Anstey - disse Claire -, e depois passamos ao livro da Alison. Ela era uma das maiores especialistas no assunto, sabia? - Leslie no sabia, mas comeava a calcular. N o se sentiu muito surpreendida por ouvir o nome de Simon.

Claire hesitou, parecendo perturbada, quando Leslie tirou a

carteira para pagar os livros. Disse:

- A sua irm veio c  sesso de espiritismo h umas noites atrs; ela disse-lhe?

- Disse-me que tinham desmascarado uma falsa mdium.
O livreiro velhote deu uma grande gargalhada.
- Pois foi. No percebo porque razo a tonta da mulher haveria de nos querer enganar. Deveria saber que no iria resultar. J me conhece h tempo suficiente para saber que eu no

aturo esse tipo de disparates.

- Colin - disse Claire em tom reprovador. - Ela estava

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a implorar ajuda, acho eu. Ela queria que tu - ou pelo menos parte dela queria - que tu a apanhasses, a impedisses de continuar. Provavelmente no devia fazer esta pergunta - disse Claire -, no  da minha conta. Mas espero que o seu interesse em poltergeist no signifique que... - Olhou para o homem a quem chamara Colin com desconforto. - Como  que hei-de dizer isto?

Colin disse calmamente:
- O que a Claire est a tentar dizer  que, em determinada altura, ambos conhecemos bem aquela casa e que, desde que a Alison morreu, tem havido relatos de perturbaes na casa. Eu tinha esperana de que quando a senhora e a sua irm se mudassem para l - uma psicloga e uma msica - acabassem os distrbios. Eu sabia que a Alison no ficaria feliz com pessoas a viver na casa que no partilhassem os interesses dela...

- Mas isso  um absurdo - exclamou Leslie. - No podem acreditar numa coisa dessas! Os mortos "se sobrevivern" porque haveriam de se interessar por aquilo que deixaram para trs?

Claire pareceu perturbada.
- Eu no sei o que lhe diga - respondeu. - No fao ideia nenhuma do que sabe sobre este tipo de coisas.

- Nada - disse Leslie friamente.
- Tenho dificuldade em acreditar nisso - argumentou Claire. - Sobretudo quando sei que a senhora tem o esprito suficientemente aberto para investigar os poltergeist e, perdoe-me doutora Barnes, a minha opinio sobre o Enquirer no  melhor do que a sua, mas devia haver algum fundo de verdade na histria que eles imprimiram.

Leslie sentiu um peso no corao. Ento eles tinham sabido sempre quem ela era e como aquela monstruosidade entrara na sua vida. Mordeu o lbio com fora, sentindo os olhos encherem-se de lgrimas.

Colin disse:
- Claire, ests a ser demasiado dura com ela. Doutora Barnes, por favor, desculpe-nos por esta intromisso imperdovel nos seus assuntos. Ela veio c para comprar livros, Claire, no para receber conselhos que no pediu.

Subitamente, Leslie percebeu que estava a ser tola. Naquela manh rezara para que aparecesse algum capaz de perceber o

que se estava a passar com a sua casa e na sua vida. E, depois, quando as suas preces tinham sido ouvidas, mantinha as pessoas  distncia por se sentir repugnada pelo sensacionalismo com que

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uma revista popular revestira, desnecessariamente, algo que se

Passara na realidade.

Disse:
- Oli, por favor, se puderem ajudar-me com isto... eu estou a chegar aos limites! Estava s a pensar que necessito de toda a ajuda que consegui encontrar!

- Registou-se algum tipo de actividade de poltergeist na casa? - perguntou Claire,

- Entre outras coisas - disse Leslie. - Embora no tenha comeado quando me mudei para esta casa. A primeira vez que aqui vim fi-lo porque uma das minhas doentes adolescentes estava a mostrar sinais de actividade de poltergeist. Nunca soube que... que poderia ir alm disso... - Hesitava entre a confidencialidade devida a um doente e a noo de que estava a ir muito para alm das suas capacidades e de que precisava de consultar um especialista. Colin apercebeu-se disso imediatamente.

- Doutora Barnes, um simples caso de um poltergeist adolescente desaparecer rapidamente; no precisa de se preocupar com isso - disse. - Tenho a certeza de que tanto a criana como a famlia esto a sofrer, mas no  nada de srio. Confie em mim. Por outro lado, quando um adulto se v a braos com esse tipo de fenmeno, habitualmente isso significa que o Oculto o tenta alcanar e a no existe alternativa seno tentar perceber o que se est a passar e porqu. Tanto a Claire como eu estamos empenhados, os dois, em descobrir a verdade no que respeita a estas questes. Servimos a verdade e s a verdade. E se algum de ns a puder ajudar, por favor considere-nos ao seu servio.

- Mas eu nem sei quem vocs so - explodiu ela.
- O meu nome  Colin MacLaren; sou um estudioso destas questes h mais de meio sculo - afirmou ele. - A Alison era minha amiga e minha colega. Esta  a Claire Moffatt, minha assistente j h muitos anos.

Ela olhou constrangida para os livros que tinha na mo. No posso falar convosco agora. Tenho a... rapariga... o poltergeist... na minha casa daqui a uma hora.

Claire disse, pegando nos livros e registando-os na caixa:
- Leve estes livros para casa e leia-os. E, se quiser, posso ir  sua casa hoje  noite e ver o que se passa com a casa.

- A senhora  mdium? - Leslie ouviu a hostilidade na sua voz.

Claire abanou a cabea sem parecer ofendida,
- Ah, no - disse. - No tento intrometer-me na vida

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das pessoas que passaram para o que quer que existe para l desta vida; s me preocupo com os problemas que possam ser causados neste plano. O mais longe que seria definir-me como parapsicloga. Mas tenho alguma experincia. No tenho a certeza de descobrir alguma coisa, mas conheo a casa e podia tentar.

Leslie pegou em dinheiro para pagar os livros. Colin disse, quando ela abriu a carteira:

- Se o custo dos livros  um problema para si, doutora Barnes, pode lev-los para casa, l-]os e devolv-los quando quiser. Ns vendemos livros, mas tambm temos uma poltica firmemente estabelecida segundo a qual ningum dever ficar sem

o benefcio da sua ajuda se no os puder comprar e por isso emprestamos frequentemente livros a pessoas que no os podem pagar. Os livros que l esto fora - acrescentou com uma risada amigvel -, pomo-los l com a esperana de que os roubem; ficamos agradavelmente surpreendidos quando algum entra e

nos d por eles vinte e cinco cntimos.

Leslie riu-se tambm, mas disse que podia perfeitamente pagar os livros e f-lo.

- E se quiser ir at l a casa para ver o que se passa, Claire, ficarei satisfeita. E agradecida. Verdadeiramente.

- Ento est bem; vou l s cinco e meia - disse Claire e Leslie saiu sentindo que afinal talvez tivesse encontrado a ajuda de que precisava. Sentou-se no escritrio e abriu o livro cujos autores eram a mulher que tinha sido a anterior proprietria da sua casa e o homem em cujos braos passara a noite anterior.

Quando o desconhecido e incompreensvel entram pela primeira vez na vida de um homem ou de uma mulher cujo mundo foi sempre regulado pelas leis vulgares do universo material (comeava assim a primeira pgina),

a sua primeira emoo , invariavelmente, a confuso e a consternao. As leis do seu mundo parecem ter sido suspensas; e os mecanismos das suas novas experincias, cuja realidade  inquestionvel, ainda no foram percebidos. O mundo parece subitamente catico, sem relaes visveis entre causa e efeito. No entanto, o novo mundo - como acabaro por descobrir se perseverarem realstica e disciplinadamente na busca da verdade
-  governado por leis to naturais e discernveis como o anterior; pertencem apenas a uma outra ordem de experincias.

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Uma outra ordem de experincias. Leslie soltou um longo suspiro de alvio por aquela avaliao racional do que lhe estava a acontecer e sentou-se para ler atentamente cada uma das palavras da Histria Natural dos Poltergeist antes da chegada de Eileen Grantson.

As coisas estavam a ir to bem durante tantotempo gemeu Eileen. - Estava a divertir-me a sair com o Scotty e na escola as coisas iam bem. E depois este... este... - Estava a soluar alto. - O pap disse que eu tinha dado um pontap na televiso, mas eu no dei, juro que no dei, eu nem estava ao p da televiso, eu estava do outro lado da sala! E depois todas as lmpadas explodiram nos casquilhos e o pap teve que desligar o quadro elctrico para conseguir tirar os restos das lmpadas dos casquilhos...

Leslie perguntou calmamente:
- Algum ficou ferido pelos estilhaos de vidro, Eileen? Ela abanou a cabea.
- Eu tive medo que algum se magoasse, mas ningum se magoou. Mas a velha da Mattison despediu-se, disse que no queria trabalhar num stio onde as pessoas lhe atiravam com coisas para cima e o pap disse que eu tinha que limpar a casa...

- Eu falei com o teu pai, Eileen - interrompeu-a Leslie. Est disposto a vir c para falarmos desse tipo de problemas. Podemos marcar uma sesso para vocs os dois discutirem juntos, conversarem sobre as coisas sensatamente. Mas hoje estive a falar com um homem que sabe imenso sobre poltergeist; ele disse que os poltergeist invariavelmente - invariavelmente, Eileen - se vo embora de motu proprio. E tambm li uma coisa que deves saber, o livro foi escrito por uma mulher que passou a vida a estudar estas coisas; dizia que quando h um ataque to srio como este, depois de uma grande pausa nas actividades do poltergeist que fez com que as pessoas se convencessem de que o problema desaparecera, isso significa uma ltima tentativa desesperada do poltergeist que existe na pessoa, antes daquilo a que eu chamei a parte beb de ti decidir acalmar-se. Portanto a violncia do ataque significa que est prestes a desaparecer. Fazes alguma ideia do que poder ter acontecido, Eileen?

Ela pensou durante alguns instantes.
- Eu estava aborrecida - disse -, porque o pap tinha dito que, claro, eu podia ir visitar a minha me, podia mesmo ir

A HERDEIRA                           209

viver com ela, se quisesse e eu pensei que aquilo queria dizer que ele tambm no me queria. Porque eu pensei naquilo tudo...
- acrescentou num tom envergonhado - ... bem, e depois ela na carta diz que vai ter outro beb e eu pensei... - Engoliu em

seco mas no chorou. - Agora de certeza que ela no me vai querer l muito. Por isso decidi que no a iria visitar at ter a certeza de como me sentia em relao a tudo aquilo, mas tinha feito tal confuso para ir que fiquei com medo de dizer ao pap que afinal no queria ir. Mas parece que aquilo a que chamou a

minha parte beb armou a confuso que eu no quis armar.

- Parece bem que sim - comentou Leslie. Sentia-se interiormente deliciada pela capacidade de anlise de Eileen. Diz-me Eileen, j alguma vez tentaste mover objectos de um

lado para o outro, s com a fora da tua vontade, de propsito?

Lentamente, Eileen assentiu.
- No parava de pensar naquilo que me tinha dito, que isto  algo que me pertence e que deveria ser capaz de controlar isto. Por isso tentei. Naquela noite, quando as coisas j tinham acalmado um bocado. E descobri que era capaz. S que custa muito. Veja.

Apontou para a caixa de lenos de papel que estava em cima da secretria de Leslie. Passados instantes a caixa estremeceu, caiu de lado, deslizou alguns centmetros e parou.

- Ento a questo talvez deva ser posta de outra forma, no se consegues mover objectos com a fora da tua vontade, mas se queres faz-lo. - disse Leslie.

- No quero - afirmou Eileen e Leslie assentiu pegando na Histria Natural dos Poltergeist.

- H uma histria neste livro que fala acerca disso - e leu:
- "Um homem foi ter com uma das grande Encarnaes de Buda e disse: "Passei dez anos a jejuar e a rezar e v, aprendi a atravessar o rio em levitao." E o Buda disse: "Homem idiota, passaste dez anos a aprender a fazer aquilo que qualquer barqueiro teria feito em troca de alguns tostes que poderias ter ganho numas quantas horas de trabalho honesto; e repara que nesses dez anos poderias ter feito muito bem neste mundo a ajudar a aliviar o sofrimento da humanidade."

Eileen ouviu em silncio e depois sorriu.
- Disse que podamos marcar uma sesso para eu vir c com

* meu pap e conversar sobre o que se passou? - perguntou.

E, enquanto Leslie escrevia a hora na agenda, suspeitou que
* poltergeist Grantson tinha feito a sua ltima apario.

Captulo catorze

Claire chegou s cinco e meia e aceitou tomar uma chvena de ch na cozinha reluzente e fez comentrios agradveis aos arranjos que Leslie fizera no jardim.

- Acho que quem merece agradecimentos por esses resultados  o jovem Frodo - disse Leslie. - Ele e a Rainbow tm sido muito simpticos a ajudar a Emly a repor ordem no jardim.

Ela assentiu.
- O Frodo  bom rapaz e, quando for um pouco mais velho, tornar-se-, provavelmente, num dos investigadores. No gosto que os jovens assumam esse tipo de compromisso demasiado cedo, antes de conhecerem as realidades da vida! Evidentemente que existem pessoas que j nasceram velhas. Ou que j nasceram no Caminho e depois no tm escolha; se no sarem em busca do Oculto este vir em busca deles, onde quer que tentem esconder-se.

- Claire, est a dizer que nestas questes no temos livre arbtrio?

- No sei - respondeu Claire cruzando o seu olhar com o de Leslie. - O Colin dar-lhe-ia respostas muito diferentes das minhas a essa questo. Estou convencda de que o nosso livre arbtrio  absoluto. O Coln pensa que temos livre arbtrio mas que este nem sempre cor-responde s nossas escolhas conscientes; que podemos ter tomado certas decises antes desta encarnao e que, mesmo que as circunstncias da nossa vida neste mundo e a educao que recebemos nos desviem do Caminho, somos guiados pela parte mais profunda de ns prprios para regressarmos ao Caminho. Eu no sei. Porque  que no me conta o que fez surgir tudo isto na sua vida?

Aquilo que Ciaire dissera, f-la pensar no que ela prpria tinha dito  Susan Hamilton sobre os objectivos da vida dela com Chrissy. No entanto, antes dessa ocasio, ela nunca acreditara conscientemente na reencarnao. Disse:

A HERDEIRA                            211

- Nem sei por onde comear..
- Pelo princpio - disse Claire suavemente. Mas qual teria sido o princpio? Teria sido quando a Emily nascera e ela dissera  me de ambas, este no  o teu beb,  o meu beb? Ou quando encontrara Juanita Garca morta num canal de rega? Ou quando opoltergeist de Eileen Grantson se manifestara pela primeira vez no seu consultrio ou quando ela prpria - ou

o seu esprito - atirara um copo de vinho, sem que ela tivesse inteno disso,  cara de Joel?

Contou a Claire todos esses episdios e tambm o que acontecera com PhyIlis Anne Chapirian e o seu bolo de anos e os sapatos vermelhos de cabedal; contou a briga que tivera com

Joel e o que acontecera na noite em que o telefone tocara com o auscultador fora do descanso e a campainha da porta retinira apesar de ela ter desligado os fios. E depois parou, pensando se

Ciaire pensaria dela o mesmo que ela prpria pensara de ChIoe Demarest, que era uma idiota supersticiosa.

- Deve ter sido muito assustador - disse Claire.
- Bravo! - respondeu Leslie, numa voz fria. - Tcnica perfeita de terapia no directiva.

Claire riu-se, um tanto envergonhada.
- J fui terapeuta. E aprendi as tcnicas no directivas com a Alison. Ela disse-me que, se no obtivessem resultados positivos com essa tcnica, pelo menos no corria o risco de dar conselhos a quem no mos tinha pedido, como o Colin disse esta manh.

- Que tipo de pessoa era a Alison Margrave? Por tudo o

que ouvi, ela parece ter sido uma santa.

- No era nenhuma santa - disse Claire prontamente. Embora fosse uma das mulheres mais bondosas que j conheci. Se tinha algum defeito, no entanto, era pensar demasiado bem das pessoas de quem gostava. Tinha o temperamento dos msicos, que nem sempre  dos mais calmos, e tinha opinies muito definitivas que no gostava que ningum contradissesse; mas eu gostava muito dela. O que me leva a uma das perguntas que lhe queria fazer. Disse que tinha observado... no sei como lhes chamar.. perturbaes, actividades do tipo poltergeist aqui, nesta casa?

Leslie riu-se, pouco  vontade.
- H uma janela que no se mantm fechada. Nem eu nem a Emily conseguimos mant-la fechada, nem mesmo quando usamos a corrente de segurana. Provavelmente est aberta neste momento. Passa-se qualquer coisa esquisita com a garagem; tanto

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eu como a Emily quase ficmos doentes de depresso nas ocasies em que ali estivemos sozinhas. Mas o escritrio sempre foi um... santurio - disse ela lentamente, s tomando conscincia daquele facto quando pronunciou as palavras. - Ali tudo era sempre perfeitamente pacfico. At esta manh.

- Que aconteceu esta manh? Leslie contou-lhe o que acontecera ao prato Wedgwood.
- Posso ver o escritrio? Quando Leslie se levantava para a levar ao escritrio, Emily entrou a correr.

-   Oh, ol Claire, eu tinha esperana que viesse c a casa! Les, houve alguns telefonemas para mim? Se o Frodo me telefonar dizes-lhe que fui para a casa da Rainbow? Ela pediu-me para tomar conta da Timinie esta noite e disse que eu podia levar o Frodo. No janto c, est bem?

Correu pelas escadas acima e Leslie gritou.
- Como te correu o teste de Histria da Msica?
- Hon--- ivelmente - gritou E"ly -, mas acho que passei. Mas tenho que arranjar maneira de estudar uma ou duas horas.

Claire suspirou quando a porta do quarto de Emily se fechou com estrondo.

- Invejo a energia dela!  a nica coisa que lamento na velhice; costumava trabalhar o dia inteiro e passar a noite na farra e no ligar nenhuma a coisas como a comida e o sono e o descanso. J no consigo fazer esse tipo de coisa.

- E eu comeo a tambm j no ser capaz de fazer essas coisas - confessou Leslie -, e sou bastante mais nova, acho eu.

Conduziu-a ao escritrio. Claire ficou alguns minutos em silncio, como se estivesse  escuta. Olhou para a caixa virada dos lenos de papel e depois para o prato Wedgwood. Perguntou:

- Posso? - e agarrou-o. Tocou-o cuidadosamente com as pontas dos dedos e levou-o brevemente  testa e s tmporas. Depois pousou-o.

- No sinto nada de errado no prato - disse -, e acho que perceberia se existisse a presena de alguma infestao energtica. O escritrio parece-me to pacfico como quando a Alison aqui estava e isso  excelente. Pergunto-me - reflectiu
-, se ela estaria simplesmente a tentar chamar a sua ateno para qualquer coisa...

- Se era isso, conseguiu os seus objectivos - afinnou Leslie com franqueza. - Foi isso que me levou  livraria em busca de

A HERDEIRA                           213

ajuda. Mas custa-me a crer que... - hesitou -, uma mulher morta continue a interessar-se pelo que se passa na minha vida.

-  Isso pode ser porque no compreende a morte - disse Claire -, e, afinal, quem  que compreende? A morte no  uma mudana assim to grande. E a Alison morreu com o seu trabalho por terminar, apesar de ser bastante velha. Quanto atingir o nvel de Alison no Caminho...

- Eu no percebo o que quer dizer com Caminho - disse Leslie irritada.

-  uma forma de descrever a procura da verdade. As pessoas que tm uma abordagem religiosa, que so devotos de Wicca ou esto envolvidos nas Religies dos Mistrios, referem-se muitas vezes a "fazer parte da Arte" em vez de estar no Caminho, mas  a mesma coisa: estar consciente do caminho que todos percorremos de vida para vida em direco a... ao que quer que seja que cada um de ns acredita ser o seu objectivo no Mundo. Eu no sou uma pessoa verdadeiramente religiosa - confessou Claire, e depois emendou. - No, isso no  verdade. Eu sou uma pessoa religiosa. Mas detesto a quantidade enorme de parvoces que as pessoas dizem quando comeam a falar de religio, por isso tento evitar esse tipo de linguagem.

Leslie percebia perfeitamente o que ela queria dizer.
- Disse que tinha havido perturbaes noutras partes da casa... posso ver a tal janela que no permanece fechada?

Por trs da porta fechada da sala de msica, Emily comeara a tocar piano: acordes ressonantes. Em silncio levou Claire pelas escadas acima, mostrando-lhe,  media que subiam, os pentagramas inscritos por cima e por baixo de cada porta e janela. Claire assentiu.

- Fui eu prpria quem instalou os guardies desta casa

disse ela -, quando a Alison foi para o hospital depois de ter tido a primeira trombose. Ela queria ter a certeza de que ningum poderia introduzir-se na ausncia dela. - Curvou-se junto  janela onde algum tinha tentado apagar ou riscar o pentagrama. Pousou os dedos ao de leve em cima do smbolo e encostou brevemente a testa ao parapeito.

- A janela est evidentemente desprotegida - disse mas no tenho a sensao de haver aqui nada de profundamente errado. Quando muito  algo de neutro. Disse qualquer coisa acerca

de um gato?

- Um gato branco. O Frodo disse que era o gato de Alison respondeu Leslie.

214                 MARION ZIMMER BRADLEY

Dei a Alison o primeiro de uma srie de gatos brancos h muitos anos. A minha gata velha teve vrias ninhadas de gatinhos brancos - disse Claire. - Acho que a Alison ficou com o primeiro para o salvar de ser afogado, mas acabou por gostar deles e queria sempre um de cada ninhada; houve uma altura que tinha meia dzia deles, mas arranjou donos para a maioria. E, nas cidades, alguns gatos so mortos ou desaparecem. - Endireitou-se. Traou com os dedos um pentagrama no vidro da janela e depois um outro em torno do pentagrama quase apagado, por baixo do parapeito.

- Posso restabelecer os guardies - disse. - Evidentemente que o que seria ideal era que toda a casa fosse purificada e novamente protegida, e devia ser a Leslie a faz-lo; seria muito mais eficaz assim.

- E isso manteria o gato afastado?
- Se o gato for um gato normal que, por curiosidade, entre pela janela aberta, provavelmente no - disse Claire. - Se for um gato desencarnado, talvez os guardies o possam manter no seu plano de existncia, afastando-o do plano terrestre. No que seja provvel que o esprito de um gato desencarnado faa algum mal a algum, no far pior do que um gato de carne e osso; provavelmente far menos mal ainda, pois um gato desencamado no arranha nem faz porcarias. Proteger uma casa contra o fantasma de um gato parece-me um exagero, a no ser que algum esteja assustado com ele.

Leslie abanou a cabea. Estava um pouco desorientada pelo tom normal com que Claire falava de gatos desencamados.

- Penso que este gato em particular teve um fim violento disse conduzindo Claire ao andar de baixo e passando em frente da porta da sala de msica. Emily estava a tocar a "Troika" da Pictures at an Exhibition de Moussorsky. - Tanto a Emily como eu pensmos ter visto o gato aqui, jazendo no seu prprio sangue; a Emily veio mesmo chamar-me aos gritos, a pedir o estojo dos primeiros socorros, mas o gato j desaparecera e n o havia quaisquer sinais de sangue no cho.

- Bem, se tivesse sido atropelado poderia ter regressado, em esprito, ao local onde se sentira seguro em vida - disse Claire num tom absorto enquanto se aproximava da porta da garagem. -A Betty Carmody insistia que havia algo de horrvel na garagem, mas nunca chegou a pedir-me ajuda. No me parece que a Betty fosse o tipo certo de pessoa para esta casa. Percebe
- acrescentou -, a Alison no formou um sucessor, como deve

A HERDEIRA                          215

fazer toda a gente que percorre o Caminho. Comeara, evidentemente, e depois descobriu que o sucessor que escolhera no merecia a sua confiana. E morreu antes de ter a oportunidade de escolher outro. - Entrou na garagem-estdio e recuou, como se tivesse sido atingida por qualquer coisa no rosto.

- H aqui qualquer coisa de muitssimo errado - confirmou numa voz distante e retrada. - No sei o que . Mas  horrvel... horrvel!

- Tanto a Emily como eu... e o agente da imobiliria e o

meu ex-namorado - disse Leslie -, sentimos um cheiro horrvel; pensmos que talvez os esgotos no estivessem em condies. Ou que o gato tivesse entrado aqui e tivesse feito porcarias.

-  mais grave do que a canalizao - disse Claire. Estava muito plida. - No sei se ser to grave como um elementar terrestre. Mas sinto... dor. E pior do que dor, medo. No, no medo. Terror. - Fez uma careta e saiu rapidamente dali.

- Lamento - disse numa voz fraca -, mas se ficasse ali dentro iria vomitar.

Quando j estavam novamente na cozinha disse:
- Estava a contar-lhe que a Alison tinha morrido sem deixar um sucessor. Na verdade tinha comeado a trein-lo. E depois descobriu que ele comeara a praticar magia negra.

Vieram  memria de Leslie fragmentos de uma conversa que ouvira na livraria, Disse, num tom gelado:

- Estar, por acaso, a referir-se ao doutor Simon Anstey?
- Conhece-o?
- Conheo. Ele tem sido muito gentil comigo e com a Emily - disse Leslie. Claire olhou para ela, perturbada.

- Houve uma altura em que eu prpria gostei muito de Simon - disse. - E quando ele teve o acidente, todos ns rezmos pela sua recuperao; foi uma verdadeira tragdia. Mas nada pode desculpar o facto de uma pessoa se envolver com as artes negras. Na minha opinio, Simon sempre demonstrara demasiado... demasiado interesse e curiosidade pelo Caminho da Mo Esquerda e acabou por se passar para o outro lado...

- Oh, v l, Claire - disse Leslie com incredulidade parece que est a falar do Darth Vader... A Face Negra da Fora! No pode estar a falar a srio!

- Espero que nunca venha a saber o quo a srio eu estou a falar - afirmou Claire. A sua voz era inexpressiva. - De onde  que acha que saiu tudo isso da Face Negra da Fora?  algo de muito real e de muito perigoso. Mesmo que no admita a existn-

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cia da magia, o poder do pensamento  muito real; se os pensamentos positivos podem influenciar a cura e o crescimento das plantas, qual  que acha que ser o efeito dos pensamentos negativos? No me importo de lho dizer: no confio no Simon Anstey. Acredito sinceramente que desde o acidente ele ficou desequilibrado e que  um homem muito perigoso. - Fez-se um longo silncio.

Por fim Leslie disse:
- Lamento, Claire. Eu sei que s quer ajudar. Mas no consigo acreditar naquilo que me est a dizer e no acredito na magia negra. J tenho dificuldade suficiente em acreditar em-foras psquicas, em fantasmas de gatos...

- Talvez a culpa seja minha. Talvez eu tenha andado um... um pouco depressa de mais para si - disse Claire. - Talvez devesse falar com o Colin. Ele na verdade percebe mais destas coisas do que eu.

- No me parece muito leal discutir um homem nas suas costas...

- Eu diria exactamente o mesmo na cara de Simon, como j disse - ripostou Claire. - Escute-me, Leslie. Quero ser sua amiga e no quero influenci-la abusivamente. Mas tenha cuidado. Tenha muita, muita cautela - repetiu. - Simon Anstey  um homem muito perigoso e a Emily  muito jovem e a Leslie  uma novata nestas coisas e muito vulnervel. Tenha cautela ou pode dar por si profundamente envolvida em... em coisas em que no gostaria de se envolver se tivesse conscincia do que estava a fazer.

No concerto de Simon, que teve lugar alguns dias depois da visita de Claire, ele insistiu que Leslie e Emily ocupassem o camarote reservado ao maestro. Pedira-lhes que se lhes juntassem na Sala Verde durante o intervalo, mas em vez disso apareceu no camarote.

- O que  que querem beber? Talvez a Emily gostasse de beber um copo de champanhe? - Sorriu afavelmente. - Acho que j tem idade para isso.

- Na verdade no - disse Emily ingenuamente. - S fao dezoito anos em Agosto.

- Bem, eu no digo nada a ningum se tu no disseres disse ele, sorrindo.

Leslie pensou que no era nada habitual o maestro aparecer nos sales durante o intervalo, mas afinal Simon fazia as suas prprias leis. Ele pareceu ler-lhe os pensamentos.

A HERDEIRA                           217

Como poderia eu negar-me o privilgio de exibir a n-nha talentosa estudante e a mulher mais fascinante de So Francisco nestes corredores elegantes?

Ela pensou, como j antes pensara, que havia algo de europeu nas palavras e nos gestos dele.

Rodeados pelas escadarias de mrmore e pelos lustres dourados, encaminharam-se para o bar, onde havia, em frente ao balco, trs ou quatro filas de homens de smoking, mulheres de vestido de noite e de casaco de peles, apesar de estarem em

Julho. Leslie sentiu que tanto ela como Emily estavam deslocadas com os vestidos simples que envergavam. No entanto o pblico era heterogneo: havia amantes da msica com roupas normais e at uns quantos estudantes de calas de ganga, ou com

roupas coloridas ao estilo hippie, que a fizeram lembrar Frodo. Simon olhou para a multido apinhada junto ao bar e disse:

- Esperem aqui que eu enfrento a turba. Leslie hesitou um pouco, temendo deix-lo enfrentar sozinho aquela gente toda com trs copos de champanhe na mo, mas no conseguiu encontrar forma de protestar sem o humilhar perante Emily. Observou a sua figura alta e elegante desaparecer no meio da multido junto ao bar.

- Oh, olha - disse Emily. - Est ali a Claire Moffatt! No sabia que ela gostava de msica.

Uma frase de um dos livros que Claire lhe sugerira surgiu-lhe no esprito: O que a maioria das pessoas acredita ser coincidncia  resultado de uma relao de causa e efeito operada por influncias to subtis que no so perceptveis seno ao mais elevado dos nveis. Os grandes conhecedores sabem que o acaso

no existe.

Ela no era uma conhecedora, o que quer que isso fosse, mas

sabia que a sua vida estava a comear a ficar envolta nas mais espantosas coincidncias. No acreditava que essas coincidncias fossem destitudas de significado. Cumprimentou Claire e apresentou Emily a Colin MacLaren.

- Mas ns j nos conhecemos - disse ele. - O Frodo levou-te a uma das nossas sesses. Ests a gostar do concerto?

- O Simon  meu professor; estou a estudar com ele durante o Vero, enquanto o doutor Agrowsky est na Sua - disse Emily.

Leslie preparou-se para um comentrio desagradvel por parte de Claire ou de Colin; eles, afinal de contas, eram inimigos de Simon. Mas Colin limitou-se a dizer:

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Sempre pensei que o Simon daria um excelente professor; talvez o acidente que destruiu to tragicamente a sua carreira de concertista tenha sido uma bno disfarada. O Mundo no perdeu um grade pianista, ganhou antes um maestro e professor igualmente excelentes. A carreira de um concertista morre consigo,

mas o professor viver nos seus alunos e o legado dos grandes maestros transforma a msica de geraes inteiras.

Emily disse, indignada:
- Eu, se fosse a si, no diria isso na frente de Simon!
- Eu nunca demonstraria tal falta de tacto - disse Colin

mas como poder algum perceber os objectivos por detrs deste tipo de coisas? No acredito em acidentes csmicos. E o Simon foi o aluno escolhido por Alison Margrave; ele prprio dever ter tanta conscincia disso como a prpria Alison teria.

- L vem o Simon - disse Claire. Dirigiu-se a eles, com trs copos de champanhe num tabuleiro de carto. Ela deveria ter calculado que ele arranjaria uma soluo que lhe permitisse trazer os copos. Viu-o parar momentaneamente e sentiu qualquer coisa mover-se dentro de si. Estaria ele a sofrer outro daqueles espasmos horrveis? Que aconteceria se uma dessas crises o acometesse quando estava a dirigir a orquestra? Ficou chocada ao

aperceber-se de quo rapidamente o seu distanciamento desaparecera.

Depois veio at junto deles, estendeu a mo enluvada que segurava o tabuleiro a Emily e depois a Leslie.

- Uma colheita muito inferior - disse, sorrindo -, mas lquida e fresca. Ol Claire - acrescentou com uma pequena inclinao da cabea que deu, de alguma forma, a iluso de uma vnia. - Colin. J me tinha esquecido de que so amantes de msica. Ou... - a sua expresso ficou dura como ao -, vieram para ver qual a extenso da minha deficincia?

Por qualquer razo inexplicvel, no esprito de Leslie surgiu, subitamente, a imagem de um copo atirado pelos ares; mas

os olhos bondosos de Colin recusaram o desafio. Claire disse, suavemente:

- Fico feliz por te ver a dirigir a orquestra, Simon. Sempre achei que tinhas para isso um dom especial.

- Foi o que disseste na altura do acidente - referiu ele e a sua voz parecia de seda -, mas no desistas de mim depressa de mais, Claire. Acontece que eu no partilho a tua inclinao para aceitar uma qualquer espcie de vontade divina e contentar-me com o menos bom. Ainda me vais ver outra vez no palco e, nes-

A HERDEIRA                            219

sa noite... - sorriu - espero ver-te sentada na primeira fila a conceder a derrota. Tu, mais do que qualquer outra pessoa, deverias conhecer a fora da vontade treinada. - Ergueu o copo para beber, depois hesitou e tocou com o copo no de Emily. Vamos beber a isso?

- Se esse dia chegar, Simon - disse Claire -, eu serei a primeira a aplaudir-te. Porque pensas que eu te desejo seno o melhor? Foi para teu prprio bem que te aconselhei contra o uso

de certos mtodos...

- Espera at te veres na situao em que eu me encontro antes de julgares os meus mtodos, Claire! - disse ele. - Perde a vista e a capacidade de ganhares a vida e vers se continuas com essas tagarelices de solteirona idiota!

- No me parece que tenhas perdido os meios para ganhar a vida, Simon. Mas a tua vista est assim to mal? Lamento muito sab-lo. Tinha ouvido dizer que ainda havia esperanas de que recuperasses a viso no olho esquerdo...

- H esperanas, h, e no me tm poupado a nada para manter viva essa esperana - disse Simon. - Mas ainda no h certezas...

- Sabes que estars sempre presente nas minhas preces disse Colin calmamente. - Conheo-te desde que eras uma

criana, Simon. Sabe Deus que, se houvesse possibilidade disso, dava-te as minhas mos.

- Essa  uma oferta segura - disse Simon. - E esta conversa comea a aborrecer-me. Tenho convidadas. - Fez outra vnia. - Au "voir"?. Leslie, vamos? - Afastaram-se em direco ao camarote.

- No sabia que os conhecias, Leslie.
- Conheci-os na livraria; a Claire deu-me o livro que tu escreveste com a Alison. No sabia que tinhas tantos talentos, Simon.

Ele sorriu e pousou a mo saudvel na dela. -Ah, os pecados da minha juventude. Escrevi esse livro com a Alison ainda mal tinha vinte anos. O Colin, nessa altura, estava a viver em Nova lorque e dirigia uma pequena editora e a Alison convenceu-me a ajud-la a investigar os poltergeist. Nessa poca eu

tinha a iluso de ser um verdadeiro homem da Renascena, um gnio em meia dzia de reas ao mesmo tempo. Pianista, compositor, maestro, escritor, parapsiclogo... Depois, suponho que fiquei viciado na grandeza do palco... - Sorriu a Emily. - Ns

1 Em francs no original. (N. da T)

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somos viciados em aplausos, todos ns os que queremos ser artistas.  isso o que as pessoas cinzentas como o Colin nunca sero capazes de perceber; quando se sabe qual o sabor dessa exaltao, tudo o resto se torna brando, vulgar, morto. S nos sentimos vivos quando estamos perante o pblico e tudo e todos se torna parte desse pblico. O jogo torna-se a vida. - F-las entrar no camarote. Uma campainha abafada e de som doce avisou o pblico de que deveria voltar aos seus lugares e ele beijou rapidamente Leslie quando Emily estava de costas.

- Encontramo-nos na Sala Verde no fim do concerto; eu dou os vossos nomes ao porteiro.

Desta vez ela j estava preparada para a excitao demente que o assolava depois do concerto. Estava rodeado por fs que lhe pediam autgrafos e por um ou dois jornalistas, mas desembaraou-se deles rapidamente e veio ter com ela, rindo.

- Vamos mandar a Emily para casa num txi... e vamos para casa juntos!

Ela respirou fundo, apercebendo-se que at quele momento no estivera certa de que o episdio anterior no tivesse sido um mero impulso de Simon, um caso de uma noite. O ego dela teria sido capaz de sobreviver a esse facto, visto que ela fora com ele por escolha prpria, mas sentiu-se grata ao perceber que era mais do que isso.

Continuo a pensar que estou enfeitiada. Mas talvez seja mtuo. Tambm no haver coincidncias na atrac o fsica?

Apesar da solenidade ritual do altar, o amor que fizeram cricheu-se de risos, foi prolongado e terno. No adormeceram antes de o Sol nascer.

Ela nunca acreditara no amor e, muito menos, no amor romntico e a sua formao em psicologia tomara-a muito cptica. Essa era ou uma fantasia de mulheres idiotas, um disparate sentimental atravs do qual elas tentavam justificar as suas aces baseadas na paixo sexual, ou ento era um mito inventado para explorar essas mesmas mulheres idiotas e vender-lhes novelas de m qualidade, produtos de maquilhagem e perfumes.

Nunca sentira nada que se parecesse, ainda que remotamente, com o que agora sentia. Gostara de Joel, tinham tido uma vida sexual agradvel e tinham partilhado interesses, ela gostara de danar com ele e de estar com ele. Aceitara a definio cnica do amor que lera num romance moderno: amizade com sexo. Mas, acordada ao lado de Simon, soube que, quaisquer que fossem os

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abusos cometidos em nome do amor romntico, este arranjara forma de a apanhar. O sexo era uma parte de tudo aquilo, uma grande parte, mas era menos e mais do que o sexo em si prprio.

Deitado ao lado dela ele gemeu, a dorrnir. Quando sofria ela sentia-se despedaada por garras; enquanto faziam amor ele fora atingido por um daqueles paroxismos e ela abraara-o at lhe passar. Agarrou-o novamente e ele acordou, olhando em torno de si com o olho que tinha descoberto, cheio de horror e de terror e, reconhecendo-a, agarrou-se a ela com um alvio sbito.

Ficaram deitados lado a lado; passado algum tempo ele disse em tom meditabundo:

- Ouvi rumores de que a casa da Alison est assombrada. s vezes penso se no serei eu que a assombro.

- No percebo o que queres dizer, Simon. - Encaixou-se carinhosamente no corpo dele.

- Quando estive no hospital, drogado e cheio de dores disse -, tenho a certeza de que uma parte de mim procurou... aquela casa onde me tinha sentido to seguro e to feliz. No me tinha ocorrido que a minha apari o ali poderia ter assustado outras pessoas, mas evidentemente que para pessoas que no compreendam essas coisas o resultado no poderia ser outro.

Seria aquela, ento, a explicao para todas aquelas coisas que tanto a tinham confundido?

- No  impossvel, Simon. Na noite do dia seguinte quele em que a Emily tocou na audio de que tu foste jri... - e contou-lhe como Emily acordara, aos gritos, dizendo que o vira no quarto. - E eu prpria tambm te vi uma vez, no estdio.

- Espero que me tenhas dado as boas-vindas - disse ele sombriamente, acariciando-lhe os seios com a mo coberta de cicatrizes. Tirara a luva com a tala que mantinha o quarto e o quinto dedo esticados e estes estavam dobrados, imveis contra a palma da mo. - Os mdicos dizem que eu tenho que usar estes dedos constantemente se quero recuperar o seu uso. Moveu-os sobre o corpo dela de uma forma que, antes de ele o ter feito, ela no soubera desejar.

- Eu na altura no te conhecia. Mas a Emily ficou assustada; tambm no te conhecia.

- Ter-se assustado no lhe far mal - disse ele com indiferena. - Todas as emoes fortes contribuem para fortalecer a vontade do artista; so todas boas, umas como as outras, amor, medo, dor..

- Simon, isso  cruel!

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Eu nunca a teria assustado deliberadamente,  claro; digam Claire e o Colin o que disserem, eu no me tornei num monstro. Mas depois da audio, eu estava muito cansado, ter que julgar todos aqueles jovens pianistas, bons e maus, e estava sob uma tenso considervel; tinha consulta marcada com um

especialista. Como j te disse, estavam a tentar salvar a viso no meu olho esquerdo; os tratamentos so... - hesitou,  procura da palavra exacta -, so martirizantes; no te vou atormentar com os pormenores. Eu raramente uso drogas; so perigosas para algum com o meu nvel de sensibilidade. Mas nessa noite em particular no consegui concitar a minha coragem habitual e tomei uma dose de clorato.

Ela j assistira por vrias vezes aos espasmos assustadores que o reduziam a uma imobilidade tensa e torturada.

- No  impossvel que durante esse perodo, em que a minha vontade consciente esteve suspensa, eu tenha procurado o local onde fora jovem e... saudvel. O meu esprito, se lhe quiseres chamar assim, refugiou-se no quarto que fora o meu, quer em criana quer em adulto, sempre que estava em So Francisco. Aquela foi, durante muitos anos, a minha casa; Alison era amiga da minha me e depois... a magia cria laos mais fortes do que o parentesco.

Recordando-se do ritual que a ligara a Simon, acreditou que assim fosse. Ele suspirou.

- Eu e o Colin fomos grandes amigos no passado e eu ainda gosto dele e da Claire. No tenho a certeza da razo porque perdi a amizade deles, mas a escolha no foi minha. - Ficou em silncio enquanto o nevoeiro cobria o vidro da janela. No era a altura adequada para repetir o que Claire lhe dissera acerca da magia negra. Ela no acreditava que tal coisa existisse e ainda menos que o Simon pudesse ser um devoto do mal. Como poderiam eles atrever-se a condenar a determinao feroz, a vontade treinada que lhe permitira ir buscar poderes curativos s foras desconhecidas em que acreditava? Leslie j no conseguia sentir-se certa de que tudo aquilo fosse impossvel.

Ele estendeu-lhe os braos.
- Mas agora - murmurou -, no tenho que encarar nada disto sozinho. Uma das coisas de que tenho sentido a falta  de um parceiro mgico, Leslie. Queres trabalhar comigo, juntar os teus esforos aos meus, para que eu fique novamente so?

Naquele momento recordou-se de Colin dizendo, Se te servisse de alguma coisa poderias ficar com as minhas mos. Ela sentia o mesmo. Seria capaz de dar a mo para substituir a mo

A HERDEIRA                            223

aleijada dele e f-lo-ia sem temor e soube que o amor era aquilo mesmo.

- Eu no percebo nada dessas coisas, Simon. Mas com tudo o que me tem acontecido nos ltimos dias, comeo a perceber que nada  impossvel. Se houver alguma coisa que eu possa fazer para te ajudar, sabes que o farei com todo o prazer.

Puxou-a para cima dele e beijou-a com uma intensidade selvagem. As mos dele traaram novamente o smbolo estranho no corpo dela. Agora j sabia que smbolo era.

- Eu no te vou tomar - murmurou ele -, tu  que tens que te dar a mim, Leslie. - E, no silncio, ela ouviu novamente o leve estralejar elctrico, quase visvel entre os dois corpos e depois o tinir quase inaudvel de um sino.

- O sino astral. - A voz dele soou baixa mas distinta. Estamos na presena de foras invisveis. O que dissermos e fizermos agora ultrapassa-nos aos dois, vai para alm de ns e atravessar todos os mundos.

Leslie viu a chama da vela que ardia no altar erguer-se bem alto chegando junto ao tecto. Seria uma forma de poltergeist? Simon estava agora completamente erecto e ela ouviu novamente * tinir do sino astral, o sinal da fronteira entre o mundo normal * aquele em cuja soleira se encontravam. Uma parte dela ainda estava descrente; uma parte dela ainda dizia, trocista, Isto parece sado da Guerra das Estrelas. A Fora est connosco! Mas todo o resto de si pertencia a Simon.

Murmurou:
- Sou tua - e ouviu as palavras ecoarem atravs de um qualquer silncio sobrenatural quando ele entrou em si.

Captulo quinze

Quando acordou, o nevoeiro envolvia as janelas al         \ias da casa de Simon; era como se estivessem os dois num mundo alto cercado por espao vazio. Ele rolou na direco dela e riu-se baixinho.

- E  fim-de-semana - disse. - Hoje no precisas de te esgueirar ao romper da aurora!

- No. - Espreguiou-se sensualmente, deitada ao lado dele. - Mas sinto-me culpada; h tantas coisas que eu devia fazer

em casa.

- Vamos fazer essas coisas todas juntos, mais tarde prometeu ele. - H muitas coisas que tens de aprender. Provavelmente no te ocorre que qualquer casa em que tu vivas tendo tu dons psquicos - deveria ser purificada e selada.

- A Claire falou-me nisso.
- A Claire percebe dessas coisas; quando a Alison estava incapacitada foi ela quem selou a casa contra mim, na esperana de me manter afastado. Eu sou mais forte, evidentemente. Mas no vamos falar disso; eu vou ensinar--te a purificar a casa de todas as influncias estranhas, para que fique protegida de todas as foras com excepo daquelas que tu prpria convides a entrar. E vamos pr guardies e selos em cada entrada. - Ele observava-a atentamente. - Que foi, meu amor?

- No o posso evitar; isso continua a soar-me a superstio.
- Estou a perceber. - Apoiou-se num cotovelo, olhando para ela. - Continua.

- Consigo aceitar a realidade dos dons psiquicos porque no tenho alternativa; aconteceu comigo. Eu vi a rapariga morta e o assassino dela... conheces a histria. Consigo saber o que aconteceu a pessoas que nunca vi e de quem nunca ouvi falar. Sinto-me como se tivesse entrado no mundo da Guerra das

A HERDEIRA                           225

Estrelas... a Fora est connosco; uma realidade invisvel e diferente que penetra todo o Universo...

- Na verdade essa  uma forma muito boa para descrever o que se passa - disse ele. - Ns, na realidade, vivemos no meio de foras e influncias invisveis. No conseguimos ver as

frequncias de rdio e no entanto, se tivssemos aqui uma telefonia e a sintonizssemos nas frequncias adequadas, conseguiramos receber imensas coisas, desde uma sinfonia de Brahms at um daqueles programas para onde os loucos telefonam e discutem os discos voadores nos quais foram para Vnus e Marte, msica rock que daria cabo dos nossos tmpanos ou um padre a dizer a Missa em latim. No temos aqui uma telefonia e, mesmo que tivssemos, provavelmente no a iramos ligar - temos coisas melhores para fazer. - Tocou-a com intimidade e ela aninhou-se nele. - Mas, mesmo sem a telefonia, todas essas coisas, a Missa em latim, os berros da msica rock, a tagarelice dos loucos, esto em torno de ns, algures nas frequncias rdio. Achas que elas no nos afectam apesar de no as termos sintonizado?

- Nunca pensei nisso dessa maneira.
- Acredita em mim; afectam-nos mesmo, a ns e s outras coisas. Se soubesses usar a tua mente em todo o seu potencial verias tudo o que est a acontecer na cidade a partir daqui, deste pequeno quarto. Milhares de pessoas encaminhando-se para as igrejas e oferecendo preces ao seu Deus que disse: "0 que pedirdes em meu nome ser-vos- concedido." Se conseguisses captar a fora de todas essas mentes conseguirias uma fora incrvel, mas nem mesmo eles prprios sabem como canalizar essa fora. Se o soubessem fazer quando rezassem pela paz, por exemplo, nenhuma das foras da guerra e da cobia humana conseguiria prevalecer. Dizem que querem paz, mas o que eles realmente querem  a paz e uma oportunidade de conseguir realizar todos os seus desejos mesquinhos... a cobia, na maior parte das vezes, lucro. Se soubesses como abrir o teu esprito verias todos os crimes cometidos nesta cidade durante a noite passada
- sim,  razo para estremeceres, esse trabalho  o da Polcia. Mas eles deveriam aprender a sintonizar as suas mentes com as daqueles que infringem as leis. Tm medo. Querem continuar a ser superiores aos criminosos e a ter poder sobre eles. Mas percebes o que eu quero dizer? Tudo isto est ao alcance da vontade treinada. Um dos grandes conhecedores - a gentinha tmida que no o compreendia chamava-lhe um mgico negro - disse: o Amor  a Lei, o amor dominado pela vontade. Tu tens uma

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mente treinada, Leslie, e s excepcionalmente dotada, mas tens que aprender a usar esses dons ou sero eles quem acabaro por te usar.

- Que tipo de aprendizagem?
- Deixa isso ao meu cuidado. Para comear vou ensinar-te a cuidar do altar e a renov-lo. Toda a gente que se encontra no nvel em que tu ests deve ter um altar, uma forma de nos recordar o que  realmente importante na vida, no importa a forma que assuma. No precisa de ser um altar formal. - Ele sorriu, rolando

na cama. - Tenho a certeza de que o altar da Emily  a sala de msica, as devoes dela so as horas de estudo, a disciplina do trabalho rduo e a paixo, a dedicao das suas mos e do seu esprito.

Ela percebia, de uma forma muito real, o que ele estava a dizer.

- Anda - disse ele puxando-a para fora da cama e levando-a at junto do altar. - No tenho quaisquer imagens ou

dolos, nenhum vestgio de Satans ou de demnios; acho tudo isso repugnantemente ordinrio; os satanistas so uns idiotas e, habitualmente, uns rebeldes pouco eficazes que receberam em crianas uma dose exagerada e dolorosa dos preconceitos catlicos e querem ver-se livres de todos os vestgios sagrados. No entanto, se Deus for aquilo que a Igreja pensa que , ento tenho muita dificuldade em criticar os rebeldes medievais e os anticlericalistas por entenderem o diabo como um ente amigvel quando em comparao! De uma coisa podes estar certa, Leslie, no tenho nada a ver com a adorao do diabo; acho que esse

tipo de pessoas poderia invocar o diabo daqui at  eternidade sem mais efeitos prticos que aqueles que obteriam a ler a poesia de Edgar Guest ou Kahlil Gibran ou qualquer outro poeta vulgar. Mas a prpria ideia de invocar uma qualquer espcie de antideus criaria a coisa horrenda que  o objecto dessas invocaes. Os satanistas criam os seus prprios demnios, assim como as

pessoas muito religiosas invocam o seu Deus e eu no quero ter nada a ver nem com uns nem com outros. A maioria das igrejas organizadas invoca ideias de Deus to preconceituosas como os

diabos dos outros.

Ento por que razo te chamaro um mgi        .co negro? Perguntou-se ela, mas ainda no tinha a coragem suficiente para formular a pergunta.

- Ento o que  que tens no teu altar?
- Tenho os quatro elementos. Sim, quando andei na escola

A HERDEIRA                            227

havia noventa e seis elementos e os cientistas mais eruditos afirmavam que no existia mais nenhum elemento por descobrir; eu cresci antes da fuso do tomo e de a humanidade ter comeado a explorar os mistrios nucleares. Agora existem... quantos? Cento e vinte elementos e o seu nmero continua a aumentar. Os quatro elementos - terra, ar, gua e fogo, ou, se preferires, fogo, vento, chuva e solo - so as metforas para todos os milhes de coisas que existem no Universo. Temos aqui o fogo, na vela; o sal e uma rocha de cristal simbolizam a terra; o ar est representado pelo incenso e o clice representa a gua. O altar deve ser mantido imaculado e, sempre que te aproximares dele, deves concentrar a tua vontade por forma a abranger todos os elementos conhecidos e desconhecidos do Universo - disse ele. Pegou-lhe nas mos e estendeu-as sobre o altar. Leslie no teve a certeza se teria sido real ou se ela o teria imaginado, mas sentia uma fora enorme erguer-se contra as suas mos, como se fosse um vasto campo magntico.

Enquanto ele lhe mostrava como limpar os recipientes, como substituir a vela depois do castial ser limpo, como recarregar o sal e o cristal com as energias magnticas do seu corpo, Leslie pensou na cerimnia japonesa do ch. Era como se fosse uma meditao, um exerccio cuidadoso, uma dedicao da vontade s foras, visveis e invisiveis, que permeavam o Mundo inteiro. Mas certamente que o Colin e a Claire eram demasiado inteligentes para chamarem quilo magia negra?

- E agora - disse Simon quando terminaram -, j chega, para uma primeira lio. Um dos talentos que tentei desenvolver quando ainda me via como Homem da Renascena, foi o da alta cozinha; vamos tentar fazer crepes de morango para o pequeno almoo? - Encostou-se a ela. - Ou voltamos para a cama e fazemos os crepes mais tarde?

Agora ela j no sentia qualquer problema em vestir - ou despir - o quimono japons de Simon. - Qualquer que seja a escolha - disse ela -, ser uma escolha acertada.

Nas semanas seguintes deu por si a pensar vrias vezes na

religio de Simon e a perguntar-se se aquilo seria mesmo uma

religio. Era possvel que, tal como Claire, ele no gostasse desse tipo de linguagem. O mais prximo que ele esteve de falar em

religio foi numa ocasio em que disse, em tom ligeiro "Meu amor, parece-me absurdo condenar qualquer coisa  punio teolgica eterna quando aquilo que queremos realmente dizer ,

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Mas que maada". E noutra ocasio em que Emily disse um

"Oh, meu Deus" casual, ele admoestou-a "Nunca invoques Deus nem o Diabo em vo; nunca se sabe o que poder aparecer em

resposta a uma invocao impensada".

Emily chegava a casa, vinda das lies com Simon, ora nos pncaros da exaltao ora no mais profundo dos desesperos; mas

trabalhava incansavelmente e com afinco e parecia bem-disposta. Por vezes as lies tinham lugar na sala de msica da velha casa e no no Conservatrio e ela ouvia, ocasionalmente, Emily a

chorar ou Simon aos gritos com ela, mas ele ficava frequentemente para jantar e a Emily ria-se com ele e provocava-o e ajudava-o a cozinhar delicadas refeies vegetarianas.

Quando Junho estava a chegar ao fim, ele telef9nou-lhe a perguntar se poderia aparecer para cumprir a promessa@ que lhe fizera de purificar e selar a casa. Leslie j quase esquecera o

assunto. A casa estivera perfeitamente calma e tinham mesmo passado algum tempo na garagem-estdio a pendurar cortinados e a

coser almofadas sem qualquer sinal de dificuldades psiquicas. Estava mesmo a comear a pensar que tudo aquilo no passara de histeria, excesso de trabalho e uma imaginao sobreexcitada.

- Hoje  o solstcio de Vero; o dia mais longo do ano que tem tido grande significado para a raa humana desde que as

pessoas comearam a investigar as medidas de tempo no planeta.  uma questo de equilibrar os campos e as foras magnticas do planeta - disse-lhe ele _, e e por    isso que este  um dia propcio. - Quando apareceu trazia vrios tipos de plantas dentro do carro.

- Zimbro, giesta e aveleira; so todas plantas com poderes protectores - disse ele e insistiu em ir buscar outras ao jardim.

- Onde est a Emily? No oio nem o piano nem a harpa.
- A Emily foi fazer um piquenique com uns amigos disse-lhe Leslie. Emily sara de madrugada na carrinha de Frodo, com a Timinie ao colo, a Rainbow e mais meia dzia de amigos empoleirados na caixa, como pssaros de plumagens brilhantes.

Foram ao piquenique pago do soIstcio, algures na East Bay.

Simon ficou exasperado.
- Se ela tem tempo para esse tipo de idiotices no devo estar a faz-la trabalhar o suficiente - disse.

- Simon, ela tem passado entre cinco e oito horas ao piano ou ao cravo todos os dias desde que a Primavera comeou! Este  o primeiro dia de frias que ela tira. Tem piedade - admoestou-o Leslie. - Ela deixou-nos alguns ovos verdes; esteve acor-

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dada metade da noite a fazer biscoitos integrais com mel e a fazer maionese com leo de girassol.

- Eu conheo alguns desse jovens pagos - disse Simon. So uns promscuos; detesto ver a Emily a dar-se com essa gente ordinria. -.Olhou para ela com ar srio. - Meu amor, achas que eu tenho cimes?

- Bem, a ideia ocorreu-me - disse Leslie.
- Emily  uma jovem adorvel e muito dotada e, com o treino adequado, teria dons psquicos equivalentes aos teus. Mas o meu interesse por ela no , nem mesmo remotamente, sexual
- acrescentou. - S existe uma mulher na minha vida neste momento do Tempo e tu sabes quem ela . - Sorriu-lhe um sorriso mais ntimo do que qualquer carcia. - Como todas as mulheres, a Emily  uma encarnao da deusa mas no encontrou ainda, segundo penso, a sua natureza. Eu vejo-a como uma virgem guerreira:  rtemis, Diana a Caadora, Atenas, a Valquria. Nunca eu tocaria ou invadiria essa poderosa inocncia. Presentemente ela verte tudo isso, qual uma sacerdotisa virgem ao servio do seu deus, na Msica. Embora ela me seja muito querida, eu pensaria nela em termos sexuais tanto como pensaria numa filha. se tivesse a felicidade de ter uma.

"Vamos dar incio  purificao e selagem da casa, Leslie? Vamos comear da seguinte forma: fazemos uma  gua purificadora mergulhando estas ervas em gua destilada; lembrei-me de trazer uma garrafa da mercearia. No queremos as emanaes do cloro e de todos os qumicos que eles misturam no fornecimento de gua da cidade, na gua que usamos para purificar a casa...

Ele falou na deusa. Ser que ele quis significar isso literalmente ou foi s uma metfora potica, tal como a dos quatro elementos?

Como preparao varreram juntos todas as divises da casa com ramos de zimbro enquanto Simon lhe ensinava algumas frmulas simples de exorcismo. J tinham quase terminado, e ele estava a preparar a soluo para aspergir a casa, quando foi assolado por um dos seus paroxismos de dor; ficou agarrado  parede, com a mo saudvel cerrada em agonia. Quando a crise passou, viu que ele tinha a testa coberta de suor frio.

Mas ele limitou-se a dizer:
- Felizmente que isto me deu antes de termos comeado a srio; devemos estar perfeitamente concentrados enquanto estivermos a fazer isto, e teria sido... difcil manter-me concentrado nestas circunstncias.

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Queres descansar antes de recomearmos, amor? Ele abanou a cabea.
- No  preciso. Mas gostava que as pessoas que esto sempre prontas a aconselhar a aceitao da vontade de Deus passassem por uma crise destas. Eram capazes de ficar menos prontos a condenar-me por... - hesitou -, estar pronto a tentar qualquer coisa para ficar novamente inteiro e so!

Ela estremeceu perante a amargura da voz dele. Mas mesmo antes de ter tido tempo de se aperceber do que ele dissera, continuou:

- Agora tudo o que vamos fazer tem que ser feito com a maior das concentraes e cuidados. Enche o clice com a soluo de gua e ervas e, enquanto percorrermos a casa, aspergindo-a, forma no teu esprito uma imagem clara de que estmos a purificar este local de todas as influncias que no desejamos que aqui entrem. No tem qualquer importncia que visualizes essas influncias infelizes ou indesejadas como demnios ou msicos rock; no os queremos c.

Peg@u no clice e estendeu-lho.
- E a tua casa; tem que ser a tua fora a fazer a purificao

e a expulso. _   Disseste que a Claire tentou selar a casa contra ti. Estavas a falar a srio, Simon? A casa pode ser selada contra uma... pessoa de carne e osso? No sei porqu pensei que isso s funcionava contra... sei l, emanaes psquicas, ou fantasmas...

Ele disse, muito srio:
- Se selasses a casa contra mim, isso poderia fazer com que eu me sentisse to desconfortvel que me seria difcil, partindo do princpio que tinha nem que fosse o mais ligeiro dos dons psquicos, permanecer aqui dentro. Evidentemente, que se me convidasses a entrar, isso anularia os selos. Lembras-te do livro sobre o Dr cula em que o vampiro primeiro no conseguia entrar mas que, depois de ter sido convidado, conseguia entrar nem que fosse pela mais estreita das frestas? Os escritores de fico sabem estas coisas instintivamente; os seus inconscientes vagueiam pelos espaos a que chamamos planos diferentes.

- Simon... - ela parou ao fundo das escadas, com o clice na mo -, isto tem um efeito fsico, um efeito objectivo ou ape- nas um efeito psicolgico?

- Essa pergunta sugere que existe uma diferena.
- Mas existe uma diferena... ou no existe?
- No estou seguro disso - disse ele seriamente, encos-

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tando-se ao corrimo. - S sei que funciona. Se os pensamentos conseguem afectar o universo material, e parece-me bem que est provado que conseguem, ento os trabalhos que fazemos no plano material - purificaes, incenso, proteco atravs de rezas, qualquer que seja a definio que escolheres - podem fazer com que os pensamentos se espalhem para alm deste plano onde varremos e purificamos e levamos a cabo os rituais, e criem uma barreira psquica contra as intruses indesejadas de outros planos do Universo. No sei sinceramente dizer se tudo isto  objectivo ou subjectivo, mas tambm acredito que isso no tem importncia; para mim o importante so os resultados e a esses, j os testemunhei. - O rosto dele transformou-se, assumindo a expresso de impacincia que ela tanto temia.

- Vamos? No havia razo para adiar por mais tempo; j ouvira a resposta que procurara. Aspergiram as divises da casa com a soluo de gua e ervas e perfumaram-nas com incenso e, quando terminaram, desenharam juntos os pentagramas. Ao acabarem aquela tarefa ele levou Leslie para o exterior.

- Queres entrar e ver como te sentes ... ? Havia uma frescura no ar que nada tinha a ver com o cheiro das ervas ou com o fumo do incenso; teve uma sensao de vazio, de silncio.

- S uma coisa - disse Simon calmamente -, se o esprito de Alison vaguear por aqui  porque eu, mentalmente, lhe dei permisso para que ficasse. No querias expuls-la, pois no?

Para Leslie aquela foi a negao total de tudo o que Claire dissera de Simon. Se Alison se recusara a confiar nele, se tinham realmente brigado, no tentaria ele exorcizar a presena do fantasma de Alison da casa dela?

- Se a Alison foi feliz aqui e quiser vir fazer uma visita de l de onde se encontra agora,  bem-vinda - e sorriu-lhe. E agora?

- E agora... agora dedicas esta casa aos propsitos da tua vontade, Leslie - disse ele. - Devemos criar memrias novas e alegres, para que a casa no s tenha um passado ptimo, intocado pelas perturbaes recentes, como um presente alegre e um futuro radioso.

Ela no conseguia imaginar melhor forma de tratar uma casa.

Ainda estavam no trio quando viram a carrinha de Frodo parar em frente  porta e Emily sair apressadamente de l de dentro. Frodo inclinou-se para lhe dizer qualquer coisa, mas Emily amea-

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OU-O com o punho e Leslie ouviu-a gritar "Seu filho da me!"

e correr pelos degraus acima. Frodo saiu da cabina para a seguir, mas Emily fechou-lhe a porta na cara, com etrondo e ficou, ofegante, junto  porta.

-   Emmie, o que  que se passa?
- Eu disse-lhe que desaparecesse - resr.--,i,,i,:u ela, ainda ofegante. - Ele disse uma coisa horrvel... disse coi-,as horrveis sobre o Simon...

Simon saiu da sala de msica e passou-lhe o brao por cima dos ombros e deu-lhe palmadinhas no rosto com a mo saudvel.

- Pronto, pronto, Emily, no chores minha querida, achas que eu me raio com o que um jovem pateta pensa de mim? Ele foi mal informado. - Levou-a para a sala de msica. - Senta-te aqui, ao p de mim, nesta almofada. Vou tocar para ti.

Emily continuava a soluar, mas sentou-se em silncio enquanto Simon tirava a luva preta e comeava a tocar. A msica, triste, intensa e forte, iluminou e preencheu a sala. Leslie observou a expresso de Simon, fechada e imvel por detrs da pala negra que, em ocasies como aquela, parecia uma mscara que o impedia de revelar qualquer expresso. Mas a msica falava por ele; quando por fim ficou em silncio, Emily perguntou:

Que msica era essa, Simon?
O andamento lento do meu novo concerto. Vou toc-lo no meu concerto de regresso.

- No sabia que eras compositor, Simon - encostou-se ao joelho dele.

- No tinha muito tempo para compor quando andava no

circuito dos concertos. Mas enquanto estive no hospital, encontrei este tema no meu esprito. Por isso, quando regressar em triunfo aos palcos, como concertista, terei qualquer coisa de novo para tocar que provar aos meus crticos que no desperdicei o meu tempo. H crticos que esto sempre ansiosos por ver

um artista falhar... a tarefa deles, acho eu,  criar notcias sensacionalistas e no perderam tempo a proclamar-me acabado para sempre, como se no tivesse alternativa seno compor, ou dirigir orquestras, ou ensinar, ou fazer qualquer uma dessas coisas que qualquer segundo plano pode fazer...

Emily soltou um grito de protesto.
- Nenhum segundo plano teria escrito esse concerto, Simon!
- Tens a certeza? A mim parece-me derivativo, quanto muito uma imitao de Bruckner - no h caminhos fceis para

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os compositores modernos. De quantos te consegues lembrar, assim de repente, se no contarmos com Gershwin, Vaughan Williams, Britten e Howard Hansen? Centenas de outros desapareceram sem nunca terem sido conhecidos; os crticos deram cabo deles. S um artista capaz de interpretar esplendidamente o seu prprio trabalho tem hipteses de sobreviver.

- Mesmo isso no garante nada - protestou Leslie timidamente. - Quem, sem serem os outros pianistas, se lembra de Paderewskii? E Rachmaninoff teria sido famoso mesmo se no tivesse tocado os seus trabalhos.

Ele levantou-se do piano, calando a luva negra e com o rosto novamente impassvel. Emily aproximou-se e abraou-o.

- Eu disse ao Frodo que se o Simon era um mgico negro ento ele devia considerar seriamente a hiptese de estudar magia negra, porque o Simon  o melhor homem que eu conheo!

Ele acariciou-lhe o cabelo ao de leve.
- Fico sensibilizado, minha querida. Mas se te zangaste com o rapaz talvez tenhas tempo para te dedicares a dominar o toque especial do cravo; continuas a trat-lo como se fosse um piano. Mozart comps para o piano devido s limitaes do cravo, mas escreveu muitas peas para o cravo, apesar de todas as suas lin-taes e caractersticas especficas. No podes tocar cravo como se o teu p estivesse  procura do pedal! Nesta fase da tua vida, meu amor, no tens tempo para um caso amoroso, a no ser que seja com o Bach.

Ela sorriu um sorriso hesitante.
- O Bach  o nico homem da minha vida presentemente. Mas posso ser-lhe infiel com o Handel e com o Rameau de vez em quando?

- L isso podes, minha filha; essa  uma forma de promiscuidade que nunca provocar danos na virtude de ningum disse ele alegremente -, mas esta no  a altura indicada para uma lio. Vamos para a cozinha lavar umas batatas bem grandes e ass-las com queijo ou outra coisa apetitosa e eu fao-te uns

dos meus soberbos crepes de morango.

- Soa-me maravilhosamente - gritou ela -, estou esfomeada!

Leslie j se apercebera de que Simon ficava invariavelmente bem-disposto quando cozinhava. Em pouco tempo saam do forno os odores da abbora e das batatas a assar e enquanto Emily, sob a direco dele, fazia a massa para os crepes, Simon tirou a luva para desempenhar a tarefa minuciosa de tirar os ps aos moran-

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gos e cort-los s rodelas. Ela pensou se ele teria ficado cansado ao tocar, pois os dedos tremiam-lhe. Depois apercebeu-se de que estava a olhar fixamente para a mo dele e desviou os olhos.

Maldita coisa, danada sejas no fogo dos Infernos! Simon atirou com a faca pelos ares, com os olhos brilhantes de fria, agarrou na tigela com os morangos e atirou-a ao cho com toda a fora. A taa partiu-se em mil pedaos, os estilhaos de loia misturando-se com o vermelho dos morangos e com o sumo dos frutos. Leslie ficou imvel de espanto. Depois da tigela cair no cho fez-se silncio. Simon estava de p junto  taa, com os punhos cerrados e, nesse momento, Leslie recordou-se da janela partida na garagem e de uma outra taa que no se partira por ser de ao.

Emily disse, em tom descontrado:
- Bem, o aspecto dessa coisa  mesmo daftado, a no cho. Que se passa, Simon?

Ele soltou um suspiro longo, tenso e doloroso.
- A minha mo - disse. - No queria... obedecer-me. Olhou em torno de si, meio tonto. - E dei cabo do nosso belo jantar - acrescentou. -Venham, vamos limpar esta porcaria e eu levo-vos a jantar fora.

- Oli, no - protestou Leslie. - Podemos fazer outra coisa, temos gelado...

-   No, no - disse ele pesaroso. - Dei cabo de tudo e perturbei-vos e devo-vos um jantar. Vo depressa vestir uma coisa bonita, as duas. A Emily j alguma vez foi ao Top of the Mark?

Quando ele as deixou em casa, nessa noite, disse-lhes que iria estar fora durante alguns dias.

- O meu agente quer arranjar-me mais palestras e cursos avanados e eu tenho que lhe pedir que reserve uma noite para o meu concerto de regresso, talvez no prximo Vero. Alm disso convidaram-me para aceitar um lugar de artista residente numa universidade do Leste e eu tenho que arranjar uma forrna simptica de recusar. Felizmente no estou numa posio financeira difcil e no preciso de me sujeitar a aceitar lugares por temer o futuro.

Mas se a mo dele o trai desta maneira como poder isto tornar-se realidade? Leslie puniu-se mentalmente por ter tido aquele pensamento; se os pensamentos podiam afectar fisicamente a realidade, as dvidas eram a atitude errada.

- Quanto tempo vais estar fora? - perguntou e depois pensou se teria soado implorante, como uma mulher abandonada.

A HERDEIRA                            235

Mas ele pareceu no notar.
- No mais tempo do que aquele que eu puder evitar, meu amor; agora tenho uma boa razo para regressar a So Francisco

disse ele, beijando-a.

Nessa noite ficou sentada at tarde no escritrio, gozando a paz e o silncio. No tinha qualquer dvida de que os esforos de Simon tinham limpo a casa de todas as presenas hostis mas, apesar de Emily se ter ido deitar, pareceu-lhe ouvir, mas no com os seus ouvidos fsicos - seria? - um vago eco de msica que saa da sala do outro lado do trio.

Ele no fez qualquer esforo para exorcizar a presena de Alison Margrave desta casa. A casa era dela antes de ser minha e no me sinto mal por pensar que talvez ela aqui esteja, quem sabe se para me ajudar e aconselhar

No ficou minimamente surpreendida por encontrar o livro sobre reencarnao, escrito por um psiquiatra muito conhecido e

controverso, com o prefcio de Alison Margrave, em cima da secretria. No se recordava de o ter posto ali. Talvez tivesse sido Simon quem ali o pusera para a lembrar de o ler. Talvez tivesse sido outra influncia menos tangvel. No tinha importncia. Ficou acordada at tarde a l-lo e, quando acabou, recostou-se na cadeira impressionada e atordoada pelas provas nele apresentadas.

Os professores que a tinham formado nunca teriam aceite aquelas provas. No interessava. Eles tambm no teriam aceite a

viso do corpo de Juanita Garca morta no canal ou a viso do bolo de anos da PhyIlis Anne Chapinan. Mas aquelas tinham sido coisas que lhe tinham acontecido a ela e j no vivia no mesmo mundo dos professores. Sabia agora que tinha sido guiada at quela casa devido  sua desiluso e ao sentimento de que chegara a um beco sem sada como terapeuta, da convico que tivera de que pouco bem poderia fazer e que, o pouco que conseguisse, seria com pessoas com problemas muito simples de resolver.

Sentada naquela mesma cadeira fora levada, sem nunca ter lido nada ou ter sido formada nessas matrias, a perguntar sem razo aparente, se no teria havido um objectivo por trs do nascimento de Chrissy Hamilton e do facto de Susan ser a sua me. Comeara a aplicar o sistema a cada um dos seus pacientes. Leonard Hay, que no conseguia decidir se queria ser homossexual ou ficar com a mulher, podia ser homossexual devido a uma srie de razes. Podia ter vivido muitas vidas como mulher e

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ainda no se ter acostumado s muitas exigncias que a sociedade faz aos homens. Ou seria essa uma assun o sexista e a verdade seria outra? Possivelmente os homens como Leonard Hay rebelavam-se contra os esteretipos sexuais e sofriam o que sofriam para forar a sociedade a aceitar as escolhas individuais.

Judy Atteribury? Se escolhemos aquilo que nos acontece, porque razo haveria ela de nascer num corpo imprprio para o bailado e no entanto ter a paixo de ser reconhecida como bailarina? Talvez ela precisasse de uma lio dura para aprender a adequar as suas escolhas quilo que realmente estava ao seu alcance. O conflito com a me, a anorexia? Teria ela escolhido uma vida que a obrigaria a lutar pela sua independncia e pela definio dos seus prprios objectivos? Ou teria simplesmente perdido de vista os seus objectivos sob a presso desta vida? Leslie comeou a vislumbrar, vagamente, um novo propsito na terapia. Talvez que o que ela conseguisse fazer no f6sse ajudar as pessoas a ajustarem-se  sociedade e s circunstncias, m- as tentar ajudar cada cliente a aperceber-se de qual o seu principal objectivo nesta vida e de como poderiam atingir e materializar esse objectivo. (Karma era uma expresso to boa como qualquer outra.) Em vez de andarem s apalpadelas, cegos, na escurido desta vida.

Pelo menos podia tentar. Supunha que se produzisse mudanas srias e radicais de uma s vez seria expulsa da profisso! At mesmo um Estado to liberal como o da Califrnia, no dava licenas aos terapeutas para estes ajudarem os seus clientes a encontrarem o seu verdadeiro karma ou o objectivo das suas encarnaes actuais, pensou e riu-se de si prpria.

Mas era uma ideia nova, um comeo e, pelo menos, j no se sentia completamente impotente na profisso que escolhera. Pousou o livro e foi para a cama.

O odor muito leve a incenso e ervas ainda permanecia no quarto. Abriu a janela para deixar o nevoeiro entrar no quarto. Encontrara uma pequena mesa de madeira entre as tralhas guardadas no sto da casa de Sacramento; pensou que talvez tivesse pertencido  av. Acendeu urna pequena vela e p-la num castial vermelho e acendeu incenso; enchera com gua, nessa tarde, uma concha arredondada de vieira e ps um geode de cristais, que o pai trouxera uma vez de uma expedio geolgica, em cima do altar improvisado e ficou deitada no escuro, pensando em Simon  luz tremeluzente do fogo. Estava certa de que o efeito era psicolgico, mas gostou. As pessoas tinham todo o tipo de

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rituais privados; porque no criar um se era aquele o efeito que lhe provocava no esprito?

Se a teoria dela estivesse certa, se a teoria de Alison e do psiclogo famoso que a criara, estava certa, ento qual era o objectivo de Simon na vida e porque entrara, nesta altura, na sua prpria vida? Ainda mais importante, qual seria o propsito do acidente que o fizera perder uma vista e o uso de uma mo?

Colin MacLaren sugerira uma interpretao, que a influncia mais importante de Simon deveria ser como maestro, como professor e, naquela noite, ela ouvira uma das suas composioes. Se a influncia de um maestro se pode fazer sentir em toda uma gerao, que dizer da de um compositor? A msica de Bach, que Emily tocava, durara mais de trezentos anos.

No entanto Simon tinha experincia naquelas coisas; devia haver uma boa razo para ele rejeitar a explica o de Colin. E ela prpria ouvira-o dizer: Ns s ficamos vivos perante o pblico. Emily tambm tinha essa fome. No havia explicaes simplistas. Nem mesmo as havia na psicologia tradicional. Como poderia ela esperar encontr-las nesta rea?

Leslie recordaria os primeiros dias da ausncia de Simon como pacficos, sem qualquer trao do pesadelo horrendo que explodiria mais tarde. Na manh depois da sua partida o telefone tocou e, quando atendeu, ouviu uma voz desconhecida de mulher.

- Doutora Barnes, ouvi dizer que a senhora tinha ficado com os clientes da doutora Margrave...

- Lamento - disse Leslie, mas a estranha no a deixou continuar.

- Ouvi dizer que estava a viver na casa dela e eu estou de cabea perdida, no consigo pensar em mais ningum que me

possa ajudar e juro que s sinto vontade de saltar pela janela... no consigo suportar mais isto...

Tinham-lhe ensinado, quando trabalhara nos telefones de S.O.S., que no existiam falsas ameaas de suicdio. Reagiu da nica forma que o tempo se encarregara de provar como segura:

- Diga-me o que se passa. Na verdade no tinha tempo para aquilo. Provavelmente ficaria uma hora ao telefone a aconselhar uma pessoa perturbada que nem sequer era sua doente, mas ultimamente andara a pensar em fazer trabalho voluntrio.

- Eu nem sei bem por onde comear..  tudo to horrvel disse a mulher do outro lado da linha, com a voz a tremer. Foi por isso que lhe telefonei. Sabia que a doutora Margrave no

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se riria de mim, mas depois soube que ela morrera e tentei aguentar, mas ele... ele afastou as minhas filhas e estou aqui sozinha e no consigo aguentar... e no posso dizer nada a ningum. Telefonei para um daqueles telefones S.O.S. e o que eles me disseram foi para eu me controlar...

Aquela frase, pensou Leslie, deveria ser banida da lngua inglesa juntamente com uma outra equivalente: Tem de reagir. Era a incapacidade que as pessoas tinham de se controlar e de reagir que as levava a procurar ajuda. _   J no consigo dormir, oio-o o tempo todo, a rir-se de mim...

Tratava-se ento de um marido agressivo. Ela dissera que ele afastara as filhas. Passado algum tempo a mulher ficou reduzida a uma paralisia silenciosa.

- Suponho que a senhoraj lhe pediu que se fosse embora?
- Doutora Barnes, se eu tivesse notas de conto como as vezes que pedi quele homem que se fosse embora, agora e antes... - disse e mais uma vez a voz se desvaneceu, impotente.

Acho que ele est a tentar enlouquecer-me.

Complexo de perseguio? Ou um marido realmente agressivo, talvez mesmo violento? Leslie sabia que essas situaes existiam mesmo.

Perguntou cautelosamente:
- Ele bate-lhe?
- Agora j no. Mas sei que gostava de poder faz-lo. Ele costumava bater-me, passava o tempo a bater-me, mesmo  frente das crianas... e eu tentei ir-me embora... sa de casa e ele disse-me que nunca permitiria que eu o deixasse...

- A senhora sabe,  claro, que no existe nenhuma lei no

Estado da Califrnia que permita ao seu marido bater-lhe. J apresentou queixa na Polcia?

- Eu sabia que no me iria compreender - disse a voz, muito baixinho, do outro lado da linha, deixando transparecer a derrota. - Pensei que de certeza iria perceber. A Polcia no pode fazer nada para me ajudar. - Leslie ouviu-a soluar do outro lado da linha e depois ela disse, num gemido: - O Pete morreu h cinco anos!

Leslie disse, rapidamente:
- Estou a ouvi-Ia, estou a ouvi-Ia. No me estou a rir de si. Era muito importante fazer com que a pessoa continuasse a falar, por mais irracional que o que dizia parecesse ao conselheiro. Tratava-se ento de uma pessoa seriamente transtornada que,

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em relao a tudo o resto era s, mas no o era no que respeitava  sua obsesso. Assombrada!

No entanto a Alison Margrave fora parapsicloga. Teria ela sido ento um desses charlates que exploram os crdulos e encorajam as paranias dos doentes mentais? No fora essa a ideia com que ficara depois de ler o livro de Alison Margrave, nem ao ouvir o que as pessoas diziam dela. Nem um homem com a inteligncia brilhante de Simon teria suportado uma charlat, fosse ela do tipo auto-iludido, fosse ela do tipo explorador de supersties. Aps mais meia dzia de frases, a maior parte das quais ela mal ouviu - estava a tentar interiorizar o conceito a mulher voltou a ficar calada e ela disse:

- Acho melhor vir c falar comigo. Poderia ao menos avaliar a sanidade mental da mulher e aplicar-lhe alguns dos testes habituais. Depois poderia recomendar-lhe um mdico, um internamento, um neurologista ou, se as queixas da mulher lhe parecessem verdadeiras, tentar a contra-sugesto. Lembrou-se de ter visto, na livraria, um livro intitulado Autodefesa Psquica. Ela prpria se sentira atormentada por acontecimentos estranhos e inexplicveis na casa de Berkeley, tendo pensado na altura se no estaria a ficar maluca. Quem era ela para dizer que esta mulher era louca?

Tomou nota do nome da mulher, Evelyn Sadler, e marcou

uma consulta para essa tarde. No tinha muito tempo para recolher informao sobre casos de pessoas que pensavam estar a ser

vtimas de assombraes, mas a Mrs. Sadler estava muitssimo nervosa e precisava, no mnimo, de algum com quem falar e que no se risse dela nem a ridicularizasse.

Naquela manh tinha uma sesso com a Eileen Grantson e o pai, sesso essa que, sabia-o, se centraria na discusso da quantidade razovel de trabalhos domsticos que se podiam exigir a uma rapariga de catorze anos. Donald Grantson no era deficiente nem estava desempregado, caso em que Eileen no teria, provavelmente, grandes alternativas seno faz-los na totalidade. J tinham tido duas ou trs sesses sobre o tema. Mas mesmo sob a presso da pior das pobrezas ela achava injustificado pedir a uma rapariga de catorze anos que assumisse a responsabilidade de todas as tarefas domsticas tornando~se, de facto, na dona de casa do pai. Injustificado e pouco saudvel. Felizmente que no tinha havido mais sinais do poltergeist a perturbar aquela fase final de ajustamento. Depois de os Grantson sarem tentaria informar-se melhor acerca da assombrao do fantasma de um marido morto, que

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no permitia que a sua mulher vivesse a sua vida depois de isso ter deixado de ser assunto que lhe dissesse respeito.

Quando os Grantson se foram embora, ficou com trs quartos de hora livres. Reservara-os para trabalhar no jardim, mas as necessidades de um cliente estavam primeiro. Saiu para ir  livraria.

Apercebeu-se de que se sentia um pouco relutante em encontrar-se com Claire; deixara claro que qualquer que fosse a diferena de opinies, de objectivos e metas (Claire chamara-lhe magia negra - que absurdo), a sua lealdade era para com Simon. S de pensar em Simon ficou com calor, excitada. Mas tambm era absurdo estar apaixonada! Nunca acreditei nisso e foi-me acontecer, a mim.

Tal como a vidncia? quela hora do dia no estava muita gente na livraria; Frodo estava a arrumar livros e Colin estava sentado atrs do balco, a ler. Quando ia a entrar Leslie parou. Dois gatos, um todo preto  excepo de uma pequena mancha no peito e outro de um branco bao, passeavam-se por cima de uma mesa que ostentava um letreiro onde se lia GRANDES SALDOS! Estendeu a mo a um dos gatos que se aproximou e lha cheirou; o outro aproximou-se tambm e empurrou o companheiro com o nariz.

- So lindos! - exclamou Leslie enquanto o gato preto se esfregava sensualmente contra a sua mo e Colin ergueu os olhos e sorriu-lhe.

- Doutora Bames. Que posso fazer por si? Ela sentiu-se embaraada com a explicao que tinha que dar sobre aquilo que pretendia e continuou a falar dos gatos.

- Como se chamam?
- So os espritos amigveis desta loja - explicou Colin, bem humorado. - O preto  o Monsenhor, no v o colarinho clerical? Mas j mesmo em pequenino tinha um ar demasiado digno para ser um simples padre. Para alm disso ele pratica o celibato como qualquer padre que se preze, pois foi castrado em pequeno.

Leslie riu-se.
- E o branco?
- O nome dela  Poltergeist.
- Poltergeist? - Leslie pensou que ele se estava a meter com ela.

- Chama-se Poltergeist porque, quando ela est presente, os livros caiem das mesas e os ornamentos tombam das prateleiras sem qualquer interveno de mos humanas.

Ao ouvir aquilo ela soltou uma risadinha.

A HERDEIRA                            241

 encantador. Foram ambos criados aqui na livraria; a Claire encontrou o Monsenhor perdido, quando era um gatinho, estava aqui na rua a morrer de fome. Tinham-lhe dado um pontap. Ainda tem a pata um bocado torta. A Poltergeist  mais uma das gatas das ninhadas de gatos brancos. Em geral no gosto nada de ter em casa um animal que no tenha sido castrado. No suporto o tipo de sentimentalidade piegas que no concebe castrar um gato mas no se importa com todos os gatinhos e todos os cachorros que, todos os dias, morrem abandonados nas ruas e nos abrigos para animais. Mas a Claire  muito conscienciosa quanto a arranjar lares para os gatinhos. A Alison tinha... - Parou a meio da frase e ps um ar casmurro.

- Mas tenho a certeza de que no veio c para me ouvir tagarelar sobre os nossos animais de estimao. Que posso fazer para a ajudar, Leslie?

-   Colin, toda a gente comea a falar dos gatos da Alison mas depois no chega a contar-me nada. Acho que ns temos em

casa um desses gatos ou talvez no tenhamos. - Falou-lhe do gato branco que aparecia e desaparecia e de como Emily o vira, aparentemente, a esvair-se em sangue na garagem. - E eu, uma vez, tambm vi o mesmo.

Ele olhou para o tampo do balco. Disse:
- No quero dizer nada. No vi nada com os meus prprios olhos. Mas uma das razes pelas quais Alison brigou com o Simon foi essa. A Claire disse-lhe que o Simon andava a chafurdar na magia negra, no disse?

- Sim e eu no fao a mnima ideia do que ela quis dizer com isso.

- Acredite-me, no precisa de saber nada sobre isso, nem isso  coisa que queira saber - disse Colin -, mas entre outras coisas a Alison contou-me que ele sacrificara um dos gatos brancos dela... matou-o ritualmente, segundo percebi. Eu prprio j sabia que no era a primeira vez que ele fazia esse tipo de coisa. Ele j tinha feito esse gnero de experincias em rapaz.

Leslie ficou a olhar para ele, abanando a cabea.
- Custa-me acreditar numa coisa dessas. O Simon  um dos homens mais civilizados que eu j conheci. O que  que ele poderia esperar obter com um acto desses?

- Naquela altura? No sei - disse Colin. - No vou fingir que percebo os motivos dele. Suspeito que naquela altura no deve ter passado de curiosidade intelectual;  algo que ele tem

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em abundncia e que leva frequentemente, aqueles que se esto a iniciar nas cincias do oculto, a enveredarem pelo caminho da rno esquerda.

Aquele era o tipo de afirmao que, com a sua semntica confusa, fazia com que Leslie se desconcentrasse e Colin, apesar da sua bondade e inteligncia sensata, parecia ser um grande adepto daquele tipo de linguagem.

- Quanto  curiosidade intelectual, no consigo imaginar melhor razo para investigar manifestaes parapsicolgicas. Ou prefere o tipo de pessoas a quem os socilogos chamam "Verdadeiros Crentes" e que aceitam toda e qualquer patetice sem tentarem investigar o que quer que seja?

- Deus no permita; se h um tipo de pessoa de quem gosto menos que do cptico que no acredita sem investigar,  do crente que acredita sem investigar. Creio que a Emily lhe contou como me recusei a tolerar esse tipo de charlatanice numa sesso de espiritismo. Mas existe uma diferena enorme entre a honestidade intelectual, que  essencial se quisermos evitar que toda a parapsicologia mergulhe numa tontaria confusa, e a curiosdade intelectual. Este tipo de curiosidade  o motivo mais perigoso para se fazer seja o que for. J foi usado para justificar tudo, desde as experincias em vivisseco, s experincias de Watson na psicologia comportamental e condicionamento operativo, no s em ratos mas tambm em crianas, para fazer investiga o na guerra biolgica e na engenharia gentica.

Ele tinha, evidentemente, alguma razo no que dizia. Ela tinha ainda menos respeito pela psicologia bel---iaviorista de Skinner do que pela gria psicanaltica de Freud. No entanto contraps:

- Que outro motivo poderia um cientista ter para fazer investigao pura se no esse: o desejo puro e simples de saber, do saber pelo saber?

Colin apoiou o queixo nas mos.
- Estou desapontado - disse. - Pensei que quando a Alison a conduziu at ns j soubesse a resposta a essa pergunta. S existe um motivo aceitvel para qualquer investigao, cientfica ou no, e  o nico motivo aceitvel no Caminho: Quero saber para poder servir

Houve qualquer coisa em Les)ic que reagiu s palavras, como se estas tivessem sido proferidas numa linguagem que ela j tivesse conhecido em tempos e estivesse agora a reaprender, mas sentiu-se ofendida pela crtica implcita a Smon e mudou de assunto.

A HERDEIRA                            243

No sei como, mas espalhou-se por a que eu fiquei com os doentes da doutora Margrave - disse. - O Colin ter tido, por acaso, alguma responsabilidade nisso?

Colin MacLaren olhou para ela, os olhos estranhamente azuis e muito abertos. No disse nada e, quando Leslie encontrou o olhar dele percebeu que a ideia era absurda. Pensou: Conheo-o o suficiente para saber que ele no o faria, como se aquela concluso fosse a coisa mais natural do mundo, como se sempre tivesse conhecido e confiado em Colin, durante toda a vida e mesmo antes disso, com o tipo de confiana que geralmente s se tem num padre ou num pai. Sentiu-se novamente confundida. No era catlica e no confiava especialmente nos padres e, como mulher e psicloga, sabia que os pais eram, frequentemente, as pessoas menos merecedoras de confiana... e no estava sequer a referir-se a teorias edipianas mas simplesmente s dinmicas familiares!

E conhecia Colin h menos de seis semanas. Depois Colin limitou-se a dizer:
- Leslie, palavra de honra que no. - Nos poucos segundos entre a pergunta e a resposta ela quase j esquecera o que lhe perguntara. - No entanto suponho que toda a gente que conheceu a Alison partiu do princpio que ela no permitiria a ningum que viesse para a casa dela e ali ficasse a viver a no ser que essa

pessoa fosse a sua sucessora. Alison levava o seu trabalho muito a srio. Era muito importante para ela.

- Todo o trabalho na rea da sade mental  muito importante - contraps Leslie. - Mas est a dizer-me que  suposto eu ser parapsicloga profissional, uma espcie de caa fantasmas?

- Leslie, eu nunca poderia controlar a sua vida dessa maneira. Ningum tem esse direito; nem a Alison, nem o Simon, nem ningum. S a Leslie pode tomar essa deciso. Mas no foi j forada, pelas circunstncias, a ser isso mesmo?

-   Esplndido - disse Leslie secamente. - O Enquirer diz que eu tenho dons psquicos e portanto tenho de os ter?

- A questo no , evidentemente, o que o Enquirer ou

seja quem for lhe chama, mas aquilo que na verdade  - disse Colin.

Ele tambm no  nada mau na porcaria da tcnica teraputica no directiva, pensou Leslie e depois sentiu-se envergonhada de estar para ali a argumentar e lembrou-se da razo que ali a levara.

- O problema  que parece que estou metida nisto e no fao ideia por onde comear - respondeu ela com franqueza.

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Mas isso acontece frequentemente com todos aqueles que tm dons psquicos espontneos. No conseguem aprender a

us-los quando assim o desejam; so os seus dons que tendem a us-los a eles prprios - disse-lhe Colin. - Pensando melhor, no  correcto dizer que eles no so capazes de usar esses dons; so  demasiado preguiosos ou tm demasiado medo de tudo isso e no se disciplinam para os usar. Ou deixam que o psiquismo os controle e so arrastados para os transes em que os mdiuns entram nas sesses e esse tipo de disparate, ou ento tentam convencer-se de que se ignorarem totalmente o assunto ele acabar por desaparecer. O perigo disso - no a quero assustar, Leslie, mas acontece mesmo - pode ser to srio como o de uma possesso.

- Como  que posso aprender? - perguntou ela, quase em desespero. - Est uma mulher  minha espera que est convencida de que o fantasma do marido a persegue, tornando-lhe a vida num inferno. Como  que eu vou distinguir os malucos, os tarados, das pessoas que realmente esto a ser perseguidas por.. por aquilo a que chamou o Oculto?

Colin suspirou.
- As pessoas como a senhora acabam por ser, frequentemente, os melhores investigadores e conselheiros psquicos, Leslie, porque tal como acontecia com a Alison so naturalmente cpticos, s so convencidos contra a sua vontade, e so demasiado honestos para ignorar as provas. Mas todas as virtudes tm um defeito correspondente. Podia dar-lhe todo o tipo de conselhos, mas isso s lhe diria o que resultou comigo. E aquilo que referiu , infelizmente, uma das grandes armadilhas deste tipo de trabalho. Os doidos.

- Pensei que me estava a dizer que estas coisas eram verdadeiras...

- Ob, minha querida, e so. Mas... estou a tentar encontrar uma forma de dizer isto. Os tarados s vezes dizem, "Riram-se do Galileu. No acreditaram no Thomas Edison". Mas o facto de as pessoas se terem rido desses grandes homens no significa que toda a gente com uma noo absurda qualquer ou uma inveno disparatada, seja um gno desprezado. Quase toda a

gente que passa por uma experincia psquica atravessa uma fase em que julga que est a ficar maluco ou em que os outros dizem que est maluco. Mas isso no significa que todos aqueles que pensam estar a ser vtimas de um ataque psquico sejam necessariamente sos.  precisamente pelo facto de terrnos que ser tole-

A HERDEIRA                           245

rantes relativamente s excentricidades, que faz com que atraiamos os excntricos - e alguns deles no so excntricos inofensivos, mas pessoas seriamente doentes. Alguns so inofensivos, outros so to perigosos como o seu Assassino da Trana. Por cada cem pessoas que ouvem vozes, quer estas sejam resultantes de um contacto verdadeiro com os planos interiores, quer no passem de fantasias - vozes, que lhes dizem que todos os homens devem ser irmos e que devem amar-se uns aos outros e viver em harmonia -, por cada cem destes, existiro um ou dois a quem as vozes, sejam estas demonacas ou produto da loucura, ordenaro que massacrem os inocentes ou persigam os indefesos. "0 Filho de Sam"  um bom exemplo. No sei se as vozes que ele ouvia eram reais ou se se deviam a um crebro afectado por disfunes qumicas, mas qualquer que fosse a sua origem, o resultado foi horrendo.  por isso que  to bom que algum com formao em psicologia abrace este tipo de trabalho; -lhe possvel fazer um diagnstico e perceber se o caso  para um mdico, para um psiquiatra, para um neurologista, para a polcia ou para o conselheiro psquico.

Uma pequena voz fez-se ouvir no esprito de Leslie, Achamos sempre que o conselheiro  excelente quando nos diz aquilo que ns pensamos. Ela prpria tinha seguido aquele tipo de raciocnio.

- Mas o que  que eu digo agora? Vou ter que ir falar com ela...

-   H quanto tempo  que isso dura?
- Cinco anos e a mulher est a chegar ao fim das suas capacidades de resistncia...

- A maioria das pessoas  mais forte do que julga ser, se

tiver esperana de obter ajuda - disse Colin MacLaren. - De qualquer maneira tudo o que se pode fazer numa primeira sesso  prestar uma espcie de primeiros socorros psquicos. Ensine-lhe a selar a sua aura e o seu espao privado... sabe como  que isso se faz, no sabe?

Lembrando-se do que Smon lhe ensinara durante a sesso de exorcismo de soIstcio ela assentiu. Ele estendeu-lhe um par de livros.

- Leve estes livros e leia-os, No, no me pague at ter a

certeza de que so aquilo de que precisa; depois, se quiser ficar com eles, pode pagar-me - disse. - Vamos fazer-lhe uma conta corrente; toda a gente que segue o Caminho tem a direito a essa gentileza aqui na livraria. Frodo... - ergueu ligeiramente a voz

_, vem fazer uma conta corrente para a doutora Barnes.

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Ela pensou que aquilo a obrigaria a voltar ali, quer fosse para devolver os livros quer fosse para os pagar, mas o momento de imensa confiana em Colin tinha-se prolongado e ela estava disposta a faz-lo. At parece que o conheo de outras vidas passadas, gozou consigo prpria, mas deixou-o embrulhar os livros sem protestar. Frodo ergueu os olhos e disse:

- Oh, ol doutora Barnes. Est tudo bem com a Emily?
- Ela est bem mas anda muito ocupada. - J tinha problemas suficientes a gerir a sua prpria vida, no precisava de se envolver na de Emily, embora soubesse que a irm tinha saudades do rapaz. Sem a interferncia de Simon eles j se teriam reconciliado. Mas essa escolha pertencia a Emily.

Quando voltou para casa Emily estava a tocar Bach, na sala de msica, mas tinha a porta aberta. Saiu quando Leslie entrou.

- Est uma cliente no teu escritrio. Fui eu quem a levou para l. Devamos ter uma sala de espera, Les.

Ela tinha razo, embora Leslie tentasse escalonar os clientes. Evelyn Sadler era uma mulher pequena, com um aspecto seco e frgil e as suas roupas, embora tivessem aspecto de ter sido caras, estavam uns dez anos fora de moda. Tinha o cabelo enrolado num carrapito mal feito. Disse que tinha quarenta e sete

anos mas parecia dez anos mais velha. A frase de Colin, primeiros socorros psquicos, ecoou-lhe no esprito enquanto encorajava a mulher a falar sobre o marido e a evoluo da assombrao, dos barulhos e murmrios, ao aparecimento do rosto do marido suspenso no espao. As filhas tinham sado de casa, embora Leslie no percebesse bem se isso se devera s perturbaes causadas pelo fantasma se  intolerncia perante o facto de a me acreditar no fantasma.

Vou reservar a minha opinio. Mas de momento vou agir como se fosse verdade; verdade ou no, esta mulher est a sofrer.

- Disse que ultimamente a situao tem piorado muito.
O que  que aconteceu para que tivesse piorado?

- Ficou to mau que eu fui a uma mdium - murmurou ela numa voz assustada -, e ela disse que eu me devia tornar mais receptiva relativamente a ele, para descobrir o que ele realmente quer. Foi o que eu fiz, mas descobri que o que ele realmente quer  matar-me...

Seria aquilo verdade ou uma perigosa iluso suicida? Teria tempo para avaliar a questo.

Disse, num tom de voz tranquilizante:
- Ele no lhe pode fazer mal; a nica coisa que ele pode

A HERDEIRA                           247

fazer  assust-la. - No tinha a certeza absoluta do que dizia, mas era mais seguro para a Mrs. Sadler acreditar nisso. -A coisa mais importante  preencher de tal forma a sua vida com coisas deste mundo que se torne mais difcil para ele chegar at si.

- Bem, eu gostaria de sair, mas no tenho onde ir - disse Evelyn Sadler com irritao. - As raparigas so casadas e as

outras esto na faculdade. Eu conhecia muita gente, mas so todos casados e no esto interessados numa mulher desemparelhada, descobri isso no ano em que o Pete morreu. Por isso acabo por ficar em casa a maior parte do tempo, com as minhas memrias.

- E isso  a pior coisa que pode fazer - respondeu Leslie frontalmente. Se a assombrao fosse real, aquela atitude, tal como as instrues da mdium, abriria caminho facilitando  entidade que a assombrava a posse do crebro da mulher; e se no passasse tudo de uma obsesso, dava-lhe tempo de mais para pensar no assunto.

- Mas que stios  que existem onde uma mulher da minha idade possa ir?

- Valha-me Deus - contraps Leslie. - Um monte deles. Comece a ir a uma igreja ou ento a um clube de bridge ou v ter lies de natao na Associao Crist da Mocidade, ou v aprender tnis ou macram, ou v ter aulas de composio e

escreva contos... qualquer coisa que a faa sair de casa e estar com outras pessoas. Se o seu esprito estiver preenchido com gente verdadeira, j no vai ter tempo para fantasmas.

- Mas eu no gosto de jogar cartas e no estou interessada em ir  igreja - comeou ela e Leslie apercebeu-se de que o

tema central da sesso tinha mudado. Fosse devido a um fantasma ou a uma obsesso, estava ali uma mulher vulnervel devido ao facto de estar demasiado centrada em si prpria. Deixou que a

mulher fizesse o percurso a que ela chamava a "sequncia do SIM, MAS" e explicasse as razes devido  quais lhe era impossvel aceitar qualquer um dos conselhos que lhe dera para se ver livre dos seus problemas. Depois Leslie interpretou com ela o que acabara de dizer e, para terminar, ensinou-lhe algumas das barreiras e tcnicas de proteco psquica que Simon lhe ensinara.

- Isso vai manter o Pete afastado?
- Isso depende do quo a senhora o queira ver afastado disse Leslie. - Se ficar em casa  escuta da voz dele e se estiver  espera de a ouvir, ento estar a cham-lo com uma mo e a empurr-lo com a outra.
- Mas se calhar ele sente-se solitrio...

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- Acha que tem alguma obrigao de lhe fazer companhia?
- Por Deus, no - explodiu a mulher. - Aturei aquele homem durante vinte e dois anos! Ele est morto, raios! Porque no me deixa em paz?

- No sei por que razo ele no a deixa em paz - disse Leslie -, mas tem que deixar claro que  isso que quer, que a

deixem em paz. J pensou em voltar a trabalhar?

- Sim, j, mas deixei de trabalhar antes de as midas nascerem...

- Na prxima sesso fao-lhe testes de aptido - disse Leslie. - Provavelmente tem mais capacidades do que pensa. Qualquer pessoa que tenha gerido uma casa e criado uma famlia durante vinte e dois anos tem imensas aptides, mesmo que no tenha conscincia disso.

- As midas no querem que eu trabalhe; dizem que o pai me deixou bem e que eu no tenho que...

Leslie disse:
- A vida  sua, Mrs. Sadler. Pode ficar em casa com um fantasma ou sair e ter uma vida de tal forma cheia que o

desencoraje. Se no precisa do dinheiro pode fazer trabalho voluntrio. E, entretanto, as barreiras e as tcnicas psquicas de que lhe falei poro uma barreira entre si e o fantasma, o que o far perceber que j no est no mesmo plano que a senhora.

E, pelo menos, sero uma contra-sugesto eficiente, se tudo isto no passar de imaginao. O relgio bateu as duas horas e ela conduziu a mulher  porta, explicando-lhe a sua poltica de honorrios. Receb-la-ia novamente na semana seguinte para os

testes de aptido e, quem sabe se, ao ajudar a mulher a ver-se livre do seu fantasma, no a estaria a ajudar a encontrar uma nova vida.

Voltou ao escritrio e passou os olhos pelo livro de tcnicas de autodefesa psquica. O relgio deu as duas horas.

Espera a. O relgio deu duas horas antes de a Mrs. Sadler sair.. Pensou se teria imaginado o bater das horas. Olhou para o relgio e viu que marcava dez minutos depois das duas.

Raios, foi imaginao minha. Voltou a ler o livro.
O relgio deu as duas horas. Daquela vez no fora imaginao sua.

Pensei que o Simon tinha exorcizado esta casa.
O relgio bateu novamente as duas horas. Os ponteiros marcavam, sem qualquer problema aparente, ao ritmo do tiquetaque do pndulo, catorze minutos depois das duas. Enquanto ela estava

A HERDEIRA                            249

a olhar para o relgio a porta abriu-se e o cuco saiu, gritando "Cuco! CUCO!"

Ests a tentar dizer-me qualquer coisa, Alison? Ficou  espera, durante mais vinte minutos, sem desviar os olhos do relgio; mas o cuco no voltou a aparecer e a meia hora foi assinalada por um toque de campainha.

Pensei que tudo isto tivesse terminado. Aquele episdio fez com que se sentisse sobressaltada durante toda a tarde, f-la sentir-se impaciente com dois clientes, embora tentasse disfarar e, mais tarde, sentiu-se zangada pelo facto de o seu escritrio, o seu refgio pacfico, ter sido perturbado. Que queria a Alison dela? Recusava-se a ser expulsa do seu gabinete to cheio de paz.

E no entanto qual fora o conselho que dera a Evelyn SadIer? Podeficar em casa com ofantasma ou... Foi no carro at ao centro comercial mais prximo e comprou um presente para o Nick Beckenham e para a Margot, visto que no iria com Joel a Sacramento para o casamento e, quando regressou, sentou-se para escrever uma carta de felicitao e em que lamentava no estar presente na cerimnia.

Nessa tarde, s seis horas e vinte n-nutos, o relgio de cuco no gabinete de Leslie deu a meia-noite. Resolveu lev-lo para o

relojoeiro na manh seguinte. Mas porque no teria o relgio dado horas erradas naquela tarde, enquanto os clientes l tinham estado?

s sete horas e vinte minutos o relgio voltou a dar a meia-noite. Furiosa, Leslie ergueu a cabea e gritou:

- Vai-te embora, Alison, agora este gabinete  meu! Nessa altura sentiu-se satisfeita por as paredes serem  prova de som. E se a Emily a tivesse ouvido? Mas durante o resto do sero o relgio s deu horas quando devia e Leslie, acostumada ao som, mal deu conta desse facto.

Captulo dezasseis

O nevoeiro regressara ao mar. Uma onda de calor inesperada trouxera a So Francisco temperaturas altssimas, que quebravam todos os recordes. Ao pequeno almoo, Emily estava com o

aspecto cansado de quem no dormira e bebericava, com ar ausente, a tisana de limo.

- Acho que vou tentar convencer a Rainbow a ir nadar hoje. Podamos levar a Timmie  praia - disse. - Este Vero no me tenho divertido l muito. O Simon fica furioso se passo um dia

sem tocar...

- Estuda um par de horas de manh e vai  praia depois sugeriu Leslie. - O Simon compreenderia. Uma pessoa que s trabalha... sabes a moral dessa histria.

- Est bem. - O telefone tocou e Emily lanou-se na direco do aparelho, escutou um momento e estendeu-lhe o auscultador, com um suspiro.

-  para ti, Les.
- Doutora Barnes? No me conhece - disse a voz mas tenho uma coisa muito importante para lhe dizer.

Oh, meu Deus. Ser o telefonema annimo do dia? Disse, cheia de suspeitas:

- Se calhar est a telefonar  doutora Barnes errada.
- A senhora vive na casa da Alison Margrave, no vive?
- Bem, sim, sou eu, mas...
- Ento  para si - disse ela -, mas no posso falar disto ao telefone. Posso ir a falar consigo?

Leslie suspirou.
- Quer marcar uma consulta? Se  esse o caso deve telefonar para o meu servio de atendimento e fazer uma marcao.

- No, no, no leva mais de cinco minutos...

A HERDEIRA                             251

Cada vez mais curioso!
- Muito bem - disse. - Tenho meia hora livre entre as onze e as onze e meia, pode vir c a essa hora. - J era o segundo dia consecutivo em que perdia o tempo destinado  jardinagem; acrescentou aborrecida:

- Entre pelo porto, estarei no jardim. Falara a Leonard Hay na possibilidade de ele poder ter escolhido a situao difcil em que se encontrava devido a uma situao criada numa outra vida; infelizmente ele usara aquela sugesto como mais uma outra sada que encorajava o guio da sua vida, cujo texto se resumia a "a culpa no  minha". Como tudo o que alguma vez acontecera a Leonard, tambm o seu karma era algo que lhe acontecera contra a sua vontade. Quer a situao dele resultasse desta ou doutra vida, a tarefa de Leslie era convencer Leonard de que, pelo menos nesta vida, ele era respegsvel pelas suas decises ou pela falta delas.

As onze horas Leonard foi-se embora e ela vestiu uma bata por cima do vestido. No tinha tempo para vestir umas calas de ganga. Estava  espera de outro cliente que chegaria s onze e meia, um rapaz adolescente cujos pais no conseguiam convencer que ir  escola era mais importante para a vida dele do que jogar jogos no computador.

Uma mulher pequenina, escura como uma cigana, de saia comprida, colares de missangas e braceletes, virou a esquina e

ficou no passeio, em frente  casa.

- Doutora Barnes?
- Foi a senhora que me telefonou esta manh? - Leslie ps-se de p para receber a visita. A mulher tinha o tipo de olhos que Leslie associava ao hipertiroidismo; pareciam ir saltar-lhe da cara.

- Sim, fui eu. Chamo-me Kathleen Carmody. A irm do meu marido j viveu nesta casa.

Leslie apercebeu-se subitamente da ligao.
- O seu marido  um dos scios da Manchester, Ames...
- Carmody e Beckenham. Sim,  verdade - disse ela. No sei se sabe, mas sou mdium...

- A minha irm falou em si. - Ela  simptica, dissera Emily, e pareceu-me honesta, s um bocado tonta.

- Bem, ento provavelmente sabe que eu nessa noite tentei contactar a Alison Margrave mas que ela no apareceu. Mas na noite passada apareceu-me e enviou-lhe uma mensagem.

Leslie ergueu as sobrancelhas mas limitou-se a dizer, cortesmente:

252                MARION ZIMMER BRADLEY

Isso  muito interessante. - Mentia com quantos dentes tinha na boca. - E o que  que ela tinha para me dizer?

- A mensagem foi esta, doutora Barnes. Disse: Diz  Leslie que no deve confiar naquele em quem confia. Ser que isto lhe diz alguma coisa?

- Sim, diz. - Subitamente sentiu na boca o sabor amargo da fria. - Quem  que lhe disse para me vir dizer isso?

- Ento, foi a Alison. Ela enviou-me uma mensagem...
- No  isso que eu quero dizer - disse Leslie. Quero dizer, quem  que lhe disse onde poderia entregar a mensagem?

- Ningum. Eu sabia onde a Alison vivia e, quando ela me

enviou a mensagem, clara como cristal, eu escrevia-a. Veja, est aqui. - Numa caligrafia muito clara, requintadamente elegante, uma caligrafia de outros tempos, estava escrito, Diz  Leslie que no deve confiar..

Aquilo era de mais. Mas no havia vantagem em acusar

aquela mulher que, no mximo, no passava de uma intermediria. Calculava quem estava por trs daquilo. Disse:

- Obrigada - e ficou  espera que Kathleen Carmody se

fosse embora. A mulher olhou para a garagem com uma curiosidade enorme a transparecer-lhe no olhar, com uma vontade bvia de fazer uma dzia de perguntas, mas Leslie aguentou-lhe o olhar e, passados instantes ela disse:

- Bem, obrigada, doutora Barnes, tinha essa mensagem para entregar e j a entreguei - e foi-se embora. Leslie ficou com o papel na mo sem saber se o havia de rasgar, soltando gri@os de fria, se havia de rir s gargalhadas. Tinha dito a Emily: E o meu telefonema esquisito do dia. Talvez devesse deixar as coisas assim mesmo. Pelo menos naquele dia o relgio tinha-se comportado normalmente.

Mas a ira continuava a assol-la enquanto foi para casa, esfregou as mos para as limpar da terra do jardim e vestiu o fato mais severo e mais profissional que tinha. Aquela questo resolv-la-ia com o verdadeiro responsvel.

A livraria estava, como ela desejara, quase vazia; no havia sinais de Colin, mas Claire estava por trs do balco. Quando Leslie entrou ela sorriu.

- Tive muita pena de no a ter encontrado no outro dia. Em que posso ajud-la, Leslie?

Lesfie cerrou os dentes perante a expresso an-gvel estampada no rosto da outra mulher.

A HERDEIRA                          253

Pode parar de tentar arranjar-me problemas - disse no seu tom mais brusco. - Eu tinha, realmente, uma impresso melhor de si, Claire.

- Leslie, que se passa? No sei de que est a falar!
- Suponho que no enviou  minha casa a sua amiga falsa mdium com um "aviso" muito conveniente contra o Simon Anstey9 Isto no  digno de si, Claire! - repetiu.

- Leslie, eu no fao a mnima ideia...
- E suponho que me vai dizer que esta  a caligrafia da Alison Margrave?

Ps o papel por baixo do nariz de Claire que o alisou e leu, empurrando os culos para a testa. Disse, passados instantes:

- A caligrafia de Alison? No fao a mnima ideia. Leslie, dou-lhe a minha palavra de honra, por tudo o que me  mais sagrado, que no sei de nada disto. - Devolveu-lhe a folha de papel. - Porque  que acha que isto se refere, necessariamente, ao Simon?

- Ser que devo supor que se refere  Emily? - perguntou Leslie ainda num tom tenso e hostil. - Se a Alison Margrave no tem nada de melhor para fazer do que andar a enviar mensagens a essa mulher Carmody, bem, acho que no tem grande gosto. Se ela me est a avisar em relao ao Joel Beckenham, o que eu duvido, porque ele  um dos scios mais novos na firma de advogados do marido da Mrs. Carmody e, portanto, eles devem saber que eu acabei com o Joel, ento a mensagem vem

com um atraso de cerca de um ms.

Claire dirigiu-lhe um sorriso p@rturbado.
- Isso no seria impossvel. As vezes numa previso bate tudo certo excepto o elemento tempo. Eles, do outro lado, parecem no ter noo nenhuma do tempo. Talvez o tempo s exista no mundo fsico. Conhece os trabalhos do doutor Durine sobre o tempo? O que ele diz  mais ou menos isto: o tempo existe simultaneamente, ns  que impomos uma estrutura linear aos acontecimentos porque  a nica forma de o crebro conseguir organiz-los.

- Temo que isso seja demasiado complicado para mim. A minha cabea funciona em termos de passado, presente e futuro. Mas que sentido poderia ter avisar-me para eu acabar uma relao com uma pessoa, um ms depois de eu o ter feito? - perguntou Leslie.

Claire encolheu os ombros.
- H, nesta rea, tanta coisa que no compreendemos.

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Lamento que pense que eu seria capaz de fazer uma coisa destas, Leslie. No sei realmente nada sobre isto. No vi a Kathleen depois da sesso de espiritismo que fizemos aqui na livraria.

- Lamento se me precipitei - disse Leslie. Deveria saber que Claire no era dissimulada. Ela dissera na cara de Simon o que pensava. Amachucou o papel. - Deite isto no seu cesto de papis. Suponho que isto  como os orculos; pode significar tudo e mais alguma coisa. Devo alguns livros ao Colin; o melhor  pag-los j.

Leslie no percebeu o que a acordara, ficou sentada na cama

a ouvir Emily gritar. Atravessou o trio a correr. Emily estava sentada na cama com os olhos muito abertos.

- Simon - gritou ela -, o Simon estava aqui... A janela, como j acontecera anterionnente, estava aberta de par em par, mas Leslie s via pedaos de nevoeiro.

- Foi horrvel - disse Emily a chorar. - Oh, Leslie, a cara dele estava a sangrar, foi medonho e tinha o peito coberto de sangue e a mo dele... a mo dele... - Ps a mo na garganta.
- Les, estava esmagada, era uma massa de sangue - oh, foi horrendo, horrendo - e depois desapareceu...

Leslie sentiu o sangue gelar-lhe nas veias. Que poderia aquilo significar? Emily estava a soluar.

- Achas que ele est ferido? Que morreu? Achas que o

avio dele caiu? Oh, Les, porque  que eu o vi assim?

Leslie sentou-se na cama, abraando-a. Sentia-se tonta e

assustada, mas tentou falar em tom confiante. - Tiveste um pesadelo, querida.

Se ele estivesse ferido, se tivesse morrido... tendo ns uma ligao to forte, certamente que eu o saberia...

- Escuta, Emmie - pediu ela com meiguice. - Ele disse que uma vez, quando estivera sob o efeito de sedativos e cheio de dores, se lembrava de... ter vindo at aqui. Em esprito. E deve ter sido isso.

- Mas... as mos dele... a cara.... o sangue... Lembrou-se do que a Claire dissera, que o tempo s existe no mundo fsico.

- Se calhar ele estava a ter um pesadelo... a sonhar com a altura em que teve o acidente - arriscou ela -, e tentou escapar vindo at aqui...

A HERDEIRA                           255

Mas que posso eu@fazer? Se ele aparece outra vez... Emily estava a tremer. - E to terrvel... no pode ser real...

Ouviu-se um rudo to alto que, por um momento, Leslie pensou tratar-se de um tremor de terra. Depois, com estrondo, os vidros da janela caram no cho, estilhaados. Emily gritou, aterrorizada. Ouviu-se um novo rudo de coisas a carem

e a serem despedaadas vindo do andar de baixo. Leslie vestiu o roupo e preparou-se para ir investigar. Emily agarrou-se a ela.

- Les, no, no, no vs! Pode ser um tarado, um assassino... Leslie apontou para os estilhaos de vidro no cho.
- Aquilo foi provocado por um assaltante? No Errunie; isto no  provocado por nada deste mundo. Vou ver l abaixo. Tem cuidado, no pises os vidros partidos... - disse.

Emily foi atrs dela.
- No fico neste quarto sozinha! Se ele volta...
- Tens medo do Simon, Emily? Talvez ele tenha vindo ter contigo porque precisa de ti - disse tentando reprimir o cime que sentiu imediatamente. Porqu a Emily e no eu? Enfiou os ps nos chinelos e correu pelas escadas abaixo, abriu a fechadura e saiu para a rua.

O jardim estava de tal forma coberto de nevoeiro que ela mal conseguia distinguir o caminho para a garagem. O odor a jasmim era pesado e hmido e ela viu, sem surpresa, que estava uma luz acesa no estdio, plida e tremeluzente; seria uma vela? Abriu o fecho. A porta no estava trancada. Tinha quase a certeza de a ter trancado antes de ter ido para a cama. Entrou, sentindo Emily imediatamente atrs de si. Ouviu o grito desesperado de um animal torturado mas, por instantes,  luz fraca e vermelha da vela, no conseguiu distinguir com clareza a silhueta que estava de p, com os braos erguidos em invocao.

- Simon! - gritou. - Simon, querido... onde ests? Que queres daqui? Oh, Simon...

Emily acendeu a luz. A sala estava vazia e deserta, com as cortinas amarelas a esvoaar ao ar repleto de nevoeiro, o manequim sem cabea, as paredes amarelo plidas imaculadas. A mquina de costura fora deixada aberta com uma fronha cor de ferrugem por acabar, dobrada em cima.

- Olha como as cortinas se esto a mover! - Emily afastou-as. O vidro estava partido e os estilhaos estavam no cho, num crculo.

Leslie disse, paralisada:

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Alguma coisa partiu este vidro. Qualquer coisa fsica. Talvez um tremor de terra?

- Queres que telefone para a Polcia para dizer que h aqui um tarado? - perguntou Emily.

E dizemos-lhe que o professor da Emily, o meu amante, um pianista e concertista famoso, apareceu no quarto dela coberto de sangue. Estou mesmo a ver a cena.

- No me parece que isso servisse de alguma coisa. Vamos para dentro, Emily, vais constipar-te assim, descala.  melhor dormires comigo esta noite. Vamos cobrir as janelas com um cobertor e amanh chamamos um vidraceiro.

- Podes levar o teu colcho para o quarto de hspedes, se quiseres - sugeriu Leslie, mas Emily ainda estava a tremer com o choque.

- Importas-te que fique contigo? Estou assustada, Les. Muito assustada. Era o Simon, s que... parecia que estava a morrer.  o tipo de coisa que vs quando... - continuava sem saber como diz-lo -, quando fazes aquelas coisas psquicas? Achas que tambm estou a ficar assim? - Ela estava muitssimo relutante em entrar no quarto onde os vidros estavam partidos.

- No podemos deixara janela escancarada, Emmie!
- E de que  que serve fech-la, se h coisas que podem partir o vidro daquela maneira? E, de qualquer forma, a janela d para o jardim, no d para a rua. E tu prpria disseste que nada de humano conseguiria trepar at ali - argumentou Emily recuando para o trio e Leslie acabou por ceder. - Tratamos disso quando houver luz do dia.

A camisa de dormir de Emily estava hmida com o orvalho do jardim. Leslie emprestou-lhe uma lavada; enquanto a vestia ela viu a vela e foi inspeccionar o altar.

- Valha-me Deus, o que  esta tralha toda? Leslie no se sentiu capaz de lhe explicar.
- Noutra altura, est bem, Emmie? Agora dorme. Emily enrolou-se virada para a parede e, dentro de pouco tempo, Leslie ouviu a respirao regular que era sinal de que a rapariga adonnecera; mas ela ficou acordada a olhar para a luz vermelha da vela em cima do altar. Simon! Ansiava por ele de tal forma que sentia uma dor fsica, mas estava cheia de medo. Se aquela viso horrenda fora mais do que o resultado dos nervos tensos da rapariga, se fora mais do que uma viso com origem nervosa, se Smon estava algures ferido ou morto, ela poderia

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no saber de nada at ler a notcia nos jornais. No seria informada. No havia nenhum lao legal, nem mesmo o reconhecimento informal de uma ligao ao homem que adorava.

Tentou abrir o esprito, era a primeira vez que o fazia conscientemente, e tentar alcan-lo; mas no aconteceu nada e, enquanto ficava a olhar paralisada para a escurido, lembrou-se de uma frase dita em tom casual por uma das personagens de um dos livros que Claire insistira em lhe emprestar:

"Os meus dons psquicos em geral eram de confiana, excepto, evidentemente, em questes que me dissessem respeito pessoalmente."

Portanto, aquela experincia no era pouco habitual; ela estava pessoalmente envolvida e estava a tentar encontrar o caminho, de forma ainda insegura, neste mundo novo. Mas para que serviriam os seus dons psquicos se s a avisavam de perigos relacionados com pessoas que no conhecia e que no lhe diziam nada? Ficou acordada, a olhar para a escurido e desejando poder chorar sem acordar a irm mais nova, at o cu comear a clarear.

Foi ento que comeou, sem se ter apercebido que adormecera, a sonhar.

Estava, como agora, deitada num quarto escuro, com uma nica luz vermelha furando a escurido. Havia formas negras que pairavam em torno de si, com capuzes e vestes compridas, embora no as conseguisse ver com clareza. O cheiro a incenso era horrvel e sufocante e ouvia o som de cnticos, mas no conseguia mexer-se porque... sim, estava atada de ps e mos e nem sequer podia gritar porque estava amordaada. E recordava-se de, num momento de insanidade, por uma razo qualquer, ter consentido naquilo, mas no conseguia lembrar-se porqu.

E que acontecer quando isto acabar? Vo meter-me naquele carro cinzento e largar-me na baa? Ele assegurou-me que tudo isto no passava de um jogo, uma provao de terror para gerar energias psquicas. Nunca me recusei a participar nesse tipo de J.ogos perversos antes! Mas agora acho que isto  a srio...

Humilhao e terror, dissera ele, umaforma de gerar energias psquicas. Tal como o ritual da missa gera poder quando celebrado devidamente com todos os requintes por um padre ordenado, tambm esta missa negra gera um poder ainda mais forte, porque se dirige sforas no reconhecidas que esto na

origem da nossa civilizao, poderes ancestrais cujas formas de pensamento construram milhares de anos de poder, de poder ainda no reclamado e que jaz inerte, aguardando que algum o

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consiga atingir Mas pensei que ele estivesse s a arranjar um

bom pretexto para mais um dos seus jogos sexuais perversos. Ele prometeu que no me magoaria, mas conheo os homens como ele o suficiente para saber que iria ser bastante violento.

To violento assim? Sentiu mos em cima de si, agressivas, exigentes, uma dor forte e ardente; no eram dedos nem unhas - no, era qualquer coisa metlica, um alicate -, apertavam-lhe e cortavam-lhe o peito. Foi assolada pela agonia da dor, No, no, eu no vou to longe, mas a mordaa era mais apertada do que aquilo que ela pensara. Habitualmente usava alguns truques para manter a mordaa solta sem que eles se apercebessem, suficientemente solta para poder gritar se algum fosse longe de mais. Sentiu o sangue escorrer-lhe dos mamilos. As cordas mantinham-lhe as pernas abertas e sentiu que algum a untava com leo e olhou para cima, desesperada, debatendo-se, ainda que soubesse que o facto de se debater contribuiria para o seu falhano, e contribuiria para o vrtice fsico, que via atravs da escurido carregada de electricidade, e que crescia em torno de si.

Eu disse que queria morrer. Deus sabe que j tentei vrias vezes, com comprimidos, com doses excessivas... mas no assim. A golfada de sangue quente no ventre nu, o grito do gato morbundo, aquela mo horrenda a explorar-lhe os rgos genitais, a esfreg-los com o sangue do gato. Qualquer coisa, e no era um vulgar rgo masculino, qualquer coisa invisvel e fria e tremenda, rasgava-a e desfazia-a por dentro.

Depois sentiu a faca no pescoo e Leslie olhou para cima e viu, num momento de tremenda clareza, o rosto de Simon e acordou aos gritos.

Durante todo o dia o sonho alastrou dentro de si, influenciando o seu humor. Era absurdo, no, era obsceno acreditar que todos os pesadelos fossem vises psquicas. Depois de uma noite como a que ela passara era normal ter pesadelos e, juntando s divagaes patetas sobre magia negra - fosse l isso o que fosse
- da Claire e os pesadelos de Emily com o acidente de Simon
- porque certamente fora disso que se tratara -, no era para admirar que ela tivesse pesadelos, provavelmente sados de alguma novela pornogrfica de m qualidade que tivesse lido quando era mais nova e que entretanto tivesse bloqueado o seu consciente.

A HERDEIRA                            259

A recordao com que ficara do pesadelo parecia sada de um livro de Sade ou do Jardim da Tortura do Mirabeau e o seu subconsciente colocara a aco na garagem e adicionara-lhe o rosto de Simon.

Tinha que tratar dos vidros partidos, tanto no quarto de Emly como na garagem. Era um alvio ter que resolver um problema material e ela varreu os vidros, maravilhando-se com a pequena dimenso dos estilhaos - as janelas no tinham sido partidas, mas pulverizadas - e, assim que as lojas abriram, telefonou para um vidraceiro. Cancelou as consultas dos clientes da manh dizendo-lhes que houvera um pequeno tremor de terra que atingira aquela rea e que lhe provocara danos nas janelas. O vidraceiro apareceu com uma prontido gratificante. Disse-lhe, enquanto trabalhava, que aquele tipo de coisa era comum, os midos atiravam pedras s janelas, e que deveria arranjar uma

fechadura para o porto do jardim. Disse-lhe tambm que ela deveria ter deixado os estilhaos que tinham ficado presos s molduras das janelas para ele tirar. Ficou satisfeita por ele no ter visto os vidros pulverizados.

s cinco e meia viu Susan Hamilton a tentar tirar Christina de dentro do carro. A criana era muito magra, com o cabelo castanho e escorrido penteado com um risco ao meio; as calas de ganga ficavam penduradas no corpo franzino. Quando Leslie a vira pela primeira vez, um ano antes, ela parecia-se com qualquer outra criana pequena. Mas agora tinha um caminhar estranho, balouando-se para um lado e para o outro, quase aos solavancos, sem parecer reparar onde punha os ps, e a cabea virava-se sobre os ombros, olhando para um stio e depois para outro sem motivao aparente. Susan agarrava-a por um brao, mas a outra mo agitava-se sem propsito.

- Chrissy, anda l, s uma boa menina. Leslie, desculpe, mas no consegui mesmo arranjar quem me ficasse com ela. Ela pode ficar sentada no trio... no vai perturbar ningum.

Susan no deveria ter que se preocupar com a filha durante a hora de terapia.

- Ela pode ir para o jardim; no h l nada a que ela possa fazer mal ou que lhe possa fazer mal a ela, a no ser que se arranhe num espinho...

- Ela no se chega perto de nada. Nunca a vi mexer em nada que estivesse vivo, nem mesmo nas plantas dos vasos da escola. Nem sequer mexe nos brinquedos macios, s brinca com os duros.

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Leslie hesitou, recordando-se dos arbustos.
- Talvez seja melhor ela ficar c dentro. H l fora uns

arbustos que so venenosos, se ela pusesse na boca urna folha ou uma baga...

Susan sorriu um sorriso triste.
- Visto que nunca consegui que ela comesse outra coisa que no pur de batata ou papas de trigo, sem ter que fazer uma

grande briga, no me parece que ela ponha na boca qualquer coisa estranha. E se pusesse... - Os lbios apertaram-se-lhe mas no completou a ideia.

Mas voltou a mencion-la durante a sesso de terapia.
- No consegui deixar de pensar - no que eu deseje que ela morra - como a minha vida seria mais fcil se acordasse um dia e descobrisse que ela no passara de um sonho mau. Ela era uma menina to linda quando tinha.... a uns dois anos. Nunca uma coisa destas me passou pela cabea. J vira crianas com

deficincias mentais ou com atrasos, e eram crianas grotescas e a Chrissy era to doce e linda, com uns olhos grandes e as pestanas muito compridas. E agora... parece-se... - Susan lutou para o conseguir dizer - com todas as outras crianas atrasadas. Ela  minha e para mim ser sempre bonita, mas ela ... ... feia. Vazia. - Susan estava a soluar.

- Esto lenos de papel na mesa atrs de si - disse Leslie.
- Tento dizer a mim prpria que tem que haver uma razo para isto ter acontecido connosco. S que no consigo imaginar que razo ter sido nem qual o bem que nos poder trazer a qualquer uma de ns. E quando falou nos arbustos venenosos, no consegui evitar pensar que seria misericordioso se alguma coisa lhe acontecesse antes de ela crescer e eu j no conseguir cuidar dela e ter que a... a internar numa instituio.

Leslie manteve a voz inexpressiva.
- Tem andado a pensar nisso? - Mas o seu olhar desviou-se; ouvira um carro na rua e pareceu-lhe reconhecer o som

do motor. Um Mercedes cinzento estacionou em frente  casa junto ao velho Toyota azul de Susan e Simon dirigiu-se  porta.

Ele virou no caminho e Leslie percebeu que no entrara pelo porto da frente mas atravs do jardim. Ou estaria a imagin-lo outra vez? Bem, ela podia estar com alucinaes do Simon, mas

no do carro dele. Forou-se a concentrar-se em Susan Hamilton.

- No,  evidente que no quer pensar j numa instituio do Estado. No h pressa, pois no?

- A minha famlia tem feito presso sobre mim. Dizem que

A HERDEIRA                             261

eu devia intern-la antes de ela ser to grande que eu j no possa cuidar dela. Mas eu ainda no desisti dela, Leslie, no consigo!

H sempre milagres. Poderia ela no entanto, em conscincia, encorajar Susan a esperar por um milagre?

-  isso que sente que a esto a pressionar para fazer, Susan?

-   Tratei de tudo para que ela fosse para uma colnia balnear especial este Vero. Vai fazer outra vez terapia da fala e o programa  bom... pedi o dinheiro emprestado  minha irm e

sabe Deus como conseguirei pag-lo, e tive a sensao de que a Margaret s mo emprestou para me fazer a vontade e com esperana de que eu recuperasse o juzo em relao  Chrissy. Disse que eu ainda era nova, podia deitar tudo isto para trs das costas e esquecer que ela alguma vez existiu, casar outra vez e ter mais filhos. E esta colnia...  a primeira vez que ela vai ficar longe de mim. A Margaret diz que ela no vai dar pela diferena, que no se aperceber nem se ralar com isso. Talvez eu queira ver como ela reage a estar longe de mim... e  claro que no paro de ter esperanas que a colnia lhe faa algum bem, que a ajude a tratar de si minimamente, a fazer progressos. Eu sei que h ali inteligncia. Se algum conseguisse alcan-la. s vezes ela faz coisas que demonstram que tem alguma inteligncia...

Susan repetiu as mesmas histrias que a faziam sentir que, algures, no ntimo de Christina, existia inteligncia  espera de que algum conseguisse alcan-la. Deveria ela encoraj-la naquela esperana? O ciclo de culpa, medo, esperana renovada e desespero estava a destru-Ia.

- O que quer que faa, Susan, no deve ser pressionada a

tomar qualquer deciso at saber o que  melhor para si e para a Chrissy - era o nico conselho que podia dar, tal como j fizera centenas de vezes antes. Quando a sesso acabou foi com Susan  procura da filha no jardim. As calas e a camisola da criana estavam cobertas de terra, mas parecia no se ter ferido e estava de joelhos, na relva, a brincar com umas pedrinhas. Susan teve que se esforar para a erguer do cho e lev-la, a debater-se, para o carro; Christina ficou inerte, como se fosse invertebrada, deixando-se escorregar das mos da me. Viu Simon sair da garagem e ficar a olhar durante alguns minutos para aquela batalha; Susan ergueu os olhos e viu o homem alto e elegante que a observava e corou. Depois conseguiu agarrar em Christina e lev-la para o carro e Leslie apressou-se a ir ter com Simon. Ele sorriu e puxou-a para si, mas continuava a ver Susan a tentar

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meter Christina dentro do carro e apertar-lhe o cinto em torno do corpo inerte. Quando Susan fechou a porta do carro ele aban                                o                                 u a cabea e virou-se para Leslie.

- Ol, querida. Tiveste saudades minhas? - Foi para dentro de casa com ela e, quando entraram a porta da cozinha, Emily deixou cair um copo com leite e gritou.

- Simon! Ests vivo! - Lanou-se nos braos de Simon e

comeou a chorar.

- Pronto, pronto, mas o que  isto? - Afastou a rapariga e ficou a olhar para ela, com as mos sobre os seus ombros. Estendeu um brao a Leslie para a abraar tambm. - Tive saudades das minhas duas meninas, mas porqu rebentar em pranto quando me vem?

- Oh, foi horrvel... vi-te, todo a sangrar... e a tua mo era uma massa de sangue... e depois o vidro partiu-se e caiu da janela.
- Emily estava quase incoerente. - Eu tive a certeza de que aquilo queria dizer que estavas morto num stio qualquer..

Simon acariciou-lhe o cabelo meigamente com a mo saudvel.
- Estou vivo e de sade, melhor do que nunca - e depois Leslie reparou e deu um grito.

- Simon, a tua pala! - Era a primeira vez que o via sem a pala; em vez dela tinha uns culos com uma lente baa. Largou Emily dando-lhe uma pancadinha meiga na cabea e puxou Leslie, beijando-a longamente. Ela sentiu o calor que se desprendia dele; ele estava ali, era mesmo ele e estava vivo. Apertou-a contra si, com a mo enluvada nas costas dela e ela sentiao crescer contra si.

- Os culos do cabo da minha imagem romntica, amor?
- Oh, no, no era isso que eu queria...
- Vou recuperar a viso deste olho. No totalmente, apenas metade da viso normal. Mas, no incio, eles nem sequer me podiam prometer que eu conseguisse distinguir a luz da escurido, por isso isto j me parece um milagre.

- Oh, Simon, isso  maravilhoso!
- Mas no  um milagre - recordou-lhe ele com um sorriso. - Nada  impossvel para a vontade treinada. - Soltou-a com relutncia. - Agora explica-me a razo de todos estes gritos e prantos; porque haveria eu de no estar vivo e perfeitamente bem e satisfeito por regressar a casa?

Ento ele pensava naquela como sendo a sua casa. Pela primeira vez na vida Leslie quase sentiu que seria capaz de

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se casar; sentia que se ela o desejasse ele lhe faria essa proposta e percebeu, pela primeira vez, o que a sua me quisera dizer quando dissera, Se fizer as coisas como deve ser, uma mulher consegue que qualquer homem case com ela. Mas ela desprezava essas manhas femininas, no era verdade? Emily estava a contar a viso que tivera com todos os porrnenores, incluindo os vidros despedaados. Mas Leslie no disse nada em relao ao pesadelo obsceno. Simon, caloroso e sorridente, abr%ado a ambas, era demasiado real para que lhe pudesse contar. E demasiado querido.

- Estou a morrer de fome, meninas. Vamos cozinhar qualquer coisa ou vamos comer fora?  como quiserem. Isto...
- ergueu a mo e tocou ao de leve na armao dos culos merece uma celebrao. Por outro lado, devamos planear uma celebrao adequada. Posso ajudar a fazer o jantar se prometer que no perco a cabea?

Emily riu-se dele e disse:
- Vamos fazer assim. Tu fazes de chefe cozinheiro e fritas os crepes e eu fao de copeira e arranjo os morangos!

Enquanto se encaminhavam para a cozinha, a rir, a memria do pesadelo desapareceu, como se nunca tivesse existido. Quando ele tirou uma omeleta perfeitamente tostada do forno e a ps ao lado de uma taa com pepinos em iogurte, levemente aromatizados com um toque de caril, parecia que nunca tinha estado ausente; era difcil lembrarem-se de que ele nem sempre fizera parte das suas vidas. Os crepes estavam empilhados e polvilhados com acar, debaixo de um pano quente; o molho bem cheiroso estava a apurar num pequeno tacho. Ele j tinha um lugar  mesa, em frente a Emily, que era o seu.

- Quem era aquela mida horrvel que estava no jardim hoje  tarde? - perguntou Emily. - Mmmm, isto est bom, Simon'- acrescentou, comendo uma garfada de omeleta.

- Chama-se Christina Hamilton.
- No sabia que trabalhavas com crianas deficientes mentais, amor - disse Simon.

- No trabalho; a me  que  minha doente. A Susan no conseguiu encontrar quem lhe ficasse com a Christina e trouxe-a e eu achei que ela ficaria mais satisfeita a brincar no jardim do que sentada no escritrio.

Emily franziu o nariz.
- Pobre mulher, com uma criana assim! Numa sociedade corri o mnimo de decncia far-se-ia qualquer coisa relativamente

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s crianas idiotas! Uma pessoa v uma coisa assim e fica petrificada com a ideia de ter filhos.

- A Christina no  idiota, nem deficiente mental, tanto quanto sabemos - respondeu Leslie moderadamente, embora no tencionasse ser levada a discutir uma cliente. - No fala, talvez tenha um problema cerebral.  capaz de ser inteligente mas no consegue falar nem comunicar.

- Acho que uma mulher nessas condies tem que ter problemas - disse Emily - Uma criana assim devia estar internada! - Estremeceu e Leslie lembrou a si prpria que Emily era

muito nova.

- A Chris no  violenta nem perigosa; porque haveria de ser internada numa instituio?

- Porque - disse Emily com veemncia -, ela nunca vai ter a mnima utilidade para a sociedade. Uma das poucas coisas de que me recordo das aulas de cincia poltica  de um velho qualquer ter dito que o maior dos males era consumir sem produzir e isso certamente que se aplica aos deficientes.

- Acho que quem disse isso foi o Karl Marx - disse Leslie.
- No quero saber que tenha sido o Hitler ou o prprio diabo em pessoa - argumentou Emily -, no faz com que no seja verdade.

- No me parece que possamos fazer generalizaes dessas disse Leslie. - Como  que podemos saber? As crianas como a Christina podem ter um valor qualquer. Eu certamente que no quero a responsabilidade de dizer que no tm valor nenhum.

- Ests a tentar referir-te quele velho conceito sentimental da reverncia pela vida? - perguntou Emily. - No tenho reverncia nenhuma pela vida quando assume uma forma daquelas!

- Existem precedentes para o que a Emily est a dizer disse Simon. - Em Esparta a lei exigia que as crianas que no fossem perfeitas fossem expostas na montanha e no fossem criadas. A sociedade funcionava melhor assim. A sobrevivncia do mais forte  a lei que regula todas as criaturas  excepo dos humanos. Na nossa grande sabedoria, aquilo a que chamamos civiliza o, determinou que possamos levar connosco passageiros inteis e ajudemos os incapazes a sobreviver. No sei se estamos certos ou errados. Poder a vida ter algum significado para uma criana assim?

Leslie no sabia e admitiu a sua ignorncia.
- Fico satisfeita por no me caber a mim decidir - disse. Francamente no sei o que sentiria se ela fosse minha filha.

A HERDEIRA                            265

No Reich de Hitler foi decidido que as crianas assim deveriam ser mortas para bem do Estado. Tendo em conta as outras decises que eles tomaram, no me parece que queiramos seguir esse precedente, nem mesmo tendo - era Esparta? - tambm como exemplo. Passas-me os pepinos?

- E porque  que havemos de nos estar a preocupar com uma criana idiota que nem sequer  problema nosso? - perguntou Emily. - Simon, conta-nos a tua viagem.

- No consegui que o agente marcasse o meu concerto de regresso no Carnegie Hall - disse Simon. - Queria que o meu mdico lhe fornecesse mais provas de que seria capaz de actuar.

Leslie j conseguia ler razoavelmente os indcios do estado de esprito dele, apesar da sua expresso se manter impassvel. Havia um pequeno tremor dos maxilares e uma certa palidez nas rugas junto ao nariz. Ele estava zangado.

- Suponho que isso leva tempo - disse Leslie, fazendo um comentrio que lhe pareceu inofensivo. - Sirvo os crepes, Simon, ou queres servir tu?

- Eu fao as honras. - Os crepes deslizaram para os pratos; muito quentes e cobertos com o molho cheiroso dos morangos. Emily provou o dela e franziu o nariz.

- Ugh! Lamento, Simon, mas prefiro-os sem Grand Mamier. Quem  que precisa de licor no molho dos crepes?

Simon sorriu a Leslie por cima da cabea de Emily.
- Quero dizer,  muito agradvel, Simon - disse Emily mas deve ser um daqueles paladares de que se aprende a gostar. Conta-me l do teu agente. O filho da me no te quer arranjar um concerto no Carnegie Hall? Bem, que se lixe, h mais agentes no mundo!

- Eu prefiro provar-lhe que ele est enganado - afirmou Simon. - E verdade que esta mo no est a recuperar a sensibilidade como eu esperava, mas estou a trabalhar numa tcnica nova, auto-hipnose...

- Pensei que isso fosse treta - disse Emily, provando mais uma vez o@ crepe e empurrando o prato para o lado.

- No  mais treta do que outras tcnicas; com a hipnose eu poderei libertar-me dos medos e das inibies que me impedem de deixar que a minha mo atinja todo o seu potencial disse Simon. - Porque, como toda a gente que foi educada numa sociedade materialista, fizeram-me uma lavagem ao crebro para que aceitasse as suas limitaes. Tambm era capaz de ser uma tcnica til para ti, Emily.

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- Hipnose? Eu? Ests a brincar! Para qu?
- Tem sido usada nos jogadores de tnis - disse-lhe Simon. - Porque toda a gente se refreia, de uma forma ou de outra, de libertar toda a sua energia. Ensina-nos a usar capacidades que temos em reserva e que, em geral, no esto acessveis ao nosso consciente. Alguns corredores da maratona aprendem a entrar num transe ligeiro quando correm. Usas a hipnose no teu trabalho, Leslie?

- s vezes. - Se um doente tinha dificuldade em falar de um problema ela usava, ocasionalmente, uma hipnose ligeira para aliviar a dor na resoluo do trauma. Era especialmente til para as vtimas de violao. Estava tambm familiarizada com a aplicao daquelas tcnicas em atletas, mas nunca pensara que poderia ser til para um artista.

Mas quereria ela pr mesmo a hiptese de ele hipnotizar a Emily?

Disparate; se eu no puder confiar a Emily a Simon, ento no h ningum neste mundo a quem eu a possa confiar Censurou-se asperamente por permitir que um pesadelo obsceno desvirtuasse a confiana ou o amor.

Mais tarde, assistiu  primeira sesso de hipnose, acalmando assim os seus receios. Simon ordenou a Emily que se reclinasse numa cadeira e relaxasse.

- Agora recua. Recua mais e mais at  altura em que nunca ouviste falar de um piano, mas os teus dedos retero toda a tcnica e todo o conhecimento. Escuta com toda a ateno.

Ps um disco na aparelhagem; ouviu-se o som do cravo de Alison Margrave, leve e delicado, tocando a melodia frgil que ela j ouvira naquela sala. Os braos de Leslie cobriram-se de pele de galinha, eriando-lhe os plos. Quando a msica deu lugar ao silncio, Simon disse baixinho:

- Agora, com a tua tcnica e o teu saber, vai para o cravo e toca aquele minuete, Emily. Toca-o como o prprio Bach o teria tocado.

Emily dirigiu-se ao instrumento. Leslie conhecia demasiado bem a forma como o hipnotismo funcionava para esperar que ela parecesse - hipnotizada - ou sonmbula, mas a ateno dela estava de tal forma concentrada, que os ignorava por completo. Sentou-se, flectiu ligeiramente as mos e comeou a tocar num estilo que era muito seu e que, no entanto, soava muito diferente de tudo o que Leslie j a ouvira tocar; era um estilo delicado, ela

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tocava as teclas com uma nova sensibilidade. Quando terminou entrelaou as mos no colo com um sorriso distante.

- Agora vais acordar e recordar-te de tudo perfeitamente e, quando tocares o cravo da prxima vez, lembrar-te-s dessa sensao - ordenou Simon -, e sers capaz de chegar a essa parte da tua mente sempre que te sentares em frente de um cravo. Agora vou contar at cinco e quando eu disser cinco vais acordar e sentir-te perfeitamente repousada e relaxada. Um, dois...

Quando ele disse "cinco" Emily virou-se imediatamente para ele.

-   Eu no estava hipnotizada. Ouvi tudo o que tu disseste. S que, subitamente, eu soube como  que o cravo devia soar, foi s isso e soube tambm como consegui-lo.

Leslie, que i  ouvira aos seus clientes o mesmo tipo de protesto, limitou-se a sorrir.

-  claro - disse Simon. - Eu limitei-me a ensinar-te como te deves concentrar numa certa parte da tua conscincia e

das tuas memrias, como te deves concentrar a um nvel mais profundo; s isso. A Leslie pode confirmar-te que a imagem comum de um zombi a ser programado pela vontade de outrem  um disparate. Toda a hipnose  auto-hipnose; s tu que o fazes a ti prpria. S te mostrei como aceder a essa parte de ti.

- Oli, obrigada! - Ela lanou-se nos braos dele e abraou-o. - Simon, comeo a pensar se o cravo no vir a ser mais importante para mim do que o piano!

- No vais saber isso durante muitos anos ainda, amor. Continua a trabalhar - admoestou-a e deixou-a em frente ao teclado.

- Leslie, vamos tomar um copo a qualquer lado ou... coisa do gnero?

Ela sabia o que ele queria. Os olhos brilhantes dele disseram-lho. Disse a Emily:

- No esperes por mim para te ires deitar, posso chegar tarde - e foi buscar o casaco.

Ao acordar no quarto de Simon, l no alto, rodeado pelo nevoeiro como se fosse a ponte de uma nave que percorresse o espao interestelar, enrolada no roupo dele enquanto tomavam o pequeno almoo bem acima da Golden Gate, o pesadelo pareceu-lhe novamente obsceno e intrusivo. No entanto teria que ser

encarado por ambos; tinha a experincia suficiente para saber o

caos que aquele tipo de coisa podia provocar se se reprimissem os medos e as suspeitas.

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Isto  tudo um disparate, no  Simon? Toda aquela conversa da Claire sobre a magia negra? Tenho a certeza de que essas coisas no existem. Por isso de que  que ela estava a falar?

Simon voltou a encher a chvena com o ptimo caf de filtro que fizera.

- Queres natas? Sim, estou a tentar engordar-te um bocadinho - disse. - Gosto das minhas mulheres um bocadinho mais rechonchudas. - Depois recostou-se, com a mo enluvada a apertar automaticamente a bola teraputica que tinha no bolso do roupo.

- Esta coisa da magia negra e da magia branca faz parte de uma controvrsia escolstica muito antiga - disse. - Eu e os meus estamos de um lado e Colin e os seus amigos - e temo que tambm a Alison - esto do outro.  a controvrsia antiga como o mundo entre a teurgia, que defende que os poderes menos conhecidos do crebro humano s devem ser usados com objectivos religiosos, nunca para proveito prprio, e a taumaturgia, que no aceita esse tipo de limitaes. Os que so adeptos da teurgia, como por exemplo o Colin, definem qualquer tentativa de usar esses poderes em proveito prprio como pertencendo ao caminho da mo esquerda; quer dizer, ao universo material e no a um qualquer exaltado plano astral. Em resumo, eles dizem que um mgico que realmentefaa qualquer coisa, em vez de deixar tudo nas mos de Deus,  um mgico negro. Um mgico branco, segundo eles, limita-se a estudar estas coisas e a aprender sobre elas, mas no faz qualquer tentativa de as usar. Evidentemente que Colin - eu adoro o velhote mas ele no passa de um velho impostor beato - mandou a Claire instalar os pentagramas para proteger a casa de Alison e, se usarmos as suas propri as definies, isso  magia negra; quem  que ele pensa que est a enganar?

Ergueu a chvena e bebeu. A outra mo nunca parou de apertar a bola que tinha dentro do bolso.

- Estou a ter dificuldade em habituar-me a estes culos. Nunca usei culos. Dizem que, provavelmente, podero adaptar uma lente de contacto ao olho doente quando eu actuar em palco; ficar-me- melhor. Ou achas que adopte um aspecto mais professoral e arranje uns culos com armaes de osso? Bem, ento? -- Pousou a chvena e ficou a olhar para ela.

- O Colin, a Claire e a Alison, que o seu Deus a possa ter em paz, diriam que eu, enquanto taumaturgo - prefiro o termo a "mgico negro" procuro impor a minha vontade ao Universo em vez de me entregar a ele, como os budistas fazem na sua busca do Nirvana. Mas, para o bem e para o mal, nasci no Ocidente e

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no procuro a Luz do Oriente. Isso, admito-o sem problemas. Quanto aos meus outros crimes, eles acusam-me de usar a magia negra para me recuperar depois do acidente em vez de implorar humildemente a Deus que me restitusse a viso e o uso da mo. E, sem dvida, que te disseram que sacrifiquei animais. Aquele gato branco, por exemplo. Fiquei chocado quando me disseste que o tinhas visto no jardim e, ainda mais, quando eu prprio o vi. Porque eu matei-o. Eu prprio o matei, ritualmente, no meu altar, no espao que tinha transformado em templo pouco depois da morte de Alison. - Ergueu os olhos e cruzou-os com os dela. Ela apercebeu-se de que o olho doente estava enevoado.

- Isso choca-te, Leslie? Porque  que  pior sacrificar um animal do que, por exemplo, convert-lo em bife ou em presunto e fazer o sacrifcio  mesa do pequeno almoo? Partindo do princpio,  claro, de que tenho direitos sobre o animal? Eu nunca roubaria o animal de estimao de algum para o sacrificar. Isso no seria magia honesta; no seria um sacrifcio para mim. Eu conhecia aquele gato desde pequenino e, acredita-me, custou-me imenso mat-lo e foi a minha prpria dor, bem como o ectoplasma libertado pelo sangue recentemente vertido, que criou o

poder do ritual.

Leslie respirou fundo. Ela devia ter calculado que ele teria uma explicao para tudo aquilo.

- Continuo sem perceber, Simon. Porque  que tu havias de... que  que ganharias em sacrificar um animal?

- Como j disse: poder - disse-lhe ele. - Comecei h muitos anos. J ouvira falar destas coisas; iria aceit-las sem obter provas? J tinha feito experincias com animais h muito tempo e, ainda no tinha sado da adolescncia, quando o Colin me deu o sermo nmero um sobre os pecados da curiosidade intelectual; tenho a certeza que to dar a ti, se lho pedires. - Leslie sentiu que a sua expresso a traa e Simon assentiu. - J deu? Bem me parecia. Eu respeito os princpios ticos do Colin, mas no a tentativa que ele faz de os impor s outras pessoas;  sua maneira ele  to intolerante como um padre catlico. Eu fiz experincias e tirei notas dignas de qualquer cientista; hei-de mostrar-tas, um

dia destes. Como poderia eu acreditar sem verificao? Sacrifiquei galinhas; descobri que eram estpidas e tm um sistema nervoso demasiado incipiente. Criava poder com o derramamento de sangue, mas podia obter o mesmo efeito com flores e utilizando um determinado incenso. As plantas tambm libertam pequenas quantidades de ectoplasma.

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Pensei que o ectoplasma fosse uma inveno de falsos mdiuns. - A Emily falara-lhe de um tecido coberto com tinta luminosa.

- No,  muito real. Um dia demonstro-te como  verdade, de uma forma que estou disposto a submeter a qualquer teste que queiras fazer. Como j disse, sacrifiquei galinhas, mas eram demasiado estpidas. Mamferos de sangue quente - coelhos que comprei numa loja de animais - eram mais teis e os ces e os gatos eram melhores ainda. A minha clarividncia evoluiu de forma espantosa. Mas, quando satisfiz a minha curiosidade intelectual, deixei-me disso, at depois... - hesitou, respirou fundo e disse - at depois do acidente.

Ps a mo em cima da mesa soltando a bola que deixou cair e descalou a luva com a tala. Depois tirou os culos; a cara cheia de cicatrizes e o olho doente tornaram-se mais chocantes quando ele se virou para a luz. Ela no reparara que num dos lados da mo mutilada se via a descolorao de um enxerto cutneo.

- Olha para mim, Leslie. Olha verdadeiramente para mim.
- Simon... - comeou ela a protestar.
- Tu vs-me com os olhos do amor - disse ele, debruando-se sobre a mesa para a acariciar -, mas eu vejo-me como

sou. Um dolo do palco e dos ecrs... e isto! - A amargura da voz dele fez com que ela se encolhesse de dor.

- Disseram-me que eu perderia - perderia completamente a viso no olho esquerdo - disse ele, brutalmente. - Que no havia forma de o salvar. Disseram-me que era possvel que o

enxerto no resultasse e que o dedo mnimo, que fora completamente decepado pela primeira falange - estendeu a mo e ela viu por onde o dedo fora cosido -, poderia, apesar da microcirurgia complexa a que foi submetido, nunca mais recuperar o movimento e a sensao, quanto mais a flexibilidade. Podia at recusar-se a recuperar e voltar a cair. Depois, disseram-me que era provvel que, com este tipo de ferimentos, eu viesse a perder a viso tambm no olho direito; recomendaram-me que estudasse Braille e me preparasse para ficar totalmente cego! Foi isso o que a cincia mdica me disse, Lesfie.

- Mas estavam errados - murmurou ela.
- Eles no estavam errados - afirmou ele implacavelmente. - Foi nessa altura que eu disse a mim prprio que nada  impossvel para a vontade treinada. Eu aprendera a fazer magia sozinho - mais do que simples oraes, mais do que o seguimento da tradio de humilde aceitao do meu karma! E por

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isso sacrifiquei o gato da Alison... - Respirou fundo.

- Nesse mesmo dia... nesse mesmo dia, Leslie, vi a cabea deste dedo ficar outra vez cor-de-rosa e soube que a circulao estava novamente a fazer-se. Tinha conseguido o poder suficiente para isso. E, tambm nesse dia, quando fizeram um novo exame

ao meu olho, disseram-me que o olho direito sobreviveria e que era capaz de recuperar alguma viso no esquerdo, pelo menos a

suficiente para distinguir a escurido da luz. Consegues condenar-me? Achas que a Alison regatearia, realmente, a vida de um gato para conseguir tudo isto, Leslie?

Ele acredita mesmo nisto. Mas como pode ele ter a certeza de que no recuperaria, de qualquer maneira? Mas, perante a

intensidade da voz dele, ela s conseguiu dizer:

- Oh, no Simon! Como poderia algum que te amasse...
- O Colin f-lo - disse num tom implacvel. - Tenho a certeza de que eles pensam que eu estou condenado e se soubessem do resto... - Com a mo saudvel agarrou a dela, com fora.

- Leslie, conseguirias continuar a confiar em mim se soubesses o pior? Se eu te dissesse que o sacrifcio do gato no foi o

suficiente? E que no me fiquei por a?

- No ests a falar de... sacrifcios humanos...
- Eu sabia que tu reagirias com horror - retorquiu ele com ferocidade -, mas essa  uma reaco meramente emocional. A vida de um gato tem certamente mais valor do que a de alguns homens! Aquele assassino que ajudaste a apanhar em

Sacramento, aquele que tinha morto quatro raparigas... o que  ele seno um sacrifcio humano no altar de um conceito a que se

chama Lei e Ordem? Eu preferiria usar abundantemente os recursos deste mundo com o gato da Alison, do que permitir que aquela criana idiota que vi no teu jardim continue a sugar as energias e as emoes dos pais!

Aquele era um ponto de vista que ela j lhe ouvira anteriormente. No concordava com ele, mas sabia que havia gente que acreditava apaixonadamente na sua correco. Dificilmente poderia culpar Simon por pensar assim. Como podia ela saber se

as suas resistncias  ideia no seriam meras indulgncias sentimentais? At mesmo a Susan Hamilton se sentia assim, de vez em quando. No era ela, Leslie, quem tinha que viver com a

Christina Hamilton.

- Que pensas daqueles viciados que se deixaram apanhar na armadilha, que tm que roubar coisas no valor de trezentos dlares todos os dias para trocar pela herona que precisam para

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meter nas veias ou ento sofrer as torturas do inferno? E que dizer das mulheres na mesma situao, cuja nica opo  ir com os mais baixos e mais perversos dos homens? Mulheres que, muitas vezes, j tentaram matar-se uma e outra vez mas que nunca o conseguiram? Os mdicos arrancam-nas  sepultura e depois enviam-nas de volta para o mesmo mundo que as explora e

emporcalha! Leslie, se eu me visse numa situao dessas, ficaria grato ao que quer que fosse que me enviasse de volta para a

fonte do ser, para que pudesse renascer num corpo mais forte e

talvez mais saudvel e pudesse viver uma vida sem tanta agonia! - Na voz dele transparecia a ferocidade.

- Escuta-me, meu amor. Escuta-me com a razo e no com as emoes. Uma vida que era um enorme fardo para ela. Uma vida de que ela se queria descartar. Eu no fiz nada que no gos~ tasse que algum fizesse por mim. Eu disse a mim prprio que se ficasse cego e perdesse a mo, rezaria para ter a coragem de pegar numa lmina e cortar daqui - disse com veemncia -, at aqui. - Com a ponta do dedo cheia de cicatrizes passou por cima da veia jugular. - E enviar-me de regresso aos Senhores do Karma, rezando apenas para que voltasse novamente no corpo de um msico.

Eu queria morrer Os comprimidos, aquela dose excessiva. Mas ele agora agarrava-lhe os pulsos com ambas as mos.

- Minha amada, foi nesse mesmo dia que eles me disseram que, seguindo o tratamento, poderia recuperar a viso no olho esquerdo e que a minha mo... Tu j me ouviste tocar. No to bem como tocava antes, mas agora eu sei, sei que voltarei a tocar, no ficarei reduzido a ser uma no entidade cega e aleijada, s apalpadelas pela vida fora, um aleijado a dar lies a gente sem valor para se manter fora das estatsticas do desemprego! Condenas-me? Se isto  magia negra, meu amor, ento regozijo-me com ela! Sou o herdeiro de grandes mestres, como John Dee, Crowley... e tenho orgulho na minha herana!

Leslie estava a chorar. Como poderia conden-lo, mesmo que ele estivesse iludido? Como poderia ela avaliar o que ele sofrera?

- Oh, Simon, Simon - chorou ela. - No quero saber do que tenhas feito. Eu amo-te, amo-te, amo-te.

Captulo dezassete

Mas pagou cara aquela aceitao balbuciada, revivendo-a vezes sem conta nos pesadelos que lhe povoaram o sono no ms seguinte. Por vezes era arrastada para o templo para ajudar Simon a sacrificar o gato branco, doutras vezes para sacrificar a prpria Alison que tinha o rosto de Claire. Por vezes era ela prpria, outras vezes Emily, quem jazia manietada sobre o altar. Ou ento uma parte dela observava o que se estava a passar sem conseguir dar voz aos protestos, enquanto outra parte de si empunhava a faca. Comeou a temer o sono mas, ao acordar, dizia com veemncia a si prpria que a vida de Simon, a sua sade, certamente que valiam a vida de uma prostituta drog@da e desconhecida. Se  que aquilo alguma vez tinha acontecido. As vezes, nos seus sonhos, ele dizia que tudo aquilo fora apenas um teste, tentando ver se ela seria capaz de aceitar o inqualificvel. E ela aceitara-o. Que havia ela de fazer? Chamar a polcia? Que impediria Simon de se rir e dizer que tudo no passara de uma partida incrivelmente bizarra? E, evidentemente, ele nunca mais confiaria nela.

E ao acordar via Simon, sabendo que o que quer que ele tivesse feito ela o amava e que, se a polcia viesse mesmo  procura dele, ela o protegeria. E sempre que olhava para os olhos dele dava por si a sentir-se grata por os dons psquicos dele, quaisquer que fossem, no inclurem a capacidade de lhe ler os pensamentos.

Por vezes, na sua actividade profissional, j tinha encontrado casos assim. Mulheres que se agarravam a homens, racionalizando o seu amor por criminosos, por homens que tinham cometido todos os crimes, desde bater na mulher at ao assassnio, homens que estavam a cumprir penas de priso perptua em San Quentin. Mulheres que se tinham mantido fiis a homens que no valiam nada. Podia sempre dizer a si prpria que Simon era diferente. No entanto, sempre condenara essas mulheres, sentindo que elas

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eram vtimas de uma enorme falta de auto-estima e que se tinham convencido a si prprias de que no mereciam melhor do que aqueles criminosos. E agora ela era uma dessas mulheres. Ou no era? Ou Simon era um louco, um mentiroso extraordinrio, ou ento tinha cometido, pelo menos numa ocasio, um assassnio premeditado.

Leu as pginas do livro de Alison sobre a reencarnao. Estariam ela e Simon ligados por esse tipo de lao? De que outra forma poderia ela explicar tudo isto? Quisera que Simon nunca lhe tivesse contado nada daquilo, quisera ter a inocncia de Emily. Era a mulher do Barba Azul, que abrira a porta proibida e agora tinha que viver para sempre sabendo a resposta  sua pergunta fatal.

Na manh do dia do casamento do Nick Beckenham rasgou a folha da agenda que tinha na secretria e viu a nota que tomara, marcando a data. Teria ela acreditado, alguma vez, que amava o Joel? Teria ela, com a sua inexperincia, pensado que aquilo que partilhavam era sexo satisfatrio? Nessa rea tinha passado a um nvel de conscincia totalmente diferente. Era, pensou, quase como se tivesse vindo virgem para Simon.

J no acreditava em coincidncias e no ficou surpreendida quando Emily, comendo uma fatia de queijo cheddar com uma das tostas que Simon introduzira na cozinha delas, a chamou ao telefone dizendo, com a boca cheia:

-  aquele polcia simptico que tu conhecias em Sacramento.

- Leslie? - A voz de Nick, tal como ela a recordava.
O Joel diz que no vens ao casamento. Lamento muito. Eu gostava muito da ideia de te ter como cunhada, tu sabes.

- Oh, Nck, lamento. - Envergonhada, disse uma das coisas em que passara a acreditar ao viver naquela casa. - Em certo sentido tu s meu irmo; nada pode mudar isso. Seremos sempre amigos. - Talvez para alm desta vida. Que outra explicao haveria para coisas como o dom de Emily ou o amor  primeira vista?

- Disso, no h dvida - respondeu ele. - Quando eu entrei para a Polcia havia l um velhote que me costumava dizer, "A nossa famlia -nos dada por Deus, mas graas a Deus por Ele nos deixar escolher os amigos." Mas teria sido bom ver-te.

- Tu e a Margot podem ficar aqui em casa da prxima vez que vierem a So Francisco - ofereceu ela.

- Obrigada, amor, somos capazes de aceitar essa oferta.

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Olha, Leslie, uma amigo meu, do Departamento da Polcia de Frisco - como todos os que no eram de So Francisco insistia em chamar Frisco  cidade -, pediu-me o teu nome e eu dei-lho... Tudo bem?

No estava tudo bem. Ela continuava a sentir relutncia em fazer aquele tipo de coisa, mas sabia agora que no podia recusar.

- Fico  espera que eles me telefonem - disse, com resignao.

- Agradeo-te muito, Les. Escuta, tenho que me ir embora. Ela sentiu-se tremendamente sensibilizada por ele lhe ter telefonado logo num dia como aquele. Mais do que quaisquer palavras, esse acto confirmava que partilhava com ela o sentimento de que, de alguma forma, estavam ligados.

- D um beijo meu  Margot, Nick. Desejo-lhes a ambos toda a felicidade do mundo. Quem me dera poder estar a.

Se era verdade que os pensamentos tinham substncia e ser, ento sabia que uma parte de si estaria l, vendo Nick casar com

a sua amiga.

Nessa tarde Simon ia dar uma aula do curso avanado e convidana-a a assistir, mas ela tinha dois clientes cujas consultas no podia cancelar e ele levou a Emily. Pela primeira vez na sua vida vira o seu nome na coluna das bisbilhotices sociais; mas no se importou. Um msico famoso com uma elegncia corsria supunha que se referiam  pala, se bem que ele j no a usasse tem sido visto por a com uma senhora nova; mas ser a Senhora Misteriosa quem ele quer, ou ser que quer a irm adolescente a quem acompanha com igual entusiasmo? Ou ser que procura a segurana nos nmeros? Quem ser afinal o pau-de-cabeleira de quem?

As pessoas que no tinham nada de melhor para ler do que este tipo de coisa sempre lhes tinha feito confus o. Ele traria a

Emily de volta  hora do jantar; parecia gostar tanto da cozinha daquela casa como da cozinha, moderna e elegante, do seu apartamento. Talvez ela fosse com ele e passasse l a noite... a ideia encheu-a de um sentimento delicioso de antecipao, mas ignorou-o com severa disciplina; tinha que falar com a Judy Attenbury, que estava novamente a perder peso de forma sistemtica e inexorvel.

Talvez os transexuais fossem as pessoas mais resistentes  terapia logo a seguir aos anorxicos e pelas mesmas razes: acreditavam que estavam certos e que o Mundo estava errado. Que relao curiosa de causa e efeito levaria, nesta ou em qualquer

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outra vida, um homem a acreditar inabalavelmente que era realmente uma mulher aprisionada num corpo masculino, ou uma

adolescente a matar-se  fome, por vezes literalmente? Afinal o que  que a psicoterapia sabia da mente humana? Leslie pensou

se a psicoterapia saberia alguma coisa em relao ao que quer que fosse. Ela prpria sentia que no sabia.

Estava a ter, apercebeu-se, um ataque muito srio de insegurana e no havia vantagem nenhuma em ceder-lhe. Mesmo assim, sentiu-se aliviada quando a cliente seguinte, uma dona de casa recentemente divorciada e que tentava encontrar uma nova

vida, depois de ter passado vinte anos a criar a sua identidade a partir de uma casa impecvel e dos filhos educados na perfeio, telefonou a desmarcar a consulta. Leslie consultou a agenda para encontrar outra hora a que pudesse receber a mulher e depois foi para o jardim. Continuava a encontrar flores que no conhecia nos cantos mais recnditos e o cheiro das plantas sob o sol de Vero era es tonteante, com as abelhas a zumbirem por sobre os arbustos fragrantes e os colibris, como pequenos helicpteros, pairando e mergulhando em direco s madressilvas. Encontrou uma

tesoura de podar bastante pesada e comeou a cortar os espinhos dos arbustos. Tinha duas horas antes da consulta da Susan Hamilton.

No jardim pairava uma sensao de paz, com as folhas verdes a reflectirem a luz em torno de si. Havia ali muito verde, sobretudo quando se levava em considerao o facto de a cidade ter sido construda em cima de dunas de areia. Mas cada uma daquelas folhas, lembrou-se, incluindo as plantas exticas de Golden Gate Park, tinha sido trazida para ali pelas pessoas e cultivada flor a flor, folha por folha. Haveria ali algum ensinamento a colher? Que nem tudo podia ser deixado a cargo da natureza? Teve uma viso breve da cidade espalhando-se, nua, sobre as

dunas de areia at ao mar.

Deitou as folhas, espinhos, caules e vagens que cortara dos arbustos, para dentro de um saco resistente e atou-o com segurana. Talvez devesse ir ao abrigo dos animais buscar um gato para habitar aquelejardim. O jardim parecia precisar de um gato. Talvez a Claire lhe pudesse dar um gato branco; Frodo dissera que, com frequncia, ela tinha ninhadas para dar e ficaria contente por encontrar um bom lar para um dos gatinhos. No, um gato branco no, ela no era a Alison; tinha a casa de Alison e parecia ter herdado os seus clientes, mas sobre tudo isso sobreporia o seu prprio temperamento e os seus prprios gostos. Arranjaria

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um gato preto, como aquele a que Colin chamara Monsenhor, ou um gato listado ou ento um cor de laranja. Conhecia umas pessoas que viviam nas colinas de Berkeley que tinham uma famlia de gatos laranja, com vestgios de gato selvagem e cujo macho tinha disseminado centenas de gatinhos laranja pelas colinas fora.

Carregou o saco do lixo at ao porto da frente, para junto do lato do lixo, tentando visualizar um gato laranja a passear pelo jardim ou deitado debaixo do limoeiro. Parou ao p do porto. Um carro-patrulha, preto e branco, parara em frente da casa e um agente uniformizado dirigiu-se  porta.

- No est ningum em casa - disse ela. - Estou aqui no jardim. Que se passa, senhor guarda? -A sua primeira reaco, como acontecia com todos aqueles que j tinham vvido uma tragdia, foi medo; a Emily sara com o Simon - ter-lhe-ia acontecido alguma coisa?

O polcia bem constitudo veio at junto dela com uma agente jovem, vestida de caqui, a seu lado.

- Eu costumava conhecer esta casa - disse ele -, estava s a verificar se estava novamente habitada. A senhora  a amiga do detective Beckenham, no ? Eu sou o Joe Schafardi.

Ela reagiu, automaticamente, com retraimento, embora j tivesse dito a si prpria que aceitava aquele seu dom.

- Sim, conheo-o - disse ela cautelosamente. A rapariga estava a olhar em tomo do jardim.

- Este  um dos jardins mais bonitos da cidade. Fico contente por ver morar aqui uma pessoa que cuida dele - disse. Viveu aqui uma mulher durante mais ou menos um ms, mas parece-me que ela nunca veio ao jardim. A raz o porque realmente parmos aqui foi porque eu queria pedir um limo; quando a

doutora Margrave aqui vivia costumava dar-me limes, e ao passar ocorreu-me que deve haver alguns na rvore e, se ningum estivesse aqui a viver, s ficariam a apodrecer. Mas, evidentemente, que se a casa j est ocupada...

- Sirva-se. - Leslie indicou os ramos carregados de limes. Tinham mais limes frescos do que aqueles que Emily conseguiria alguma vez usar a fazer limonada. Ela e Simon tinham estado a pensar fazer doce de limo. - Leve os que quser; fico satisfeita por no ficarem a apodrecer.

A agente dirigiu-se ao limoeiro e escolheu cuidadosamente trs grandes frutos redondos trazendo-os de volta para o porto. Entretanto o agente Schafardi disse:

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A Miss Margrave era uma velhota muito querida.  engraado ter vindo viver para esta casa; ela s vezes costumava colaborar com o nosso departamento, sabe.... Talvez o sargento Beckenham lhe tenha contado? Como  que se costuma dizer? A verdade  mais estranha do que a fico. Foi ela quem nos disse quem era o assassino no caso Zebra, sabia? S no lhe pudemos tocar por razes polticas. Eu nunca tive grandes esperanas nessas coisas do psiquismo, mas a polcia de Berkeley veio ter com ela, segundo ouvi dizer, por causa do rapto da Patty Hearst...

- Vieram c por alguma razo em especial? - Leslie percebeu que tinha sido desagradvel, mas a rapariga disse:

- Bem, sim. Temos o caso de um desaparecimento... j fizemos tudo o que a rotina manda, mas precisamos de saber por onde comear a procurar.

Leslie apercebeu-se de que aquela era uma repetio de um dos seus pesadelos. Agora iam fazer-lhe uma pergunta sobre uma prostituta drogada e no fazia ideia do que lhes iria dizer mas o agente comeou a falar-lhe de um rapaz, um estudante da Universidade Pblica de So Francisco, que desaparecera do seu apartamento sem deixar rasto, sem deixar qualquer mensagem ou pista do que estava a pensar fazer, na vspera dos exames finais. Era um bom estudante e no havia razo para que estivesse apreensivo. Tambm tinha deixado a moto abandonada.

Leslie voltou a respirar lentamente, s ento se apercebendo de que estivera a reter o ar nos pulmes.

- Farei o que puder. Como  evidente no posso prometer nada.

- Quer ir ao apartamento dele? A senhoria quer voltar a arrend-lo, mas eu pedi-lhe que esperasse mais uma semana para o caso de ser preciso levar l algum... se tivssemos alguma ideia, se soubssemos se estamos a procurar a vtima de um assassnio ou se o desaparecimento foi voluntrio...

Leslie prometeu que iria e veria o que conseguia adivinhar. Quando os agentes lhe estavam a agradecer, viu que o carro de Simon estava a estacionar atrs do carro-patrulha e que ele estava a ajudar Emily a sair do carro e, enquanto esperava que ele se aproximasse, observou a sua expresso.

Ele tambm anda a viver nos limites, ocorreu-lhe e, mais tarde, perguntou-se o que teria querido dizer com aquilo. Depois Simon aproximou-se descontraidamente do porto onde ela estava com os dois agentes.

- Olha,  o doutor Anstey - disse o agente Schafardi.

A HERDEIRA                           279

Viemos c quando a doutora Margrave - tossiu -, faleceu. Tivemos que ir v1o ao hospital. Como est a sua mo? Vejo que j no a tem ligada. Pat - disse  colega -, este  o doutor Simon Anstey. A agente Patricia B allantine.

- Oh, vi um dos seus filmes, Mr. Anstey... - disse ela com excitao e Leslie sentiu o olhar rpido que lanou  mo enluvada, o que deu cabo dos nervos de Simon.

- Bem, vejo-a esta tarde na esquadra - disse o agente. Ou quer que lhe mande um carro-patrulha, doutora Barnes?

-No - disse Leslie -, eu tenho carro. Espero que consigam encontrar o vosso rapaz e espero que o encontrem vivo mas, como  evidente, sabem que no posso prometer nada. - Agradeceram-lhe novamente e foram embora com as mos cheias de limes e Leslie fez uma careta quando eles se afastaram.

- Parece-me que tenho uma nova carreira, quer queira quer no.

-   Porque  que deixas que eles venham ter contigo? perguntou Emily.

Leslie suspirou
- No sei. Suponho que  por ter pena deles - disse, mas sabia que a razo no era inteiramente essa. - Houve algum que disse que a razo de ter escalado o monte Evereste era por ele estar l. Acho que eu fao isto pelo mesmo tipo de razo.

Muitas coisas a tinham surpreendido ultimamente, e uma

delas era a calma com que comeara a aceitar esta parte da sua

vida. Havia equilbrio em tudo. Simon e Emily tinham a msica para oferecer ao mundo. Ela tinha um pequeno dom que podia oferecer aos perturbados e isso era muito pouco para justificar tudo aquilo que lhe fora oferecido a ela, portanto tinha que usar tambm aquele outro dom.

- Devamos apanhar os limes, j h tantos que esto maduros... - disse Emily. - Quero mesmo experimentar fazer doce. Achas que resulta se usarmos mel em vez de acar, Simon?

- Se usarmos mais qualquer coisa para o engrossar - disse Simon e ela foi para o p da rvore, gritando:

-   Queres ir buscar a escada  garagem?
- No -disse Simon.
- Preguioso! - disse ela, findo.
- No fao esse tipo de esforos com a minha mo protestou Simon, veementemente. - No tenho sensibilidade num dos lados; no saberia se estava a magoar-me ou no.
- Oh, Simon, desculpa - disse ela -, eu vou busc-la.

280                MARION ZIMMER BRADLEY

Correu para ir buscar a escada e Simon dirigiu um dos seus sorrisos tensos a Leslie.

- Queres passar a noite comigo no apartamento? Quando tiveres acabado essa maada na esquadra?

- No sei amor; eles querem que eu v ao apartamento de um rapaz para ver se consigo sentir alguma coisa em relao ao

desaparecimento dele.

Ele encolheu os ombros.
- Desaparecem todos os anos centenas de jovens e, a grande maioria, limita-se a mudar de endereo sem cumprir a formalidade de comunicar o novo. Espero que no seja mais do que isso.

Com a recordao do rosto de Juanita Garca debaixo da gua do canal, Leslie esperava o mesmo. Se o rapaz estivesse vivo, podia esquecer-se dele e a polcia tambm. No era nenhum crime mudar de casa sem dizer  famlia para onde se ia, e ela prpria se sentira tentada a faz-lo quando tinha deixado Sacramento. Se no fosse o Nick Beckenham, ela prpria podia fazer parte dessas estatsticas. Mas no, nunca faria uma coisa dessas a Emily. Aos pais talvez, mas no a Emily.

- A que horas  que l tens que estar? Temos tempo para ir jantar a um stio qualquer? _   Tenho uma cliente, Simon - disse ela com pesar. Acabo s seis e meia; depois tenho que ir  esquadra. Prometi.

- E eu no tenho qualquer direito sobre o teu tempo disse ele tocando-lhe no rosto ao de leve. - Temos que conversar sobre isso, Leslie. - Viu Emily que voltava com a escada debaixo do brao e ralhou com ela.

- Devias usar luvas; as tuas mos tambm so preciosas, filha. Vai j calar as luvas de jardinagem.

Emily obedeceu-lhe e Leslie perguntou-se se deveria sentir-se incomodada com aquilo. Emily nunca discutia ou argumentava com Simon. No entanto sempre fora uma lutadora, nunca fora do seu feitio conformar-se com a autoridade.

Talvez seja apenas uma fase que ela esteja a atravessar. Ajudou Emily a pr a escada contra o limoeiro e depois ouviu o telefone a tocar dentro de casa.

- No, tenho que ir atender Simon, pode ser o meu servio de atendimento.

Mas quando ergueu o auscultador houve um silncio to prolongado do outro lado que sentiu os msculos do estmago contrarem-se. Estaria aquilo a acontecer novamente? Por fim uma voz tmida disse:

A HERDEIRA                           281

Doutora Barnes, disseram-me que tinha ficado com os

clientes da doutora Margrave...

- Bem, no fiquei - disse Leslie bruscamente. - Informaram-na mal. Tenho os meus prprios clientes e, se quiser consultar-me, deve telefonar para o meu servio de atendimento e

marcar uma consulta.

- No, no  esse tipo de coisa... Disseram-me que me

podia ajudar, porque acho que me rogaram uma praga... A voz do outro lado da linha calou-se abruptamente, como se

a mulher, ao ouvir as suas prprias palavras tivesse tido a noo de quo louco aquilo soava. Em que mundo estou eu a entrar? Isto  esquisito mesmo para espiritualistas. Apeteceu-lhe atirar com

o telefone.

Quefaria a Alison? Furiosa, Leslie perguntou-se porque razo isso lhe interessaria, mas ouviu-se dizer:

- Conte-me o que se passa. - Seria o destino dela no passar de uma marioneta, uma substituta para o diabo da mulher que vivera e morrera naquela casa?

Colin, lembrou-se de ouvir Claire dizer, insistia que o nosso

livre arbtrio era absoluto. Podia dizer quelas pessoas que se

fossem embora e se danassem.

E, muito provavelmente, danar-se-iam mesmo, porque se

assim no fosse no a procurariam. Era aquilo que Alison lhe estava a dizer? A mulher do outro lado da linha estava a contar-lhe uma histria complicada que envolvia dinheiro que tinha pertencido  filha, mas que ela retivera porque no gostava do genro.

- Compreenda, doutora Barnes, eu tinha o direito, o direito legal de o fazer, porque o meu marido deixou-me o dinheiro a n-m e eu deveria d-lo  Margie seguindo o meu critrio, segundo as minhas escolhas, percebe? Mas eu no gostava do marido dela e disse-lhe que no lhe daria o dinheiro at ter a certeza de que no era do dinheiro que ele andava atrs. Acho que queria perceber se ele a amava o suficiente para casar com ela sem ela ter dinheiro.

Por qualquer razo ela pensou em Joel, que dizia que os

advogados existiam para apanhar os pedaos quando os seres

humanos deixavam de se comportar como seres humanos. Disse:

- Mrs.... Mrs....
- Tn-rian - disse a mulher. - Peggy Terman.
- Mrs. Terman, parece-me que aquilo de que a senhora precisa  de um advogado. Eu no percebo nada de testamentos...

- Oh, no, no  isso que eu quero dizer.  que, sabe,

282                 MARION ZINIMER BRADLEY

a Margie morreu e eu agora acho que ela voltou para me assombrar por causa de eu no lhe ter dado o dinheiro...

- E sente-se culpada por causa disso? - perguntou Leslie. A culpa podia assumir as formas mais estranhas e espantosas. Talvez tudo o que aquela mulher queria, ou precisava, era de uma boa terapia convencional.

- Gostaria de marcar uma consulta? Podemos discutir os seus sentimentos relativamente  sua filha e ao dinheiro...

- No, no  isso - interrompeu-a a mulher. -  que eu

sei o que fazer com o dinheiro. Conheo uma mulher. Depois de a Margie morrer, sonhei com ela trs noites seguidas, e esta mulher que eu conheo disse-me que o dinheiro estava amaldioado e que o podia purificar. Ela s quer cem dlares e diz que consegue tirar a maldio do dinheiro. Eu s tenho que lhe dar cem d lares e ela vai embrulhar e selar o dinheiro e depois diz umas rezas e deixa-o durante a noite  luz de umas velas sagradas na igreja dela. Deixa-o l trs dias e, quando abrir o pacote, o dinheiro j no ter problema nenhum...

- Espere um minuto - interrompeu-a Leslie. - Quem  essa mulher? - Mas quase no prestou ateno  resposta. No sabia muita coisa acerca de fraudes e contos do vigrio, mas at mesmo ela j tinha ouvido falar daquele esquema. Simplesmente custava-lhe a crer que, nas ltimas dcadas do sculo xx, ainda existissem almas suficientemente ingnuas para serem

apanhadas por um esquema daqueles.

- Mrs. Terman, no sabe que essa  uma das fraudes mais antigas do mundo? Entre os muitos nomes que lhe do, chamam-lhe a troca cigana; quando desembrulhar o dinheiro...

- Mas ela disse que eu prpria o podia lacrar - protestou a mulher. - Ela disse que nunca lhe chegaria a tocar; devolver-me-ia o pacote por abrir...

- E quando o abrisse - repetiu Leslie -, encontraria, provavelmente, folhas de jornal. N"    @iunca mais voltaria a ver a mulher ou o seu dinheiro outra v,         uma das vigarices mais velhas da histria.

- Mas ela pareceu-me to sim-@
- Parecem sempre.
- E s queria cem dlares... E, pensou Leslie, teria sido uma   forma barata de aliviar a conscincia de Peggy Terman; cem dlares.

- Nenhurn espiritualista de confiana pediria esse dinheiro repetiu Leslie.

A HERDEIRA                            283

No sabia quais eram os honorrios dos espiritual i stas, mas

sabia que os honestos cobravam honorrios razoveis e, de qualquer forma, era uma boa regra as pessoas manterem-se afastadas de quem pedia somas astronmicas em troca de quase nada.

- Mrs. Terman, devia ir  polcia apresentar queixa. Ao departamento de fraudes.

- Ia sentir-me demasiado estpida - disse Peggy Terman. Como  que eu ia contar-lhes a histria da Margie e do dinheiro? E agora... o que  que eu vou fazer com o dinheiro da Margie?

aquele era um gemido de desespero.

- Porque  que me pergunta a mim? Como  que sabe que eu no tenho um esquema desonesto qualquer para lho roubar?

perguntou Leslie. - Podia d-lo ao marido da sua filha...

- quele homem! Que fez ele para o merecer?
- Ou  obra de caridade que a sua filha preferia; ou pode atir-lo ao mar. Pode at oferec-lo  mulher que disse que a

livrava da praga - disse Leslie secamente. - Pelo menos a partir da no ia ter que se preocupar mais com isso.

Calculava ser aquela a razo porque havia tantos parapsiclogos fraudulentos: a relutncia generalizada que as pessoas sentiam em queixar-se de que tinham sido levadas, a cobia humana, a estupidez humana. Quereria ela associar-se a uma rea com gente assim? Talvez devesse deixar tudo aquilo para as revistas como o Enquirer. Conseguiu que Peggy Terman lhe fornecesse mais alguns pormenores. Havia um velho ditado que dizia que ningum era levado no conto do vigrio a no ser que andasse  procura de ganhar alguma coisa em troca de coisa nenhuma, e o que aquela mulher procurava era uma forma barata de aplacar a conscincia.

Desligou o telefone profundamente deprimida. A Susan Hamilton chegaria em breve. Os problemas humanos teriam, na

realidade, alguma soluo? Sentia-se esmagada pelo peso da misria humana. Porque razo teria ela querido fazer vida disto? Foi para o jardim, onde Simon e Emily estavam a apanhar limes, quando a carrinha de Frodo parou junto ao porto.

Ele entrou pelo jardim e Leslie pensou que aquele era o

ambiente dele, muito mais do que a livraria; parecia um duende muito alto.
- Ol, Frodo.
- Ol, doutora Barnes. Vim buscar a minha escada; deixei-a c no dia em que eu e a Emily andmos a pintar a garagem
- disse. - No a queria aborrecer com isso, mas o meu pai precisa dela. Oh, mas esto a us-la?

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Acho que eles esto mesmo a acabar - disse Leslie, sentindo que talvez aquele fosse um bom sinal. Tinha esperanas de que Emily e Frodo fizessem as pazes. Ele foi at junto do limoeiro e da escada e parou.

- Ol Emily. Oh... ol, doutor Anstey. Leslie pensou se Frodo teria a noo de quo transparente era

a sua expresso. Simon dirigiu-lhe um frio aceno com a cabea.

- Ol Paul. Paul. Ela perguntara-se, e ainda se perguntava, porque razo ele teria escolhido Frodo. Frodo explicou que precisava da escada. Emily disse:

- Sim, claro, no vamos precisar mais dela. Obrigada por no-la teres emprestado durante tanto tempo.

Ele meteu-a debaixo do brao.
- O jardim est muito bonito. Se precisarem de ajuda com...
- Oh, obrigada, mas na verdade temos tudo sob controlo.
-   Queres vir esta noite  East Bay para ouvir o Concerto Medieval? Vo tocar no Teatro Grego, e vo usar alguns dos instrumentos que eu constru. Vai um grande grupo e h espao suficiente para ti - disse ele.

O rosto de Emily iluminou-se.
- Oh, adorava! - exclamou, mas depois hesitou e olhou para Simon. Ele abanou ligeiramente, quase imperceptivelmente, com a cabea. - Mas na verdade no tenho tempo, Frodo. Obrigada, de qualquer maneira.

Ele avanou na direco deles com um olhar agressivo.

Escute, doutor Anstey, ela precisa da sua permisso para ir onde quer que seja? Adoptou-a, ou coisa do gnero?        o tutor dela?

-   Certamente que no - respondeu Simon prontamente. A Emily  perfeitamente livre de fazer o que quiser. Mas creio que tem outros planos para esta noite.

- Frodo, tenho que trabalhar. E se no consegues comportar-te de forma civilizada... - Emily interrompeu-se e disse, mais educadamente: - Lamento muito. Talvez noutra altura.

- Sim, est bem. Mas eu gostava que ouvisses alguns daqueles instrumentos. - Ficou por ali e no tirava os olhos de Emily.

Simon perguntou abruptamente:
- J tocas outra vez na orquestra, Paul?
- No, agora no. Quis tirar um tempo para perceber se era isso o que eu queria realmente fazer na vida - disse Frodo.

A HERDEIRA                              285

Gosto de trabalhar com as mos, investigar e construir instrumentos antigos. Devia perceber o que quero dizer, tendo a relao que tem com os cravos.

- No passa de auto-indulgncia - disse Simon. - Ests a desperdiar o talento que tens.

- Isso  o que o meu pai diz. Mas eu no me estou a ver a tocar numa orquestra e a ter que me mascarar com um fato de cerimnia de cada vez que tocar. O que  que vestir um smoking tem a ver com saber ou no tocar flauta? E tudo muito artificial, como se a msica fosse um recreio para ricos. No  isso que eu

acho que a msica deveria ser.

Simon encolheu os ombros.
- J ouvi essas teorias antes; no vou cair na arrnadilha de as apelidar de comunistas, ou mesmo de radicais. No passam de uma

lamentvel falta de disciplina. Que diferena faz a roupa que temos que usar? O importante  tocar-se o melhor que se sabe.

- Era exactamente isso o que eu estava a tentar dizer disse Frodo, frustrado. - O que  que interessa as roupas que tenho vestidas quando estou a tocar?

- Paul, parece-me bem que vamos ter que concordar em

discordar no que respeita a este assunto - disse Simon e deixou cair o ltimo limo dentro do cesto. - Emily, no posso carregar isto. Podes levar o cesto enquanto eu guardo as ferramentas dejardinagem?

- Claro, Simon. Frodo seguiu-a, tentando tirar-lhe o cesto e ser ele a carreg-lo.
- Emmie, posso telefonar-te mais tarde para falar contigo? A ss?

Ela baixou os olhos.
- Escuta, Frodo, no vejo razo nenhuma para o fazeres, est bem? E no sou nenhuma raqutica, posso muito bem levar a

porcaria do cesto!

Ele saiu pelo porto, com a escada debaixo do brao e muito zangado. En-ly levou os limes para a cozinha. Leslie seguiu-a e

viu-a secar uma lgrima.

- Eu sei que ele no  boa companhia para mim. Mas no consigo evit-lo, tenho saudades dele - disse rapidamente e

pousou os limes em cima da bancada enxugando os olhos. Foi para a sala de msica.

- Simon, ela precisa de amigos da idade dela - alvitrou Leslie quando Simon entrou.

- Lamento ouvir-te, logo a ti, defender a conformidade

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social. Emily  diferente; pensei que tivesses noo disso retorquiu ele, num tom rgido.

- Ela queria mesmo sair esta noite...
- Eu conheo muito bem o Paul Frederick. - Passados instantes ela percebeu que ele se estava a referir a Frodo.  um rapaz dotado, muito dotado, mas sem ambio, sem energia. Uma pessoa no pode ignorar um talento como o dele e esperar ser algum. Ele e a Emily vivem em mundos diferentes; pensei que percebesses isso. Ou achas realmente que aquele... aquele... hippie...  a pessoa certa para ela? - Foi para a sala de msica. Leslie ainda foi atrs dele, mas depois suspirou e desistiu. Teria que ser ele a fazer as pazes com Emily. No lhe cabia interferir. No lhe parecia que a falta de ambio e de energia para chegar ao sucesso fosse um pecado capital.

Foi abrir a porta a Susan Hamilton e fez as perguntas habituais sobre a sade e os progressos de Christina. No entanto, quando Susan j estava sentada no seu consultrio, fez uma pergunta estranha.

- Leslie, acredita que os sonhos tm um significado? Leslie nunca acreditara no evangelho freudiano acerca do valor dos sonhos, e muito menos na importncia exagerada que algumas novas tendncias da psicologia davam ao "trabalho dos sonhos". Ela tendia a acreditar que os sonhos eram simplesmente uma manifesta o do sono REM, um mecanismo de resoluo que ajudava a aliviar o crebro das tenses do dia-a-dia; eram a actividade esttica cerebral resultante dos reajustamentos e da recarga do sistema nervoso.

- Teve um sonho de que me quer falar, Susan?
- Sonhei com a Chrissy - disse Susan. - Ela estava perdida, tinha sido raptada. E quando eu a voltei a encontrar, j falava e disse, Onde est a mam? Quero a minha mam.

Ficou silenciosa durante tanto tempo que Leslie acabou por perguntar:

- O que  que acha que o sonho significa, Susan? - Evidentemente que sabia qual a interpretao que a maioria dos seus colegas lhe daria.

- Bem,  evidente que j antes tive sonhos em que ela falava. Sei que isso  apenas reflexo do meu desejo, sonhar que ela  da forma como eu gostaria que ela fosse.

Uma interpretao muito realista, pensou Leslie.
- Mas este sonho foi diferente. Foi por isso que perguntei se acreditava em sonhos. O que eu queria dizer era: acha que os

A HERDEIRA                             287

sonhos podem ser... qual  a palavra... premonitrios? Se podem dizer-nos o que vai acontecer. Porque eu comeo a acreditar que a Chrissy vai falar. E, no sei porqu, depois do sonho, fiquei a

pensar que no era s um reflexo dos meus desejos. No sei porqu, mas este sonho foi diferente.

- Consegue explicar como  que foi diferente? Um ano antes, Leslie no teria dado a mnima importncia quilo e teria classificado aquele tipo de raciocnio como pensamento mgico; uma forma que Susan arranjara para ignorar a evidncia palpvel do seu falhano em conseguir comunicar com a filha. Mas nos ltimos meses aprendera algumas lies bastante difceis. Estaria a Susan realmente a criar uma fantasia que a ajudasse a ignorar a realidade? E, afinal, o que era a realidade?

- Continua a acreditar num milagre, Susan?
- No num milagre - disse Susan com incerteza -, mas numa espcie qualquer de progresso. Ela parece prestar mais ateno ao que eu lhe digo. Parece perceber aquilo que lhe estou a dizer. Como no outro dia, eu disse-lhe para ir buscar o casaco porque estava na hora de ir para a escola e ela, em vez do casaco, trouxe a gabardina e eu nem sequer tinha reparado que estava a chover. Mas ela estabelecera a relao.

- Acha ento que o sonho estava a tirar concluses no seu inconsciente que, conscientemente, no era capaz de traduzir em palavras?

- Suponho que pode ter sido isso. Eu estava a arrumar as coisas dela para a levar para a colnia e ela pareceu perceber, pela primeira vez, o que se estava a passar.

- Ento talvez seja uma boa coisa ainda no ter tomado nenhuma deciso definitiva - observou Leslie, pronta para tentar explorar novamente os sentimentos de culpa de Susan relativamente ao intemamento da filha. Mas Susan tinha mais uma coisa para dizer.

- Ela parece que nunca me reconhece, e se ela no percebe a diferena entre estar em casa ou noutro stio qualquer, ento se

calhar eu devia fazer o que a Margarete diz e arranjar um lugar onde a pr, porque no lhe faria realmente diferena estar numa... instituio. Mas se ela percebe, se me reconhece, se quer estar comigo... ento talvez seja uma parte da Chrissy que est a

falar comigo, a tentar dizer-me para no desistir, para no perder j a esperana...

Aquela podia ser uma iluso perigosa. A explicao clssica era a de que Susan recusava aceitar as provas existentes relativa-

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mente s esperanas reais que podia ter no que dizia respeito  sua filha. Como poderia Leslie ter a certeza? Limitou-se a repetir aquilo que j dissera tantas vezes em sesses anteriores:

- No deve tomar nenhuma deciso at ter a certeza de conseguir viver com a deciso que tomar, seja ela qual for; at saber o que ser melhor, tanto para si como para a Chrissy.

O relgio de cuco deu a pequena badalada que assinalava a meia hora. Ela olhou para o relgio.

- Parece que esgotmos o tempo, Susan. Da prxima vez

podemos discutir..

Em teoria, pelo menos, era possvel que a mente existisse independentemente do corpo deficiente. O esprito encarcerado de Christina Hamilton poderia estar a usar aquele meio para comunicar com a me. Um sonho? Porque no?

Se isto continua assim, o melhor  aconselhar os meus clientes atravs de vises psquicas e envi-los para o astrlogo, ou dizer-lhes que peam para lhes deitarem as cartas de Tarot para resolver os problemas que tm.

Susan enfiou os braos nas mangas da camisola. O relgio voltou a dar as horas. Cuco! Cuco!

Mas  impossvel, gritou algo dentro de si, em protesto.
O relgio de cuco saltou da parede e caiu no cho; o cuco atravessou a sala pelos ares e embateu na parede oposta. Leslie ficou paralisada, mas Susan ps-se de p com um salto.

- Oh, Leslie, o seu relgio to lindo! Como  que caiu assim da parede?

Leslie forou-se a soltar uma gargalhada.
- Bem, temos duas hipteses - disse em tom descontrado. - Um tremor de terra ou o nosso querido poltergeist domstico. Escolha.

- No senti nenhum tremor de terra - observou Susan espantada -, mas suponho que pode ter sido resultado da vibrao provocada por um camio a passar na rua. - Apanhou os pedaos da caixa do relgio, enquanto Leslie apanhava o pequeno pssaro desfeito e ps tudo em cima da mesa, embora o relgio estivesse para l de qualquer esperana de recuperao.

Que ests a tentar dizer-me, Alison? Projectou aquele pensamento com todas as suas foras enquanto acompanhava Susan at  porta, mas no recebeu qualquer resposta. Ento ela ia ter com uma qualquer mdium ridcula mas no respondia  Leslie? Seria a herana de Alison Margrave uma nova esperana para os seus clientes? ou seria loucura?

A HERDEIRA                           289

Na sala de msica, Simon e Emily continuavam a tocar uma msica qualquer do Debussy, segundo lhe pareceu, o piano e a harpa a responderem um ao outro em ondas de som. Leslie percebeu que eles no se sentiam prontos a interromper a sesso musical para irem jantar. Mas ela no conseguiu forar-se a voltar para o escritrio onde os pedaos do relgio jaziam em cima da mesa. No conseguiu.

Captulo dezoito

Conseguiu recompor-se antes de Simon e Emily sarem da sala de rrisca. Que podia ela dizer-lhes? Pensava que Simon tinha exorcizado a casa. Seriam a sua prpria confuso e raiva que tinham feito regressar aquela exploso de actividade do poltergeist?

Simon levou-a at  esquadra, dizendo que ficaria  espera dela.
- Eu sei como isto  difcil para ti, amor. Lembro-me do efeito que costumava ter na Alison; quando ela via violncia, acabava por a interiorizar de alguma forma...

- Pelo menos nem sempre vejo tragdias. s vezes no passa tudo de uma farsa - disse ela e contou-lhe a histria de Peggy Terman, do dinheiro amaldioado e do conto do vigrio.

- Acho que, pelo menos, vou fazer queixa da mulher  brigada das fraudes.

-  evidente que deves faz-lo. Mas custa-me a acreditar.. esse truque j tinha barbas quando a Alison era uma rapariga. Lembro-me de ela me ter explicado esse e outros truques que os falsos mdiuns usam. E j se escreveu sobre eles dzias de vezes... O Greshman escreveu sobre isso no romance Nightmare Alley1. Custa-me acreditar que algum ainda caia numa coisa dessas em 1983! Como  que era aquela frase... foi o P. T. Barnum que a disse? Nasce um idiota por minuto...

- O meu pai costumava dizer: nasce um idiota a cada minuto e dois espertalhes para o esfolarem - concluiu Leslie.

Simon assentiu.
- Acho que era o H. L. Mencken que dizia que nunca ningum faliu por subestimar a inteligncia humana.

Aquilo desagradou-lhe, porque pensou que Joel poderia ter dito algo de semelhante.

' Viela do Pesadelo. ( N. da T)

A HERDEIRA                           291

Isto no deve levar muito tempo mas, como  evidente, no sei.... - E deixou que ele a acompanhasse ao interior da esquadra.

Ao menos, se j era capaz de criticar, nem que fosse s silenciosamente, o que Simon dizia, ento j no estava enfeitiada nem apalermada. Ou estaria a passar ao outro extremo e a ficar demasiado crtica em relao ao homem que dizia amar? Qualquer uma das ideias a deixava desanimada.

Patricia Ballantine, a jovem agente com quem falara nessa

tarde, foi buscar-lhe uma cadeira confortvel e estendeu-lhe um ficheiro. Antes de lho pr nas mos disse:

- Se for mais fcil ir ao apartamento dele... podemos lev-la l num instante.

- Primeiro vamos ver o que acontece com as fotografias
- sugeriu Leslie. Nas ocasies anteriores nunca necessitara de ter um contacto prximo. No caso da PhyIlis Anne Chaprnan bastara mesmo a voz da me da criana ao telefone. A agente Ballantine estendeu-lhe uma fotografia e Leslie passou as mos sobre ela.

Virou a fotografia nas mos, sentindo-se confusa, sem ter uma sensao clara de que algo estivesse errado.

- No sei o que quer com isto. Este homem est em casa com a... com a av. - No soubera o que ia dizer at ouvir-se diz-lo.

- O que  que eu te disse, Pat? - Era o rapaz forte, o agente Schafardi. - Eu disse que ela saberia. Perdoe-me doutora Bames, foi s um pequeno teste, uma espcie de reconhecimento. Essa fotografia que tem na mo  de um dos nossos detectives mais jovens.  que h videntes e videntes, e eu j sofro o suficiente com os tipos aqui da esquadra por recorrer a videntes, sejam eles bons ou no. Por isso pensei que, se a senhora fosse sria, no se importaria com um pequeno teste. A doutora Margrave era uma pessoa sria e eu calculei que a senhora tambm fosse.

- Obrigada... acho eu - disse Leslie secamente. Patricia Ballantine passou-lhe outra pasta. - Este  o nosso ficheiro sobre o Gus Hansen...  o mido que desapareceu.

Leslie teve sensaes confusas: um apartamento com paredes estucadas, um cartaz de um cantor rock qualquer, uma cama desfeita, o rosto de um rapaz novo, botas de montanha, uma

mochila cor de laranja...

- Encontraram a mochila dele? - perguntou, hesitante.
- Pat, algum fez referncia a uma mochila? - perguntou Schafardi e Patricia Ballantine abanou a cabea.

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Eu... no tenho a sensao de que ele esteja morto. Est algures com umas botas de montanha caladas, uma mochila... ele foi a um stio qualquer com uma rapariga. Acho que a rapariga est grvida. A gravidez s tem cerca de seis semanas...

- Algum disse que ele estava preocupado por causa de uma rapariga - disse Pat Ballantine.

- A rapariga  menor - ouviu-se Leslie dizer. - Ainda no tem dezasseis anos. Foi por isso que ele no disse nada  famlia. Compraram um mapa. Procurem... uma loja de campismo. Queriam conversar sozinhos, decidir o que fazer. Onde eles esto faz frio. Esto bem, mas no conseguem descer...

- Ele vive a cerca de um quarteiro de uma boa loja de desporto - disse Schafardi.

Leslie devolveu a pasta. No se tinha apercebido de que estivera a suspender a respirao at ouvir o ar a sair-lhe dos pulmes.

- Eles esto bem. Vo casar-se - disse e depois desapareceu tudo, ela no tinha ideia do que dissera, tudo aquilo ficou to distante como os hierglifos na parede de uma pirmide qualquer e perdera todo o significado. Teria ela estado to perto, sentido o medo do rapaz e o pnico da rapariga, a necessidade que eles tinham tido de ir para o campo e ficar sozinhos sem ningum a complicar ainda mais o problema que j tinham? A rapariga era mais nova do que Emily e estava grvida. Mas pelo menos estavam vivos e a tentar resolver os seus problemas. Ela no se apercebera do quanto temera ver, sentir, ser, mais um cadver.

- Tm muitos casos de pessoas desaparecidas? - perguntou.

- Um nmero razovel - disse Patricia Ballantine mas na sua maioria so daquele tipo que ningum procura e, se algum se apercebe de que desapareceram,  s para dizer "boa viagem". Pequenos vigaristas. Gente da rua. Prostitutas. Pessoas que ningum quer realmente saber se esto vivas ou mortas porque no so teis a ningum e muito menos a si prprias. Se aparecerem mortas num beco qualquer, pelo menos j no contribuem para as estatsticas da criminalidade.

Uma avaliao brutal mas, supunha Leslie, necessria. No ajudava muito a pessoa envolver-se emocionalmente. Pediu-lhes que lhe dissessem se encontrassem o rapaz e a sua namorada grvida. Conseguia visualizar a rapariga, sardenta, com o cabelo claro em desalinho, com sapatos de montanha. No queria ver a

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rapariga. No queria saber de nada daquilo. Precisariam de um helicptero para os tirar do parapeito, pensou, e depois cortou as imagens com determinao. No era assunto dela, no se queria envolver. Mas como  que seria possvel desligar-se daquilo? Se Simon lho conseguisse ensinar, ela abeno-lo-ia.

Estava a levantar-se para se ir embora quando se lembrou da Peggy Tenrian e da herana amaldioada.

- H c uma brigada de fraudes, de vigarices, ou l como  que chamam a essas coisas?

- Claro - disse Schafardi -, mas s funcionam das oito s quatro. Ns, os das quatro  meia-noite, nunca os vimos. Porqu? Algum a quer enganar?

- No sou eu, nem sequer  um dos meus clientes - disse ela. - Isto foi uma coisa que ouvi hoje. - Contou-lhes a histria e Pat Ballantine deu uma risada, mas o agente Schafardi pareceu ficarzangado.

- Lembro-me de a doutora Margrave nos ter falado desse esquema a h uns dez ou quinze anos - disse ele. - Esse tipo de esquemas d m fama aos parapsiclogos. -Apoiou o queixo nas mos. - Vou dar uma olhadela  Mama Jessie - disse. Ela l cartas ao p do cais, mas ouvi dizer que tem umas actividades paralelas e isso cheira-me a coisa dela. Obrigado pela pista, doutora Barnes. Se a sua cliente no testemunhar no h muito que possamos fazer, mas sou capaz de passar palavra para mantermos a Mama Jessie debaixo de olho e isso  capaz de a manter calminha por uns tempos.

Foi um alvio ir ter com Simon  sala de espera. As suas roupas bem cortadas e a sua elegncia contrastavam com a sala encardida. Ele levantou-se assim que a viu.

- Pronta? Vamos embora. Mesmo quando estava a trabalhar no jardim ele continuava o mesmo, civilizado e perfeitamente composto. No conseguia imagin-lo de fato macaco ou com umas calas de algodo estampadas com todas as cores do arco-ris como as que Frodo usava.

No entanto era aquela imagem que Frodo rejeitara. Mas aquela era a tradio da msica clssica. Por que razo um rapaz com a inteligncia e o talento de Frodo a rejeitaria to completamente? E se ele rejeitava essa tradio, seria ele a pessoa certa para a vida de Emily? Ela escolhera o seu mundo e o seu mentor era Simon e no Frodo. No entanto eles pareciam to felizes juntos!

- Continuo a ter alguns problemas com os culos, Leslie. No te importas de conduzir?

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- Certamente, amor.
- De certeza que no ests demasiado cansada?
- No, claro que no. - O que ela sentia era fadiga mental e emocional, no era fadiga fsica. Quando se afastava dos problemas dos seus doentes e da desorientao provocada pelo complicado legado de Alison Margrave, sentia-se em paz. Suspirando, sentou-se ao volante. Por uma questo de economia e um pouco devido a problemas de conscincia tambm, Leslie tinha um carro muito pequeno, mas sentiu-se quase envergonhada com o prazer que lhe dava conduzir o Mercedes enorme, descaradamente luxuoso e, segundo suspeitava, com consumos de energia altssimos.

O vinho branco de que ela gostava tinha-se tornado um ritual antes de fazerem amor, mas naquela noite demoraram-se a tom-lo. Simon inclinou-se para lhe agarrar na mo com a mo coberta de cicatrizes.

- Leslie, ns devamos viver juntos, tu sabes isso.  o melhor para ambos.

Sabia que ele tinha razo. No entanto havia nisso qualquer coisa de louco. Conhecia aquele homem h muito pouco tempo. E, na sua profisso, tornara-se muito consciente dos perigos de uma relao baseada numa paixo sexual arrebatadora. No entanto, naquilo que ela sentia por Simon, havia algo que ultrapassava a paixo sexual. Pensou: Estamos juntos desde sempre e no soube o que quereria dizer com aquilo. _  Eu sei. Mas tenho que pensar na Emily. Ainda no a posso deixar sozinha.

Puxou-a contra o seu ombro e ela sentiu-se bem, encostada a ele.

- A Emily tambm faz parte da irnha famlia. Sabes disso. Se eu... - Encostada a ele, ela sentiu o seu corpo ficar rgido e maravilhou-se com a calma que transparecia na voz dele, com a coragem que lhe permitiu dizer: _  Se for o meu destino no tocar nunca mais, eu ficaria satisfeito por consider-la a minha protegida, fazer da carreira dela a minha carreira. H alturas em que essa tentao  de tal forma grande que eu me sinto quase irresistivelmente atrado por essa ideia. Desistir da luta, da dor... - Sentiu o ar sair-lhe dos pulmes. - Render-me, Leslie. Desistir.

Ela falou, quase num murmrio.
- No consegues faz-lo, Simon?
- No consigo. - A voz dele soou distante, quase deso-

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lada. - No tenho escolha. Eu... no... o farei. No serei... vencido.

Apeteceu-lhe chorar, quis implorar-lhe. Aquela batalha estava a destru-lo, estava a lev-lo a limites desumanos, aos excessos aterradores que ele lhe confessara. Quais seriam as paixes interiores que o conduziam implacavelmente quilo? Como poderia ela usar a sua influncia para o tornar num homem menos ambicioso, num homem menos ambicioso do que aquilo que ele era?

Apertou o brao em torno dela.
- Acordei esta manh com os temas para o finale do concerto na minha cabea. E durante todo o dia tive que... ensinar.. desperdiar o meu tempo, e isto no havendo na turma inteira ningum, nem sequer um nico aluno, com metade do talento de En-ly. E, no entanto, permiti-me assumir um compromisso com eles. Estou acorrentado s aulas que tenho que lhes dar apesar de nenhuma daquelas jovens bestas se ir sequer recordar ou tirar proveito de tudo aquilo que lhes ensinei... A Alison fez o mesmo, desperdiou o talento dela com gente insignificante, deitou prolas a porcos. E tu, minha querida, que te desgastas at  medula com gente que nunca apreciar nem saber apreciar o teu valor... No posso impedir-te de fazer aquilo que tens que fazer. Mas terei que fazer o mesmo que tu? Eu quero fazer aquilo que est na

minha natureza fazer,  esse o meu lugar...

Libertou-se do abrao dela e, impaciente, dirigiu-se ao piano. Comeou a tocar, num sussurro, o tema que tocara para Emily: o seu concerto. As mos dele passaram do tema alegre e compassado para um outro, num fio de desespero e angstia, que se foi entretecendo e insinuando no concerto. Sentiu que ele se

debatia com o tema, tocando-o num frenesi de perda e desespero. Disse, atravs do som dos acordes:

- O concerto. Tenho que o tocar no meu concerto de regresso. Tenho que o ter pronto!

O relgio na parede marcava quase meia-noite. Ela disse, hesitante:

- Simon... a esta hora... os vizinhos ... .
- Gastei uma fortuna a tornar esta casa  prova de som para poder tocar a qualquer hora da noite ou do dia! - disse-lhe ele com impacincia. Ela ficou a ouvi-lo trabalhar e voltar a trabalhar o mesmo tema. Enquanto o ouvia perdeu a noo do tempo. Ele parou uma ou duas vezes para dar um golo no vinho, mas suspeitou que ele nem sabia o que estava a fazer. O vinho, de urna colheita extraordinria, poderia ter sido gua, caf ou gasosa,

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que ele nem teria dado por isso. O rosto dele estava enrugado e distante e a msica comeava a sair com dificuldade. Ela estava de tal forma sintonizada com ele que conseguia ouvir e sentir quando os dedos falhavam; os dedos que tinham sido feridos comeavam a tropear, ele no estava  altura das complexidades da sua prpria msica. Ele tambm deu por isso, repetindo uma e outra vez a passagem mais difcil, com o rosto plido e contorcido pela raiva. Por fim, num frenesi, bateu com a mo no teclado; o copo de vinho atravessou a sala pelos ares e estilhaou-se e Simon caiu para a frente, com o corpo todo percorrido por um espasmo de agonia. Ficou totalmente imvel, com excepo do tremor dos ombros. Leslie sentia os soluos silenciosos que o faziam estremecer.

- Simon - disse-lhe indo ter com ele e abraando-o. No fiques assim. Anda. Vem para a cama.

- Eu vou, Leslie. Eu vou toc-lo. - Numa voz quase inaudvel disse: - Nada ... impossvel... para a vontade treinada...

As palavras saram quase num murmrio. No entanto Leslie sentiu-as como um grito, como um grito selvagem e primitivo de raiva e determinao. Abraou-o contra si e, depois de muito tempo, ele ergueu a cabea.

- Leslie - disse ele como se no se tivesse apercebido de que ela ali estava. - Que idiota que eu sou, a tocar a estas horas da noite e fazendo esperar a mais bela e sedutora das mulheres!

Ps-se de p, abraou-a e levou-a para o quarto.

Ela estava na garagem e havia um crculo de luz azul que no podia ultrapassar; estava encurralada dentro dele a tocar cravo. Depois lembrou-se de que naquela vida no tocava cravo, era a vez de Emily tocar. Avanou numa escurido de pesadelo e conseguiu, sem saber como, vislumbrar Simon pairando sobre si, tentando tomar uma deciso, pois a mo dele sangrava e ele precisava de fazer mais um sacrifcio. Conseguia ouvir Colin a dizer, Dar-te-ia, de bom grado, uma das minhas mos. Mas as mos de Colin, pensou, no servem para nada, ele nesta vida no percebe nada de msica, tenho que ser eu ou a Emily. Eu poderia tocar to bem como a Emly, mas era a vez dela e, nesta vida, eu tenho que lhe dar apoio e ficar na retaguarda enquanto ela recebe os aplausos. Mas Simon no consegue suportar que seja mais ningum a receber aplausos... O gato estava amarrado em cima do altar e, algures, a Susan Hamilton andava  procura de Chrissy, mas Simon riu-se. Transformei a Chrissy num gato, disse ele

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apontando para o corpo sangrento do gato que jazia, mutilado e desfeito, no centro do crculo de luz azul, certamente que a vida dela no vale tanto como a vida de um dos gatos da Alison.

E depois tinha Simon nos braos enquanto ele se debatia em paroxismos de dor, porque o gato lhe arranhara o olho e ele tinha o sangue a sair-lhe da rbita em golfadas. Ele disse, Nada  impossvel para a vontade treinada e ela perguntou-lhe se ele iria precisar de mais sangue para o sacrifcio. E ele abraou-a e gritou de dor e disse, Espero que no, oh Deus, espero que no... Mas tenho quefazer o que tenho quefazer, porque no serei vencido...

- Leslie? - Ela contorceu-se e afastou-se quando ouviu a voz dele e depois percebeu que tinha sido outro pesadelo. Sentou-se, vendo os seus olhos escuros e preocupados a olhar para si.

- Foi s um pesadelo - murmurou. - Graas a Deus foi s um pesadelo...

- Deves estar a ser contagiada pelos meus pesadelos. A minha mo est a dar cabo de mim. Vou buscar um comprimido para dormir.. queres um?

Ela fez que no com a cabea. No confiava nos comprimidos para dormir porque sabia que inibiam o sono REM, e o sono acabava por no ser sono pois no havia sonhos... talvez fosse disso que precisava.... Libertar-se dos pesadelos. Ele foi nu at  casa de banho e voltou com um frasco na mo.

- De certeza?
- De certeza. - Viu-o tirar um comprimido do frasco. Quem era ela para lhe exigir que recusasse o adormecimento da dor? Ele hesitou, olhou para ela e voltou a meter o comprimido no frasco.

- Prefiro ficar acordado contigo em vez de dormir - disse ele e enfiou-se novamente na cama, estendendo-se ao lado dela.

-   Conta-me qualquer coisa sobre ti - pediu. - Um dom como o da Emily no aparece do nada. Havia msicos na famlia da tua me ou na do teu pai?

Ela falou-lhe da av sueca e da harpa que Emily herdara, de como Emily em criana, com cinco anos, chorava porque os seus dedos no conseguiam chegar s cordas para tocar a msica que ouvia.

Ele contou-lhe, pela primeira vez, histrias da sua infncia, atormentado e vulnervel num colgio militar, fugindo sempre que podia para a enfermaria (eu era alrgico a tudo, disse-lhe, porque quando estava doente ningum me aborrecia e eu podia

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ficar deitado a ler e a ouvir msica na rdio) e descobrindo depois que o piano o libertava ainda mais daquela rotina que detestava.

Durante algum tempo sofrera um fenmeno de poltergeist, disse-lhe, e fora assim que conhecera Alison. Rebentara as cordas da guitarra do companheiro de quarto quando a guitarra estava pendurada na parede e a me tirara-o da escola e consultara a Alison. Tinha-se tornado o protegido dela e depois o seu colega. Leslie lembrou-se de Eileen, rebentando as cordas do violino no ensaio da orquestra da escola.

- Eu detestava aquele rapaz. Engraado, no me consigo lembrar sequer do nome dele, mas lembro-me do raio da guitarra. S tocava msica saloia. Apetecia-me partir-lhe a guitarra na cabea. A minha me internara-me num colgio militar porque acreditava que uma mulher sozinha, se tentasse criar um filho, transform-lo-ia num ser efeminado talvez mesmo num homossexual - disse ele com desdm. - Eu poderia ter-lhe dito que isso nunca estivera em questo e, se fosse esse o caso, um colgio interno para rapazes dificilmente seria o local indicado para o evitar. Pelo contrrio.

- O teu pai tinha morrido?
- No fao a mnima ideia - disse ele encolhendo os ombros descontraidamente. - Ela encorajou-me a pensar que eu tinha nascido por gerao espontnea. Acho que a Alison sabia, mas nunca me disse. Sou, evidentemente, bastardo.

Apesar de ter dito aquilo em tom casual, a sua voz estava repleta de uma dor antiga e Leslie mudou de assunto.

- Foste um poltergeist? Tenho um entre os meus clientes...
- Urna rapariga, suponho; h quatro raparigas por cada rapaz nos casos de poltergeist. Talvez porque as raparigas sejam encorajadas a chorar e a contar os seus problemas s pessoas, mas no seja considerado feminino demonstrar raiva ou fria. Tenho pensado nisso muitas vezes: quantos outros problemas psicolgicos estaro relacionados com o gnero? Segundo parece os homens tm mais lceras...

- Isso era verdade at as mulheres comearem a ter cargos executivos e a trabalharem neste mundo competitivo - disse Leslie. - Mas h oito rapazes autistas por cada rapariga autista.
- Essa fora uma das razes porque ela hesitara em aceitar o diagnstico que dava Christina Hamilton como autista. - Pode ser hereditrio ou, at mesmo, estar ligado a problemas com os

cromossomas, visto estar to associado ao gnero.

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O lbio de Simon enrugou-se.
- Talvez seja essa a razo porque essas crianas ainda so consideradas dignas do tempo dos terapeutas... os rapazes so, afinal de contas, quem perpetua a preciosa herana familiar. Talvez eu tenha tido sorte em escapar a tudo isso ao no ter pai. J conheci homens que consideram um filho dotado uma desgraa quase t o grande para a famlia como um filho atrasado ou com deficincia mental; nenhum deles ir, provavelmente, tomar conta do negcio da famlia. Tenho a certeza de que, por exemplo, se a hemofilia aparecesse s entre as raparigas, teriam sido criadas leis sensatas que permitissem, ou at mesmo exigissem, a eutansia dessas crianas. Mas qual seria o pai que sacrificaria um filho? - Depois riu-se na escurido. - O meu sacrificou. Pergunto-me se ele alguma vez ter sabido?

- No consigo imaginar um pai que no acolhesse e se

regozijasse com um filho como tu, Simon.

- Eu no preciso de imaginar - disse em tom duro, fazendo com que ela se calasse mais uma vez. - Eu tive um pai assim. Acho que provavelmente o melhor  tentarmos dormir alguma coisa, amor.

O mais surpreendente era, pensou ela, deitada ao lado dele no escuro, que ele nunca tivesse tentando remediar a falta do pai tendo ele prprio um filho; era uma compensao muito comum, dar aos nossos filhos aquilo de que sentimos falta na nossa vida. No entanto Simon tinha outra herana para oferecer. Os filhos dele seriam dotados com os seus talentos. Pensou, timidamente, como gostaria de ter um filho de Simon. Mas ainda no se sentia pronta para ter filhos e, suspeitava, Simon era capaz de nunca vir a estar. Bem, ele deixaria ao mundo a sua msica, viesse a ter ou no um filho do seu sangue; ainda mais se continuasse a ensinar. No entanto um professor tem que fazer compromissos e ensinar centenas de alunos com pouco ou nenhum talento, dando com generosidade dos seus prprios dons em troca da mais parca das recompensas, e quantos professores encontrariam ao menos um gnio durante toda a sua vida na profisso?

Depois perguntou-se, quase a adormecer, porque estaria a

pensar naquilo. Simon poderia justificar toda a sua vida com o que j fizera por Emily, pensou. Porque razo estaria a pensar nele como se a sua carreira tivesse realmente acabado? Estaria ela a levar suficientemente em conta a sua tremenda determinao e

vontade? Nada  verdadeiramente impossvel para a vontade treinada... Seria aquilo apenas pensamento mgico, a recusa da

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aceitao do inevitvel, ou seria a verdadeira chave para o Universo? Como poderia algum sab-lo?

O curso de aperfeioamento no qual ele admitira Emily era

o ltimo de uma srie que ele leccionara em So Francisco; ainda tinha o compromisso de dar uma nica aula em Dallas. Leslie levou-o ao aeroporto no domingo de manh.

- Quando eu voltar, amor, temos que pensar mesmo numa

forma de nos organizarmos para viver juntos. No quero estar separado de ti - disse ele. - Obviamente que esta no  a altura prpria para uma proposta de casamento, mas temos que fazer qualquer coisa para resolver estas separaes!

- Eu no poderia viajar contigo, Simon - disse ela, detestando ter que o dizer; fora aquele tipo de coisa que a afastara de Joel. - Tenho o meu trabalho. Tambm tenho compromissos, no os pqsso abandonar. _  E claro que no podes - referiu ele com uma prontido e generosidade que a espantaram. - E agora parece que tambm vais ter o trabalho da Alison para fazer. Mas tudo tem uma soluo, at mesmo as exigncias contradit rias de duas carreiras no, de trs, pois tambm temos que levar a carreira de Emily em considerao - se dedicarrnos a isso o tempo e as energias suficientes. No, amor, no tentes estacionar no edifcio, deixa-me ali onde diz "Partidas"; detesto dizer adeus em aeroportos. Fica com o Mercedes esta semana, no queres? Agora conduzes melhor o carro do que eu.

- Quando voltas? Tera, quarta ... ?
- Provavelmente no antes de quinta-feira. Suponho que no o conheas pessoalmente, mas certamente que j ouviste falar no Lewis Heysermann...

- O maestro?
- Foi convidado para dirigir uma orquestra de Chicago este ano e somos amigos desde que andmos juntos em Julliard
- disse ele. - Ele deve-me alguns favores. Vou tentar convenc-lo a marcar o concerto para o prximo ano ou para o ano seguinte. Um concerto de regresso.

Graas a Deus, pensou Leslie. Apesar daquela noite ele pensa que vai estar pronto e deve estar em condi es de o poder avaliar

- No sei se diga Boa sorte ou Merda! - disse.
- Deseja-me apenas boa viagem, amor, e deseja-me que os jovens selvagens no dem cabo de mim - disse ele. Como eu desprezo o ensino! No entanto suponho que tambm 

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uma grande responsabilidade. - Ela estacionou junto ao terminal da Delta Airlines e ele debruou-se para a beijar. Depois fez um gesto imperioso a um bagageiro que veio a correr tirar-lhe a mala do banco de trs do Mercedes. Leslie, com o seu pequeno M, teria que ter esperado quinze minutos por aquele tipo de servi o. - Eu telefono-te de Dallas, amor. Deus te abenoe.

Ficou espantada. Nunca o ouvira invocar a divindade antes. Ficou a ver a silhueta vestida de cinzento desaparecer no interior do terminal at que um motorista de txi gritou atrs dela:

- V l, minha senhora, tenha d, ponha l o carro a andar e ela meteu a primeira e arrancou.

Captulo dezanove

Simon fez uma chamada telefnica muito rpida na quarta-feira  noite; disse apenas que a aula tinha corrido bem e que ia apanhar um avio para Chicago na manh seguinte.

-   Como est a Emily?
- A ajuizar pelos sons provenientes do piano e do cravo, que ouvi esta manh e esta tarde, est bem. Est a cortar limes para fazer doce.

- Posso falar com ela? Leslie passou o telefone para o outro lado da mesa, para a irm, que o aceitou fazendo uma careta ao olhar para as mos cobertas de sumo de limo. Escutou durante alguns minutos, a sorrir e depois perguntou:

- Queres falar outra vez com a Les? Est bem, ento boa noite - e desligou.

- Ele diz para te dar um abrao, mas vais ter que esperar porque tenho as mos cheias de limo. O sumo de limo  bom para as mos, faz desaparecer as sardas e as manchas provocadas pela idade.

- E eu tenho a certeza de que as tuas mos esto totalmente cobertas por manchas provocadas pela idade - disse Leslie secamente. - Que foi que o Simon disse?

- O Simon disse - at parece que estamos a fazer aquele jogo em que se do passos de gigante ou passos de beb mas em que no nos podemos mexer sem dizer "Posso?", o Simon disse que ningum l no curso tocou Rachmaninoff to bem como eu e para no pr demasiada pectina no doce. E disse que nos ama e que de certeza que nos telefona na sexta-feira  noite para nos contar como correu a conversa com o... Heggerman?

- Heysen-nann. - Estariam eles a jogar o jogo O Simon diz?

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Na quinta-feira foi ao Height para comprar champ e passou pela livraria, mas no entrou, embora tivesse gostado de falar com a Claire acerca da tentativa de fraude de que a mulher que lhe telefonara fora vtima. O Monsenhor e o Poltergeist estavam  janela e viu Colin a ler, por trs do balco. A atmosfera era to convidativa, que Leslie teve que contrariar a vontade que sentiu de entrar, mas disse a si prpria que naquele dia no tinha tempo e que, de qualquer forma, Claire s l estava s sextas-feiras. Perguntando-se a si prpria porque razo receava enfrentar Colin, decidiu que era devido  atitude negativa que ele tinha em relao a Simon; no queria ser forada a discutir com ele. Era uma pena que eles no conseguissem chegar a um compromisso ou ento que concordassem em discordar em relao aos conceitos diferentes que ambos tinham da magia; eram ambos homens de boa vontade. Depois, sentindo uma tremenda depresso, recordou-se do que Simon lhe confidenciara.

Poderia o Colin contemporizar com uma coisa dessas e gostaria ela que ele ofizesse? pensou e depois sentiu-se espantada e zangada consigo prpria. Que relao tinha ela com o

Colin? Estaria ela a tentar transform-lo numa espcie de figura paterna? Continuou a descer a rua, passando em frente de pequenas pastelarias aprazveis e sentindo-se tentada a oferecer a si prpria um croissant e um capuccino ou, quem sabe, at um bolo. Podia no almoar, se sentisse que tinha comido demasiado acar e chocolate. No era muito bem comportado da sua parte, mas nos dias que corriam no tinham muitas oportunidades de fazer asneiras, nem mesmo aquele tipo de traquinice inofensiva. Entrou na pastelaria, apreciando os odores a chocolate e a manteiga que perfumavam o ar e o cheiro a canela/caf/cacau que a

rodeava. Aproximou-se do balco, tentando decidir-se entre uma

tarte de morango com natas batidas e um bolo de rum coberto com cerejas e doce de leite, quando viu uma camisa tingida de verde e um cabelo loiro e longo atado num rabo de cavalo de duende que lhe pareceram familiares. Frodo no a viu; estava debruado sobre a mesa com a testa quase encostada  de Emily. Tinham esquecidas, diante de si, chvenas fumegantes de um

lquido qualquer. Estavam de mos dadas e Leslie, perturbada, virou-se antes que o empregado de balco tivesse oportunidade de lhe perguntar o que desejava e saiu rapidamente.

Oh minha querida, receei que estivesses de tal forma embrenhada no jogo de "0 Simon diz" que nem conseguisses dar um pequeno passo. Por outro lado, Simon fora to bom para

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Emily... mas no era, nem poderia ser, uma histria de amor. Foi para casa, mal se lembrando de se congratular com o facto de no ter quebrado a dieta. De qualquer forma ela tambm no quisera realmente comer o bolo. O Simon poderia ficar zangado com Emily se a visse com Frodo, mas teria simplesmente de aprender que no podia controlar todos os aspectos da vida pessoal da rapariga. Ele sentia-se, segundo dizia, como se a Emily fosse sua filha. As filhas crescem; Simon, como qualquer pai, teria que se acostumar a esse facto. Mas no disse nada a Emily. Quando Simon telefonasse nessa noite tambm no faria qualquer comentrio.

Emily faria dezoito anos em Agosto. Talvez pudessem dar uma festa atrasada de inaugurao da casa pelo aniversrio dela; o estdio/garagem seria um stio ptimo para a festa e esta poderia espalhar-se pelo jardim. Talvez Simon, vendo-a com amigos da idade dela se sentisse mais resignado. A amizade dela com Frodo era, afinal, uma relao ainda infantil: Emily nunca tivera namoros vulgares e aquela era a sua primeira tentativa de um caso-de-interesse-por-um-rapaz, um caso simples e acrianado. Talvez Leslie pudesse convidar os vizinhos das casas ao lado da sua e as pessoas que conhecera na livraria, pelo menos a Claire e o Colin, e talvez a Rainbow, mas seria mais uma festa da Emily. Ela devia ter amigos no Conservatrio. E Frodo, evidentemente.

Durante todo o jantar - ela cozinhara uma costeleta para si e Emily assara uma batata que cobrira com queijo derretido esteve ansiosa,  espera de ouvir o telefone tocar. Foi para o estdio para fazer os relatrios das consultas do dia. Reparou que sentia muitas saudades do relgio de cuco; se o relgio no tivesse arranjo teria que comprar um novo. O telefone tocou; correu para o atender, mas era uma rapariga do Conservatrio que queria pedir a Emily o endereo de uma loja que vendia papel pautado. Da vez seguinte que o telefone tocou era algum que lhe queria propor uma assinatura bimensal do San Francisco Examiner. No, ela no queria um jornal. s dez e meia Simon ainda no tinha telefonado e, quando se foi deitar, j estava a ficar preocupada. Ora, ele e o seu amigo maestro deviam ter passado o dia juntos; havia a diferena horria e ele podia ter-se esquecido, como acontecia frequentemente a Leslie quando viajava, se era mais tarde ou mais cedo na Califrnia e ter medo de lhe estar a telefonar demasiado tarde. Telefonaria de manh. Comeou a adormecer desejando ter uma forma de o contactar, para lhe dizer

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o quanto o amava. Ainda que ele se estivesse a sentir no topo do mundo, com uma boa reaco de Heysermann relativamente ao concerto de regresso, ela gostaria de lho ter dito, de o tranquilizar. Mesmo quando adormeceu continuou  espera de ouvir o telefone, com esperana de que ele se apercebesse de que ela n o se importaria de ser acordada pela sua voz.

A princpio pensou que fora o telefone que a acordara. Ficou  escuta da voz de En-tily, no outro lado do trio: outro pesadelo. Depois ouviu novamente o barulho; um rudo assustador, um

fragor estrondoso, como se algum tivesse deixado cair trinta camies cheios de ferro velho e os tivesse atirado pela escada abaixo. Emily, com uma carrtisa de noite curta e os cabelos soltos a darem-lhe pelos ombros, apareceu  porta do quarto.

- Que  isto? Pensei que fosses tu, Em.
- Deus, no! Como  que eu poderia fazer um tal barulho? Parece algum a esmagar carros velhos. Ainda bem que tambm ouviste - disse Emily a tremer e depois agarrou Leslie, quando esta se preparava para descer as escadas. - No, no, no vs, deixa-me chamar a polcia...

Sentindo-se desalentada, Leslie queria ter a certeza de que o poltergeist no estava outra vez a partir coisas antes de chamar a polcia sem motivo. Mas era evidente que no podia demorar-se mais.

- Liga para o cento e doze e diz que est aqui um tarado disse, faltando-lhe a respirao quando ouviu, vindo do andar de baixo, um novo estrondo de coisas a serem esmagadas. Emily marcou o nmero, gaguejando aterrorizada para o auscultador:

- Quem quer que seja est a destruir a moblia no andar de baixo...

Pousou o telefone.
- Eles vo mandar imediatamente o carro-patrulha que estiver mais perto. Vou vestir qualquer coisa - acrescentou, olhando para as pernas longas e bronzeadas e j ia a entrar no quarto quando um som horrendo e metlico veio novamente do andar de baixo e, desta vez, En-ly erguendo uma mo a pedir silncio, ouviu o som ressonante das cordas, como se algum tivesse derrubado a harpa.

- Les, aquilo foi na sala de msica! Se estragaram a harpa da av eu mato-os - disse ofegante e correu, descala, pelas escadas abaixo.

- Emmie, no! Podem fazer-te mal... - Leslie correu

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atrs da irm. Viu Emily escancarar a porta da sala de msica; depois ouviu o grito de Emily e quase tropeou quando a irm entrou de rompante pela sala de msica. Emily acendera a luz e estava imvel. Ainda tinha a boca aberta num grito silencioso e, perante ela, o cenrio era catico.

Parecia que... que algum tinha lanado uma marreta contra a cauda negra e polida do Kriabe brilhante; a tampa estava partida, a madeira preta estilhaada. Fora dada mais uma pancada forte no teclado e havia estilha os de marfim espalhados pelo cho. A harpa fora atirada ao cho e algum enfiara um p atravs do cordame, embora ela pensasse que a estrutura estava inteira.
O vndalo fizera os maiores estragos no cravo de Simon; do stio onde estava parecia que a marreta, ou o que quer que fosse, tinha sido lanada repetidamente contra o instrumento com uma violncia inacreditvel. A madeira polida estava em estilhaos e

havia fragmentos de cordame, das teclas e de metal espalhados por toda a sala, como se aps pulverizar o instrumento, o vndalo tivesse saltado em cima dos pedaos e os tivesse pontapeado para os quatro cantos da sala.

Disse numa voz quase inaudvel:
- Oh, meu Deus! - Era quase uma orao. Atrs dela Emily comeou a gritar histericamente.

- No! No! Oh, meu Deus, no, no... Foi ento que ouviram o rudo de um motor e o som da sirena entrou pela janela arredondada e ela viu o carro da Polcia, com a luz amarela a brilhar no tejadilho, virar a esquina, encostar ao passeio e dois agentes sarem a correr em direco  casa.

Emily continuava a gritar, pronunciando palavras desconexas; Leslie correu para o trio, debatendo-se com a tranca da porta para os deixar entrar e um homem e uma mulher passaram por ela a correr e dirigiram-se  sala de msica, onde Emily no parava de gritar.

- Jesus Cristo! Em que direco  que foi o filho da me? Como  que ele saiu?

Ela reconheceu, de imediato, a silhueta e o rosto de Joe Schafardi enquanto Pat Ballantine se dirigia a Emily e lhe punha o brao por cima dos ombros.

- Tenta parar de gritar e fala connosco, querida. J est tudo bem. Ele foi-se embora. - Emily foi-se abaixo, comeando a soluar e Pat Ballantine, mantendo o brao em torno dela, perguntou por cima do ombro da rapariga -, Ela foi violada? Atacaram-na?

A HERDEIRA                             307

No - disse Leslie -, ela estava l em cima comigo quando ouvimos um barulho horrvel...

- E desceram e viram este trabalho. - Schafardi olhou cautelosamente em torno da sala. - Para que lado  que ele fugiu? Pela janela de trs? No parece ter sido partida... - Voltou ao trio e foi  cozinha. Pat Ballantine obrigou Emily a sentar-se numa almofada e correu atrs do parceiro com a mo sobre o revlver que trazia  cintura. - Cuidado, Joe, o tipo pode estar a...

- No - disse Schafardi numa voz espantada -, a tranca das traseinas est no lugar. Ele deve ter sado pela janela depois de a voltar a pr no lugar. - Voltou lentamente para a sala de msica. - Pat, vou sair e verificar os jardins aqui  volta. Ouve tu a histria delas.

Pat Ballantine girou os botes do rdio.
- Aqui Ballantine, assalto de uma casa, grandes prejuzos materiais. Um tipo qualquer entrou por uma janela e partiu um par de pianos... No, no  uma loja,  uma residncia privada...

Leslie deixou-se cair numa almofada ao lado de Emily e abraou a irm. Emily ainda chorava histericamente, com o corpo frgil sacudido pela violncia dos soluos. A agente Ballantine entrou na sala e disse, suavemente:

-   Quer chamar o mdico de famlia, doutora Barnes ou quer lev-la s Emergncias do hospital? Se ela foi atacada eu posso lev-las s duas ao hospital e vocs contam-me l o que se passou.

- Emmie, Eminie, amor, no consegues parar de chorar s um bocadinho? Estava algum aqui quando tu entraste? Viste quem fez isto? - perguntou Leslie.

- No, No estava aqui absolutamente ningum - arfou Emily -, mas o piano... o cravo... ol, Deus, olha...

- Houve algum que deu cabo deles, disso no h dvida concordou a agente tirando o bloco de notas do bolso. Tenho que tomar nota disto. Ouviram o intruso entrar?

- Eu estava a dormir - disse Leslie. - No sei o que me

acordou; depois a Emily apareceu e disse que tambm ouvira. Chamei a polcia. Queria que ela esperasse at vocs chegarem, mas ela correu pelas escadas abaixo...

- A luz estava acesa na sala de msica... Emily, no ? Pat Ballantine falou com Emily como se a rapariga fosse muito mais nova do que era na realidade. Com o cabelo solto e a camisa de noite infantil, ela parecia ter dez anos.

- Estava apagada. Eu acendi-a.

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E viste o intruso? Tens a certeza de que ele no te bateu nem roou por ti ... ?

- Eu no o cheguei a ver. Ouvi-o tropear na harpa e entrei a correr e vi o piano... e o cravo... - Os soluos dela tinham-se transformado em fungadelas, e ameaavam transformar-se novamente em gritos, pois a voz dela ergueu-se histericamente. A primeira pergunta de Pat Ballantine fora se ela tinha sido violada. Leslie apercebeu-se de que, na realidade, a irm fora violada por aquela intruso, por aquela violncia contra aquilo que lhe era

mais precioso.

- E aquilo que aqui est foi tudo o que tu viste? No tocaste em nada?

- No consegui - disse Emily. - No conseguia mexer-me. A jovem agente ps o bloco de notas no bolso.
-  melhor revistar a casa, para ter a certeza de que ele no est escondido c dentro e ver como  que ele saiu. - Entrou na cozinha. Com a mo na pistola, abriu as portas dos armrios, abriu com um pontap a porta da casa de banho e da lavandaria, mas no encontrou sinais do vndalo nem da sua passagem. No andar de cima, o quarto de hspedes e a casa de banho estavam vazios, a cama de Leslie ainda estava quente mas, mesmo assim, Pat Ballantine revistou o roupeiro, a casa de banho privada e o quarto de vestir. Entrou no quarto de Emily.

- A tuajanela estava assim aberta, Emily?
- Pensei que estava fechada quando fui para a cama protestou Emily. Ainda estava a soluar. Leslie tirou um roupo quente do roupeiro de Emily e embrulhou nele a rapariga e enfiou chinelos nos seus ps. As coisas j estavam suficientemente ms mesmo sem a Emily apanhar uma constipao e, se estava em estado de choque, como parecia estar, devia manter-se quente. No podia dizer  agente Ballantine que o fecho da janela se recusava a manter-se fechado mesmo com a corrente de segurana no lugar.

- Ele deve ter sado por uma janela qualquer -concluiu a agente descendo novamente as escadas. Entrou no escritrio onde os pedaos do relgio partido estavam empilhados em cima da secretria.

- Tambm foi obra deste tipo? Ele comeou por aqui ou

acabou aqui?

- No, fui eu quem o partiu no outro dia - disse Leslie.
- Ainda no tive tempo de o levar para o relojoeiro.

Pat Ballantine foi para a cozinha.

A HERDEIRA                            309

Porque  que no faz uma bebida quente para a sua irm? Ela ainda est muito abalada. A vem o Joe de volta. - O agente Schafardi estava de p, junto ao carro-patrulha; dirigiu-se  casa e Pat Ballantine abriu-lhe a porta.

- Tiveste sorte?
- No h sinais do tipo em stio nenhum da vizinhana disse. - Meu Deus, esta fica para a histria! - Entrou na cozinha. - Que coisa to estranha, a noite passada ia ligar-lhe, doutora Barnes e depois apareceu uma coisa qualquer e eu adiei o telefo- nema. Lembra-se daquela histria do desaparecimento? Do rapaz? Investigmos e descobrimos que ele tinha comprado um mapa das Cascades e os Rangers encontraram-no, a ele e  rapariga, presos num parapeito. Tinham con-da e estavam bem, mas o rapaz tinha trs dedos dos ps com queimaduras provocadas pelo frio e tiveram que arranjar um helicptero para os tirar dali. Os pais da rapariga nem sequer se tinham dado ao trabalho de comunicar o desaparecimento dela, veja l, que pais! Se tivssemos sabido disso... Bem, seja como for, esto os dois bem e eu queria que soubesse.

A chaleira comeou a assobiar ruidosamente. Leslie deitou gua a ferver por cima de um saquinho de tisana de camomila e ps a chvena na frente de Emily, obrigando-a a sentar-se  mesa.

- Mais algum quer ch? Caf? Ambos os polcias aceitaram caf instantneo e ela tirou leite do frigorfico para Schafardi deitar na sua caneca.

- ptimo, obrigado - agradeceu Schafardi. - Vamos dar o alerta em relao a um filho da me enorme com uma grande marreta... - Abanou a cabea, desalentado. - Que confuso! No me parece que eu fosse capaz de fazer um trabalho daqueles e peso mais de cem quilos e tenho mais de um metro e oitenta, o que quer dizer que estamos  procura de um tipo incrivelmente grande.

-   Talvez seja o mesmo tipo que partiu os instrumentos no Conservatrio. Houve algum que entrou na sala da orquestra e

rebentou com um violoncelo... - disse Emily, numa vozinha muito tremida.

- Isso  aquela coisa grande que parece um violino mas que  cinco vezes maior do que ele?

-  isso mesmo. E parecia que ele tinha enfiado um p - ou

uma marreta, foi o que disse? - atravs dos tmbales, que so aqueles instrumentos de percusso.

Pat Ballantine acabou de beber o caf simples.

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Parece que temos entre mos um verdadeiro tarado. Que tipo de maluco  que anda para a a dar cabo de instrumentos musicais? Roub-los, talvez, e troc-los por dinheiro. Mas desfaz-los? Assim? - Indicou a sala de msica com um gesto do ombro. - Ele praticamente pulverizou aquele mais pequeno... que era aquilo, uma pianola?

- Um cravo - disse Emily sombriamente e comeou a chorar novamente. - Oh, Leslie, Leslie, que vai o Simon dizer?
O cravo da Miss Margrave! O cravo no era meu - explicou ela, soluando, aos dois polcias. -  do meu professor, ele emprestou-mo... Oh Leslie, como  que eu vou contar ao Simon?

- Ele fez questo de nos dizer que o cravo estava no seguro, por isso suponho que o melhor que temos a fazer  entrar em contacto com ele para que nos possa informar de qual  a companhia de seguros -props Leslie. -Tenho que telefonar  nossa seguradora amanh, por causa do piano. No tenho a certeza do tipo de aplice que temos, nem se cobre vandalismo deliberado... Eminie, bebe o teu ch querida, eu sei que  um choque terrvel, mas chorar no vai adiantar nada.

- O que eu no consigo perceber  como o filho da me entrou - disse Schafardi. - A porta das traseiras estava fechada e trancada. Aquela janela do primeiro andar estava aberta segundo dizes, Pat?

- Sim, mas ele teria tido que trepar e passar mesmo por cima da Emily... da Miss Barnes - disse Pat. - Ele no entrou por ali, embora eu suponha que pde ter sado pelo mesmo stio que entrou enquanto ns estvamos a olhar para os estragos e a procur-lo no andar de baixo.

- E no entrou pela frente - afirmou Schafardi -, porque a doutora Barnes teve que destrancar a porta para nos deixar entrar.

Leslie reviu mentalmente os seus movimentos e lembrava-se do fecho na sua mo, quando o virara para deixar a polcia entrar. - Estava trancada - confirmou.

-  pena no poder usar os seus dons para descobrir quem fez isto - disse Schafardi. - Pat, tens a certeza de que no havia nenhuma janela aberta no andar de baixo? Viste bem por trs dos cortinados na sala de msica e no escritrio?

- Penso que sim, mas vou ver novamente.
- Porque se ele no entrou pela frente e se no entrou pelas traseiras... - Schafardi, com a caneca de caf na mo, levantou-se, pousou a caneca na mesa e foi verificar novamente

A HERDEIRA                             311

as janelas. Chamou do consultrio: - Foi por aqui que o filho da me entrou.

Chocada, Leslie foi at ao consultrio. Por trs do cortinado faltava uma das vidraas da janela. No estava partida nem despedaada, no estava l, simplesmente.

- No consigo perceber - disse Pat Ballantine. - Ele retira a vidraa neste lado da casa, entra por aqui sem deixar quaisquer marcas ou partir o que quer que seja no escritrio. Depois atravessa o trio... ouviu barulho de vidros partidos, ou qualquer outro tipo de sons aqui no andar de baixo, doutora Barnes?

- Nada. Suponho que aquilo que me acordou possa ter sido o barulho do vidro... depois os outros barulhos.

- Portanto, ele atravessa o trio, atira com a marreta trs ou quatro vezes e desfaz trs instrumentos musicais, esconde-se atrs das cortinas aqui enquanto vocs descobrem os estragos e ns chegamos, depois arranja maneira de correr para o andar de cima passando por ns os quatro e salta de uma janela de segundo andar. - Schafardi abanou a cabea. - E, durante todo esse tempo, arrasta atrs de si uma marreta a com uns catorze quilos, porque para fazer este tipo de trabalho tinha que ser uma coisa  volta desse peso. Sem dvida. Um tarado e peras. Talvez devssemos telefonar para o hospital - para o departamento psiquitrico - e descobrir se desapareceram alguns malucos e se deram por falta de alguma marreta.

Ficou a olhar para o jardim, com um ar cabisbaixo.
- Porque  que no podamos ter sorte e o tipo partir o tornozelo quando saltou da janela com a porcaria da marreta na mo?

Leslie, atrs dele, olhou tambm para o jardim. Estava vazio, com excepo de um gato branco que se esgueirou ao longo do muro por trs do limoeiro e ficou sentado a lavar o focinho  luz da Lua.

- Gatinho - disse Schafardi -, como eu gostaria de te poder levar a tribunal como testemunha, pois parece-me bem que s a nica testemunha das loucuras desta noite. Hei, doutora Barnes, est a sentir-se bem? Devia tomar tambm um caf, est com ar de quem vai desmaiar. Pat, traz um caf para a doutora.

Captulo vinte

- E j apresentou queixa na Polcia? Est bem. - O investigador foi at  janela sem vidro. - Que ser que ele fez com a vidraa que desapareceu? Se tirou o vidro inteiro, ento este deveria estar algures no jardim. Mas no h vidros partidos em stio nenhum. Vou falar com a Polcia. Entretanto pode alugar um piano at que os nossos peritos decidam se vamos mandar arranjar este ou comprar um novo. Quanto ao cravo, no disse que pertencia a outra pessoa? Que pouca sorte! A nossa companhia  capaz de poder fazer alguma coisa, mas...

- O cravo est no seguro. Mas tenho que esperar que o dono volte para lhe poder perguntar qual  a companhia.

O homem estava a olhar para o relgio em pedaos que estava em cima da secretria.

- Tambm foi obra desse tipo?
- Oh, no. Esse caiu da parede h uns dias atrs., Ainda no tive tempo de o mandar arranjar.

O homem da companhia de seguros sorriu.
- Sabe, doutora Bames, cerca de trs quartos das vezes em que investigamos casos de vandalismo, as pessoas juntam  reclamao tudo aquilo que se partiu ou desapareceu no ltimo ano! A senhora  uma mulher honesta. S por isso devia aconselhar que lhe substitussem o piano!

Quando ele se foi embora, Leslie sentou-se  secretria e tentou recompor-se. Na noite anterior Emily chorara at adormecer e ainda estava com um aspecto horrvel, com os olhos vermelhos e inchados e umas olheiras enormes, como se estivesse estado doente durante um ms inteiro. Quando Leslie lhe perguntara, hesitante: - Queres falar disso, Ern? - ela rosnara: - No uses a merda da psicologia comigo, est bem? - Pronunciara "psicologia" como se fosse um palavro.

Ela prpria se sentia violada, violentada, machucada e de

A HERDEIRA                            313

alguma forma enxovalhada pela brutalidade do vandalismo. Um roubo vulgar, ela poderia ter compreendido. Mas no aquela violncia insana e irracional. Desejou que Simon lhe telefonasse. Pegou no telefone, pensando se no Conservatrio saberiam o endereo do Lewis Heysermann, mas depois desistiu. Certamente que ele lhe telefonaria. De qualquer forma pareceu-lhe que Emily estava ao telefone na extenso da cozinha.

Bem, pensou desalentada, pelo menos estava a obter em primeira mo um conhecimento ntimo da psicologia da vtima. Foi at  cozinha; Emily podia no querer ter uma conversa formal acerca do assunto, mas queria estar por perto, para o caso da irm precisar dela. Nenhuma das duas fora capaz de comer; talvez devesse cozinhar qualquer coisa tentadora e p-la na frente de En-ly. Fosse como fosse isso dar-lhe-ia qualquer coisa para fazer. Na cozinha comeou a misturar acar amarelo, farinha e manteiga para fazer o bolo de caf com a receita da av. Emily estava sentada  mesa da cozinha com o queixo apoiado nas mos. No ergueu os olhos quando Leslie entrou, nem mesmo quando ela comeou a misturar os ovos, a farinha e a manteiga.

- No ouvi o telefone tocar, Emily. Estavas a telefonar para a empresa de aluguer de pianos? Eles a esta hora j esto abertos e talvez consigam pr aqui um piano hoje ao fim da tarde.

Emily comeou a chorar novamente.
- Eu quero o meu piano. No quero uma porcaria qualquer de aluguer..

Leslie acabou de n-isturar a massa para o bolo de caf e meteu o bolo no forno. Percebia Emily, mas o que lhe poderia dizer? Como poderia sequer fingir que percebia o que Emily estava a

sentir? Para ela, o velho Knabe era s um piano e todos os pianos se pareciam uns com os outros. Qualquer coisa que dissesse poderia soar como se estivesse a minimizar o desgosto da irm.

A porta das traseiras abriu-se e Frodo entrou.
- En-ly? Vim assim que pude, querida. Pobre beb - disse ele indo at junto dela e ajoelhando-se a seu lado. - Tens os olhos todos vermelhos. V, assoa-te. - Ergueu-a em peso e voltou a sentar-se com Emily ao colo. - Pronto, pronto, beb, no chores, deve ter sido uma coisa horrorosa.

Emily ps os braos em volta do pescoo dele e comeou a chorar novamente, enquanto ele a embalava e falava com ela e a mimava como a um beb. Leslie nunca se teria lembrado de telefonar a Frodo, mas ficou contente por Emily se ter lembrado de o fazer. Saiu da cozinha sem fazer barulho; quando voltou

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para tirar o bolo de caf do forno, Frodo fizera um ch e torradas para Emily e estava a dar-lhe de comer como se ela fosse uma criana pequena.

- V l, beb, tens que comer e depois eu levo-te  loja de aluguer de pianos e ajudo-te a escolher um que seja bom. Eu percebo de pianos; o meu tio est nesse negcio e ensinou-me a distinguir um piano bom de uma porcaria qualquer. Vou certificar-me de que no s enganada. E se a companhia de seguros no conseguir arranjar o teu, certificar-me-ei de que te do um bom piano. No vou deixar que te impinjam uma pianola qualquer.

- Oli, Frodo, foi to horrvel. Porque  que algum nos

odeia assim tanto? A harpa da av. E o meu piano, e o cravo de Simon... - estava quase a chorar novamente - o lindo cravo de Simon...

- Mostra-me. - Foi com ela at  sala de msica. Os pedaos dos instrumentos tinham sido deixados onde estavam para que pudessem ser inspeccionados pelos peritos da companhia de seguros do Simon. Frodo assobiou. - Meu Deus, que confuso! Escuta, Emily, conheo umas pessoas em Guerneville que percebem imenso de harpas, o negcio deles  constru-Ias. Em vez de mandarmos arranjar esta num stio qualquer, devamos lev-la l. Tenho a

certeza de que a companhia de seguros os aprova, porque eles so os maiores especialistas em harpas de toda a Bay Area. Se o transporte for problema, peo a camioneta emprestada e levo-te l.

Ela acabou por sorrir por entre as lgrimas.
- Conheces toda a gente ligada ao negcio da msica na

B ay Area?

- Quase toda, acho eu. Depois de ter desistido de ser

msico, durante algum tempo pensei dedicar-me  construo de instrumentos. Trabalhei com um tipo que constri instrumentos medievais. Fiz instrumentos de sopro e at tentei construir uma viola de arco. O meu trabalho mais bem conseguido foi um saltrio. E tambm montei um pequeno cravo a partir de peas pr-fabricadas.  um instrumento muito simptico, embora eu

no o toque com frequncia. Podes us-lo, se quiseres. Olha, escuta - interrompeu-se ele -, tenho que perguntar uma coisa  tua irm. Doutora Barnes? - Enfiou a cabea na cozinha. Leslie estava a partir o bolo. Ele pegou numa fatia e cheirou apreciativamente a canela e o cravinho.

Deu uma grande dentada. Quando a engoliu perguntou:
- Suponho que a companhia de seguros lhe perguntou se

tinha inimigos?

A HERDEIRA                           315

Sim, mas no consegui lembrar-me de nenhum. -Vinte anos antes, aquela poderia ter sido uma pergunta pertinente, mas hoje em dia a violncia irracional e aleatria era a regra e no a excepo.

- Escute, j lhe ocorreu que quem quer que tenha feito isto, fosse quem fosse, talvez estivesse a tentar atingir o Simon? H muita gente que no gosta dele e ele conhece um monte de doidos e de tarados. E o tipo que fez isto s deu um golpe no

piano e atirou a harpa ao cho, mas acabou completamente com

o cravo do Anstey.

Ela pensara que isso se devera ao facto de o cravo ser mais frgil do que o piano, mais fcil de desfazer em pedaos. Aquela ideia f-la parar para pensar.

-  Mas se procurarem os inimigos de Simon - disse ela sensatamente -, os agentes da companhia de seguros so capazes de suspeitar de ti. Ou da Claire. Ou do Colin.

- Pareo-lhe doido varrido? - retorquiu ele. - Fosse como fosse, eu no conseguiria sequer erguer um martelo ou uma marreta, ou l o que foi que ele usou, com o peso necessrio para se conseguir uma destruio destas. E a Claire j no  nova

e o Colin  um velhote que sofre do corao. Esquea, doutora Barnes. No posso dizer que goste do Anstey, mas se eu quisesse atac-lo, atac-lo-ia pessoalmente, no ia andar para a a esgueirar-me no escuro e a dar cabo de instrumentos musicais. No sou nenhum fracalhote, mas no conseguiria fazer nada de parecido com aquilo que este tarado fez. Quero dizer, para conseguir uma

coisa daquelas, tinha que vir eu e mais um exrcito inteiro.

Ela sabia que ele tinha razo. At mesmo o Joe Schafardi dissera algo de semelhante. A dada altura ele pensara mesmo poder tratar-se de um gigante de circo ou de um perito em karat. Nem com um enormssimo esforo de imaginao conseguia visualizar uma pessoa to gentil como Frodo, com o seu ar de duende, a atacar instrumentos musicais num tal frenesi. Ela vira a forma ternurenta como ele tratava a sua guitarra.

Emily veio  cozinha e cheirou o bolo de caf.
-  Oli, que bom. No me cortas uma fatia, Frodo? -Ainda tinha os olhos vermelhos e com olheiras, mas parecia ter voltado novamente  vida e Leslie sentiu-se grata por isso. Sentou-se  mesa a comer bolo de caf e a beber mais ch.

O telefone tocou. Emily estendeu a mo para o atender mas Leslie antecipou-se.

- Residncia da doutora Barnes... Simon!

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Ol, amor - a voz dele, a milhas de distncia, soou-lhe quente e alegre e Leslie desejou subitamente poder fazer o

mesmo que a irm fizera com Frodo, cair nos braos de Simon e chorar.

- Oh, Simon, quem me dera que aqui estivesses!
- Simon? Deixa-me falar com ele - insistiu Emily, mas

Leslie abanou a cabea.

- Espera, Emily. Ele estava a dizer, l de longe:
- Querida, que foi? Aconteceu alguma coisa? Ela respirou fundo, tentando manter o autocontrolo.
- Lembras-te, talvez a Emily te tenha contado que um... um psicopata arrombou a porta da sala da orquestra no Conservatrio e destruiu uns instrumentos musicais? Ele... entrou aqui na noite passada. Com uma marreta ou coisa semelhante. Deu cabo do piano da En-iily e da harpa, Simon, e destruiu totalmente o teu lindo cravo!

- Que horrvel para vocs as duas!         A voz dele estava chocada, cheia de preocupao e afecto.        Quem me dera ter estado a! Vocs esto bem? No magoou nenhuma das duas?

- No, no tocou em nenhuma de ns. Fisicamente no sofremos absolutamente nada; quando chegmos ao andar de baixo j ele tinha desaparecido - disse ela. - Mas, evidentemente, que ficmos as duas transtornadas e a Emily ficou num

estado lastimoso. - De repente pensou no que Simon diria se

soubesse que a primeira reaco de Emily fora telefonar a Frodo. No lhe pareceu que ele ficasse satisfeito.

- A Polcia foi avisada - continuou ela -, e a minha companhia de seguros tambm. Mas preciso de saber qual  a seguradora do teu cravo.

Ele disse-lhe e ela tomou nota.
-  insubstituvel, como  evidente. Era um dos cr-avos da Alison mas amor, obviamente, como eu te disse, no que toca a cravos no era especialmente valioso. O importante  que nenhuma de vocs tenha ficado ferida. S de pensar que uma de vs podia ter apanhado a criatura em flagrante e que ele as podia ter aleijado! Espero que a Polcia o apanhe e que o esfolem vivo... e isso ainda seria pouco! E eu que nem sequer estou a! Sabes que, se me fosse possvel, apanharia o primeiro avio para casa. Mas o Heysen-nann no est a ser muito cooperante. Tenho que apanhar um avio para Montreal amanh e, embora espere estar de volta na segunda-feira, tambm no tenho a certeza disso. Sentir-me-

A HERDEIRA                            317

-ia mais descansado se fosses com a Emily para o meu apartamento, amor. Eu telefono ao porteiro e podem l ficar em segurana - o edifcio tem segurana prpria - at eu voltar. E  claro que a Emily pode usar o meu piano e qualquer um dos meus cravos. E ficaria mais descansado convosco at apanharem esse desgraado e o porem atrs das grades, que  onde ele est bem. De preferncia num colete-de-foras. No consigo conceber que algum capaz de um acto desses seja bom da cabea.

Leslie tambm no.
- Simon, isso  muito simptico da tua parte, e talvez eu devesse mandar a Emily para l, mas no posso mesmo sair de casa. Afinal de contas  a minha casa e deix-la vazia seria um convite a mais vandalismo. Ele j fez o que queria... porque haveria de voltar? E os polcias so meus amigos e vo passar aqui com frequncia.

- Bem, suponho que se achas que isso  o melhor... disse ele em tom duvidoso. - Amor, se precisares de mim, eu volto para casa. Mas o maestro Wayland est em Montreal e eu devia tentar falar com ele antes de ele ir para Buenos Aires na

semana que vem. Juro que nunca perdoarei ao Heysermann por me fazer passar por isto e por tomar impossvel que eu a esteja, quando tu tanto precisas de mim - disse ele com veemncia. Chama um bom serralheiro e manda substituir todas as fechaduras e as trancas e manda verificar as grades das janelas.

- Simon, a Emily vai ter um ataque se eu no a deixar falar contigo - disse ela.

- Diz  Emily que eu falo com ela quando voltar para casa, amor. Tenho mesmo que telefonar para a agncia de viagens para marcar um voo para Montreal. Tens a certeza de que no  preciso eu voltar?

- Tenho sim, amor. Faz aquilo que tens de fazer - respondeu ela, pensando no que teria corrido mal com Heysermann.

- Telefono-te assim que souber quando volto. Amo-te disse ele suavemente e desligou o telefone. Quando Leslie pousou o auscultador Emily protestou:

- Eu queria falar com o Simon!
- Em, ele estava cheio de pressa, ia apanhar um avio disse ela. Mas porque razo no teria ele querido confortar Emily?

- Eu queria perguntar-lhe como tinham corrido as coisas

com o Heysermann - disse a irm. -  evidente que ele no est em condies de interpretar ele prprio o concerto, mas devia conseguir que o Heysermann o inclusse imediatamente no programa

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do prximo Inverno e arranjar algum como... sei l, o Claybome, ou o Di Arcangeli ou a Madeleine Lucas para o tocar.

- Quer ser ele a toc-lo, segundo percebi - disse Leslie.
- No deves ter percebido bem, Leslie. Ele no vai conseguir tocar aquele concerto, no nos prximos anos e, se passar muito tempo... no, o Simon  demasiado realista para pensar numa coisa dessas - retorquiu Emily com toda a convico.

- Sim, claro, sabes essas coisas melhor do que eu...
- Eu tenho ouvidos - disse Emily. - O Simon tem o j@nzo suficiente para saber que no poderia tocar aquele concerto. E capaz de conseguir tocar Grieg, mesmo no estado em que tem as mos - acrescentou com uma arrogncia que Leslie sabia ser totalmente inconsciente -, mas, evidentemente, nada de srio.

No era de admirar que Simon estivesse fora de si, se um ouvido educado podia ver aquilo de forma to imediata. No entanto ele parecia muito certo de que conseguiria tocar. Disse a si prpria que Emily passava a vida a falar com convico e que nunca admitia a possibilidade de estar errada, e que aquela opinio era como as outras opinies todas que ela tinha, como as relativas aos chs e a no comer carne. Era um preconceito, uma opinio apenas. No era uma avaliao. Poderia uma estudante ter mais noo da realidade do que o prprio Simon? Evidentemente que no; como Simon ficaria furioso se ouvisse Emily dizer uma tal coisa. Emily era demasiado segura de si prpria. E, evidentemente, ela agora estava num estado de agitao e estava a tentar libertar a agressividade.

- Doutora Barnes, posso usar o telefone? - perguntou Frodo.

Com certeza - disse Leslie, cortando uma fatia de bolo de caf. Mas apercebeu-se de que no lhe apetecia o bolo. Frodo foi para o trio para fazer a chamada e, quando voltou, agradeceu-lhe.

- Anda Em, no queres ir  empresa de aluguer de pianos? Tens que ter rapidamente um instrumento para poderes estudar. Doutora Barnes, eu hoje no tenho a camioneta do meu pai, podia emprestar-me o seu carro?

Ela foi buscar as chaves e estendeu-lhas. No ia sair at chegar o serralheiro e, se por qualquer razo, precisasse de um carro, tinha o de Simon. Tinha que telefonar para a companhia de seguros do Simon e essa n o era uma tarefa que lhe agradasse.

- Leslie, posso passar um cheque para pagar um ms de aluguer se virmos um piano que me agrade?

A HERDEIRA                            319

Claro, querida, e v l se consegues que eles o entreguem na segunda-feira.

- Segunda-feira? Nem pensar - disse Emily -, se no puderem fazer a entrega hoje  tarde vou a outro stio qualquer.

Frodo ajudou-a a vestir o casaco como se ela fosse uma pea rara e preciosa e saram.

Levou o resto do dia a falar com o serralheiro e com o agente da seguradora. Quando passava pouco das quatro da tarde um carro-patrulha parou em frente ao porto da casa: eram a Ballantine e o Schafardi.

- Pensmos em passar por aqui para ver se estava tudo bem consigo - disse Joe Schafardi -, e com a menina. Vejo que j mandou substituir as janelas e as fechaduras. Fez bem. Provavelmente  um caso de casa roubada, trancas na porta, mas da forma corno as coisas esto, todo o cuidado  pouco.

- Querem um caf?
- Obrigado, no estamos de servio - disse Schafardi. Mas quisemos passar por aqui. Como est a mida?

- Muito chocada, como  evidente. Mas saiu com o namorado... - pareceu-lhe muito natural referir-se assim a Frodo -, foi tratar do aluguer de um piano para poder continuar a estudar.

- Foi boa ideia - disse Pat Ballantine. - Quanto menos a rotina dela for alterada, melhor para ela. - Sorriu para a fatia de bolo de caf que Leslie lhe ps na frente. - Tem um aspecto delicioso. L se vai a minha dieta outra vez!

- Ora, Pat, deixa-te de coisas - gracejou Schafardi. Tu s escanzelada como um pau de virar tripas. Bem que podias pr mais um bocadinho de carne em cima desses ossos! O bolo  ptimo, onde  que o comprou? Quero dizer  minha mulher em que pastelaria  que se podem comprar estes bolos.

Ela informou-o que fora ela quem fizera o bolo e ele disse:
- Uau! Ento quero a receita! Estavam a ser simpticos. Mas, de alguma forma, ela era um deles. Era amiga do sargento Beckenham e ajudara-os a fazer cumprir a lei, tal como Alison fizera antes dela. Sentia-se orgulhosa por eles terem ficado seus amigos. Leslie acreditava que, assim como no havia nada pior do que um polcia corrupto, tambm no havia nada melhor do que um polcia bom e honrado, que protegia os fracos e vulnerveis, no desempenho de uma tarefa subestimada e desprezada. Leslie sentia-se satisfeita por ter acrescentado os nomes de Schafardi e de Ballantine  sua lista de amigos. Quando comeram o resto do bolo, j se estavam a tratar por

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Joe e Leslie e Pat e os dois agentes passaram revista  casa com ela, verificando o trabalho do serralheiro.

- Sim, eles no Key Korner so competentes - concordou Schafardi aprovando o trabalho do serralheiro. - Foi l que eu

encomendei as minhas trancas, quando saiu a lei que as tornou obrigatrias. J conseguiu perceber como  que o tipo fez para entrar?

Leslie abanou a cabea. Isso, para ela, continuava a ser um mistrio.

- Tive que tomar o seu partido - disse Schafardi.
O fulano da companhia de seguros, no o da Federal, como  que se chama a outra seguradora, a que tinha o seguro do cravo? Bem, o tipo foi  esquadra e perguntou se eu achava que havia possibilidade de ter sido coisa das pessoas de c de casa. No conseguia perceber como  que era possvel algum ter entrado e ter

voltado a sair. Eu perguntei-lhe se ele achava que a Leslie era uma daquelas super-mulheres que actuam nos circos.

Leslie sentiu um aperto no estmago. Ela j tinha pensado qual seria a razo para o agente da seguradora do Simon ser to desagradvel.

A Patricia Ballantine disse, em tom conciliatrio:
- Ele disse que queria um oramento de algum que percebesse de instrumentos musicais. O cravo estava no seguro como sendo uma antiguidade de valor.  evidente que, mesmo a

Leslie no tendo nada a ver com o assunto, o proprietrio do cravo

pode ter pago a algum para assaltar esta casa, dar cabo de um

instrumento mais barato, uma imitao, e depois reclamar a aplice, estando o cravo original escondido num stio qualquer. Eles tm que levar em conta esse tipo de possibilidades, faz parte do trabalho deles.

Fora ento essa a razo pela qual o investigador tinha insistido to veementemente para que os fragmentos do cravo no fossem mexidos nem removidos. Depois de ter ouvido a histria do conto do vigrio da Peggy Terman, j nada a devia surpreender. Naquele momento sentia-se muitssimo cptica relativamente  raa humana. Se o proprietrio do cravo no fosse o Simon, ela poderia muito bem ficar na dvida se no a estariam a envolver numa fraude bem urdida contra a companhia de seguros. Mas que motivos teria ele para fazer uma coisa dessas? Ele no precisava do dinheiro, disso ela tinha quase a certeza.

Sentiu-se satisfeita por Schafardi confiar nela. Tendo um

A HERDEIRA                           321

polcia como testemunha abonatria, uma pessoa ficava relativamente segura.

- Obrigada, Joe. O melhor  eu ir buscar a receita do bolo de caf para a sua mulher.

Os dias estavam a ficar novamente mais curtos. Duas semanas antes, quela hora, ainda fora completamente de dia; agora as sombras estendiam-se j sobre o jardim e o gato branco esgueirou-se silenciosamente por entre as plantas que ela e o Simon tinham plantado no fim-de-semana anterior. Ela j no tentava descobrir, nem queria mesmo saber, se aquele era o fantasma do gato de Alison que fora morto no altar de Simon, ou se era um dos gatos da vizinhana. Mantinha o esprito afastado daquele assunto. Era mais fcil assim. Tinha estado  espera, durante toda a tarde, dos carregadores de pianos; acabou por desistir de esperar por eles. A Emily no devia ter conseguido encontrar uma loja que entregasse pianos alugados, aos sbados, o que significava que ainda teriam o domingo inteiro sem piano e ela ficaria dois dias inteiros sem estudar e, consequentemente, iria fazer a vida de toda a gente num inferno.

Quando a campainha da porta tocou ela pensou que a Emily se esquecera da chave - no estado em que estava quando saiu de casa no era para admirar -, ou que o homem da seguradora j conseguira arranjar um perito que examinasse os destroos do cravo in situ. Mas, quando se apressou a abrir a porta da rua, viu Claire Moffatt no alpendre.

- O Frodo telefonou-me - disse ela. - Pensou que era capaz de estar preocupada por estar aqui sozinha depois do escurecer. Ele levou a Emily a jantar a Susalito. Leslie, que coisa horrvel que vos foi acontecer! Eu podia ter vindo mais cedo, se me tivesse telefonado.

- Eu no estou verdadeiramente com medo - confessou Leslie. - Acho que ele j fez todo o mal que queria fazer. E, seja como for, mandei pr fechaduras novas. Mas foi simptico da sua parte ter vindo, Claire.

- Para que servem os amigos? Fico satisfeita por a Emily ter o Frodo para cuidar dela; ela  um amor de rapariga e parece ter muita coragem, mas uma coisa como esta... Tenho a certeza de que ela teria preferido ser atacada pessoalmente a terem dado cabo dos instrumentos musicais. Mas o Frodo vai fazer-lhe bem;  algum em quem ela pode confiar e a quem se pode agarrar. Ele no  um ursinho de pelcia amoroso?

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Leslie sorriu.
- Eu vejo-o sempre como uma espcie de duende das florestas, um esprito.

- O Frodo  muito mais slido do que um esprito - afirmou Claire. - No me vai oferecer uma chvena de ch, Leslie?

Lesfie riu-se, levando-a para a cozinha. - Depois de um dia como o de hoje, j pensei que aquilo que me fazia falta era uma bebida forte!

- Consigo perceber perfeitamente o que quer dizer - disse Claire -, e o Colin diria que eu no lhe devo dar conselhos que no pediu, mas na verdade, Leslie, eu se fosse a si no bebia. Sempre que h vibraes negativas numa casa - e um louco como este no pode soltar outro tipo de vibraes - o lcool torna as pessoas mais sensveis, mais vulnerveis s vibraes negativas. Para alm de ser um depressivo.

Simon invocara uma razo parecida com aquela para no beber. Confirmava-se uma teoria a partir de duas fontes independentes, pensou.

- Bebemos um ch, ento. A Emily tem catorze ou quinze chs diferentes.

- Bebo o mesmo que a Leslie beber. - Sentou-se  mesa, em frente a Leslie. - E uma pena estar a ter to pouca sorte numa casa to encantadora!

Leslie ficou a olhar para o tampo da mesa, mexendo o ch.
- s vezes sinto que a casa no  minha. Ainda pertence  Alison e ela est a tentar dirigir a minha vida - disse em voz baixa.

E agora, pensou, a Claire rir-se-ia s gargalhadas ou ento diria que ela estava necessitada de descanso ou, quem sabe, de tomar uns calmantes. Talvez sugerisse um dos tranquilizantes naturais da Emily. Mas Clare no disse nada desse tipo, limitando-se a dar um gole no ch e a pousar a chvena.

- Isso seria a ltima coisa que Alison desejaria.  verdade que nos seus ltimos tempos de vida ela se sentia bastante infeliz por no ter treinado um sucessor e eu penso que foi trazida at esta casa por a Alison ter sentido que era a pessoa indicada para continuar o trabalho onde ela o tinha interrompido. Mas se essa nofosse a tarefa que j lhe estava destinada, e se de alguma forma no tivesse sido esse o caminho escolhido por si, ela nunca teria conseguido traz-la at aqui ou no teria sequer conseguido toc-la - afirmou por fim.

Leslie disse, hesitante:

A HERDEIRA                            323

O Simon ajudou-me a exorcizar a casa, no solstcio. No consigo perceber porque  que ainda continuamos a ter problemas desse gnero. - Assim que acabou de pronunciar as palavras lamentou o momento de fraqueza que a levara a fazer aquela confisso. Claire era inimiga de Simon, pelo menos num plano filosfico, e condenaria imediatamente o trabalho de magia que ele ali levara a cabo.

- Eu percebi que a casa tinha sido purificada - disse Claire -, e tinha pensado se a Leslie saberia como o fazer. Mas no sei qual  o tipo de sensibilidade que o Simon tem para determinado tipo de atmosferas. Uma das razes porque o Colin me mandou vir c em vez de ser ele a vir, foi porque eu sou aquilo a que ele chama uma sensitiva. Suspeito que a Leslie, com a formao adequada, tambm o seria. Mas a Leslie no tem formao. Todos os mgicos devem trabalhar com um sensitivo: o Simon, sozinho,  capaz de no saber como detectar determinado tipo de vibraes. Aquele estdio, a antiga garagem... Abruptamente, apesar de estar sentada na cozinha alegre, ela estremeceu. - No sei o que se ter passado entre a morte da Alison e a sua vinda para c, mas houve qualquer coisa que fez com que a Betty Carmody se fosse embora, a mesma coisa que fez com que uma mulher cometesse suicdio aqui, nesta casa.
O que quer que esteja naquele estdio pode atrair vibraes malignas. Da o seu psicopata destruidor de pianos. Ele foi atrado para um local onde encontrou um eco da sua prpria maldade e violncia.

- Ento porque ter ido para a sala de msica? No me vai dizer que as vibraes da sala de msica so assim to ms ripostou Leslie sentindo-se inclinada a irritar-se. - Eu perceberia se ele tivesse entrado no estdio. Acredito que as vibraes daquela sala so o pior possvel! Mas o ataque deu-se na sala de msica!

- No conhecemos todas as leis que regem este tipo de coisa - confessou Claire. - Quanto  sala de msica, a proxin-dade da garagem faz com que... Como  que hei-de explicar? Contgio psquico,  a melhor forma de expressar este conceito. Por muito bem selada que a sala de msica tenha sido, alguma coisa poderia ter entrado atravs da garagem. Como j disse, no sei o tipo de sensibilidade que Simon tem para esse tipo de coisa. Ele pode no ter tido conscincia do nvel de maldade existente na garagem e de que seria necessrio mais do que um exorcismo rotineiro.

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Leslie estava a tentar recordar-se se, durante o exorcismo de soIstcio, Simon se aproximara da garagem. No, tinham sido interrompidos pouco depois de terem acabado o trabalho na casa propriamente dita.

- Agora est a fazer com que me sinta culpada - disse Leslie -, por no saber proteger a minha casa contra... contra a violncia!

- Oh, n-iinha querida, essa no era de todo a minha inteno. A Leslie no tem fon-nao. O importante  proteg-la de violncias futuras. Se a casa j atraiu um psicopata, temos que tomar medidas para garantir que no atrair todos os aspirantes a Charles Manson da Califrnia. Para alm disso, no deveria estar sozinha em casa. Qualquer local que tenha sido palco de extrema violncia  imprprio para a habitao humana at que tenha sido purificado.

Extrema violncia. Na verdade, a violncia fora dirigida contra objectos inanimados. A ideia de que algo, na sua casa, poderia ter atrado o psicopata, mais do que qualquer outro local, era aterradora.

Claire acabou de beber o ch e pousou a chvena.
- Na verdade vim oferecer-lhe aquilo a que Colin chama, "primeiros socorros psquicos". Talvez esta casa, ou pelo menos a garagem, tenha que acabar por sofrer um exorcismo completo, em grande escala, mas podemos fazer alguma coisa para a proteger at que a prpria Leslie seja capaz de tratar desse assunto. A purificao do solstcio s pode ter acabado com os resduos vulgares deixados pela estao anterior; no seria suficientemente potente para lidar com algo to poderoso e horrendo como aquilo que se apoderou da garagem. No consigo perceber como, na casa da prpria Alison... - Claire interrompeu-se e suspirou. Suponho que, aps a morte de Alison, a prpria fora da sua bondade possa ter atrado o seu oposto. Colin dir-me-ia para no me pr a especular sem ter os dado,@ suficientes. Mostre-me a cena do crime, como estou certa de que a polcia lhe chamou.

Leslie levantou-se e conduziu-a ao escritrio.
- Foi a prpria Claire quem aqui instalou os pentagramas. No consigo perceber como  que foi possvel, mas parece ter sido por aqui que ele entrou - disse Leslie, indicando ajanela  qual tinha sido retirada uma vidraa. O vidraceiro j substitura o vidro. - O mais estranho  que ele parece ter levado o vidro intacto consigo; no encontrmos sinais de vidros partidos.

Claire franziu o sobrolho e pousou as pontas dos dedos no vidro. Abanou a cabea.

A HERDEIRA                           325

No sinto nada aqui. Suponho que  possvel... Calou-se e voltou a abanar a cabea.

- Claire, que foi?
- Nada. No sei. Tambm foi ele quem partiu o relgio? Leslie abanou a cabea. Como poderia confessar que fora ela prpria o poltergeist descontrolado que partira o relgio?

- Penso que pode ter havido um pequeno tremor de terra que o tenha feito cair da parede - disse, e Claire tocou ao de leve no relgio partido.

- Aqui no sinto nada de muito negativo - confirmou. Esta sala parece-me bastante calma. Vamos l ver a sala de msica.

Ficou a olhar para os instrumentos despedaados. Emily e Frodo tinham voltado a pr a harpa de p e os estragos s eram visveis nas cordas rebentadas e nalgumas esfoladelas na estrutura dourada; mas o piano parecia ter sido vtima da dentada de um monstro que lhe tivesse abocanhado a cauda e o cravo despedaado estava no cho, todos os fragmentos no mesmo stio onde o atacante os deixara.

- Que coisa to terrvel para a Emily! Para si tambm, evidentemente, mas para ela muito especialmente! - Foi pr-se junto do piano com uma expresso transtornada pela angstia. Estendeu as mos sobre o teclado despedaado e moveu-as depois por sobre a cauda do piano onde o vndalo atingira o instrumento com a marreta. Correu as pontas dos dedos sobre a

estrutura da harpa de onde as cordas estavam penduradas, caindo enroladas no cho. Finalmente, foi at junto do cravo, com os olhos cerrados como se tivesse relutncia em olhar para o instrumento e para os pedaos espalhados no cho.

- Violncia totalmente irracional - disse num murmrio. No consigo imaginar nada de humano a fazer uma tal selvajaria.

- Mas foi algo de muito humano que o fez. Pelo menos foi algo suficientemente slido para partir janelas e manejar uma marreta.

Claire abanou a cabea.
- Suponho que sim. Mas mesmo assim no me parece bem humano. No me parece... como  que hei-de explicar? No me parece suficientemente pessoal para ter sido dirigido contra uma pessoa especfica. A Alison no tinha inimigos. No tenho a

certeza de que o que quer que entrou aqui fosse material.

- Est a tentar dizer-me que isto foi obra de umpoltergeist?
- No. Os poltergeist geralmente so inofensivos. Foi

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algo de muito, mas muito pior do que isso. Algo de... - acabou por diz-lo - algo de demonaco.

- Est a referir-se a magia negra? A Satans? Ao diabo?
- Eu no acredito em Satans - confessou Claire -, e os nicos demnios que conheo so aqueles que a mente humana  capaz de criar. E a Leslie, enquanto psicloga, conhece esses demnios to bem quanto eu.

- Pensei que falar de magia negra e do diabo fosse uma outra forma de nos referirmos aos praticantes do culto satnico. Foras malignas. Disse mesmo demonacas.

Claire suspirou.
- O velho esteretipo de diabo no passa de um ser com cornos e cascos, uma cabra, urna verso do cristianismo medieval do deus P. O P era inofensivo, benevolente, at. Esse  um dos arqutipos do inconsciente colectivo que aparece repetidamente na psique da raa humana. Mas os padres da igreja da Idade Mdia eram de tal forma inibidos e sexofbicos que, de cada vez que vislumbravam esse arqutipo, achavam que era o diabo.

- Porque  que haveriam de confundir P com o diabo?
- Porque o ser humano  o nico animal, para alm da cabra, que tem uma sexualidade que se manifesta em permanncia. Os outros mamferos no tm manifestaes sexuais a no ser para a reproduo. E a cabra tem representado, desde sempre, o arqutipo da sexualidade desregrada. O que assustava tremendamente os padres da igreja que preferiam separar as ovelhas das cabras. O P era mesmo o diabo para pessoas cujo principal objectivo era a represso da sua prpria sexualidade.

- Parece o Jung, com essa conversa toda de inconsciente colectivo e arqutipos. Mas quando comea a falar de sexo e represso, ento soa a puro Freud.

- Confesso-me culpada - respondeu Claire de pronto. Estudei Freud o suficiente para ter adquirido a gria freudiana; e o sexo existe e a represso existe, quer acreditemos em todas as teorias freudianas quer no... e eu no acredito.  uma forma acessvel de expressar as ideias. Depois, quando comecei a estudar o Caminho, descobri as teorias de Jung e a teoria dos arqutipos pareceu-me bastante correcta. Mas receio que o que quer que aqui tenha entrado e destrudo estes instrumentos, no seja nada de to simples como a velha e boa cabra, smbolo da liberdade sexual. No me parece que isto tenha o que quer que seja a ver com sexo, o que dever convenc-la de que no sou adepta de Freud, pois um bom psiclogo freudiano diria que tudo tem a ver com sexo!

A HERDEIRA                           327

- Que poderia ento ter sido, Claire?
- Quem me dera sab-lo, Leslie. Se foi algo de humano s pode ter sido algum totalmente enlouquecido pela dor ou pela raiva. Algum a expressar algo de monstruoso que residisse no seu id. J estou a falar outra vez como os freudianos, mas este  um conceito til. A parte soterrada da mente, aquela parte que s conhece a insensatez da emoo pura, aquela parte do crebro que est submersa sob os pensamentos racionais e que s responde ao instinto. E isso  mais assustador para mim do que qualquer Satans clssico sado da Idade Mdia!

Ficou mais alguns instantes junto aos pedaos do cravo destrudo.

- Alison? - murmurou, virando a cabea para um lado e para o outro,  escuta. Leslie sentiu os braos ficarem com pele de galinha quando um murmrio do vento, um suspiro vindo do nada, um som fantasmagrico, surgiu na sala fechada e desapareceu.

Claire murmurou:
- Alison no est satisfeita com o que se passou aqui. Mdiuns, pensou Leslie com desagrado. Porque  que nunca diriam nada para alm do bvio? Citando a histria de fantasmas mais famosa do mundo, disse secamente:

- No  preciso umfantasma erguer-se da campa para nos

dizer isso, meu senhor

Claire soltou uma risada.
- O Shakespeare percebia disto, no percebia? Colin diz que tem a certeza de que o Shakespeare era versado no ocultismo. Lembre-se de que ele tambm disse: Posso invocar os espritos das profundezas. E algum respondeu, Ora, tambm eu? posso, assim como pode qualquer outro homem, IMas ser que eles respondero quando os invocarmos? - Pareceu sentir algum alvio, talvez em consequncia do toque de humor e conseguiu, finalmente, afastar-se do cravo despedaado. Pareceu ficar mais uma

vez  escuta e a sua expresso bondosa ficou subitamente carregada. Mas disse: - Muito bem, dir-lhe-ei. Quando puder.

Olhou para Leslie e disse, quase secamente:
- No h mais nada que possamos fazer aqui. Quando iam a sair Leslie perguntou:
- A Alison tinha mais alguma coisa para dizer? - Estava certa de que a sua hostilidade e o seu cepticismo tinham transparecido na voz e Claire sorriu. - No consegui perceber completamente. J deve ter tido esse tipo de experincia, at mesmo no seu

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trabalho corri a polcia, de receber mensagens que no tm qualquer significado para si.

- Era alguma mensagem para o Colin?
- No, era para o Simon e raios me partam se a compreendi disse Claire com franqueza. - O que ouvi foi simplesmente isto: Diz ao Simon que lhe perdoo. E conhecendo o Simon, ele no vai ficar nada satisfeito com esta mensagem.

- No - concordou Leslie -, no me parece que fique. Antes de atacar a garagem, Claire pediu para ir ao andar de cima. Franziu ligeiramente o sobrolho quando viu que a janela do quarto de Emily estava outra vez aberta, mas depois de ter entrado nos quartos saiu para o trio e soltou um suspiro.

- No h nada aqui - disse. - No conheo bem o estilo do trabalho de Simon, mas consigo perceber que a casa est bem guardada e que ele estava ansioso por a proteger.

- Parecia pensar que o Simon era um mgico negro afirmou Leslie secamente. - No encontrou aqui sinais de magia negra? _   Oli, minha querida,  tudo uma questo de nfase. O Colin treinou Simon no Caminho da mesma forma que, muito mais tarde, me treinou a mim. Ferramentas so sempre ferramentas. As ferramentas de um carpinteiro, a capacidade que um arquitecto tem de desenhar plantas de uma casa, podem ser usadas tanto para conceber e construir um hospital peditrico como um

campo de concentrao. A mesma tecnologia nuclear pode ser

utilizada numa central de dessalgao para fazer florir o deserto, como pode ser usada para construir um mssil ofensivo que pode acabar com a civilizao. As ferramentas so as mesmas. Simon foi treinado com as mesmas ferramentas que eu. Mas decidiu us-las em coisas que ns consideramos... pouco ticas.

E no sabes tu da missa metade, pensou Leslie quase em desespero, mas no podia trair a confiana de Simon.

- E  tudo o que tenho para dizer sobre o assunto. Aqui no h nada de perigoso nem de hostil. E quaisquer que sejam as

crenas de Simon a Alison amava-o, por isso no vou fazer comentrios sobre ele. Quem sou eu para o julgar? Vamos l dar uma olhadela  garagem.

Desceram as escadas e saram para ir ao estdio remodelado. Claire pareceu perturbada quando passou o umbral da porta.

- Estranho - disse ela. - Na sala de msica, mesmo depois de toda aquela violncia assassina, no senti nada... nada de humano, nada de malevolente. A fora destruidora era quase

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impessoal. Mas aqui... - Comeou a andar lenta e deliberadamente em torno da sala, com a expresso marcada por sinais de repugnncia.

- No  o tipo de stio onde uma pessoa sensvel pudesse viver e consigo perceber porque  que atraiu... algo de maligno. Se quer que lhe diga - explodiu -, se isto fosse meu mandava deitar tudo abaixo! A Alison nunca suportaria viver com uma coisa assim; isto deve ter acontecido depois de ela ter morrido ou ento depois de ter ficado doente. - Foi at ao centro da sala.

- O que quer que tenha acontecido, centrou-se aqui disse lentamente. Ps a cabea de lado, novamente numa atitude de escuta. - Sinto... dor. Terror. No sei o que ... - Abruptamente a expresso dela transformou-se e correu para o jardim e

Leslie ouviu o som de vmitos.

Bem, seja comofor ela  consistente. Foi exactamente naquele local que a Emily disse que tinha visto o gato morto. Podia perceber que o sacrifcio ritual de um animal inofensivo fosse repugnante para algum to sensvel como a Claire. Simon admitira que o sacrifcio fora desagradvel. Masfunconara. De um ponto de vista puramente pragmtico, dera resultado. Que valia a vida de um gato em comparao com a viso de Simon, com o uso das suas mos dotadas? Qual era a diferena entre o sacrifcio de um gato numa pesquisa mdica autorizada ou num acto de magia, fosse qual fosse a cor dessa magia? Ela no acreditava que a morte do gato tivesse tido qualquer influncia directa na recuperao de Simon; era apenas o mesmo mecanismo que concentrava a vontade na recuperao do corpo. Era lamentvel que Simon tivesse sentido que aquele mtodo, e nenhum outro, era capaz de focar a sua vontade, mas com certeza que se a Claire soubesse toda a hist ria, tambm ela se recusaria a julg-lo.

- Desculpe - disse Claire limpando a cara -, descontrolei-me. No estava  espera de nada assim to forte. Agora j estou bem.

- Consegue perceber o que se passou? - Leslie receou fazer aquela pergunta.

- No consigo ver quaisquer pormenores.  por isso que no sou capaz de fazer o que a Alison fazia, o que a Leslie faz, encontrar pessoas desaparecidas ou ver assassinos. S consigo captar emoes puras. S sei que algum passou os tormentos do Inferno naquele stio. Nunca tinha sentido um tal desespero. Acredito que algum se possa ter suicidado ali; se tivesse ficado ali durante muito tempo acho que tambm me teria suicidado.

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A sensao de que tudo tinha acabado, de que o fim chegara, de que tudo aquilo que faz com que a vida merea ser vivida tinha sido destrudo. Uma sensao de desespero e maldio totais.

Tanto ela como Emly tinham captado aquelas sensaes, cada uma  sua maneira; o desespero, a sensao de estar num

beco sem sada, sem ter nada que pudesse servir de salvao. Ambas eram saudveis e a sensao no durara muito. Mas agora ela sabia a origem daquelas sensaes: Simon no rescaldo da sua mutilao. Se fora aquilo o que ele sentira, como poderia algum recrimin-lo pelo ritual louco que encenara?

Nesse mesmo dia, segundo ele dissera, comeara a recuperar. Se o sacrifcio de um gato conseguia dissipar aquele fardo de desespero, ela ter-lhe-ia dado o seu prprio gato - as suas prprias mos, os seus prprios olhos - para o libertar. E ele fora liberto. O desespero ficara para trs, uma fora que sobrara ali, no estdio. _   Podemos ver-nos livres disto?

Claire respirou fundo.
- Certamente que podemos tentar. Tem alguma gua pura em casa? gua da nascente, gua destilada para o ferro de engomar, ou coisa do gnero?

Tinham sobrado quase dois litros do exorcismo que tinha feito com Simon durante o soIstcio. No era para admirar que Simon no tivesse querido purificar o estdio, estando este associado como estava ao momento de maior desespero da sua alma!

- E preciso de sal. De preferncia sal marinho ou sal-gema. Deu graas pelas manias de Emily no que dizia respeito  alimentao natural. Foi buscar a embalagem de sal marinho de Emily e a garrafa de gua e deu-as a Claire.

- Suponho que no tem os seus prprios elementos rituais?
- No viu o altar no meu quarto? E a isso que se refere?
- Isso j  uma ajuda -disse Claire. -Traga o seu clice. Tenho um que costumo usar, mas esta casa pertence-lhe e deve ser a Leslie a purific-la.

- Eu no sei o suficiente para o fazer, Claire! A mulher mais velha suspirou.
- Muito bem, se bem que fosse mais eficaz se fosse a Leslie a faz-lo. - Agarrou no clice de Leslie, encheu-o com a gua destilada e murmurou umas palavras. Consagrou o sal da mesma maneira que Simon fizera, segundo pareceu a Leslie.

- Criatura da terra, expulso de ti todas as impurezas, empresta-nos a tua fora nesta funo... - Leslie no percebeu

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todas as palavras. Uma ferramenta era sempre uma ferramenta; era o objectivo com que era usada que fazia a diferena. As palavras no tinham importncia. Simon dissera que no tinha qualquer importncia se o exorcismo era subjectivo ou objectivo. Mas a fora existente no estdio era suficientemente objectiva no efeito que provocava nas mentes incautas.

- Isto so s primeiros socorros psquicos - avisou Claire. Quando estiver preparada para isso deve fazer um exorcismo

e uma purificao totais. Mas penso que podemos evitar que esta coisa prejudique mais algum, pelo menos durante um ciclo lunar. Antes do equincio j dever saber o suficiente para fazer uma purificao como deve ser.

- Que  que eu tenho de fazer?
- Lave as mos e diga quaisquer oraes que creia serem eficazes, que a libertem dos receios e das preocupaes mundanas, e mantenha o seu esprito totalmente orientado para a paz e para o amor - ordenou Claire -, e se no suportar este tipo de linguagem invente os seus prprios termos.  a inteno que conta; para a purificar e fazer com que fique pronta para o que se segue.

Seria magia, pensou Leslie enquanto cumpria obedientemente as instrues, ou contra- sugesto? E isso faria alguma diferena? Quando se sentiu purificada, seguiu Claire at  garagem segurando numa vela. Claire empunhava o clice. Quando passou a soleira da porta, Claire fez um sinal qualquer com a mo
- Leslie no viu com clareza - e murmurou como que para si prpria:

-   Nas Tuas mos, Senhor, confio o meu esprito. Lesfie sentiu um vento frio fustigar-lhe o rosto e um arrepio percorrer-lhe a espinha. Claire empunhou a vela, passou-lhe o clice e dirigiu-se ao centro da sala. Ergueu a vela bem acima da cabea, girando no sentido dos ponteiros do relgio e Leslie pensou que ela estava muito plida. Pensou tambm, com irreverncia, que parecia estar a brincar ao gesto  tudo e a fazer o papel de Esttua da Liberdade. Impediu-se de rir  custa de um enorrne esforo de vontade.

- Onde reina a escurido - disse Claire numa voz baixa mas clara -, que reine a luz. Onde reina o dio, que reine o amor. Onde reina o desespero, que reine a f e a confiana. Ilumina toda a nossa escurido, Oh Fogo Sagrado, assim como eu ilumino com esta chama, sabendo que o smbolo nada  e s a realidade conta.

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Completou uma volta em torno do crculo; foi com a vela a cada canto da sala, repetindo em voz baixa:

- Onde reina a escurido, que reine a luz. - Voltou a colocar-se no centro da sala fazendo com que a chama lhe iluminasse o rosto. Depois passou a vela a Leslie e recebeu o clice das suas mos.

- Que se afaste deste local tudo o que  profano e maligno. Mantende-vos distantes de ns, escurido e desespero; tal corno a luz da verdade e da esperana se sobreps  escurido, eu vos esconjuro, eu vos esconjuro, pela gua e pela Terra, esconjuro todo o mal deste lugar e vos digo: ide, ide, ide-vos! - Girou lentarnente no sentido dos ponteiros do relgio (no sentido do movimento solar, ocorreu subitamente a Leslie) sem sair do mesmo lugar. Depois lanou algumas gotas de gua e sal para cada um dos quatro cantos da sala, gritando novamente: - Ide, ide, ide-vos! - na direco de cada canto.

Regressou para o centro da sala e mais uma vez girou sem sair do mesmo stio, murmurando:

- Oh, gua da pureza e Terra da realidade, purificai este lugar de tudo o que  maligno e falso, sabendo que o smbolo nada  e que s a realidade conta.

Restavam apenas algumas gotas dentro do clice. Claire devolveu-o a Leslie e chegou  chama da vela um pau de incenso.
O incenso incendiou-se e ela regressou ao meio da sala. Ps um pequeno prato de barro exactamente no centro da sala e lanou o

incenso para dentro do prato. O fumo subiu em direco ao tecto, com um odor doce e agradvel, numa espiral azul e Claire ergueu-se com o prato nas mos, pondo-o nas mos de Leslie que o aceitou sem pensar. Mais uma vez Claire girou no sentido dos ponteiros do relgio, sem sair do lugar.

- Ar da Terra e Fogo! - gritou. - Purificmos este lugar; ocupa agora este local que limpmos e fortificmos, para que sete demnios no ocupem o lugar de onde um s foi banido! Invocamos aqui o esprito da verdade e a realidade do amor, banindo toda a maldade e falsidade, tal como  agora, como foi no incio e como para sempre ser, pois todo o tempo  uno. Oh, Vs que sois os quatro elementos num s, Oh, Vs que sois toda a criao, sabemos que o que aqui fizemos  apenas um vislumbre da Vossa verdade e os nossos gestos apenas smbolos dirigidos  realidade interior. Concedei-nos, Oh, esprito eterno da verdade, que o que proferimos com os nossos lbios possam acreditar os

nossos coraes e possamos viver nas nossas vidas. Preenchei

A HERDEIRA                             333

este lugar e os nossos coraes com a Luz que no permite a escurido e assim - dirigiu~se a cada um dos cantos da sala e desenhou o pentagrama com o fumo do incenso - apelo s foras aqui invocadas e digo Amm, Amm, Amm.

Leslie murmurou:
-   Amm. - No dizia aquela palavra desde a ltima vez que fora  igreja, tinha ento quinze anos e, na altura, no atribura qualquer significado  palavra. Agora atribua. Ficou com pele de galinha nos braos e sentiu, mais uma vez, um vento frio passar por ela.

Claire saiu da garagem e Leslie seguiu-a. Esmagou o incenso no poial da porta e murmurou:

- Retornem aos elementos do ar, da terra e do fogo apagou a vela e deitou o resto da gua do clice numa roseira.

Quando os recipientes j estavam novamente no altar, Leslie perguntou:

- E agora? - Agora - respondeu Claire prosaicamente -, mexemos uns ovos ou coisa assim. Ambas precisamos de comer para encerrar os centros psquicos. - E quando Leslie se preparava para fazer perguntas, Claire abanou a cabea. - No fale nisso
- disse -, dissipa o poder. Mais tarde.

- Sente-se - pediu Leslie. - Vou preparar qualquer coisa para comermos. - Claire deixou-se cair numa cadeira soltando um suspiro. Parecia exausta.

- J no sou to nova como dantes - disse, mas quando Leslie ps uma omeleta em cima da mesa ela endireitou-se e comeou a contar histrias engraadas sobre o negcio dos livros.

Captulo vinte e um

O piano alugado j estava no lugar. O Kriabe de Emily fora levado para ser reparado. Os pedaos do cravo tinham sido recolhidos, meticulosamente numerados e levados para anlise pelo autentcador escolhido pela companhia de seguros. Emily e Frodo, trabalhando em conjunto, tinham voltado a encordoar a harpa. Frodo at comprara tinta dourada e uns pincis muito pequenos e retocara meticulosamente as falhas da estrutura esfolada. Leslie encontrara um relojoeiro que prometera reparar o mecanismo do relgio de cuco e restaurar a caixa do relgio. Aparentemente, tudo estava em paz.

Os estragos causados no sistema nervoso de Leslie foram mais duradouros. Continuava a dorn-r mal, acordando ao mnimo rudo. Conseguia controlar-se na presena dos clientes, mas descobriu que sentia averso a estar em casa sozinha depois de escurecer.

Simon j estava fora h quase uma semana quando telefonou a Leslie para lhe dizer o nmero do voo de regresso. Foi busc-lo ao aeroporto quando o Sol se estava a pr, e aguardou a chegada do avio na sala de espera cheia de esposas, mes, maridos e filhos que se juntavam perto da porta esperando pela aterragem do aparelho.

Simon era facilmente distinguvel, com a sua elegncia esbelta, no meio da multido que saa do tnel. Ela nunca se apercebera de como ele era alto; a cabea dele destacava-se sobre a

multido. Ele viu-a e acenou e ela, sem ter plena conscincia do que fazia, abriu caminho na direco dele. Simon inclinou-se e beijou-a ao de leve na face.

- Leslie, minha querida! No devias ter vindo para o meio desta confuso - comentou enquanto as pessoas se desviavam deles. - Vamos sair do meio desta turba. - Dirigiu-se, apressado,

A HERDEIRA                           335

para o parque de estacionamento. Parecia cansado e tinha novamente o brao ao peito.

- Como correu a viagem? Simon encolheu os ombros com impacincia e indicou a Leslie que se sentasse ao volante do Mercedes. Enquanto se metiam na fila de carros que se dirigia para a sada, pagavam ao empregado do parque de estacionamento e seguiam para a via rpida em direco ao norte, ele cobriu os olhos com a mo como se a luz o estivesse a incomodar.

- Pensei que o Heysermann fosse um msico inteligente e

com conscincia. Tambm pensei que ele fosse meu amigo. Enganei-me totalmente - disse por fim.

O Heysermann recusou fazer o que ele queria, pensou Leslie. Ela fazia uma ideia do que deveria ter significado para Simon ter que implorar uma oportunidade para regressar; a rejeio devia t-lo deixado profundamente magoado. Como poderia um homem destruir de forma to leviana os rebentos ainda to frgeis da autoconflana de outrem? Teria Heysermann sentido prazer na sensao de poder que esse facto lhe conferia, julgar e sentenciar um antigo colega de estudos e de profisso? - E ento o outro homem, no me lembro do nome dele, o tal que estava em Montreal?

O rosto de Simon contorceu-se como se desejasse que ela no lho tivesse perguntado.

- Toda a viagem foi uma perda de tempo, um desperdcio total e absoluto, devia ter ficado em casa e poupado o meu... o meu tempo e energias, o meu orgulho e ter estado contigo e com a

Emily quando precisaram de mim. - Ficou novamente silencioso.
O desespero parecia emanar em ondas do seu corpo curvado e derrotado.

Leslie disse, tentando quebrar a tenso:
- O agente da companhia de seguros parece ter pensado que eu estava a tentar uma fraude, amor, ou que eu tinha conspirado contigo para fazer desaparecer a tua antiguidade valiosa e pagar a algum para destruir um cravo sem valor, como aquele que o Frodo construiu a partir das peas pr-fabricadas. Nunca pensei que eles tivessem uma imaginao to delirante, nunca pensei que os agentes de seguros tivessem sequer imaginao. A Emily disse-lhes, quando eles levaram o cravo, que deviam escrever

histrias de detectives e que, nem mesmo na televiso, algum acreditaria numa histria assim.

- Lamento que eles te tenham aborrecido por causa disso

336                 MARION ZIMMER BRADLEY

- disse Simon. - Eu preferia acarretar com os prejuzos do que ver-te preocup@da e perturbada. Os cravos realmente valiosos esto nos museus. E evidente que tenho pena que isto tenha acontecido; o cravo tinha um valor puramente sentimental... - Encolheu os ombros. - A casa agora est calma? J apanharam o psicopata que fez aquilo?

- Nem sinais dele. - Leslie fez meno de entrar no desvio que levava ao condomnio dele, mas ele disse:

- @u preferia ir para a tua casa, Leslie, importas-te?
- E claro que no, pensei que quisesses deixar aqui a bagagem mas, se queres, vamos j directamente para casa.

-  uma loucura vivermos em duas casas. Temos que arranjar uma soluo - pediu ele. - Talvez consigamos que no prximo ano a Emily v para Julliard ou ento v para Frana, estudar corri o Reszke ou com o Goldblatt. Eu prprio gostaria de a ensinar mas, por essa altura, se Deus quiser, j andarei novamente no circuito dos concertos e ela precisa de algum que se dedique totalmente ao ensino. Nem todos os maestros so

como o Heysermann.

Mas Emily dissera o mesmo, que ele no estava em condies. E agora o Heysermann e o maestro de Montreal pareciam concordar com ela. Poderiam estar todos enganados? Leslie sentiu o desespero invad-la. Uma coisa, pensou, era manter a autoconfiana e a esperana, outra era recusar aceitar realisticamente as limitaes. Seria o caso de Simon? Seria to horrvel assim aceitar o destino de maestro ou de professor ou de compositor?

Nada  impossvel para a vontade treinada. Estaria ela a ser cruel e desleal ao duvidar dele e poderiam as suas dvidas contribuir para o falhano? Onde comeava e terminava a realidade? Mas ao olhar para o seu ar deprimido lembrou-se de algo que ele dissera.

S o pblico conta; o resto  como a morte. S ficamos realmente vivos quando estamos em palco. Ele no seria ele prprio se aceitasse menos do que a recuperao completa e a perfeio, fosse qual fosse o custo. Levou o carro pela Haight Strect, atrs de um elctrico, que tinha escrito numa janela PARNASSUS, de um autocarro e de vrios camies carregados. Por fim, com alvio, saiu da rua engarrafada e comeou a subir a colina, passando pelo Parque Buena Vista. Quando estacionou  frente de casa viu, com desalento, a camioneta de Frodo. Na realidade aquilo era uma falta de tacto por parte de Emly, sabendo o que Simon sentia em relao ao rapaz.

A HERDEIRA                           337

Quando entraram em casa ele suspirou e virou-se para ela, abraando-a. Ele no era o tipo de pessoa que demonstrava afecto em pblico. O beijo que lhe dera no aeroporto era o mesmo tipo de beijo que se daria a uma irm ou a uma av, mas ali compensou-a pelo tempo perdido. Quando Leslie saiu finalmente do abrao de Simon viu que Entily estava  porta da sala de msica, a sorrir e a aplaudir silenciosamente.

- Bravo! Bem-vindo, Simon - disse e lanou-se nos braos dele para um abrao cheio de entusiasmo. Ele deu-lhe pancadinhas nas costas, rindo.

- Pareces estar bastante bem-disposta - afirmou e a expresso dela ensombrou-se.

- Ob, Simon, o teu lindo cravo...
- Esquece isso - disse ele com o brao por cima dos ombros dela e levando-a para a sala de msica. - Arranjaste um

piano decente para alugar at o teu estar arranjado? Um Steiriway; sim,  um bom instrumento. H tantas empresas de aluguer que tentam impingir pianos japoneses... Eu no queria um nem dado. Actualmente no h nenhum piano americano que merea o espao que ocupa numa casa...

Parou de falar quando reparou em Frodo, a um canto da sala, de joelhos junto a um pequeno cravo. A madeira era nova e tinha um tom plido, mas tinha um aspecto polido e cuidado.

- Que est esta porcaria a fazer aqui? Frodo endireitou-se.
- Fui eu quem o construiu e emprestei-o  Emily Lamento que o seu tenha ficado desfeito, mas pensei que a Eminie devia ter um cravo para poder praticar. Eu no sei toc-lo suficientemente bem para valer a pena t-lo em casa, por isso porque no haveria ela de o ter aqui?

- No te atrevas a ser antiptico com o Frodo, Simon gritou Emily. - Ele ps a minha harpa como nova! Olha para ela! Devias t-la visto, com as cordas todas partidas...

Com dificuldade, Simon controlou a expresso do rosto.
- Estou certo de que  muito simptico da tua parte, Paul. Fazendo, segundo Leslie percebeu, um enorme esforo para ser simptico, foi at junto do cravo e inspeccionou-o. - Um Zuckermann? Ou... no, construste-o a partir dos mdulos, no foi? Devo cumprimentar-te pela tua habilidade.

- Tenho a certeza de que um dia as harpas Fredericks ainda vo ser famosas! - confessou Emily Sentou-se e correu os dedos ao de leve pelo teclado e Simon sorriu, constrangido.

338                MARION ZIMMER BRADLEY

- Eu sei que este cravo no se pode coMparar com os

maravilhosos cravos antigos da Miss Margrave - disse Frodo.
- Mas, atendendo ao que , no  assim to mav- Pode experiment-lo, se quiser.

Simon abanou a cabea. Tinha o olhar desfocado, como se os olhos lhe doessem e a mo enluvada estava apoiada na outra.

- Deixo isso para a Emily - disse sentando-se no banco do piano. Emily comeou a tocar Bach. Ela no fizera, pensou Leslie, qualquer pergunta relativamente  viagem de Simon. Afinal de contas ela sempre estivera preparada para a notcia dos seus falhanos. Emily soubera que ele no estava protito. Simon no ficara surpreendido com aquela omisso e isso era, de certa maneira, o pior de tudo.

Simon, ests com um aspecto horrivelmente cansado observou quando Emily parou de tocar. - Queres que te arranje alguma coisa para comer? Jantaste no avio?

Frodo levantou-se e disse:
- Hei, eu e a Errunie temos que ir andando. Vamos jantar com a minha famla em Susalito.

- Oh, Simon, eu no sabia que tu chegavas hoje... desculpou-se Emily em tom de lamento e esperatido uma repreenso, mas ele fez-lhe uma festa na face.

- Vai l e diverte-te, querida. Paul, conduz com muito cuidado.

- Pode acreditar que eu cuidarei muito bem dela, doutor Anstey!

Quando a velha camioneta arrancou ele ps os braos em

volta de Leslie e disse, com ar de brincadeira:

- Enfim, ss. Suponho que deve ser assim que os pais se

sentem quando tm uma oportunidade de estar em casa sem os

filhos. No tenho fome - comi no avio -, mas  bom estar em casa contigo. O que eu queria realmente... - Curvou-se e beijou-lhe as plpebras, os lbios e depois levou-a na direco das escadas.

Seria a primeira vez que estariam juntos debaixo daquele tecto.

Estava tudo muito escuro e silencioso. Era uma daquelas noites raras em que o nevoeiro fica no mar. A Lua, brilhante e quase choia, tornava o cu de uma tonalidade plida e opalina,

anil que fazia lembrar um quadro de Maxfield Parrish. 'Irnon pgou brevemente em frente da vela vernielha que ardia

A HERDEIRA                              339

no altar de Leslie - ela no se apercebera de que ele tivesse reparado no altar quando entrara no quarto - e depois escancarou a janela, olhando para o panorama das luzes da cidade que se estendia a seus ps.

- A Alison nunca teve grande opinio dos freudianos disse ele tentando levar a coisa para a brincadeira -, mas suponho que um freudiano a srio diria que a Alison , para mim, uma

figura materna e, tendo este quarto sido seu, eu no fui naturalmente capaz... - Calou-se e Leslie foi rapidamente para junto dele,  janela. No conseguia suportar o tom derr otado da sua voz.

-   Amor, ests cansado da viagem e desencorajado. No te preocupes com isso.

- S lamento ter-te desapontado.
-   Amor... - Abraou-o. - Achas que  por isso que eu te avalio? - Nem acreditava que estivesse a dizer aquelas frases estafadas, no entanto que poderia dizer?

- Sou velho de mais para ti - disse Simon -, demasiado velho para uma mulher to jovem e... cheia de vida como tu.

Ela no conseguia suportar aquilo, que ele se torturasse daquela maneira por causa dela.

- Tu s aquele que eu quero e no admito que fales como se fosses o Matusalm. Ests cansado, Simon, e naturalmente deprimido. Vem dormir.

Ele afastou-se da janela, com impacincia.
- No tenho sono. Vamos descer e assaltar o frigorfico. Talvez eu devesse ter jantado, afinal.

Mas enquanto ela fazia tostas de queijo ele andou a vaguear pelo jardim. Leslie ps as tostas num prato e meteu-o dentro do forno e foi  procura dele. A Lua estava muito cheia e brilhante e a poria do estdio estava aberta. Entrou e viu-o l dentro, em silncio.

- Quem  que esteve aqui? - perguntou ele. Ela deveria ter sabido que ele se aperceberia da transformao operada no ambiente daquela sala. Ela estivera l no dia anterior a coser almofadas sem que tivesse sentido qualquer vestgio da depresso que a assaltara da ltima vez que tentara trabalhar ali.

- Eu e a Claire fizemos um exorcismo; isto estava totalmente inabitvel, Simon.

-   Eu devia ter sabido. No vinha aqui h mais de um ano e quem sabe o tipo de coisa que aquela pateta insuportvel da Betty

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Carmody pode ter atrado para aqui? No interessa, eu posso conseguir rapidamente o tipo de atmosfera de que necessito disse. Estava no centro da sala, no local exacto em que Claire estivera quando fizera as suas rezas. Depois olhou para ela de relance, hesitante. No acendera a luz elctrica e a nica luz era a que entrava pela porta, vinda do jardim banhado em luar.

- Estou a partir do princpio de que no pors objeces a que eu volte a usar isto como templo.

Que poderia ele esperar que ela dissesse? Sentiu a respirao presa na garganta.

- Pensei que tinha ido suficientemente longe - reflectiu ele em voz alta. - Esta viagem devia estar destinada a testar a minha fora de vontade e resoluo. Nada  impossvel para a vontade treinada - acrescentou numa voz que pouco mais era do que um sussurro. Houve qualquer coisa no tom de voz dele que fez com que o sangue de Leslie lhe gelasse nas veias, mas sacudiu a sensao. Estavam no sculo xx, no no sculo xiv, e o homem que estava na sua frente era um cosmopolita sofisticado e no um primitivo ignorante. Ficou silenciosa durante tanto tempo que ele se virou para ela com ar interrogativo e depois, sorrindo, a abraou com fora.

- Aquelas tostas de queijo devem estar duras como borracha: vamos l fazer a nossa merenda nocturna antes que a Emily @ o rapaz - como  o nome absurdo que ele chama a si prprio? E o nome de uma personagem do Tolkien, Bilbo Baggins? -, antes que eles voltem para casa e nos apanhem a empanturrar-nos na cozinha como dois adolescentes!

Ela ouvira o relgio bater a meia-noite e a uma da manh, antes de ouvir a camioneta de Frodo estacionar em frente de casa. Simon estava a dormir, exausto depois de ter sido acometido por mais um dos seus espasmos dolorosos, mas Leslie estava desperta, profundamente perturbada.

Pensei que tinha ido suficientemente longe. Talvez este seja um teste  minhafora de vontade e resoluo, dissera Simon e ela pensou se ele teria novamente em mente aquela noo louca do sacrifcio ritual. Depois de tudo aquilo por que ele passara, seria para admirar que se agarrasse a qualquer rstia de esperana? A questo que se punha era quo longe estaria ele disposto a ir. E poderia ela manter-se impassvel, na esperana de que fosse aquilo o que ele necessitava para concentrar a sua vontade de recuperao? E se no podia, como poderia interferir?

A HERDEIRA                           341

Eu dar-lhe-ia a minha prpria mo e o meu prprio olho, se pudesse, pensou ela com desespero. Em ocasies anteriores j ouvira as pessoas fazerem afirmaes extravagantes em nome do amor e sempre pensara tratar-se de exageros romnticos. No entanto, sabia que seria capaz de o fazer. O seu prprio trabalho no dependia das mos nem dos olhos e sabia que, apesar de poder vir a sofrer horrivelmente com o sentimento de privao, essa privao no destruiria nada de fundamental na sua vida.

Dar-lhe~ia eu a minha vida? No. Isso no. Isso no era amor, era insanidade. Mas tudo o que no chegasse a esse ponto, tudo aquilo que a deixasse, no importava o grau de danos exteriores, interiormente intacta, isso seria capaz de sacrificar por Simon sem pensar nos custos. Quase a adorrnecer pensou: Talvez exista um ritual capaz de lhe devolver as mos dele em troca da inutilizao das minhas e, isso, eu dar-lhe-ia de boa vontade...

A camioneta de Frodo parou ruidosamente junto ao porto.
O silncio que se seguiu foi to prolongado que Leslie foi espreitar  janela e viu-os enlaados. Bem, a Emily certamente que tinha direito a viver um amor infantil e Frodo era um rapaz adorvel. At mesmo o Simon acabara por aceitar esse facto.

O odor do bacon a fritar espalhava-se pela casa quando a Emily desceu. Ao ver Simon sentado, de roupo,  mesa da cozinha, ela baixou os olhos e virou a cara.

- Que horror, bacon! No sabes que essa porcaria est cheia de nitratos e de sal e que te envenena?

- Bem, ningum te obriga a com-lo, querida - disse Leslie. Queres uma torrada? - Ps uma fatia de po na torradeira.

Emily estava a fazer uma chvena do tal ch com cor de elixir dental. Tirou um dos limes que tinham sobrado quando fizera doce e que estava na fruteira.

- Fiz dezoito potes de doce, Simon. Pus dois potes de parte, s para ti. - Espremeu o limo para dentro do ch. -  ptimo ter limes frescos.

- Vou experimentar com a torrada. No, estou a referir-me ao doce, filha - riu-se Simon afastando o limo que Emily lhe estendia. - Mmm, est delicioso. Ainda vou fazer de ti uma grande cozinheira - disse ele provando o doce. - Quais so os teus planos para hoje, amor?

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- A Susan Hamilton vem c hoje s onze e meia.
- Essa  aquela mulher que tem a criana idiota?
- A Christina no  idiota - recordou-lhe ela. Mas Simon encolheu os ombros.
- No tem mais utilidade do que se fosse. Eu prefiro poupar a minha simpatia e a minha ateno para crianas como a Emily, que as merecem. Honestamente, Leslie, se algum atropelasse aquela criana e a matasse, sentimentalismos  parte, estaria a

fazer um favor  me,  prpria criana e a toda a sociedade.

- Penso que vamos ter que concordar em discordar no que respeita a esse assunto - afirmou Leslie.

Mas Emily juntou-se  conversa e disse:
- Sabes disso to bem como eu, Leslie. Percebo que no possas dizer isso  tua cliente mas, honestamente, no seria um

alvio para toda a gente? A me da criana includa?

Leslie suspirou.
- J tivemos esta discusso antes e eu vou ter de reservar

o meu julgamento da mesma forma que fiz na altura. No estou interessada em fazer de Deus e, graas a Deus, esse tipo de deciso no me cabe a mim. - Cobriu a torrada com o doce que Emily fizera, - Isto  ptimo, Em. Que vais fazer hoje?

- Tenho que ir falar com a companhia de seguros por causa

do cravo - disse Simon -, e tenho que ir ao meu apartamento e fazer uns quantos telefonemas. Em, j passou mais de uma semana desde a nossa ltima lio; achas que tens uma hora para mim, se o teu jovem amigo te deixar algum tempo livre?

- Eu tenho sempre tempo para ti, Simon. E alm disso o

Frodo est a trabalhar - disse ela. - Queria falar contigo sobre isso mesmo. Ontem estivemos em casa dos pais de Frodo, em

Susalito, e ele disse que se ia despedir da livraria e que ia comear um negcio. Eles vo emprestar-lhe o dinheiro e vai abrir uma loja de instrumentos. Vai construir alades e arranjar violinos e

guitarras e, como lhe vai sobrar muito tempo entre os clientes, pode construir e vender cravos.

- Parabns! - disse Leslie, mas Simon ergueu uma sobrancelha com ar crtico.

- Espero que isto no signifique que ele est a pensar em assentar e constituir famlia - observou. - Aviso-te, minha querida que, se fugires, vou ficar muitssimo desagradado contigo.

- Ob, no - disse Emily, corando. - Eu nem sequer penso em casar-me, no por muitos e muitos anos! Talvez quando tiver a uns trinta ou quarenta anos!

A HERDEIRA                          343

Ele inclinou a cabea para um dos lados.
- Aos dezassete anos talvez seja difcil acreditar nisso disse ele -, mas os velhotes de trinta e quarenta anos ainda tm ambio e energia e ainda gozam a vida. Se tens a noo de que aos quarenta anos vais ser demasiado velha para te interessares pelo amor e pela tua carreira e pela tua independncia, nem penses nisso!

- No foi isso que eu quis dizer - insistiu Emily, mas

corou e Leslie suspeitou que fora exactamente isso o que ela quisera dizer.

Depois do pequeno almoo, Emily e Simon desapareceram na sala de msica e Leslie foi arrumar o escritrio, verificar se tinha mensagens no servio de atendimento e organizar o ficheiro. Susan tivera que trazer novamente a Christina consigo, mas a rapariguinha foi obedientemente para o jardim e, quando a me a sentou numa cadeira de jardim de alumnio, ficou sentada e quieta, sem

tentar mexer-se.

- Como tem passado a Chrissy esta semana? Susan abanou a cabea.
- Estou a ficar novamente sem esperana. Parecia estar a

fazer progressos, mas esta semana j nem sequer olha para mim outra vez. A minha irm Margaret diz que eu devia voltar a sair com homens, mas como reagiria um homem ao saber que eu

tenho uma filha deficiente mental? Eu devia ter comeado a sair com homens imediatamente, quando ainda podia ter mais filhos...

Leslie recostou~se passando a Susan a caixa dos lenos de papel e pensando no que Simon lhe dissera. No seria estar a

fazer um favor a esta mulher tirar-lhe aquela filha inerte e sem esperana, para que a mulher pudesse construir uma nova vida antes que fosse tarde de mais?

Mais tarde, depois de Susan se ter ido embora, deixou a Emily a estudar Bach e foi com Simon ao apartamento dele, onde o ajudou a desfazer as malas e ficou a ouvi-lo telefonar  companhia de seguros. - A nossa honestidade foi reconhecida - disse ele secamente quando desligou o telefone. - Conheo o homem que autenticou o cravo. Verificou a idade dos fragmentos e a tcnica do encordoamento. Tero eles acreditado mesmo que eu seria capaz deste tipo de fraude mesquinha para conseguir uns meros

mil e quinhentos dlares?

-   As companhias de seguros j foram vtimas de fraudes por duzentos dlares, Simon.

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Ele encolheu os ombros.

Se eu quisesse cometer um crime, no o faria por um motivo to srdido como o dinheiro - disse ele e ela recordou, sentindo-se gelar, o que ele lhe contara naquele apartamento, numa certa noite. Teria ela conscincia plena dos factos, de que o homem que amava tinha cometido pelo menos um assassnio premeditado?

Sentou-se ao piano e descalou lentamente a luva que lhe cobria a mo aleijada.

- Eu devia ensaiar mais - disse ele, flectindo os dedos com os dedos da outra mo, lentamente. - No deveria permitir que estes revezes me desencorajassem assim. - Mas levantou-se e foi impacientemente at junto do cravo.

- Ofereci este  Emily ou, se ela preferir, disse-lhe que escolhesse qualquer um daqueles que tenho armazenados e ela recusou. Recusou! Achas que ela est a levar esse rapaz Fredericks assim to a srio, Leslie?

- No consigo imaginar a Emily a agir de outra forma que no com total franqueza. Se essa fosse a razo da sua recusa t-lo-ia dito - afirmou Leslie. - Foi essa a razo que ela te deu? Que estava afeioada ao cravo de Frodo?

Ele abanou a cabea.
- No, disse que no queria l outro cravo valioso at terem posto o psicopata atrs das grades e ela saber que era seguro. Pensei que ela estava a agir com tacto...

- O que quer dizer que, presumivelmente, o cravo de Frodo pode ser sacrificado - comentou Leslie. - Simon, j devias saber que a Emily no conhece o significado da palavra tacto!

- No tinha pensado nisso - disse ele e pareceu aliviado. Se eu pensasse que ela pensara, por um momento sequer, em desistir da carreira por causa daquele desgraado rapaz, juro que o mataria... - Parou a meio da frase com um ar envergonhado.
- Bem, parece-me que me seria impossvel perdoar a qualquer um deles. - Apanhou a luva de cima do piano e baixou a tampa. F-lo com um curioso ar de finalidade.

Ela viu-o cuidar do altar no quarto e sentiu-se impressionada, agora que sabia qual o significado e as implicaes das palavras, com o poder ritual que ele possua. Tanto ele como Claire tinham sido formados na mesma escola, pelo mesmo homem. Poderiam os princpios ticos de um e de outro estarem assim to afastados? Ele parou momentaneamente com os braos abertos, numa atitude suplicante. Depois lanou incenso sobre um carvo incandescente;

A HERDEIRA                           345

no era o incenso habitual que tinha um odor puro e amargo, mas algo de diferente e extico.

- O que  isso, Simon?
- Zimbro - disse ele. - E... outras coisas associadas com P, o Stiro. Quer isso seja influncia de Alison ou no, no vou deixar que me roubem a minha virilidade... ou que me roubem a ti.

- No podes acreditar numa coisa dessas, Simon! - Mas o protesto foi automtico, no mais do que isso. Depois das ltimas semanas ela j no sabia no que acreditar e Simon sorriu, puxando-a para junto de si e beij ando-a com ferocidade.

- Anda ver por ti prpria - pediu com urgncia. As mos dele j estavam a desapertar-lhe a roupa. E qualquer que tivesse sido o efeito do ritual, mgico ou psicolgico, os resultados foram muitssimo satisfatrios.

Mais tarde, deitada completamente descontrada nos braos dele, lanando preguiosamente o olhar em direco ao relgio
- tinha um cliente s cinco horas - ficou surpreendida quando ele a agarrou e lhe disse:

-   Leslie, vamos embora daqui!
- O qu? Para onde, Simon? Referes-te a passar o dia fora?
O fim-de-semana?

- No faamos planos, vamos s embora. Para o Hawai, para a Europa. Roma. Egipto. Telefonamos para a agncia de viagens e vamos! Se sentes escrpulos em viajar com um

homem que no  teu marido, podemos casar-nos depois de amanh. Tem que esperar quarenta e oito horas por causa das anlises ao sangue, segundo me disseram. Pensa s... podamos tomar o pequeno almoo de sbado em Paris... ou em Honolulu, depois de amanh!

Ela ficou com a respirao cortada pelo carcter repentino de tudo aquilo.

- Simon, ests a brincar! Como  que eu posso deixar a

Emily sozinha?

- Se a Emily tiver medo de ficar em casa sozinha pode vir para aqui, enquanto estiverinos fora. Aqui a segurana  excelente e ela tem amigos que a podem manter debaixo de olho.

- Os meus doentes...
- Eu j deveria saber que tu s ias levantar dificuldades prticas - comentou ele em tom de lamento. - Suponho que no considerarias a hiptese de encontrar um colega que ficasse com os teus doentes? S enquanto estivesses em lua-de-mel? No percebes que eu posso necessitar mais de ti do que eles?

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Conheo um homem no departamento que emite os passaportes, ele podia arranjar-nos tudo num instante.

- Oh, Simon, seria maravilhoso, mas como  que eu posso fazer uma coisa assim, de um momento para o outro? Estou sempre a dizer s pessoas como  importante agir com base na racionalidade e no fazer coisas irracionais sob o impulso do momento! No estou a rejeitar-te. Eu... - fez uma pausa e respirou fundo perante a enormidade daquilo que estava prestes a dizer
- eu quero casar contigo. Mas ter que ser imediatamente? J no me amas se eu parar para reflectir no assunto?

Ele abraou-a.
- Eu amar-te-ei para o resto da minha vida e para alm dela, durante o tempo que for da vontade de Deus - respondeu ele muito srio puxando-a para baixo e beijando-a longamente.
- Mas Leslie, penso que podia ser tremendamente importante para ns os dois irmos embora... _   Vamos planear isso - opinou ela com meiguice. Faamo-lo com tempo suficiente para pensar em tudo e fazer as coisas como deve ser. Mesmo... - engoliu novamente em seco, no querendo acreditar que os seus sentimentos relativamente a essa questo tivessem mudado - mesmo quanto  questo do casamento. No amanh. Mas em breve. To brevemente quanto nos for possvel.

Ele suspirou, soltando-a.
- Como queiras, meu amor. Mas por muito em breve que planeemos partir, temo que seja demasiado tarde.

- Querido, o que  que queres dizer com isso? Ests... a garganta apertou-se-lhe - ests a ter algum tipo de premonio?

Ele beijou-a novamente.
- No, querida. Fui subitamente assolado por um enorme

desejo de... de me ir embora. Sei que no  racional. Sei que no faz sentido. Faremos como dizes. Lentamente, razoavelmente, sensatamente. Tenho a certeza de que tens razo, Leslie.

S mais tarde, quando a mo da tragdia se abateu sobre eles,  que ela percebeu a razo pela qual Simon lhe implorara que ela o levasse para longe.

Captulo vinte e dois

- Sabe, doutora Barnes, acho que o Pete se cansou de me atoririentar - disse Evelyn Sadler. - No tenho ouvido nada nas ltimas semanas para alm de um par de pancadas e de estrondos e limito-me a dizer, "Oh, v l, Pete, deixa-me em paz" e os barulhos desaparecem.  claro que eu tambm no estou l tempo suficiente para os ouvir frequentemente - acrescentou.
- Estou a gostar imenso das aulas de pintura. Quem  que havia de pensar que uma pessoa da minha idade podia aprender a pintar? A minha professora sugeriu que eu fizesse terapia artstica; pintar tem ajudado crianas com problemas e pessoas internadas com doenas crnicas. Eu acho que iria adorar e ela diz que fico

com um diploma.

Leslie pensou que o fantasma intrometido mal devia reconhecer a sua mulherzinha tmida; esta nova mulher, vestida com

aprumo e gosto, com o cabelo arranjado por profissionais, os

materiais de pintura dentro de uma pasta e os olhos brilhantes de entusiasmo, devia ser um problema difcil de resolver para um

fantasma. Deu a Evelyri uma cpia do ritual de exorcismo que levara a cabo com Claire, no estdio e disse:

- Experimente isto contra os estrondos e pancadas. Evelyri Sadler deu uma vista de olhos no ritual. Objectou:
- Oli, no sei, doutora Barnes. Sinto-me totalmente pateta a fazer este tipo de coisa. Especialmente desde que o Pete deixou de me incomodar.

- Faa como quiser - disse Leslie sorrindo e estendendo-lhe a mo. - Quer marcar outra consulta?

- Bem, era disso que eu lhe queria falar. Estou nas aulas de arte trs vezes por semana e vou uma vez por semana trabalhar no hospital, por isso no tenho tempo...

Abrindo-lhe a porta Leslie pensou que, pelo menos naquele

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caso, podia contar com um sucesso para os seus novos mtodos.
O carro de Simon parou em frente do porto e ele veio dar-lhe um beijo.

- No sabia que a-mos sair, querido.
- E no vamos - disse ele. - Hoje vou abandonar-te para levar a Emily a sair  noite. No te importas, pois no amor?

-  claro que no. Divirtam-se - disse ela quando Emily apareceu a correr pelas escadas abaixo, vestida com uma camisola azul e saia a condizer e um ar fresco e luminoso. Tinha o cabelo solto e trazia caladas umas sandlias. - Vo chegar muito tarde?

- No, no muito tarde; provavelmente tr-la-ei de volta l para as dez horas - respondeu Simon beijando-a novamente e ajudando, com meiguice, Emily a entrar no carro.

Leslie entrou em casa e sintonizou o rdio num dos dois canais de msica clssica e ficou a ouvir um concerto gravado ao vivo anos antes, em Munique. O apresentador disse o nome da orquestra. O maestro fora Lewis Heysermann e ouviu, com uma sensao de inevitabilidade, o nome do solista convidado: Simon Anstey. Escutou a voz neutra e calma, com um ligeiro sotaque britnico, traduzir as palavras do apresentador, recapitulando os prmios que Simon ganhara e as orquestras mundialmente famosas com quem j tocara. De seguida, ouviu os aplausos que tinham saudado o amante. Escutou os oito acordes, comeando pianissimo e crescendo velozmente para um retumbante fortissimo, anunciando o incio do concerto de Rachmaninoff.

Ele falava frequentemente do que fariam quando se casassem, mas no a pressionara para marear uma data imediatamente. Ela, por seu lado, parara de aceitar novos clientes e comeara a falar em terminar a terapia a um ou dois dos que a consultavam. Contrariamente aos freudianos, sentia que, se no conseguisse provocar mudanas significativas nas vidas dos seus clientes em poucos meses, no era provvel que mais uns anos de terapia fizessem diferena, excepto no incremento do sentimento de dependncia para com o terapeuta. Recomearia a sua actividade depois do casamento; se Simon ia viajar uma grande parte do tempo, ela teria que se manter ocupada, a no ser que quisesse passar a vida  espera, em casa. Mas os primeiros meses do casamento seriam dedicados a Simon, exclusivamente a Simon.

Quando o concerto acabou ouviu o encore: um par de preldios de Chopin. Ouvira-o tocar um daqueles preldios um ou dois dias antes. Tinha conscincia de no ter competncia sufi-

A HERDEIRA                             349

ciente para avaliar as diferenas na forma como ele tocara naquela altura e como tocava agora. Mas ele tinha e isso estava a destru-lo.

s dez e meia ouviu os passos de Emily no trio e apressou-se a ir ao seu encontro. Emily, com um olhar sonolento, estava parada, com uma rosa vermelha na mo. Cheirou-a, quando Leslie perguntou:

- Onde est o Simon?
- Decidiu no entrar - disse Emily sonolenta, cheirando

a rosa. - Telefona-te amanh.

- Tiveste urna noite agradvel? Onde foram?
- O Simon levou-me a um culto - disse Emily.
- O qu? Por amor de Deus, que sabes tu dessas coisas?
- Bem, o Frodo explicou-me algumas coisas sobre o Caminho - esclareceu Emily -, mas eu estava sobretudo curiosa porque houve algum que me disse que ele era um mgico negro e ele disse que me levava, para que eu pudesse ver com os meus prprios olhos.

No meio daquela confuso de "eles" e de "alguns" Leslie deduziu que Frodo lhe tinha dito que Smon era um mgico negro, que Emily perguntara a Simon e que este a levara ao culto.

- Como  que foi? Emily bocejou.
- Aborrecido - disse. - Tremendamente aborrecido; para o fim s me apetecia dormir.

- Ento permitem a entrada a estranhos? -Aquilo no se

parecia com nada do que elaj ouvira dizer sobre o assunto.

- Bem, eu no era exactamente uma estranha - observou Emily. - Em todos os cultos h lugar para uma rapariga que no seja exactamente um membro. Esqueo-me do nome que lhe do, mas deram-me uma linda tnica branca e puseram-me uma

rosa na mo. - Deu uma risadinha. - O Simon perguntou-me

se eu era virgem. Acho que ele estava mais embaraado do que eu, mas foi muito insistente nessa questo. Quero dizer, ele tornou muito bvio que ningum me tocaria... li uma histria horrvel de uma rapariga que foi levada a uma sesso destas, e tinha que ser virgem, e eles acabaram a festa com uma violao em grupo, por isso eu quis ter a certeza de que ali a ideia no era essa. Mas acho que  s uma questo simblica.

Leslie sentiu-se satisfeita por no ter lido aquela histria de horror. J tinha tido pesadelos suficientes.
- Ento ningum te tocou?
- Meu Deus, no. Deixaram-me num cubculo esquisito para

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vestir a tnica e o capuz e depois deram-me a rosa e disseram-me para me sentar numa cadeira a uma das pontas e ficar em silncio. E eu sentei-me e ouvi at ficar aborrecida e me deixar dormir.

- Mas, mas, mas... - Leslie sentia-se transtornada de curiosidade. - De que  que eles falaram?

Emily encolheu os ombros.
- No percebi nada da maior parte do que eles disseram. Estavam a discutir folclore, acho eu, e houve uma pessoa que leu um documento sobre o culto das bruxas em... penso que era na

Irlanda, mas se calhar era na Finlndia. Oh, sim e depois puseram o Simon no meio de um crculo e toda a gente rezou para que ele ficasse bom. E depois deram um beijo uns aos outros, a que chamaram beijo da paz; beijaram-se todos, mesmo os

velhos de barbas. E depois eu adormeci. Estranho. Houve um que me ps em causa, disse que eu era demasiado velha. Suponho que eles acham que as virgens tm que ter menos de doze anos. Perguntaram-me se eu lhes dava a minha palavra de honra em como era virgem e eu disse que sim. Acho que deve ser um

bocado esquisito, uma rapariga da minha idade ainda ser virgem.
- Bocejou novamente. - Leslie, achas que se passa alguma coisa de estranho comigo? Ora, tu mesmo que pensasses no mo dirias, lin-tar-te-ias a perguntar quem  que tinha dito que isso era estranho! Vou para a cama - concluiu e subiu as escadas, com a rosa ainda na mo.

Na verdade aquilo no se assemelhava a nada que tivesse ouvido sobre magia negra nem, j que falava nisso, magia branca, mas parecia inofensivo. Evidentemente que, caso a Emily tivesse sido drogada ou hipnotizada, o que explicaria a sua sonolncia... Mas a verdade era provavelmente a que Emily lhe contara, achara tudo aquilo to maador que nem se lembrava (nem queria lembrar) se tinham falado da Irlanda ou da Finl ndia. Continuava a sentir-se agitada quando se foi deitar at que, por fim, identificou o que sentia: estava com cimes de Emily.

Era bvio que Simon partilharia sempre com Emily aquele mundo a que ela prpria s tinha acesso a partir do exterior,
* mundo dos msicos profissionais. Mas aquilo? Aquilo tocava
* seu prprio mundo, o mundo da psicologia, da parapsicologia, da magia. Estava com cimes e sentia-se envergonhada por estar com cimes.

No entanto, na vez seguinte que esteve com Simon no apartamento dele, o assunto pareceu-lhe demasiado mesquinho e

pouco importante para ser mencionado. E tinha uma preocupao

A HERDEIRA                              351

mais premente. Os espasmos dolorosos que ele sentia nos olhos ocorriam agora com menos frequncia, mas surgiam to inesperadamente e com a mesma violncia de sempre, razo pela qual ele quase deixara de conduzir e pedia a Leslie que o conduzisse quando estava disponvel, chamando txis quando no estava. Numa ocasio ela perguntou-lhe, suavemente:

- Simon, os mdicos no podem fazer nada em relao a ist09

-  um problema no nervo; pode vir a desaparecer com o

tempo, mas os nervos ou saram espontaneamente ou nunca saram - respondeu. - A nica soluo que eles me podem dar  drogar-me at eu ficar insensvel. Eu prefiro sofrer e ser eu prprio durante o resto do tempo, do que passar o resto da minha vida num nevoeiro provocado pelas drogas.

Ela no podia deixar de o respeitar por aquela atitude, mas

v-lo assim despedaava-lhe o corao. Ele aprendera algumas tcnicas de auto-hipnose que, segundo dizia, o ajudavam a ultrapassar as fases mais agudas dos ataques. Mas era espantoso que toda aquela dor no o tivesse j enlouquecido. Quando ele adormecia ela ficava a observ-lo, profundamente perturbada. Se, pensou ela, ele voltasse a pedir-lhe que se casasse com ele e se fossem embora de um momento para o outro, ela aceitaria. Os seus doentes sobreviveriam; encontrariam outro terapeuta ou arranjariam forma de resolver os seus problemas sozinhos. Simon precisava dela, e havia to pouco que ela pudesse fazer por ele.

Estava meio a dormir quando Simon gritou e se sentou na cama olhando, desorientado, para todos os lados. Estava preparada para o consolar, pensando tratar-se de mais um dos seus pesadelos, mas ele gritou:

- Alison! - e ficou totalmente desperto.
- Queres contar-me o sonho, Simon? Ele estava coberto por suores frios; pensou momentaneamente que estava novamente com dores, mas abanou a cabea quando ela lhe perguntou se era isso o que se passava.

- Pesadelo?
- No - disse ele rangendo os dentes. - Ia jurar que vi... a Alison. Mas como  que isso pode ser? Ela nunca aqui esteve em vida, e tem que existir um lao com os vivos.

- Porque  que ela no haveria de te aparecer, Simon? Ela amava-te.

- Brigmos por causa... daquilo que te disse antes. Queria que eu fosse o sucessor dela. Queria que fosse um... idiota inefi-

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caz como o Colin, satisfazendo-me a estudar e a nunca aplicar o

que aprendesse... Depois de ter tido a trombose ela descobriu...

o gato...

- Pensei que isso tivesse sido depois da morte dela, Simon.
- No. - Ele ficou a olhar sombriamente para o vazio. Era, segundo pensou, a altura ideal para lho dizer.

- Simon, depois do... do vandalismo, quando a Claire l foi, ela... na sala de msica, disse que a Alison lhe tinha aparecido...
- Leslie interrompeu-se. Sentia-se idiota ao utilizar a linguagem do espiritualismo; por muito que gostasse de Claire ou por muito que ela prpria tivesse f na vida depois da morte, no se

sentia confortvel com a terminologia. Seria devido ao facto, pensou, de aquele tipo de experincias ser essencialmente no verbal e estas parecerem diminudas ao serem traduzidas em palavras?

- Ela disse-me que a Alison lhe tinha dito: Diz ao Simon que lhe perdoo.

Mas Simon limitou-se a olhar sombriamente para a parede e a dizer, num tom que encerrava a discusso:

- Esse  o tipo de mensagem que a Claire esperaria ouvir, e portanto estou certo de que ela acredita ter sido essa a mensagem que recebeu.

Acreditar realmente o Simon que a Alison Margrave foi para o tmulo sem lhe ter perdoado? O facto de ter vivido na casa de Alison Margrave durante aquelas semanas conturbadas servira para ficar com uma ideia da mulher e, embora Alison pudesse discordar fortemente com o que Simon acreditava e com aquilo que ele fazia, se alguma coisa sobrevivia  morte, Leslie no acreditava que fosse aquele tipo de ressentimento. Mas acreditaria Simon que Alison o estava a perseguir do outro lado da morte, aborrecendo-o para que deixasse as suas prticas malignas? Ele ficara impotente no quarto de Alison. Alison era, para ele, uma

figura materna. O sentimento de culpa que no conseguia reconhecer em si prprio por aquilo que fizera (assassnio? Fosse como fosse que ele racionalizava as suas aces, fora assassnio) podia transferi-lo facilmente e dizer que era a Alison que o culpava pelo que fizera. Mesmo algum que no tivesse formao em

psicologia no teria muitos problemas em perceber que era disso que se tratava.

Disse, depois de um longo silncio:
- A casa, sabes, era para ser para mim. Ela sabia do meu interesse pela taumaturgia - aquilo a que Colin chama "Magia Negra" -, mas acreditava que no passara da curiosidade juve-

A HERDEIRA                            353

nil que ela j me perdoara. Quando... fiquei ferido... - cerrou os maxilares. Custava-lhe sempre falar do acidente - e ela descobriu que, depois de ter tido a trombose, eu no lhe tinha pedido permisso mas adoptara estes procedimentos para conseguir o poder necessrio para me curar, deserdou-me. Deixou-me os cravos porque no conhecia ningum a quem os pudesse deixar. Mas j no confiava o suficiente em mim para ter a certeza de que eu entregaria aos museus as peas mais raras. Alterou o testamento deixando-os directamente aos museus. E agora... Leslie, conta-me outra vez como foi o ataque do vndalo. Tenho boas razes para to pedir.

Leslie no sentia vontade nenhuma de reviver o pesadelo daquela noite, mas contou-lhe na mesma como ela e Emily tinham sido acordadas pelos sons horrendos vindos da sala de msica, como tinham corrido para o andar trreo e tinham descoberto que o intruso se escapulira sem deixar qualquer pista relativamente  forma como sara da casa e como tinham chamado a polcia.

- E eles no encontraram nenhum indcio...
- Nenhum. Absolutamente nada. No conseguiram perceber como  que ele entrou mas, pior ainda, no encontraram o

stio por onde ele pudesse ter sado.

Fez-se um longo silncio. Simon disse por fim:
- Meu amor, j alguma vez viste umpoltergeist?
- Sim. - No deu mais explicaes.
- J te ocorreu que a destruio na sala de msica... foi muito mais horrenda do que aquilo que um vndalo humano poderi a conseguir?

Claire sugerira o mesmo.

Ela chamara-lhe desumano. Tinha havido mesmo um momento terrvel em que Leslie pensara se aquela coisa horrenda que a atormentava, aquilo que atirara a copo de vinho  cara de Joel e tocara campainhas desligadas, tivera um acesso de fria naquela sala. Mas porqu? Porque faria ela uma coisa daquelas a Emily, com tanta gente que havia no mundo? Ser que os

freudianos tm razo e todo o meu amor por Emily no passa de uma racionalizao de dio e cime? Sentiu a garganta apertar-se e no conseguia respirar.

- Simon, achas que... eu...
- Tu? - Olhou para ela sem qualquer expresso. - De que ests a falar? Mas aAlison morreu a odiar-me. E o que  que tu achas, se ela procurou tanto uma sucessora para a casa dela, o que  que tu achas que significa para ela que tu e eu estejamos

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juntos, como estava destinado. Que eu tenha voltado novamente para a casa, que eu seja teu amante, que mais uma vez esteja entrincheirado naquela casa e que seja bem-vindo como amigo. A violncia sobre o piano e a harpa foi quase ocasional, Leslie. Mas o meu cravo, o cravo que fora dela e agora era meu, ficou feito em pedaos. O autenticador da companhia de seguros disse-mo. Digo-te, aquilo foi a fria de Alison contra mim, Leslie. Foi a maneira dela me dizer para sair, de que no me aceitaria na casa dela, nem na tua vida. Ela quer-te, Leslie, como sucessora; mas est a tentar salvar-te da minha maldade.

Olhou para ele com desalento. Aquilo era completamente incongruente com tudo aquilo que sabia de Alison. E no entanto...

Claire dissera-o; a Alison no era nenhuma santa. Podia ser implacvel. A casa tornara-se inabitvel aps a sua morte. Para l da morte ela traara inexoravelmente o seu cantinho. Qual seria ento o tamanho da sua fria quando descobrira que o homem que fora para ela como um filho, que - segundo pensava a trara e, consequentemente, fora deserdado, entrara na vida da sua sucessora to cuidadosamente seleccionada?

E se um poltergeist neste plano podia ser aterrorizante e Leslie conhecera esse terror - que efeito teria numa mulher que j no estava confinada pelos limites do tempo e do espao?

- Existem outras razes para a Alison me odiar. Prefiro no entrar nesse assunto agora - disse ele -, mas parece-me que foste tu que atraste tudo isto, Leslie, ao aceitar a irnha amizade. E o meu amor. Alison... - a voz ficou-lhe quase estrangulada na garganta. - A Alison, segundo creio, no se deter perante nada para evitar que isto continue. Se nos casarmos e eu for viver para a tua casa... podemos correr muito perigo, Leslie. Ela pode expulsar-nos... ou pior do que isso.

Recordou-se de uma frase que lera no livro que Simon e

Alison tinham escrito em conjunto: as velhas regras que regiam a vida tinham sido feitas em pedaos e os novos parmetros que regiam a existncia ainda no eram claros. Tudo isto fazia com que aquilo em que sempre acreditara ficasse virado do avesso; acreditara que a malevolncia no sobrevivia ao tmulo, no entanto aquilo que Simon dissera tomava muitas coisas arrepiantemente claras. Se Alison Margrave no era uma guia benevolente que, do Alm, ajudava Leslie a continuar com o seu trabalho para benefcio da humanidade, mas era antes algum que buscava vingar-se de Simon, que a trara; se no se contentara com o facto de o ter deserdado mas queria certificar-se de que Simon no vive-

A HERDEIRA                              355

ria na casa dela nem mesmo agora, que ela prpria j no a podia usar..

Leslie sentiu-se espoliada. Ela acabara por encarar Alison

como uma guia, uma benfeitora que a ajudava a encontrar novos carrfinhos e mtodos que a conduziriam a um novo tipo de prtica profissional. No entanto, ao reflectir naquilo que Simon dissera, no conseguia encontrar nenhuma falha evidente no raciocnio dele.

-   E existe alguma razo para tu viveres naquela casa, Simon? Depois de nos casarmos podemos viver aqui ou em qualquer outro stio. Ela que fique com a vitria. Para que havemos de continuar com esta batalha?

-  isso que tu queres, Leslie? Retirar e ir embora? Estou desapontado. A casa agora  tua. No perrnitirei que ela te expulse! Nem permitirei que ela estabelea os meus limites, como se eu ainda fosse um garoto sob a sua tutela!

- Mas que podemos fazer?
- H maneiras de o conseguirmos - afirmou ele calmamente. Ela pode ser expulsa deste plano. No nego que seja perigoso. Mas eu no tenho medo dela. - O seu olho saudvel brilhava de fria. - No queria fazer-lhe mal, mas sou capaz de a enviar para a vida eterna que ela deseja ou merece. De acordo com os seus prprios princpios, dever ficar feliz com isso. Ela sempre disse que os mortos no tm o direito de ficar a perturbar a vida dos vivos. Entre outras coisas, suponho que ela no se deter perante nada para evitar que eu faa aquilo... aquilo que eu sei que tenho que fazer - concluiu ele desviando os olhos dela e Leslie sentiu o corao parar-lhe no peito.

Aquela conversa seria o suficiente para convencer qualquer estranho de que os dois mereciam ser internados nas celas adjacentes de um hospital psiquitrico! E agora Simon estava a voltar-se novamente para aquela crena louca de que, atravs de sacrifcios, conseguiria invocar o poder suficiente para curar a mo e o olho. Mas seria aquela crena mais louca do que a outra, segundo a qual Alison, do alm tmulo, destrura o cravo de Simon e tentaria evitar que Simon e Leslie se amassem e trabalhassem juntos?

- Eu posso combat-la - disse ele -, mas primeiro tenho que tomar-me mais forte. S h uma forma... - Interrompeu-se, curvou-se sobre ela e beijou-a acariciando-lhe o rosto. - Meu pobre amor, isto tudo te assusta. No precisas de saber de nada a no ser que o queiras. Seja como for, tambm no temos tempo suficiente para te treinar para um trabalho a este nvel. Leslie,

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tenho uma coisa para te pedir. Ests a pensar usar o estdio na prxima semana... ou no prximo ms, talvez?

- Porqu? No - disse ela espantada pela sbita mudana de assunto. - No tenho l nada a no ser uma mquina de costura e um manequim velho. Se quiseres usar o estdio... - Quase se sentiu desfalecer. Para que quereria ele o estdio? E colaboraria ela naquelas actividades monstruosas?

- Ento... Leslie, posso us-lo durante um ms? No mais do que um ms. Juro solenemente que, por essa altura, ou j terei conseguido os objectivos que me propus ou abandonarei qualquer esperana de os vir a atingir.

Ela disse, agarrando-se  sua mo:
- Sabes que tudo aquilo que eu tenho te pertence, Simon. Ele fora to generoso com ela e com Emily e ela tinha to pouco para lhe oferecer. At a casa que deveria ser dele lhe pertencia a ela.

- Permites que eu mande trocar a fechadura? Eu dou-te uma chave para qualquer emergncia, se no confiares em mim...

Como  que eu posso admitir que no confio nele? Confio nele em tudo, em tudo excepto no que se refere a esta obsesso. Nunca se pusera a questo anteriormente: se ele lhe pedisse que o ajudasse num daqueles sacrifcios, que faria?

Mas certamente que o que ele quer dizer, aquilo que ele tem em mente,  mais um sacrifcio de um animal. E embora a crueldade para com os animais seja, tecnicamente, ilegal , acima de tudo, uma questo de conscincia. Um nmero incomensurvel de ces e gatos  sacrificado nas pesquisas cientficas e h certas espcies de macacos que so criados exactamente com esse propsito. Quando  feito pelo grande capital tudo  perfeitamente legal. A hipocrisia da lei  tal que diz que  ilegal para um homem sacrificar um co ou um gato, no entanto permite a matana de animais em massa para a alimentao, para os negcios ou para a investigao cientfica. Porque haveria ela de objectar a esse tipo de sacrifcio?

E se ele tivesse a inteno de fazer qualquer coisa mais grave certamente que no me diria onde e quando ofaria. Simon no me tornaria cmplice de um assassnio. Ele sabe que eu colaboro com a polcia nestas questes; nunca poderia acreditar que eu me calaria relativamente a uma vida humana.

- Faz como queiras, Simon - concordou ela. - Eu confio em ti.

Captulo vinte e trs

Estava a preparar-se para receber a Susan Hamilton quando viu a carrinha do serralheiro. Emily estava a estudar, Leslie bateu  porta e entrou.

- Vais precisar de alguma das coisas que esto no estdio durante as prximas semanas, Emily?

- No me parece, porqu?
- Porque a fechadura vai ser trocada e eu no vou ficar com uma chave. Se quiseres alguma coisa... a mquina de costura, por exemplo...

- E quando  que eu ia ter tempo para coser? -A pergunta era totalmente retrica e En-ly no esperou pela resposta. -Tenho que me preparar para a audio deste ano para a escolha de um pianista e vou frequentar um curso sobre peas para cravo. Estou a precisar de roupas novas... isso foi uma maneira simptica de me dizeres que vou ter que ser eu prpria a faz-las?

- No, no, acho que temos dinheiro para te comprar umas quantas peas de roupa, desde que estejas disposta a ser razovel. Mas a garagem vai ficar fechada e se tu quisesses o manequim, ou outra coisa qualquer...

- Se eu quiser - disse Emily -, o Simon tira de l o que for preciso, com certeza. Ele disse-me que ia passar a vida a entrar e a sair de l nas prximas semanas. -Voltou a debruar-se sobre a pauta que estava na estante do piano e Leslie sentiu novamente aquela sensao ignbil de cime. Ento ele contara a Emily e no lhe dissera nada.

O serralheiro estava a trabalhar na porta e Leslie entrou para ver se necessitaria, nas semanas seguintes, de alguma das coisas que estavam na garagem. Tirou a pequena caixa que continha as agulhas, a almofada dos alfinetes e as linhas de cor, as tesouras e as fitas de nastro. No iria necessitar da mquina de costura mas,

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enquanto guardava os materiais de costura, sentiu-se certa de que alguma coisa ia certamente precisar de ser passajada.

- Podes entrar, minha menina - disse o serralheiro sorrindo simpaticamente e Leslie viu Christina Hamilton junto  porta.

- Chrissy! - chamou Susan.
- Ela est aqui, Susan. - Leslie pegou na mo da criana. A mo de Chrissy era seca e macia como a pata de um pequeno animal. Mas quando Leslie tentou conduzi-Ia para fora da garagem ela resistiu silenciosamente e foi direita ao centro da sala onde comeou a girar lentamente sobre si prpria, no sentido dos ponteiros do relgio. Exactamente, pensou Leslie, no local onde Claire fizera o mesmo. Ouvira uma vez uma teoria segundo a qual as crianas atrasadas, ou que no falavam, tinham dons psquicos to desenvolvidos que no conseguiam bloquear os assaltos extrasensoriais de que eram vtimas e era isso que as levava a cortar os acessos ao mundo exterior. No sabia se acreditava nessa teoria, mas no havia dvida de que Chrissy estava a repetir os movimentos que Claire fizera, erguendo as mos exactamente da mesma forma que Claire erguera durante o ritual.

Depois disse numa voz alta e clara:
- Gatinho.
- No vejo nenhum gatinho, querida - disse Susan junto  porta. - Anda Chrissy, anda brincar no jardim, aqui no. Anda para o sol, amor. - Foi ter com a filha e pegou ao colo a criana que resistia passivamente, levando-a para o exterior. Christina no se debateu, mas assim que Susan a ps no cho, correu novamente para o interior da garagem e, mais uma vez, Susan teve que a tirar de l ao colo.

- No faz mal - disse Leslie -, a porta vai ficar fechada.
- Vai brincar debaixo da rvore, Chrissy. A mam vem

buscar-te daqui a uma hora - ordenou Susan, mas Chrissy j se

retirara novamente para o seu mundo interior.

- Ouviu-a, Leslie? Oh, meu Deus, pensei que tinha sido imaginao minha, mas ela disse "Gatinho". Ela  capaz de falar. Ento por que no fala? - Susan estava quase a chorar.

A linguagem nunca  adquirida ou, se  adquirida,  novamente perdida. Era essa a definio de uma criana autista. Mas Christina no era autista, pelo menos no o era na forma clssica. Mas por que razo nunca falaria? Leslie no conseguia imaginar qual seria a razo.

Foi ter com o serralheiro mas este disse-lhe que j recebera as suas instrues.

A HERDEIRA                              359

O cavalheiro vem c ter comigo, segundo me disse. Acho que  ele que a vem.

Leslie ergueu os olhos e viu Simon a subir o caminho.
- O serralheiro est aqui, amor. Agora tenho uma cliente, mas daqui a uma hora venho ter contigo - disse-lhe a sorrir.

Simon sorriu afectuosamente e, como Chrissy estava exactamente no meio do caminho, desviou-se para no esbarrar nela. Chrissy ergueu o rosto e gritou. Recuou, aos tropees, gritando novamente e correu para o canto mais distante do jardim.

Susan correu a ver se lhe acontecera alguma coisa.
- Se calhar uma abelha picou-a! No vi nada, mas se calhar.. Chrissy, Chrissy, que foi? Mostra  mam. - Chrissy continuava aos gritos por baixo dos arbustos; Susan debruou-se sobre ela examinando-lhe as mos e os braos, os joelhos nus e esfolados e o rosto contorcido pelos gritos. Quando a me lhe tocou ela acalmou-se.

- No, no foi picada - disse Susan voltando para junto deles.

- Parece-me que a sua filha no gosta de mim, Mrs. Hamilton. Mas olhe que no sou nenhum monstro - afirmou Simon e enfiou a mo no bolso. - Tome, talvez isto a acalme.
- Tirou do bolso um chocolate embrulhado numa prata amarela e estendeu-o a Susan.

-  o doutor Anstey, Susan. O meu noivo. Susan olhou para ele, com impotncia.
- Ela no faz isto por mal, doutor Anstey. Ela... ela no fala. No sabemos at que ponto  que ela percebe ou no as coisas.

Simon encolheu os ombros.
- Eu j tinha percebido. Lamento se fui eu que a assustei; espero que o chocolate me sirva como desculpa. - Fez uma vnia fria e foi ter com o serralheiro.

- Um doce, Chrissy. Queres um doce? - Susan desembrulhou o chocolate e estendeu-o a Chrissy. Esta deixou que a me lhe pusesse o chocolate na mo e depois deixou-o cair propositadamente no cho e pisou-o, afastando-se de seguida. Ajoelhou-se e comeou a brincar com uma pedra.

Talvez ela seja vidente. Talvez saiba que Simon disse, mais do que uma vez, que era melhor que ela morresse. Leslie nunca vira antes, por parte de Christina, nenhuma aco com um objectivo definido, mas agora percebia a razo porque Susan acreditava que ela devia ser possuidora de alguma inteligncia, por muito escondida que esta estivesse.

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Se acha que ela fica bem, Susan, no  melhor entrarmos e comearmos a sesso?

- Sim, ela fica bem. - Susan olhou para a criana com uma angstia incontrolvel, mas quando entraram no consultrio j estava novamente resignada.

- Podia ser pior - disse ela num tom duro e petulante. A me de uma das crianas da escola da Chrissy tem uma filha atrasada mental. De aspecto tem dezassete ou dezoito anos, mas mentalmente tem apenas cinco e vai com qualquer um. A Helen tem medo de desviar os olhos da Jenny nem que seja por um

minuto. Pelo menos no tenho que me preocupar com a possibilidade da Chrissy aceitar doces de estranhos.

Quando a Susan se foi embora, Leslie encontrou Emily na cozinha a embrulhar sanduches. Em cima da bancada estavam as cascas de ovos cozidos, cascas de aipo e um frasco de maionese vazio. Simon entrou, vindo do estdio.

- Isso cheira bem, Emily. Vamos ter ovos recheados para ojantar?

- Esto alguns para ti e para a Leslie numa travessa, dentro do frigorfico - disse Emily ocupada, a embrulhar as sanduches com filme. - Eu e o Frodo vamos fazer um piquenique nos Muir Woods. Um amigo dele, que constri instrumentos medievais, vem connosco, vo conversar acerca da loja. Acha que se

calhar pode alugar uma em Berkeley.

- Parece um negcio interessante - lembrou Smon bem disposto. - Se o Paul - como  que tu lhe chamas? Frodo? -, se ele quiser dar uma vista de olhos aos cravos que eu tenho guardados, diz-lhe que me telefone. Se vai construir cravos o melhor  ter bons modelos.

Emily lanou os braos em torno dele.
- Oli, Simon, no te consigo dizer o significado que isso tem para mim, que tu e o Frodo se dem bem! As duas pessoas que mais amo no mundo...

- No consigo realmente perceber o que vs nesse jovem cavalheiro - opinou Simon e Emily deu uma risadinha enquanto limpava duas mas com um pano da loia lavado.

- Bem, eu acho que ele  giro, bonito e sexy...
- Acho que no tenho o tipo de hormonas adequado para conseguir apreciar isso - disse Simon a rir-se -, e duvido que tu ficasses contente se eu o achasse sexy! Pessoalmente, acho que ele  to atraente como o sapo Cocas.

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Bem, eu acho o Cocas muito atraente - afirmou Emily. Tem um sorriso giro e uma vozinha tmida.

Simon abriu os braos apelando para Leslie, na brincadeira.
- Tu s mais bem qualificada para julgar esta questo do que eu, amor. O sapo Cocas  sexy?

Leslie riu-se tambm.
- Devo admitir que, quando se trata de homens, os meus gostos no so nada vulgares. O Frodo  charmoso, mas no me atrai. Se calhar  porque no sou da gerao certa. - Atirou-lhe um beijo sem Emily ver e murmurou:

- Sabes bem qual  o tipo de homem que eu acho atraente. Emily acabou de acondicionar a merenda dentro de um cesto.
- Posso levar umas colheres, Leslie? Detesto comer com talheres de plstico.

- Traz as colheres de volta. - Ficaram os dois a ver o grupo dejovens afastar-se de carro.

- J terei tido aquela idade? - perguntou Simon. Ela no o conseguia imaginar ingnuo, inseguro, sem uma direco bem definida na vida. Nessa acepo talvez ele nunca tivesse sido jovem, tal como ela nunca o fora.

- Queres ir jantar fora, Leslie?
- No me apetece. H os ovos recheados da Emily no frigorfico e eu posso fazer uma salada de abacate ou umas sanduches.

- E tambm h sobras do bacon; o que  que achas de uma omeleta de abacate e bacon? - sugeriu ele -, e deixamos os ovos para outro dia. Porque  que se chamaro aos ovos com este recheio de "endiabrados"?? Nunca percebi o que  que os

ovos tero a ver com necromancia.

- Se calhar o picante lembra os fogos do Inferno       sugeriu Leslie.

- Os nicos ovos que tive vontade de mandar para o Inferno foram uns huevos rancheros que comi uma vez, l em baixo na fronteira com o Mxico - lembrou Simon bem-disposto agarrando num abacate e comeando a descasc-lo. Ela adorava v-lo assim, em casa. Qualquer um podia sentir-se atrado por uma estrela dos palcos ou do cinema, mas quando o via assim, sentado na cozinha a descascar frutos, ele era o verdadeiro Simon que ela amava, meigo e sorridente, e no despedaado pela ambio e torturado pelas memrias. - Dei uma

' Deviled no original. Significa fortemente condimentados, da o trocadilho com endiabrados. (N. da T)

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dentada e gritei por gelo, acho que eles tinham posto uma malagueta inteira naquele molho!

- Perceberia que a esses ovos chamassem ovos do Inferno. Leslie dobrou os guardanapos e ps talheres na mesa enquanto Simon punha manteiga na frigideira e a virava habilmente sobre a chama do fogo. Inclinou a frigideira e deitou l para dentro os ovos batidos enquanto Leslie punha os pratos a aquecer. Estava a ficar muito hbil a fazer coisas s com uma mo. Conseguiria ele acabar por aceitar aquilo que tinha, sentindo-se feliz pelo milagre da medicina que lhe permitira manter a

funo normal de alguns dos dedos?

- O vinho que trouxeste no outro dia est fresco, no frigorfico - disse ela. - Queres que te sirva um copo?

- Sim, por favor. - Ele estava a salpicar a omeleta com pedaos de bacon e fatias de abacate antes de a enrolar. Leslie ps os copos em cima da mesa e ele dividiu habilmente a omeleta em duas, serviu os pratos e p-los em cima da mesa.

- J est. Bon apptit- disse fazendo um gesto espalhafatoso, sentando-se e desdobrando o guardanapo.

- Delicioso - afirmou Leslie cheirando a omeleta apreciativamente. Deu uma dentada, tossiu, gaguejou e engasgou-se. Tinha mastigado qualquer coisa estranha e dura. - Meu Deus, Simon, o que  que puseste na omeleta?

Ele ficou a olhar, franziu o sobrolho, deu uma dentada cautelosa e cuspiu.

- Cascas de ovo! Mas eu tive cuidado e, quando bati os ovos, deitei as cascas para o lixo... - Levantou-se de um salto e foi verificar o saco do lixo. - Olha, as cascas de quatro ovos que eu deitei fora... depois calou-se a olhar fixamente em frente. As cascas dos ovos que Emily utilizara antes estavam, esmagadas, em cima da bancada. Simon voltou a provar a omeleta e cuspiu.

- Est cheia de cascas de ovo! Como  que... - calou-se e depois disse: - Juro, Leslie, que no... d c isso. - Deitou a omeleta para o lixo, pesarosamente. - Queres que faa outra? Deve ter sido um acidente estpido.

No entanto Simon estivera a cozinhar na extremidade da bancada oposta quela onde as casacas de ovo tinham estado, divididas ao meio e no esmagadas. Como  que ele poderia ter misturado as cascas de ovo na omeleta? Ela estivera a admirar o trabalho dele, apreciando a sua percia.

Teria sido um poltergeist? Mas no tinha havido nenhuma manifestao desse tipo de actividade desde que o relgio de

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cuco se tinha partido e ela acreditara que o exorcismo que Claire tinha efectuado livraria a casa daquele tipo de coisa.

- O melhor  comer os ovos da Emily - sugeriu ele tirando-os do frigorfico. No fundo aquilo at era cmico. Era um tipo de traquinice infantil. No parecia o tipo de coisa digna de uma pessoa adulta. Havia sempre um toque de infantilidade em qualquer actividade ligada a um poltergeist, segundo Alison dissera. E, no entanto, quando estava envolvido um adulto equilibrado...

Simon parecia um tanto perturbado, mas levou o vinho aos lbios. Passados instantes tossiu, engasgado, correndo desesperado para o lava-loia, lavando a boca e cuspindo.

- Isto no tem graa! - bradou e depois gritou: Alison! Maldita sejas! - atirou o copo contra a parede e este estilhaou-se.

- Simon! Querido, que foi...
- Consegues acreditar que eu ou a Emily iramos pr pimenta no meu vinho branco preferido? - gritou e Leslie levou o copo aos lbios, cautelosamente. Cheirou e depois deu um pequeno golo. Pimenta. No, realmente isto era um ultraje. Por que  que algum haveria de fazer uma coisa daquelas?

A Emily no o faria. O Simon nunca o faria. Eu no o fiz. Quem  que sobra? Porqu este tipo de malcia mesquinha por parte da Alison? Sentir-se-ia ela verdadeiramente ressentida com a presena do Sinum ali em casa? Perdera toda a vontade de comer o jantar agradvel que ambos tinham planeado juntos, mas desembrulhou os ovos que En-ly fizera e que tinham bom aspecto, com

as claras cuidadosamente divididas ao meio, as gemas modas e salpicadas com colorau e p-los num prato. P s manteiga em fatias de po e cortou pedaos de queijo Camembert.

Pelo menos os ovos parecia estarem bons. As gemas estavam temperadas com delicadeza e macias como natas. Simon deu uma dentada e voltou a tossir, praguejando como ela nunca o ouvira praguejar e limpando os lbios com o guardanapo, freneticamente.
O guardanapo ficou manchado de sangue. Segurava entre os dedos um grande estilhao de vidro, do copo que partira e que ainda estava no cho, do outro lado da cozinha. E, no entanto, um dos estilhaos tinha ido parar ao ovo de Simon e cortara-lhe os lbios.

Aquilo no tinha graa nenhuma. Leslie estava aterrorizada. Nenhum deles tentou comer mais nada; Simon recusara-se determinantemente a pr os ps no quarto onde ela queria refu-

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giar-se. No o criticava por isso. A ltima noite que ele ali passara fora um desastre e, percebia-o agora, tinham tido sorte em no ter acontecido nada de mais grave.

- A culpa  minha. Quando fiz o exorcismo da casa no exorcizei deliberadamente a Alison - disse ele, abatido com as mos penduradas entre os joelhos. - Leslie, vamos sair daqui. A casa pode ser segura para ti, mas acho que desta vez a Alison no vai desistir at eu me ir embora.

Ela hesitou.
- Sinto algum receio em deixar a casa sem ningum. J houve casos de incndios iniciados porpoltergeist... - disse por fim.

- Mas eles vo buscar a energia de que necessitam aos vivos - esclareceu Simon. - No acontecer nada se ns aqui no estivermos, se a casa estiver vazia. Na verdade - acrescentou com uma careta -, se eu aqui no estiver isso j dever ser suficiente.  isso o que queres?

Ela agarrou-se a ele.
- Oh, no, no, Simon, nunca... Que havemos de fazer? Vamos para o apartamento?

- Acho que l estaremos a salvo - disse ele ironicamente. Evidentemente que no  impossvel que ela me siga.

Mas, quando chegaram ao apartamento de Simon, ela voltou ao assunto.

- Que podemos fazer, Simon? Limitamo-nos a permitir que ela nos expulse? - E depois explodiu com raiva. -Maldita seja! Ela est morta! Que quer ela de mim? Que quer ela, agarrando-se  minha casa, querendo decidir quem eu posso ou no posso receber?

- Eu posso parar com tudo isso - afirmou Simon -, se conseguir reunir o poder suficiente daqui at ao equincio. No queria fazer isto  Alison, mas nunca pensei que, logo ela, se deixasse encurralar neste plano! E fazer tudo isto, s por maldade, contra mim!

Pensou que ele queria dizer que podia fazer tudo aquilo parar atravs de um ritual, de um exorcismo como o que fizera no soIstcio. Apercebeu-se, chocada, que tinha medo de lhe perguntar. Quando comeara a temer os poderes mgicos de Simon? Sabia muito bem qual era a resposta quela pergunta e no queria pensar nisso.

Mas antes de ela sair, na manh seguinte, deu-lhe uma chave sem que ela lha tivesse pedido.

- J to disse antes; se eu tiver que me ausentar novamente

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quero que tenhas esta chave. J disse ao superintendente que podes entrar aqui e usar a casa como se fosse tua, assim como a Emily. - Estava plido e a sua expresso era sombria. - Se a Alison tomar a tua vida impossvel l em casa... podes precisar de te refugiar aqui.

- Espero nunca ter que usar o apartamento, Simon. Se ela se casasse com Simon - quando ela se casasse com Simon - a casa seria dos dois. Tinham que arranjar uma forma de ser habitvel por ambos.

Durante a semana seguinte ela esteve de sobreaviso, mas

no houve sinais de qualquer presena, quer no escritrio quer na sala de msica. Numa ocasio em que chegou sozinha a casa, j tarde, tendo o Simon alegado um compromisso sobre o qual no deu quaisquer explicaes, viu luzes no estdio. A viso f-la estremecer. Mas prometera confiar nele e era isso o que faria. Voltou para trs e foi dormir.

Como  que o Vero estava a passar to depressa? Estavam a comear os calores de Agosto e o nevoeiro ficou no mar durante vrias noites e Emily, abatida pelo calor, aceitou o convite de Frodo para passar as noites em casa dos pais dele em Susalito. Ela vinha  cidade todos os dias e passava horas ao piano, mas

as noites eram mais frescas na pequena vila costeira e ela regressava a Susalito todas as noites, com Frodo.

Trs dos clientes de Leslie terminaram a terapia e ela no fez qualquer esforo para os substituir. Simon falava do casamento como se fosse ponto assente de que se casariam pouco depois do equincio. A casa ficaria fechada, pelo menos durante o Outono, e Emily ficaria a viver no apartamento de Simon, onde ficaria mais segura do que ali. Sabia que estava a ganhar tempo. Comeara a falar aos seus clientes na possibilidade de encontrarem outros terapeutas, mas numa tarde da terceira semana

de Agosto, Leonard Hay entrou no escritrio dela com um aspecto plido e solene.

- Tenho uma coisa importante para lhe dizer, Leslie.
- Sou toda ouvidos - disse ela pensando que ele estava com o ar mais decidido que alguma vez lhe vira.

- Eu... quero dizer... tenho estado a pensar... - estava nervoso, quase a gaguejar. - Vou arranjar outro terapeuta! disse, numa arrancada e com um gesto nervoso, como se tivesse dito para si prprio, Pronto, j disse!

- Excelente - concordou ela. - Fico satisfeita por ter tomado essa iniciativa; vou estar fora a partir do incio de Setembro

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e estava  espera de uma oportunidade para lhe sugerir isso mesmo. J escolheu algum?

- N-n-no, no escolhi, mas vou arranjar um terapeuta homem. Um terapeuta homossexual, que consiga compreender verdadeiramente essa minha faceta. E j tomei essa deciso. Ia escrever-lhe para lho dizer porque pensei... - engoliu em seco

pensei que fosse ficar furiosa.

- Porque  que eu haveria de ficar furiosa?
- Bem, eu fui seu cliente e no pensei que gostasse que eu fizesse esse tipo de coisa nas suas costas - disse ele olhando para o cho de cenho franzido. - Mas se de qualquer maneira ia ver-se livre de mim...

A maioria dos doentes, por mais ambivalentes que se sintam relativamente ao terapeuta, no gostam muito de terminar a terapia. Sentem-se assustados porficar sozinhos. E agora ele ia, certamente, sentir que ela o rejeitara. Por isso, embora no fosse nada aconselhvel envolver o paciente, nem mesmo minimamente, na vida do terapeuta, disse:

- No  bem ver-me livre de si, mas vou casar-me e vou viajar durante alguns meses. Por isso parece-me que tomou a decso certa. Conheo o terapeuta?

Ele disse um nome e ela assentiu.
- No o conheo pessoalmente, mas conheo alguns colegas dele. Parece que ele  um bom profissional - respondeu, apertou a mo de Leonard e desejou-lhe felicidades. Ele parecia surpreendido. Era evidente que ele continuava a acreditar que ela o queria dominar. Era provvel que nenhuma terapeuta mulher fosse alguma vez capaz de o fazer desistir da suspeita, que ele alimentava secretamente, de que estaria sempre do lado da sua mulher.

Acabara de levar Leonard  porta, quando o telefone tocou e ouviu a voz assustada de Susan Hamilton.

- Leslie! Eu provavelmente no devia telefonar-lhe, mas  uma possibilidade...

- Que aconteceu, Susan?
- A Chrissy desapareceu!
- Desapareceu? Quer dizer que se perdeu, que fugiu?
- Que se perdeu, que fugiu ou que foi raptada - disse Susan com a voz a tremer -, e o mais horrvel  que ela no fala, no sabe dizer o nome ou a morada ... Ela no iria com um estranho. Penso que no. Mas ela  to pequena, qualquer um Poderia... poderia pegar-lhe e lev-la...

Susan estava a soluar.

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Em primeiro lugar tente acalmar-se - disse Leslie e conte-me o que aconteceu.

- No vinha no autocarro da escola. Espero sempre l fora, para a trazer para casa, mas ela no vinha no autocarro.
O professor disse-me que ele prprio a levara para o autocarro. Mas o motorista era novo no lugar e no conhecia as crianas todas e no se conseguia lembrar onde  que ela tinha sado. Telefonei imediatamente para a polcia, mas no paro de pensar naquela ocasio em que ela fugiu. Foi sozinha at ao Parque Tilden. Sozinha, o que quer dizer que deve ter arranjado maneira de entrar num autocarro. Leslie, ela nunca poderia ter feito aquele caminho todo a p, so quilmetros e quilmetros! E se ela consegue entrar num autocarro, Leslie, pode estar em qualquer stio!

- A resposta est provavelmente a - concordou Leslie calmamente. - Foi a um stio qualquer sozinha. Afinal de contas ela no consegue dizer-lhe quando quer ir a um stio qualquer, ao parque ou ao jardim zoolgico. At mesmo aqui, no jardim...

- Ela j a esteve trs vezes. Lembro-me que ela no queria sair da sua garagem, tivemos que a trazer  fora. Disse gatinho, lembra-se? Talvez estivesse a jogar a um jogo imaginrio. No se importa de ir ver se ela l est, Leslie?

- Temos tido... temos tido a garagem trancada - disse Leslie. - Mas vou ver no jardim.

- Oh meu Deus, Leslie, que hei-de fazer, que posso fazer...
- Ela provavelmente est bem, mas quer esteja quer no, vai precisar de si quando a encontrarmos. Vou ver no jardim e j lhe telefono.

Saiu de casa e procurou, mas sabia que seria em vo. Para ali chegar sozinha, Christina Hamilton teria que apanhar dois autocarros e, fosse como fosse, s ali tinha ido de carro. Telefonou a Susan.

- Lamento, mas ela no est no jardim. Evidentemente que se ela aparecer eu a levo a de carro. Gostava de poder fazer mais qualquer coisa...

- E pode - adn-tiu Susan -, mas no sei se estar disposta a faz-lo.

- Ora Susan, eu farei qualquer coisa ao meu alcance...
- Eu li o artigo sobre si no Enquirer - disse Susan Hamilton. - Nunca falei nisso porque me pareceu que no queria falar nesse assunto. Mas... - a voz faltou-lhe - a Clirissy  to pequena... e a Leslie encontrou aquela rapariga que morreu... e se pudesse... se pudesse dizer-me se ela est viva...

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Acabou por ficar em silncio e Leslie ficou tambm em silncio e imvel, com o telefone na mo. Deveria saber que isto aconteceria. Acabou por dizer:

- Susan, eu estaria disposta a tentar at mesmo isso. Mas no tenho a certeza de que resulte. Nem sempre consigo ver o

que aconteceu, especialmente quando  qualquer coisa que me preocupa a mim, pessoalmente. Conheo a Chrissy e conheo-a a

si. Vou tentar - prometeu -, mas no posso garantir nada...

- Oh, sim, eu sei disso. Sinto-me maluca s de lhe pedir uma coisa assim - concordou Susan, abalada -, mas n o paro de a imaginar a flutuar no reservatrio da cidade. Ou morta na estrada. Ou nas mos de algum... psicopata...

O inferno especialmente reservado s mes de meninas. No esperaria para ver se Christina Hamilton estava morta, certificar-se-ia imediatamente. Tentou olhar para o seu interior - j conseguira obter resultados a partir de uma conversa telefnica em mais do que uma ocasio - mas no lhe surgiu nada.

- Susan, vou tentar e volto a telefonar-lhe - disse mas deve manter o telefone desimpedido para o caso de a polcia a querer contactar, para o caso de a terem encontrado. Vou desligar.

No soubera que Susan tivera conhecimento, durante todo aquele tempo, dos seus dons psquicos. Continuava a sentir-se imensamente relutante em us-los mas, depois daqueles meses a

viver naquela casa, j estava resignada. Era a sua vocao e o exemplo e encorajamento de Alison tinham-na ajudado a aceit-la.

Mas tinha dificuldade em conciliar a ideia da Alison que a levara at quela casa e, sabia-o agora, a tinha guiado subtilmente, com a Alison que fizera todas aquelas partidas maliciosas a Simon.

Estando perturbada como estava no conseguiria usar nenhum dom psquico. Passado algum tempo foi at junto do altar que tinha no quarto. No rezou. J no acreditava nas oraes da sua infncia e ainda no descobrira nenhumas adequadas para as substituir. Mas ficou ali sentada, em silncio, at se sentir mais calma. Depois, tal como fizera por PhyIlis Anne Chaprnan, como fizera pelo filho de Cliloe Demarest, abriu o esprito tentando ver Christina Hamilton.

Christina estava viva. Foi essa a primeira coisa que viu, o rosto de Christina, a expresso vazia, olhando em frente, o cabelo castanho escorrido, a boca descada. Christina estava deitada num sof estofado de branco. Tinha as mos atadas.
E, sentado numa cadeira no muito longe dela, olhando para ela com uma severidade implacvel, estava Simon Anstey.

Captulo vinte e quatro

O choque f-la levantar-se de um salto, abalada por um sentimento de rejeio ultrajada.

Gritou, no sabendo o que iria dizer at ter ouvido a sua prpri a voz.

- No, Alison! No vou permitir que me faas acreditar nisso! No vou!

Perante os seus olhos, como se tivesse sido ali gravada, a imagem permanecia; Simon olhando para Christina.

Porqu? Porqu isto? Ele dissera-o mais do que uma vez. A vida de Chrstina no tinha utilidade para ningum, era menos valiosa do que a do gato branco de Alison. E ela soubera-o; ela soubera que ele estava a sentir-se tentado pela ideia de um novo sacrifcio, acreditando que isso o faria recuperar totalmente o uso da mo. At Emily concordara com ele e ele escolhera Emily para os trabalhos de magia, hipnotizara-a e levara-a com ele ao culto... Emily adormecera. Ou teria sido hipnotizada por forma a no se recordar de nada?

Escolhera a criana da mesma forma que escolhera a prostituta drogada, porque acreditava que nenhuma delas tinha qualquer valor social. Leslie deu por si a descer as escadas e tinha a mo na porta do estdio quando se lembrou de que Simon tinha a nica chave daquela porta. Tentou ver o interior da garagem com a sua outra viso; mas no viu nada, apenas um vislumbre da viso que j tivera anteriormente, Simon l dentro, com os braos abertos em splica - e depois, apagando rapidamente a imagem, um acesso de desespero, sufocando-a.

O que tinham feito, profanando a sua linda casa, este stio to delicado e adorvel... Tambm j tivera aquela sensao anteriormente. Fora aquilo o que Alison sentira, fora o facto de ter sabido de tudo que a levara a deserdar o seu aluno e protegido que deveria ter sido o seu sucessor, o herdeiro dos seus poderes?

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No podia, no se atrevia a telefonar a Susan para lhe contar tudo aquilo. Se tivesse visto a Chrissy nas mos de qualquer outra pessoa do mundo teria chamado imediatamente a polcia. Mas continuava a estar certa de que tudo aquilo era um erro tragicamente louco. O Simon j fora investigado aquando da morte de Alison Margrave; na altura estivera no bloco operatrio do hospital.

No entanto ele era um assassino; tinha cometido pelo menos

um assassnio premeditado. Apercebeu-se de que nunca acreditara plenamente nisso at quele momento. Pondo a mo na ombreira da porta tentou desesperadamente projectar novamente o seu esprito para o interior da garagem.

Chrissy gritara ao ver Simon. Atirara o chocolate que ele lhe dera para o cho e pisara-o, no nico acto resoluto que Leslie testemunhara nela.

Alison... teria Alison tentado verdadeiramente avis-la relativamente a Simon? Reviu mentalmente os episdios vividos naquela casa. No havia dvida de que Alison tentara atrair a sua ateno. O Oculto vindo em busca... sim, era uma descrio perfeita e as partidas maldosas pregadas a Simon, a destruio do cravo de Simon. Seria malcia, vingana contra o seu estudante sem f? Ou um aviso para Leslie?

Dirigiu-se pesadamente para casa. Aps alguns instantes ergueu o telefone e ligou para o apartamento de Simon, mas desligou antes que ele atendesse. Que poderia dizer-lhe?

Simon, tens por acaso a Christina Hamilton a contigo? Sabes, aquela criana deficiente mental que disseste que seria melhor que morresse e relativamente  qual s capaz de estar a tentar remediar esse erro de deciso divina? A simples ideia era inqualificvel. Aquela no era o tipo de pergunta que se fizesse a algum que se amava.

Simon. O homem gentil, o amante meigo e apaixonado.
O homem torturado, torturado no corpo e no esprito, com a carreira desfeita. Qual Simon? O homem implacvel, que lhe confessara ter feito magia negra que sabia ter resultado na recuperao da mo mutilada e do olho ferido? O homem bondoso que brincava com Emily e a estragava com mimos? Havia dzias de Simons. Um deles podia, num momento de loucura e desespero, ter levado Chrissy... e o mais assustador era que, mesmo sabendo disso, ela no o amava menos.

Mas no permitiria que aquilo continuasse. Tentaria, por todas as formas, encontr-lo, encontrar Chrissy, antes que ele se colocasse, voluntariamente, fora do alcance de tudo o que  humano.

A HERDEIRA                            371

O assassnio anterior - se fora, de facto, um assassnio e no uma fico, um produto da imaginao de um homem torturado
- tinha sido cometido, com certeza, durante o estado de insanidade que se seguira ao choque da mutilao. Agora ele estava senhor de todas as suas faculdades mentais e, se levasse esta loucura at ao fim, teria que acarretar com todas as consequencias dos seus actos, a no ser que ela o conseguisse deter a tempo.

Para onde teria ele levado Chrissy? As possibilidades eram imensas. Para o mesmo local onde levara Emily? Para o apartamento? Para algum esconderijo secreto que mantivesse com aquele propsito apenas? Teria que, no mnimo, verificar todos os locais que conhecia.

Meteu-se no carro girando, freneticamente, a chave na ignio, arrastando-se pelo Haight atrs de um autocarro que ia para Parnassus e virando depois para as ruas que subiam em direco a Twin Peaks. Teve que reduzir para a segunda velocidade e depois para a primeira. J estava habituada ao Mercedes de Simon que, com o seu motor potente, conseguia subir at ao topo da colina em quarta. Deixou o carro na rua; o porteiro j a conhecia e insistiria em anunciar a sua chegada e, se Simon tivesse realmente a Chrissy no apartamento, ela queria surpreend-lo.

Mas no momento em que girou a chave na fechadura da porta sentiu que a casa estava vazia. Entrou, fechando a porta atrs de si e chamando:

- Simon? - Sabia no entanto que no obteria resposta. Esperou, ouvindo o eco da sua prpria voz e chamou de novo.

Depois revistou o apartamento: os roupeiros, a casa de banho e a sala calma onde qualquer rudo fazia eco e onde estavam o piano Baldwin e o cravo, fechados e silenciosos, a cozinha e a grande sala. O odor do incenso, forte e amargo, um odor desconhecido, pairava em torno do altar. Ser um tipo especial de incenso usado nos sacrifcios? Reprimiu a sensao de desespero e fria; no tinha tempo para essas nem para quaisquer outras emoes.

Teria ele levado mesmo a Chrissy para ali? Vagueou pela sala. O estofos brancos do sof pareciam confirm-lo... ou no? Conhecia o apartamento quase to bem como se lhe pertencesse. Vira Chrissy esticada naquele sof...

Viam-se ali ndoas de lama como as que seriam provocadas pelos sapatos enlameados de uma criana distrada ou pouco cuidadosa. Ndoas de lama que Simon no teria tolerado por um minuto sequer e que a empresa de limpezas que trabalhava para

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ele teria feito desaparecer se tivessem l estado trs dias antes. Ainda no era uma prova. Viu tambm um chocolate embrulhado em prata dourada, intacto. Cerrou os punhos, rezando sem se aperceber disso: Permiti que haja aqui uma prova, que ele tenha cometido um erro qualquer Ou ento permiti que existam provas de que ela nunca aqui esteve, que eu estou a acus-lo sem razo, de que ele est inocente...

Um vermelho debotado chamou-lhe a ateno. Bao, gasto, debotado, no era o tipo de cor de nenhuma roupa que Simon pudesse usar. Lentamente, Leslie inclinou-se e apanhou a pea de roupa vermelha. Um casaco de criana, velho e muito usado. Virou o casaco nas mos sentindo o tecido macio e gasto. Os cotovelos estavam passajados.

 preciso ter cuidado com aquilo que se deseja. As nossas oraes podem ser respondidas. Ali estava nas suas mos a prova, uma etiqueta de lavandaria com o nome escrito em letras grosseiras: Christina Hamilton. Ouviu-se gritar alto, num gemido, num uivo de desespero. Christina estivera ali. Certamente que ela teria sido capaz de o persuadir, de lhe implorar... Simon, no faas isso, vais destruir-te, Simon, se me amas...

E agora era demasiado tarde. Que podia fazer? Voltar para a sua casa assombrada onde Alison tentara, em vo, atrair a sua ateno para a cegueira do amor que nutria por Simon? Esperar pelas notcias, pelo desespero, pelo escndalo? Tentar encontrar Simon onde quer que ele estivesse naquela cidade enorme? Sentiria ele a necessidade de levar a criana para o seu templo, para o local do qual ela lhe dera, louca e confiante, uma chave? Pensou: Se ele envolver a Emily nisto destru-lo-ei e depois forou-se a parar com o raciocnio. Tinha que evitar que ele se destrusse; isso era o mais importante.

En-ly. Ele fizera-lhe uma lavagem ao crebro, hipnotizara-a. E depois foi como se a presena de Alison lhe tivesse dado a resposta que a prpria Alison daria:

Ele no pode destruir a Emily a no ser que ela prpria consinta em ser destruda. A tremer, lembrou-se do que Emily dissera, que as crianas como Christina no tinham direito  vida. J estaria a Emily destruda, com o seu prprio consentimento?

No posso julgar ningum a no ser a mim prpria. Quando aceitei o que o Simonfizera, tornei-me igual a ele. Agora s posso tentar emendar o meu erro.

Pegou no telefone. S havia uma coisa a fazer, agora que

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tinha provas, o casaco de Christina e as coisas que ouvira Simon dizer. Telefonaria  polcia e pediria para falar com Joe Schafardi ou com Pat Ballantine. Eles ouvi-la-iam sem preconceitos, pois conheciam os seus dons psquicos. Procurariam Simon sem provocar o escndalo que adiariam at ser totalmente impossvel de evitar. Melhor ainda, encontr-lo-iam com Christina nas mos, ainda inclume, e poderiam evitar que ele fosse acusado de molestar uma criana ou de rapto. Se ela ainda estivesse inclume ele poderia dizer que a tinha encontrado e, sabendo que ela no deveria andar sozinha, tentara devolv-la  me. Seria melhor, mil vezes melhor, do que Christina ser encontrada morta e todos eles serem destrudos para sempre. Discou o n mero da esquadra de Polcia ganhando coragem para perguntar se Joe Schafardi ou Patricia Ballantine estavam de servio. Ouviu o telefone tocar uma, duas, trs vezes.

- Livraria Mistrios Antigos - disse a voz clara e familiar do outro lado da linha.

No existem enganos de nmero de telefone. Um nmero errado  um grito de socorro.

- Claire - disse quase sufocada. - Claire,  a Leslie. Posso falar com o Colin, por favor?

- Oh Leslie, ele hoje no est aqui - respondeu Claire. Que se passa? Aconteceu alguma coisa? Posso fazer alguma coisa para a ajudar?

No, a voz que a conduzia disse claramente no seu crebro. A Claire no est  altura desta situao. Vai directamente quele em quem mais confias. O Colin  um perito. A Claire, por mais simptica que seja, ainda  uma novia. Mesmo que contasses  Claire o que se passa, ela teria que transmitir tudo ao Colin.

- Claire, pode ajudar-me a entrar em contacto com ele? naquele momento desejou, de todo o corao, ter a mesma formao que eles, conhecer o santo e senha que, de alguma forma, sabia existir. - Claire - disse sabendo que soava horrivelmente melodramtica -,  uma questo de vida ou de morte.

Ouviu a respirao de Claire alterar-se do outro lado da linha, mas ela no perdeu tempo a fazer perguntas.
- Vou dar-lhe o nmero de casa dele. Tem alguma coisa com que escrever? - perguntou ela prontamente.

Leslie escrevinhou freneticamente num pedao de papel. Instantes depois ouviu a voz calma e sbria de Colin.

- Fala MacLaren.
- Colin,  a Leslie Barnes. Aconteceu uma coisa horrvel...

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Acho melhor vir ter comigo imediatamente, Leslie disse Colin calmamente. - Prefiro no discutir este tipo de coisa pelo telefone. Onde est?

- Nos Twin Peaks...
- Em casa do Simon? Muito bem, vou dizer-lhe como vir at aqui - disse sem qualquer surpresa. - Eu espero aqui por si.

O apartamento de Colin dava para um trio e umas escadas encardidos, mas o interior era surpreendemente luminoso e estava meticulosamente limpo. Havia livros e manuscritos empilhados por todo o lado. Pensou que o negcio da venda de livros sobre o ocultismo no devia ser muito rentvel. Era surpreendemente desconfortvel pensar em si prpria como estando bem na vida. Colin deixou-a entrar e, bondosamente, foi fazer ch e depois atarefou-se a tirar uma pilha de livros de cima de uma cadeira.

Leslie viu ento algo que a ps imediatamente  vontade. Num canto da sala, em cima de uma mesa baixa de uma madeira vermelha, limpa e polida, estavam vrios objectos em torno de uma vela acesa - um dos objectos parecia ser um kris malaio, uma faca de lmina longa e ondulada -, mas estavam tambm presentes os quatro elementos, a terra, a gua, o ar e o fogo, entre outras coisas. No havia ali nada de essencialmente diferente do altar de Simon ou do seu prprio; os smbolos eram os mesmos.
O smbolo no  nada; s a realidade conta. Seriam as realidades de Simon e de Colin basicamente a mesma e a diferena residiria apenas no nfase?

- Conte-me ento o que se passa, Leslie. Ela ainda pensou, por instantes, que tudo aquilo era uma loucura; o velho livreiro certamente que pensaria que ela devia estar sob os cuidados de um dos seus prprios colegas. Depois virou-se e olhou mais uma vez para o altar. Ele compreenderia.

- No sei o que a Claire lhe contou...
- A nossa profisso tem, tal como a sua, princpios ticos, Leslie. Ela no me contou nada. Mas eu conheo o Simon desde os seus tempos de rapaz. A Dorothea - era a me dele - era minha prima e o rapaz  meu afilhado. Qualquer um que acredite
- naquilo que ns acreditamos - leva esse facto muito a srio, no se limitando a oferecer uma prenda pelo baptizado. A Dorothea esteve seriamente desequilibrada durante parte da sua vida, mas eu pensei que o Simon fosse slido e, se no tivesse sido o acidente, talvez tudo tivesse corrido bem. Tenho estado muito preocupado com ele. Conte-me, Leslie.

A HERDEIRA                           375

Ela enterrou a cara nas mos. O que Simon lhe contara era

confidencial. No entanto, ao erguer os olhos e ver o olhar calmo do velho, sentiu-se como se estivesse a falar com um sacerdote.

E estou a falar com um sacerdote. No, ele no  sacerdote nesta vida, mas  tudo o mesmo.

- Ele disse-me que, quando era rapaz, tinha experimentado sacrificar animais - comeou ela -, como forma de conseguir poder..

- Sim, eu sei disso. E que mais? Ouviu-a em silncio enquanto ela lhe falou do pesadelo que tivera, do que Simon lhe contara - a mulher tentara suicidar-se repetidamente -, ele ergueu o olhar de encontro ao dela, os olhos brilhando de ultraje e Leslie sentiu-se como se estivesse a tentar justificar o imperdovel. O Colin sempre conseguiu ler os

meus pensamentos, pensou e perguntou-se o que quereria dizer com aquilo. Gaguejando, contou-lhe o que se passava com Chrissy e, por fim, mostrou-lhe o casaco. Depois ficou em silncio, sentindo-se como se estivesse no banco dos rus.

- E a Leslie pensa que ele raptou a Chrissy para a sacrificar. Leslie tentou controlar as lgrimas. No conseguia falar. Limitou-se a assentir com a cabea.

- Mas o Simon tem mais juzo do que isso - disse Colin. No lhe serviria de nada sacrificar a Chrissy. Ela no significa nada para ele; ele, na verdade, despreza-a. No se pode sacrificar lixo. S se pode sacrificar aquilo que nos  pessoalmente querido. Porque haveria o Simon de tentar sacrificar essa criana?

- Tambm acha que a Chrissy  lixo? - Tinha ficado chocada por aquela expresso.

Colin abanou a cabea.
- Evidentemente que no. A minha atitude relativamente s crianas como a Christina Hamilton  muito diferente dessa; um dia tentarei explicar-lhe a razo porque elas escolhem esse

caminho to difcil e to trgico na busca de expiao. Mas isso  o que o Simon pensa. Porque haveria sequer de tentar uma coisa dessas?

- Eu acho que ele enlouqueceu! - disse ela, a chorar.
- Fico surpreendido por ouvir uma psicoterapeuta usar esse tipo de linguagem - disse Colin.

- Quero dizer... ele j no  capaz de pensar racionalmente, vive num mundo ilusrio...

- Continua a no me compreender - disse Colin. - Pense, Leslie! Se acredita que os raciocnios do Simon so produto de

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uma iluso, ento ter que admitir que essas iluses seguiriam o esquema das suas crenas; e eu sei, e a Leslie sabe, quais so essas crenas. A palavra "sacrifcio" significa, em si prpria, desis- tir ou destruir algo que nos  querido. Assim, segundo as crenas de Simon - sejam estas ilusrias ou objectivas - o sacrifcio de Chrissy no lhe serviria de nada.

- A outra mulher.. a prostituta, a drogada...
- No sei o quanto sabe destas coisas - disse Colin mas o Simon teria tido a possibilidade de criar laos com ela.
O sexo, por mais casual ou comercial que seja, constitui um lao fsico muito forte. Na nossa sociedade, em que o sexo  necessariamente furtivo, a no ser que seja do tipo mais convencional, os laos psquicos estabelecidos pelo sexo a que chamamos perverso, e que  praticado em segredo, so ainda mais fortes. Com uma prostituta seria muito fcil criar esse tipo de laos.  essa uma das razes que est por detrs da averso  homossexualidade que existe nalguns locais e nalgumas pocas histricas; um lao necessariamente secreto e que causa, ao ser rompido, uma traio mais profunda.  essa a razo por que, mesmo aqueles que toleram a homossexualidade, estabelecem o limite da sua tolerncia no sadomasochismo e  pela mesma razo que o sadismo continua a ser tabu mesmo entre os heterossexuais. Existe a noo, explorada pelo notvel Gilles do Rais, de que existe um enorme potencial no trabalho que envolve essa monstruosa explorao do poder com crianas pequenas. Mas a Christina, como disse,  deficiente mental, no fala e ele no conseguiria criar com a Christina um lao suficientemente forte que fosse susceptvel de ser trado. E assim, repito, a Chrissy n o  o objectivo dele. Ele no desperdiaria o esforo que o sacrifcio dela acarretaria.

- Ento por que  que ele a raptou? - gritou Leslie, mas mesmo antes de Colin responder sentiu-se imobilizada pelo horror e foi com uma sensao de quase anticlmax que o ouviu dizer:

- Penso que ela  um engodo. Uma diverso. Penso que ele sabe que isso a levar a si a cair-lhe nas mos. A si. Ou... hesitou e disse por fim - ou mais provavelmente at, aquela que lhe  mais cara. Emily.

Leslie recostou-se na cadeira. Pensou que iria desmaiar.
- Mas ele adora a Emily... - murmurou.
- Mais uma razo. - A voz de Colin era implacvel.
- E ele pensa que eu... que eu... - No conseguia falar, literalmente. Sempre pensara que a frase sufocada pelo horror

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era uma metfora potica. Agora sabia que era uma descrio literal.

- Que podemos fazer? Como podemos fazer com que ele pare? - conseguiu sussurrar, por fim.

-  Talvez no possamos fazer nada - disse Colin. Primeiro temos que encontrar o local que ele escolheu para trabalhar... e pode estar certa de que estar bem escondido. A Claire  uma sensitiva; talvez ela consiga encontrar..

- Mas eu sei onde  - disse ela, endireitando-se na cadeira. - Eu dei-lhe a chave da garagem, do estdio...

- Ele j o usou antes - confirmou Colin -, quando a

Alison ficou de cama pela primeira vez, depois de ter tido a trombose. Ele pensa nesse local como num local de poder. Ela deserdou-o por causa disso; ele profanara um local que para ela era sagrado. Mas ser que ele o voltar a usar, sabendo que a

Leslie sabe a sua localizao e os fins com que ele o est a utilizar? - Parou para reflectir no assunto. - Depende de onde chegue a parania dele... no, neste momento diria que j se trata de megalomania. Se ele pensar que est to apaixonada por ele que ficaria em silncio, mesmo que houvesse um assassnio...

Mas o Simon no estava a pensar Ela percebia isso agora. Havia uma parte dele, enlouquecida pelo desespero, que no tinha conscincia de que uma outra parte concebera um esquema que o alienaria para sempre de si prprio. Uma parte dele queria, desesperada e sinceramente, casar-se com ela e viver com ela e fazer de Emily a sua protegida adorada; a outra parte, negra e fora de controlo, queria apenas, cegamente, fazer parar a dor, recuperar os aplausos e os holofotes da ribalta. Agora, enlouquecido pela dor e pelo desespero, ele j no tinha conscincia de que no podia ter ambas as coisas. Com uma parte de si, sabia-o agora, sacrificaria Emily e com a outra continuaria a esperar que ela e Emily partilhassem o seu sucesso recuperado.

E ele tem andado a hipnotizar a Emily at que ela prpria, quem sabe, acredite tambm em tudo isto... que  seu dever e seu desejo sacrificar-se por Simon...

Col in j estava de p.
- Vamos tentar faz-lo parar - disse. - Temos que acreditar que h pelo menos uma parte dele que quer ser parada.

Enquanto se dirigiam ao carro Leslie, sentindo-se entorpecida, no parava de pensar nisso. Em todos os criminosos ou loucos, existe algo a pedir que os impeam de continuar. William Hierens, que escrevinhava nas paredes com bton, Parem-me antes que

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mate mais. Simon implorando-lhe que fosse com ele para o

estrangeiro. O melhor  no pensar e limitar-me a agir

No meio da sua pressa e desespero estacionara o carro

numa zona de estacionamento proibido. Um envelope branco e

cor de laranja estava preso ao pra-brisas, flutuando como um

ser encurralado, pronto a ser sacrificado. Meteu o envelope no

bolso sem lhe prestar ateno, sentindo-se grata por no lhe terem rebocado o carro.

- Deve lembrar-se - disse a voz calma de Colin enquanto ela ligava o carro - que ele j pensa em si prprio como num

assassino condenado. Ele sabe que matou a Alison.

- Mas ele no o pode ter feito! A polcia investigou e ele estava no hospital... ou est a dizer que ela morreu por causa do que ele fez ... ?

- Estou a dizer que eu vi aquilo que a Leslie viu naquela casa - disse Colin com severidade. - O que a Alison viu. Sim, o Simon estava no hospital, sim, estava drogado e portanto no conseguia controlar-se...

Acho que sou eu quem est a assombrar a tua casa. Subitamente tudo se encaixou, o que Alison vira na sala de msica, a apario que matara a mulher velha e frgil, to inevitavelmente como se ele a tivesse agredido com a marreta psquica com que lhe destrura o cravo. Simon, nu e a sangrar, com o olho a escorrer sangue e a mo esmagada numa massa infon-ne. Uma mulher j idosa, enfraquecida pela trombose e com os ossos fragilizados pela idade; uma tal apario atingi-la-ia com a mesma violncia de uma pancada, mesmo que no tivesse rachado o crnio quando batera contra o banco do piano. O Simon nunca o teria feito conscientemente...

Mas ele no soubera o que fazia! Estava drogado, louco de dor.. e deffiria contra o destino que lhe arruinara a mo e a carreira.

Simon, fora de si, projectando-se sob a forma de um poltergeist na sala de msica de Alison, mostrando-se-lhe no seu desespero despojado... virou o volante por forma a entrar no jardim. Chrissy. Tenho que telefonar  Susan por causa da Chrissy. Saberia ele que eu ficaria ocupada  procura de Chrissy? Teria ele contado com a cegueira dos videntes relativamente a assuntos que lhes dizem directamente respeito o que faria com que andasse em crculos, procurando Chrissy, dando a Simon o tempo suficiente para acabar o seu trabalho?
Colin ps a mo no pulso dela quando saram do carro. Disse em voz baixa:

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No parta do princpio de que a criana est segura. Ele sabe que sacrificar a criana no ajudaria em nada a sua cura, porque ela no lhe diz nada. Mas o poder emergente do derramamento de sangue pode invocar as foras presentes por forma a que o verdadeiro sacrifcio pudesse... pudesse penetrar mais fundo no reino do oculto. No h pressa. Ele no far nada at... calmamente consultou um relgio de bolso - at s cinco e um quarto. E ainda no so cinco horas.

- Porque  que diz isso?
- Porque conheo as foras e as correntes com que ele est a trabalhar - replicou Colin calmamente. - Ele desferir o golpe no momento em que Marte entrar em conjuno com Saturno, o senhor da morte.

1 A calma e a certeza com que ele falou gelou o sangue nas veias de Leslie. No era a loucura de tudo aquilo que a aterrorizava; era a lgica racional e impessoal.

- Pensa que eu no me senti j tentado a seguir nesta direco, Leslie? Faz parte da formao no Caminho - a tentao de usar para fins menos nobres os nossos conhecimentos. Esta... inclinou a cabea ligeiramente na direco da garagem -  a sua tentao. Mantenha isso presente no seu esprito durante aquilo por que vamos passar, minha filha.

As palavras pareceram-lhe, devido ao tom com que foram proferidas, uma espcie de bno e acalmaram a histeria que lhe assaltava a mente. Subiram o caminho.

Subitamente Colin parou, consternado. Levou uma mo ao corao e vacilou. Leslie tambm sentiu, uma sensao pegajosa enchia o ar, como se atravessassem alcatro mole e tambm sentiu a dor aguda que atingira o corao de Colin. Ele tambm era velho; to velho como Alison, pensou.

Colin arfou:
- Ele protegeu isto... com algo que... que me  difcil ultrapassar. Vou precisar de todas as minhas foras para... para o combater... - e ergueu a cabea com esforo. Os lbios dele moveram-se. Leslie no conseguiu perceber todas as palavras, mas apanhou um murmrio:

- Porei... uma armadura de Luz.... Nas tuas mos Senhor.. Leslie quase que conseguia ver o ar espesso subindo em espirais perante os seus olhos. A mente dela nunca reteve a imagem da Coisa que os impedia de passar, apenas reflexos vagos que faziam lembrar cobras e escorpies, no, nada de to puro assim, coisas com escamas e presas e ferres, nunca realmente ali,

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mas batalhando para a manter afastada, no tanto atravs da fora fsica mas da repugnncia.

Freneticamente, tentou chamar  memria pedaos do ritual de Claire, visualizando a chama da vela que ela tivera na mo. Formas imaginrias exorcizadas por outras formas imaginrias;

no seu esprito, lanou a luz da vela na direco das coisas, pronunciando silenciosamente as palavras Onde reina a escurido, que reine a Luz e depois, com confiana crescente, soube o que tinha a fazer. Visualizando as gotas de gua que Claire lanara nos

cantos da sala gritou:

- Ide, ide, ide-vos! Perante os seus olhos as gotas de gua atingiram as Coisas e ela cheirou algo de imundo, um fedor semelhante ao do cano de esgoto enquanto as coisas mirravam e desapareciam. O jardim estava novamente repleto do odor a jasmim e a madressilva. Ps a mo no cotovelo de Colin e ele apoiou-se nela. Objectivo ou subjectivo? Funcionara.

Pousou a mo na maaneta da porta da garagem e recuou, chocada; no tinha chave. Com quanto cuidado ele se certificara de que assim seria, Eu at te posso dar uma chave, se no confiares em mim e, depois daquelas palavras, como poderia ela confessar a sua desconfiana?

No entanto, enquanto teve a mo contra a porta, o teff or parecia reverberar dentro da sala, em grandes ondas que lhe provocaram nusea. Ela j conhecera aquele tipo de terror nos seus pesadelos. Por instantes desejou, desesperada, acordar e descobrir que tudo aquilo no passara de mais um pesadelo, que estava deitada ao lado de Simon e que ele a acordaria daquele sonho mau.

E depois Colin ps a mo na fechadura. Mais tarde ela disse a si prpria que ele devia ter feito um

truque qualquer com um carto de crdito, um alfinete, ou qualquer outra coisa e que ela no vira. No entanto Leslie fora educada a acreditar na honestidade intelectual e sabia perfeitamente o que vira. Colin pousou um dedo na fechadura e murmurou umas palavras que ela no percebeu. Nunca esteve absolutamente certa disso, mas pareceu-lhe mesmo ter visto um pequeno relmpago azul. Depois Colin limitou-se a fazer girar a maaneta e entraram.

En-ly estava l. Foi a primeira coisa que ela viu, mesmo antes de ter visto o altar e as velas, mesmo antes de ter visto Simon. Emily estava ali, com uma tnica branca muito decotada e, por instantes, Leslie sentiu-se entrar em choque ao pensar que a man-

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cha vermelha que a irm tinha entre os seios era sangue. Depois viu que era uma rosa vermelha. Tinha o cabelo solto, cado sobre o rosto. No centro da sala, no interior de uma srie de linhas desenhadas a giz (um pentagrama, pensou Leslie a princpio, mas depois viu que era ligeiramente diferente) jazia Chrissy e o facto de ela ainda ter vestidas as calas de ganga encardidas e uma camisola velha s riscas vermelhas e brancas, aumentou o horror de tudo aquilo. Estava muito quieta, to quieta que Leslie pensou, por instantes, que aquele era o silncio da morte. E enquanto a

criana ali jazia deitada e imvel, Leslie via, sobrepondo-se intermitentemente  imagem da criana silenciosa e inclume, a imagem do gato branco, horrivelmente coberto de sangue.

Tudo aquilo - Emily a olhar fixamente para diante e com os seios nus, Chrissy totalmente imvel, a sombra tremeluzente da imagem do gato sangrento - Leslie viu em poucos segundos. Depois viu Simon e tudo o resto empalideceu.

Ele tinha vestida uma capa enorme, carmesim e, em torno da cintura, tinha um cinto de cabedal de onde estava pendurada uma bainha e no tinha absolutamente mais nada vestido, Estava acocorado defronte de um altar onde ardia um incenso com um cheiro estranho e pungente e, de alguma forma, a viso daquelas coisas familiares a serem usadas com fins blasfemos fez com que o seu pulso acelerasse e o corao batesse mais forte, tal foi a

raiva que sentiu. Alguns minutos antes estivera doente de medo pelo que pudesse acontecer a Simon, sentindo piedade pela sua loucura. Naquele momento soube que, se tivesse uma arma na mo, teria sido capaz de o matar. No percebeu, na altura, a razo por que toda aquela emoo a assaltou. Num relance rpido viu que havia outra coisa sobre o altar: uma faca, polida e brilhante, a lmina afiada refulgindo  luz da vela.

E o mais horrvel de tudo aquilo foi que, embora ela e Colin tivessem provocado rudo ao entrar na sala, nenhum dos seus trs ocupantes os tinha ouvido, nem sequer pestanejado. Chrissy continuava a olhar fixa e silenciosamente para o tecto. Emily, com uma indolncia que a fazia parecer sob o efeito de drogas, continuava imvel com a rosa entre os seios. E, pior que tudo, Simon continuava agachado perante o altar horrendo, a mo mutilada dirigindo-se para o punho da faca.

Foi ento que Colin gritou:
- Em nome de Deus Todo-poderoso e da Luz perante a qual eu te levei pela primeira vez, Simon, Peregrino, Mestre, servo

de Deus, digo-te no!

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Simon levantou-se com um salto. Tinha o rosto plido e o olho doente tremia sob o efeito de espasmos dolorosos, a mo fechada pela dor. Tinha os lbios arreganhados, deixando ver os dentes, como se fosse um animal selvagem. Soltou um som incoerente e animalesco. Com a mo saudvel agarrou na faca e a lmina brilhou  luz da vela.

Colin fez um gesto ritual. Viu-se novamente uma luz brilhante - ou um relmpago? - e, algures na sala, ouviu-se o estrondo de um trovo. Simon ficou imvel, como que paralisado; at mesmo o olho parou de tremer. De entre os seus lbios saiu um rosnido baixo e horrendo. Colin atravessou a sala a passos largos e deu um pontap no altar; com a bota espalhou o incenso e apagou a chama da vela.

- No - rugiu Colin novamente, girou sobre si prprio e

esbofeteou Emily no rosto. Esta acordou, ofegante, mas os olhos continuavam desfocados e procuraram Simon. Leslie ouvia a sua

prpria respirao, mas na sala continuava a reinar um silncio terrvel. Depois Smon rosnou novamente e agachou-se. Agarrou melhor no punhal e atirou-se a Colin, tentando golpe-lo. Ele naquele momento no estava, nem mesmo remotamente, no seu juzo e, na cara dele, Leslie no conseguia ver qualquer vestgio do homem que amava.

- Simon - disse Colin novamente, imvel e ao alcance da ln-na. - Mata-me ento a mim. Sou velho. As minhas mos e os meus olhos no tm para mim qualquer significado e j me restam poucos anos de vida. Mas so esses anos que eu te ofereo, por amor daquela que nos levou a ambos para o caminho da Luz. Simon, escuta-me! Onde quer que a tua alma se esconda, chamo-a aqui! Aceita uma oferta de amor que te  dada de livre vontade, se  que no consegues aceitar a vontade dos Senhores do Karma. Mata-me a mim e no a essas crianas que no podem resistir-te!

A lmina desceu. Atingiu Colin no peito; o terror paralisou Leslie, mesmo quando viu que Colin nem se mexera sob o impacte da lmina. Mas quando o punhal golpeou Colin, Simon recuou como se tivesse sido atingido por um relmpago. Caiu de joelhos. Colin estava a sangrar; mas a lmina no entrara profundamente e soltara-se, caindo no cho com um rudo metlico.

Colin raspou as linhas desenhadas no cho com a sola da bota, mas nesse momento Emily gritou e os olhos de Leslie desviaram-se para Simon e viu que este tinha, em torno de si, uma estranha luminescncia e no seu interior, atravs da luz, viu Simon, mas no o Simon que sempre conhecera; Emily gritou novamente,

A HERDEIRA                              383

ainda incoerente, com um grito que Leslie j ouvira noutra ocasio. Foi ento que Simon ficou perante eles, sobrepondo-se e atravessando o verdadeiro Simon que continuava nu e agachado no cho.

O olho escorria sangue e o outro olho brilhava com uma luz azul cobalto. Tinha a mo esmagada numa massa disforme e sangrenta e um uivo incoerente de terror e agonia vibrou no silncio. Leslie ouviu-se respirar fundo. E depois Chrissy sentou-se.

Foi um movimento deliberado. A boca frouxa tomou-se fin-rie. E falou.

Mas no era a mesma voz vazia com que a criana gritara anteriormente. A cabea dela virou-se lentamente para Simon; no para o Simon real, mas para a forma astral e tremeluzente do homem mutilado, acometido de convulses e coberto de sangue.

- Simon - disse numa voz que nada tinha de infantil, numa voz de mulher, suave mas severa. - Simon. Meu querido rapaz, no tive oportunidade de chegar at ti antes. Pensei que tambm tu estavas a morrer e queria estar l para te dar as boas-Vindas, no outro lado, ou ento teria arranjado fon-ria de me agarrar  vida.

- Alson. - Foi um sussurro muito rouco, mas proferido pelo Simon verdadeiro, no pelo espectro. Ficou a olhar para o corpo de Chrissy, de onde a voz provinha.

- Sei que no fizeste de propsito. Tu nunca me terias feito mal. Simon... Simon. Meu rapaz querido, eu perdoo-te.

- Alison! - gritou ele de novo, numa voz cheia de angstia e horror e correu para junto de Chrissy. Mas o rosto da criana estava novamente flcido e sem expresso e ela caiu por terra. Simon olhou para o punhal que estava no cho; para Colin, que sangrava, com um fio de sangue a correr-lhe do peito; para Emily sobre cujo rosto corriam lgrimas silenciosas. Finalmente olhou para Leslie. A apario de Simon, coberta de sangue, desaparecera. Passou os dedos da mo saudvel silenciosamente sobre o rosto e o olho estremeceu; comeou a tremer e Leslie percebeu que ele estava novamente acometido pelas dores paralisantes. Queria correr para junto dele, para o confortar, mas o horror fez com que ficasse imvel.

Emily reencontrou a voz. Gritou:
- Oh, Simon... Simon, ests ferido... - E foi ela quem correu para junto dele. - Ob, Simon - chorou -, eu dar-te-ia as minhas mos se pudesse, se pensasse que adiantaria alguma

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coisa... - E ficou a soluar. - Como pudeste pensar... como pudeste...

- Eu matei-a - disse Simon numa voz inexpressiva. Matei-a. E teria destrudo a En-ly tal como destru o cravo. Podia ter-vos morto a ambos. Fui eu quem partiu os outros instrumentos, no fui Colin? E o cravo da Alison. Eu estava to... to cheio de raiva. No conseguia viver sabendo que fora eu. Matei a Alison. Parti os instrumentos no Conservatrio, no foi?

- Receio que sim, meu rapaz - disse Colin, baixinho.
- S que eu no estava l. Estava... estava no hospital, a receber a notcia de que iria ficar aleijado e cego. De que nunca

mais voltaria a tocar. O meu corpo estava l e soube isso mesmo. Mas eu... eu sa, numa fria, num impulso destruidor... E fi-lo novamente quando o Heysermann no quis fazer o que lhe pedi.
- Atordoado, abanou novamente a cabea. - Estava louco. Certamente que estava louco. E agora... - Estonteado, olhou para o altar derrubado e para Chrissy, deitada no cho e novamente silenciosa.

- A Alison perdoou-te - disse Emily lanando os braos em torno de Simon. - Eu perdoo-te. Agora tens que te perdoar a ti prprio!

- Mas no  assim to simples - disse Simon, aturdido, embora apertasse Emily com um dos braos. - Eu teria levado isto at ao fim. Parecia to racional, utilizar este poder para sarar... j funcionara antes. Com o gato. E senti que tudo isto seria justificado se eu conseguisse recuperar tudo outra vez...

e olha o que eu fiz.  Emily. A ti. Ao Colin. - Olhou para Leslie com uma expresso de profundo desespero estampada no rosto.
- E a ti, meu amor - murmurou baixinho. - Que fui eu fazer, a ti,  confiana que depositaste em mim, ao teu amor? Tu s... tu s... No posso dizer que renunciaria de boa vontade  minha carreira por ti. S posso dizer que, se tenho que renunciar  minha carreira, s tu poders tornar esse facto suportvel!

- Simon! Oh, meu amor... - gritou ela, mas Colin ergueu uma mo entre os dois e foi como se o velho tivesse ficado mais alto e imponente e a sua mo se tivesse transformado numa espada flamejante.

- Simon - exclamou ele numa voz que soou como o

badalo de um sino enorme. - Ests numa encruzilhada. Evitaste milhares de anos de penitncia por tudo isto. Poderias ter-me matado. Pior, podias ter morto esta criana inocente, esta alma pura que buscou essa pureza num corpo de penitente, Que sacrifcio

A HERDEIRA                           385

ests pronto a oferecer e que fars com o poder que existe neste local e que tem que ser dissipado? - E, quando ele moveu a mo, Leslie viu o espao entre os dois ser preenchido pelo estrondo de um trovo. O templo parecia vibrar sob o efeito de uma tenso macia, e pareceu-lhe ouvir, algures, o som distante de uma campainha. Percebeu que algures, num outro tempo, noutro mundo, noutra galxia ou noutra vida, estivera naquela situao, vendo o homem que amava condenar-se de vida para vida e recusando a redeno que lhe era oferecida. Amava Simon, mas percebeu que as vidas dos dois estavam novamente em causa e que, se ele recusasse novamente a sentena de Colin, estaria perdido para sempre. Ela pegaria em En-iily e mudar-se-iam para outra cidade e os seus caminhos jamais se cruzariam novamente.

E depois, sem que soubesse porqu, tudo pareceu desaparecer e por instantes a sala voltou a ser apenas uma garagem remodelada, a tnica de Emily uma brincadeira e Colin um velhote tonto e intrometido que tinha interrompido um jogo pateta. Quase conseguia ouvir Simon dizer que nada podia ser provado. O punhal escorregara quando Colin tivera a ideia disparatada de que ele, Simon, iria magoar algum. Estivera a fazer um jogo com Chrissy

e com Emily. As raparigas teriam sido levadas para casa ss e salvas. Ou talvez conseguisse mesmo convencer toda a gente de que estivera a rezar pela sade de Chrissy. Olhou para Simon e pareceu-lhe ver um sorriso calculista, quase um esgar, estampado no seu rosto e perguntou-se como podia ter alguma vez amado aquele homem.

A voz vibrante de Colin ressoou novamente.
- Depressa, Simon! O tempo est a esgotar-se enquanto estamos aqui, embora eu o tenha feito parar por alguns instantes! Escolhe a escurido ou a luz e ficars eternamente ligado  tua escolha!

O tempo pareceu parar e at a respirao dela como que desapareceu no presente liquefeito da sala, como se.tivesse o poder de moldar o tempo e nada daquilo pudesse ter alguma vez acontecido.

Depois ouviu a voz de Simon, clara mas pouco segura.
- No mais... serei tentado a interferir com o destino que me foi dado pelos Senhores do Karma - ouviu-o dizer, numa voz dolorida e rouca. - Estive to perto e no entanto to longe e, devido a isso, fui tentado... Louvo os poderes da Luz por a minha viso ter sido salva. Eu... - A voz dele soou sufocada, estrangulada. - Renuncio para sempre e confiro esse poder a Emily...

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Virou-se e pousou ambas as mos no ombro da rapariga, beijando-a pela primeira e ltima vez em cheio nos lbios. Ela ficou aturdida, as lgrimas correndo-lhe pelo rosto. Depois virou-se e curvou-se silenciosamente sobre Chrissy que continuava imvel. Ergueu a mo mutilada e, por um instante pleno de horror, Leslie pensou que ele iria golpear a criana. Foi ento que ele gritou:

- Para que no mais sofra a tentao! - e abateu a mo com violncia sobre o altar derrubado. Leslie ouviu os ossos esmagarem-se no momento da pancada e o rosto dele contorceu-se, como se se tivesse quebrado tambm. Depois ficou dobrado, assolado pela dor, com a mo partida apoiada na mo saudvel.

- Emily - murmurou -, vais tocar o... meu... concerto... Leslie abraou-o e sentiu-o estremecer de dor; mas soube, com um conhecimento que no era deste mundo, que ele era seu para sempre e que ela passaria o resto da sua vida a suavizar a escolha brutal que ele fizera.

Colin ficou imvel, branco como um lenol, mas os seus olhos brilhavam de triunfo.

E Chrissy ps-se de p, piscando os olhos.
- Mam - murmurou -, quero a minha mam!

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